Kaede - Entrevista
• Conte-nos um pouco sobre a sua personalidade!
Dizem que eu sou uma pessoa complicada, de poucas falas, mas... sinceramente? Eu acho que só sou discreta. Gosto do meu silêncio, do meu tempo sozinha, mas isso não significa que eu não goste de gente — só não sei lidar com tudo o tempo todo. Talvez por ter crescido sob a sombra da minha avó, tão firme e exigente, eu tenha aprendido a observar mais do que falar. Consigo admitir que não tenho o pulso de ferro que ela tinha, e às vezes, quando algo dá errado aqui na Floree, eu prefiro resolver com as minhas mãos do que levantar a voz. Já ouvi que isso é falta de liderança, principalmente da minha mãe que admirava tanto a senhora Kim... mas eu chamo de respeito.
• Como chegou à Danyanan? Foi uma decisão fácil, uma obrigação ou já nasceu aqui? E em qual bairro você mora? Você gosta?
Nasci em Danyanan. A Floree é quase tão velha quanto a ilha, e minha avó era praticamente uma guardiã dela — às vezes sinto como se ela ainda estivesse vigiando, me ajudando a cuidar desse lugar. Moro em Seosan, o que faz sentido, né? É perto o suficiente da loja pra eu chegar a pé, mas longe o bastante pra manter um pouco de paz no fim do dia. Gosto daqui. É pequeno, mas é casa. Só... às vezes eu sonho em viajar mais... Mas a loja precisa de mim, não é?
• Nos conte um pouco sobre seus gostos, qualidades e defeitos. Sonhos também são bem vindos!
Eu gosto de dias nublados, chá de crisântemo, e coisas que crescem devagar — plantas, pessoas, relacionamentos –, gosto de coisas duradouras e que tenham esse sentimento de paz. Tenho paciência para quase tudo... exceto para quem menospreza gentileza. Não há nada que me irrita mais, eu acho... Acho que minha maior qualidade é a persistência. Eu continuo mesmo quando ninguém vê valor, mesmo quando parece que não vai dar certo. Mas, por outro lado, além de muito tímida, eu tenho dificuldade em confiar nos outros. Prefiro sobrecarregar a admitir que preciso de ajuda. Já perdi pessoas importantes e acho que isso me deixou com medo de depender tanto...
• E como não pode faltar, conte-nos algumas curiosidades sobre você. O que gosta de fazer, o que não gosta, o que faz no seu tempo livre.
No meu tempo livre, eu cuido das estufas — mesmo fora do horário. Também gosto de encadernação artesanal. Faço meus próprios cadernos, anoto receitas de chá, ideias soltas. Gosto de jogar o que chamam de "cozy games". Não gosto de lugares muito barulhentos, nem de ser apressada. Me irrita quando alguém pisa no canteiro sem olhar. Essa sensação de precisar que tudo seja tão imediato é o que mais odeio na sociedade moderna.
• Como foi sua infância? Como é sua família?
Minha infância foi... delicada. Nasci com um problema no coração, um quadro agravado do que minha mãe possuia. Meus pais cuidavam de mim como se eu fosse de porcelana, e minha avó queria que eu fosse aço, eram completos opostos. Quando meu pai sofreu um acidente no trabalho, tudo virou do avesso, ele era doador de órgãos e morreu por morte cerebral, então o natural foi que os médicos fossem para a lista de espera de transplantes.... Eu não queria aceitar o coração dele. Me sentia culpada, como se estivesse roubando o que restava dele pra a mãe e esposa dele... A família brigou muito, até familiares distantes entraram na discussão, mas no fim... eu aceitei. Eu acho que minha mãe foi quem mais me incentivou a aceitar, então quando ela morreu anos mais tarde por um ataque cardíaco foi bem irônico. É difícil explicar o que é viver com o coração de quem você amava. É como se eu ouvisse ele batendo por nós dois. Quer dizer, acho que nós quatro, se pensar que, mais tarde, minha vó e minha mãe também se foram mais cedo do que eu gostaria.
• Por último, e não menos importante: um breve resumo sobre a sua vida.
Eu nasci em Seosan, me formei em biologia, sendo especialista em biologia marinha. Quando era pequena, eu sonhava em mergulhar e estudar sobre cada vida marinha. Eu gostava bastante de cefalopodes, era o que eu mais gostaria de estudar, mas, já durante a faculdade, eu soube que tudo não passaria de um hobbie. No meu ensino médio, ocorreu o acidente que mais deixaria minha família dividida: eu finalmente teria o coração compatível que me livraria de todos os problemas que a doença congênita que eu nasci com me trazia, mas foi a custo da vida do meu próprio pai. Minha mãe morreu poucos anos depois, vitima da mesma doença congênita, porém o caso dela era mais atenuado, por isso nunca houve a possibilidade de um transplante, como no meu caso. Foi quando eu soube que meu sonho de trabalhar com o mar ficaria de lado. Nessa época, minha vó ainda comandava a Floree com unhas e dentes, mas ela já estava bem mais debilitada do que nos seus dias de ouro. Eu tinha o coração do filho dela, que herdaria o negócio, batendo dentro de mim e eu sabia por seu olhar que ela não gostaria de deixar aquilo para lá, nem quando se fosse. Eu terminei a faculdade no mesmo ano que minha vó se foi, acredito que ela sabia que eu estava pronta para continuar o legado dela e é o que estou tentando fazer hoje em dia.