<?xml version="1.0" encoding="utf-8" ?><rss version="2.0" xmlns:tt="http://teletype.in/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"><channel><title>Crônicas de Avelar Santos</title><generator>teletype.in</generator><description><![CDATA[Crônicas de Avelar Santos]]></description><image><url>https://teletype.in/files/90/f6/90f6eb43-36fd-4a2d-afea-0444202c6692.jpeg</url><title>Crônicas de Avelar Santos</title><link>https://teletype.in/@avelarsantos</link></image><link>https://teletype.in/@avelarsantos?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><atom:link rel="self" type="application/rss+xml" href="https://teletype.in/rss/avelarsantos?offset=0"></atom:link><atom:link rel="next" type="application/rss+xml" href="https://teletype.in/rss/avelarsantos?offset=10"></atom:link><atom:link rel="search" type="application/opensearchdescription+xml" title="Teletype" href="https://teletype.in/opensearch.xml"></atom:link><pubDate>Sat, 30 May 2026 22:02:39 GMT</pubDate><lastBuildDate>Sat, 30 May 2026 22:02:39 GMT</lastBuildDate><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/GgfDWPJtXPj</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/GgfDWPJtXPj?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/GgfDWPJtXPj?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>NOITE FELIZ</title><pubDate>Wed, 21 Dec 2022 19:03:56 GMT</pubDate><description><![CDATA[Muitas vezes fico a imaginar quão grande alegria se apossou dos três reis magos quando avistaram, finalmente, a estrela que os guiaria, por ermos caminhos,  até à gruta, em Belém, para que pudessem adorar o Menino Deus que nasceria em breve.]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="Btui">Muitas vezes fico a imaginar quão grande alegria se apossou dos três reis magos quando avistaram, finalmente, a estrela que os guiaria, por ermos caminhos,  até à gruta, em Belém, para que pudessem adorar o Menino Deus que nasceria em breve.</p>
  <p id="yRaf">Este mistério grandioso, cujas pegadas jamais apagar-se-ão das areias fugidias do tempo, traz consigo, no broto novo do milagre de Natal, uma fonte inesgotável de  bençãos, que alivia todo cansaço que nos incomoda, aquietando os corações aflitos, na contemplação desse momento sublime.</p>
  <p id="cl3S">E aquela noite memorável se fez dia por que o Verbo Divino, na simplicidade do presépio, brilhara no horizonte para nós.</p>
  <p id="Wsky">Na manjedoura, velado sob o olhar amoroso de Maria, o pequenino dorme tranquilamente.</p>
  <p id="Km1M">E os anjos, com grande júbilo, cantam, em coro, Gloria in excelsis Deo!</p>
  <p id="3khM">Eis que nós, também, somos convidados, a nos debruçar, por instantes, em silêncio respeitoso, sobre essa cena, eivada de grande beleza, partilhando da emoção da Sagrada Família pelo nascimento de seu Filho amado. </p>
  <p id="g6ic">Não é necessário fazermos requintados banquetes para celebrarmos esta festa da cristandade, mas sim, munidos da humildade franciscana, abrirmos, sem quaisquer receios, as portas do coração para que a luz divina  preencha cada espaço vazio, dissipando as brumas que nos impedem de ver o sol.</p>
  <p id="8vPY">Somente com este gesto simbólico de aceitação da Divindade, que desceu do céu para caminhar conosco, aliviando as dores, que, por vezes, se abatem sobre nós, ajudando- nos a carregar, com  estoicismo, o peso excessivo dos fardos dos anos, que tanto nos esmagam e angustiam.</p>
  <p id="CLAK">Aprendamos, com os sábios ensinamentos do Rabi de Nazaré, imolado, pela imensidão de nossas culpas, no madeiro da cruz, a sermos mais  generosos, uns com os outros, a fim de que nossas vidas sejam verdadeiramente  transformadas por ELE.</p>
  <p id="lFrU">Que, neste Natal, estendamos as mãos àqueles que, mesmo silenciosamente, nas ruas, nos becos, pedem um simples pedaço de pão para saciar a fome,  que necessitam, além disso, de afeto, de   compaixão, de olhos que vejam a fragilidade da canoa em que tristemente navegam.</p>
  <p id="3bxi">Que esta criança, nascida de Maria, à sombra do Onipotente, possa nos acompanhar em nossa caminhada!</p>
  <p id="ZBMj">Feliz Natal!</p>
  <p id="6NgJ">AVELAR SANTOS<br />A/S CAMOCIM-CE</p>
  <blockquote id="qGZB">Este trabalho foi escrito por <strong>AVELAR SANTOS</strong>, a quem<br />pertencem os respectivos direitos autorais, nos termos da Convenção de Berna,<br />de 26.06.48, aprovada pelo Decreto Legislativo Nº. 59, de 19.11.51; do art. 5º,<br />inciso XXVII, da Constituição Federal de 1988; e da Lei 9.610, de 19.02.98 e<br />legislação mantida pela mesma. É permitida a sua reprodução, parcial ou total,<br />desde que mencione o nome do autor (Código Penal, art. 184).</blockquote>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/luadesangue</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/luadesangue?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/luadesangue?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>LUA DE SANGUE</title><pubDate>Fri, 29 Jul 2022 16:45:28 GMT</pubDate><description><![CDATA[Cada vez que o perverso juiz Morazov se olhava, no espelho, quase estourava de tanto orgulho - e ele pensava, admirando suas reluzentes abotoaduras de ouro, ser um deus!]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="MGVW">Cada vez que o perverso juiz Morazov se olhava, no espelho, quase estourava de tanto orgulho - e ele pensava, admirando suas reluzentes abotoaduras de ouro, ser um deus!</p>
  <p id="Vydn">Naquele dia, de modo especial, ele estava radiante consigo mesmo, feito pavão, por que mexera uma peça a mais no tabuleiro de xadrez do seu plano rasputiniano de usurpação do poder a qualquer custo.</p>
  <p id="9fsj">Vindo de uma longínqua província, onde fizera má fama por sua arrogância, sem limites, astuto como uma serpente, logo foi granjeando amizades, nas altas rodas palacianas, granitando, assim, a estrada que o levaria aos píncaros do Olimpo.</p>
  <p id="DMGk">No obscurantismo de sua louca vaidade, começou a mandar para o cárcere todos aqueles que ousassem se insurgir contra os seus atos infames, praticados com o aval pusilânime de outros togados, cujas estapafúrdias decisões se sucediam no mesmo compasso que a noite carrega no  ventre a certeza do raiar de um novo dia. </p>
  <p id="4YUU">Não respeitando em absoluto às leis, pelas quais deveria zelar, algo surreal, consolidado nos autos dos julgamentos sob seu tacão, promoveu, também, uma caçada implacável a seus opositores, agindo, sem reservas, como um tirano.  </p>
  <p id="QjWj">Muitos falavam, à meia voz, com  medo de represálias, sobre estes tempos sombrios,  acerca da antiga profecia da estranha lua de sangue, que boiaria, no céu, por muitos dias, trazendo, até os humanos, montado num  corcel, o Cavaleiro do Apocalipse.</p>
  <p id="Kxt8">Sábios astrólogos afirmavam que este fenômeno já ocorrera, num passado recente, abrindo-se, em definitivo, o Sétimo Selo, libertando a Besta, que traria um rio de lágrimas -  e de infinitas dores.</p>
  <p id="Dyyk">Por sua perversidade ímpar, além do desprezo pelo cumprimento irrestrito da Lei, Morazov tornou-se, com a sórdida  aquiescência de outros magistrados, o Inquisidor Supremo, sentenciando, às galés, pessoas inocentes, sendo, por isto mesmo, temido.</p>
  <p id="rXdD">Certo dia, porém, cansado de tanto sofrimento, o povo, escravo da tirania da toga, reescreveu a própria História, desertando, para além-mar, sem volta, uma penca de juízes corruptos da Corte.</p>
  <p id="VeaL">Encabeçando a lista daqueles figurões deserdados constava o nome de Morazov.</p>
  <blockquote id="2Q6z">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</blockquote>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/N5rL7tGGunC</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/N5rL7tGGunC?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/N5rL7tGGunC?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>O TRIBUNAL SUPREMO</title><pubDate>Wed, 06 Jul 2022 16:57:47 GMT</pubDate><description><![CDATA[Situado na parte oriental da cidade da Babilônia, num suntuoso palácio, com visão privilegiada do  Eufrates, rodeado por belos jardins, o Tribunal de Apelação estava reunido, naquela manhã, sob a mão de ferro do perverso juiz Adramalec. ]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="YZGJ">Situado na parte oriental da cidade da Babilônia, num suntuoso palácio, com visão privilegiada do  Eufrates, rodeado por belos jardins, o Tribunal de Apelação estava reunido, naquela manhã, sob a mão de ferro do perverso juiz Adramalec. </p>
  <p id="Awgf">Dentre os assuntos da pauta do dia, um  dizia respeito ao pedido de soltura de um conhecido comerciante de vinhos, preso, injustamente, há meses, com a anuência vergonhosa dos membros da Corte, por ter se insurgido contra o novo imposto das mercadorias vindas do estrangeiro.</p>
  <p id="o4Zl">O juiz, conhecido por sua crueldade e   luxúria desmedidas, mal ouvia, agora, as alegações finais do advogado de defesa, que argumentava, com serenidade, que seu cliente não cometera crime algum, expressando, somente, o seu completo desagrado contra aquela abusiva taxação.</p>
  <p id="bLcU">Requeria, portanto, o causídico, com base nos autos do processo, a soltura imediata do acusado, em face, sobretudo, de sua saúde precária, aliada à idade avançada, solicitando, com voz convincente, ao  magistrado, justa clemência para o réu.</p>
  <p id="60Nu">Despejando um olhar vazio de compaixão sobre aquele infeliz, que se encontrava bastante abatido, a um canto, aguardando a sentença, o maldoso juiz, com o barco dos pensamentos navegando além do Tigre, deslizando, apressados, para os braços macios de Isthar, sua amante, fez um gesto de enfado, exigindo atenção.</p>
  <p id="Ib54">Diante daquilo, o defensor emudeceu de vez, enquanto o plenário aguçava ainda mais os ouvidos, aguardando, pressuroso, o veredicto do togado-mor, sabedores, desde sempre, que aquela Corte jamais se preocupava em fazer justiça, cujas penas impostas a muitos condenados, se  somadas, chegariam até o Dia do Juízo Final. </p>
  <p id="4vp2">E, mais uma vez, o famigerado juiz rasgou a lei, impondo a sua vontade tirânica, não acatando quaisquer pedidos feitos a ele.</p>
  <p id="3rMH">Cansado de esperar em vão pela liberdade, macerado pelo sofrimento, não demorou muito que o comerciante  batesse à porta do céu. </p>
  <p id="kNKg">Do alto da sua empáfia, Adramalec, por sua vez, à medida que o tempo corria, sem que ninguém ousasse contestar suas ações abjetas, perpetradas, inclusive, contra pessoas inocentes, exercia sua tirania absoluta no Supremo Tribunal.</p>
  <p id="KQVa">Por séculos, silenciosos, os zigurates testemunharam os caminhos trilhados pelas estrelas, trazendo, até nós, o brilho inconfundível da civilização suméria.</p>
  <p id="ruC5">No vão das coisas que jamais se perdem, as perversidades do juiz babilônico perpassaram as gerações, revelando que as trevas do mal podem encobrir, por vezes, o luzir do bem, sendo dissipadas, apenas, quando não nos calamos diante de injustiças, doando a própria vida, se preciso, para repormos o direito. </p>
  <p id="n3Su">E, assim, deveria caminhar a humanidade! </p>
  <p id="fopw">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>
  <blockquote id="XWi4">Este trabalho foi escrito por <strong>AVELAR SANTOS</strong>, a quem<br />pertencem os respectivos direitos autorais, nos termos da Convenção de Berna,<br />de 26.06.48, aprovada pelo Decreto Legislativo Nº. 59, de 19.11.51; do art. 5º,<br />inciso XXVII, da Constituição Federal de 1988; e da Lei 9.610, de 19.02.98 e<br />legislação mantida pela mesma. É permitida a sua reprodução, parcial ou total,<br />desde que mencione o nome do autor (Código Penal, art. 184).</blockquote>

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  <p id="8IHP">Quando o manto escuro da noite vestia a cidade, ouvia-se, ao longe, o repicar solene do sino da Matriz, na hora do Angelus, cuja vibração parecia espargir bênçãos, advindas do céu, que se derramavam, intactas, nos lares, trazendo, consigo, o bálsamo da paz aos corações cansados dos homens.</p>
  <p id="CDJ9">Sob o olhar atento da velha estação ferroviária, que traz, na memória, as marcas de tantas chegadas, e  partidas, depois de um dedo de prosa com o mar, colhendo pérolas de aprendizado, o menino sabia que devia ir depressa para casa.</p>
  <p id="Rdvb">Logo, na entrada, o delicioso cheiro de sopa que saltitava, alegre, no fogão a lenha, atiçava, nele, o lobo voraz que trazia a fome estampada na face, indo, antes, lavar-se, para juntar-se aos irmãos à mesa.</p>
  <p id="WdWG">Depois, deitado, na rede, escutava, sonolento, uma voz melodiosa  embalando os meus sonhos de criança com cantigas de ninar perfumadas de amor.</p>
  <p id="MFvc">Sob a luz de seus olhos, refulgindo mil sóis, comecei cedo a trilhar, com as asas ligeiras do pensamento, a imensidão do cosmos, desbravando mundos perdidos, naquelas noites cheias de rara beleza.</p>
  <p id="JxBz">Por trás dos seus olhos, na quietude dos dias, vi a radiosa flor da bondade desabrochar, exalando a magnificência do Criador, na singela partilha do pão, aos mais pobres, instigando-nos a fazer o bem. </p>
  <p id="cdDE">Nesses momentos sublimes, mesmo no silêncio, revelando a  humildade de seu coração grandioso, D. Margarida, minha amada mãe, nos falava dos bons samaritanos.</p>
  <p id="Rh2u">E o brilho do seu sorriso acalmava a angústia daqueles vergastados pelos temporais da vida, cujas frágeis jangadas, boiando, pobrezinhas, à mercê das correntes do destino, suplicavam, aos gritos, aos céus, no fragor da procela, por piedade.</p>
  <p id="cjWJ">Sob a claridade do farol que guiava os seus passos, aprendi a enxergar o mundo, escudado nos ensinamentos do Divino Mestre, que ela, com seus gestos de pleno acolhimento, nos ensinava com extrema paciência.</p>
  <p id="EgS4">E a largueza de seu altruísmo permitia  que  ouvisse às pessoas que a procuravam,  buscando aconselhamento, confortando-as com palavras eivadas de sabedoria. </p>
  <p id="OMSu">E isto era algo fascinante! </p>
  <p id="bwLK">Depois de sua viagem derradeira, a bordo do trem estelar, a saudade está presente nas lembranças distantes que navegam em mim. </p>
  <p id="lWyY">Ao rever  meu antigo lar, a moldura do tempo é estilhaçada, e eu a vejo,  de novo, à porta, aguardando, ansiosa, a chegada dos filhos, como fazia com tanto ardor antigamente.</p>
  <p id="Ekrj">Por mais que eu tente, nessas horas, jamais refreio a emoção que sempre deságua num riacho de lágrimas. </p>
  <p id="l4YO">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>
  <blockquote id="S5E4">Este trabalho foi escrito por <strong>AVELAR SANTOS</strong>, a quem<br />pertencem os respectivos direitos autorais, nos termos da Convenção de Berna,<br />de 26.06.48, aprovada pelo Decreto Legislativo Nº. 59, de 19.11.51; do art. 5º,<br />inciso XXVII, da Constituição Federal de 1988; e da Lei 9.610, de 19.02.98 e<br />legislação mantida pela mesma. É permitida a sua reprodução, parcial ou total,<br />desde que mencione o nome do autor (Código Penal, art. 184).</blockquote>

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  <p id="b6qc">Ao vislumbrar as derradeiras curvas do caminho, antes de atingir a vastidão da planície, compelido, por vezes, a retroceder, continuo a seguir adiante, olhando o brilho do sol.</p>
  <p id="C59U">Não tenho mais pressa! </p>
  <p id="BaTv">Ando devagar, saboreando as pequenas coisas do cotidiano, perdidas, outrora, na burocracia interminável dos dias, incrustradas, agora, gemas preciosas, num magnífico diadema real.</p>
  <p id="QGHh">E abraço, com infinita ternura, e gratidão, cada novo amanhecer como se fosse o último!</p>
  <p id="3s0Z">Certa feita, ao ser indagado se acreditava na existência de Deus, Einstein respondeu: &quot;O Criador se revela por si mesmo na harmonia de tudo que existe no universo.&quot;</p>
  <p id="HE8e">Comungo dessa visão do eminente cientista germânico, amparado, sobretudo, na sublimidade das ideias de Spinoza, perseguido injustamente como herege, pela Santa Inquisição, ao afirmar que podíamos contemplar o Altíssimo no sorriso de uma criança, na beleza de uma flor, no murmúrio dos riachos, no canto dos passarinhos, na imensidão das montanhas, na poesia dos bosques. </p>
  <p id="M47X">Tudo isso expressa o amor divino por nós!</p>
  <p id="mtiq">Batido, com vigor, na bigorna do tempo, aprendi a ser complacente com as pessoas, inclusive comigo mesmo, estendendo o tapete do perdão, que, ao invés da cama de Procusto, alonga-se cada vez mais.</p>
  <p id="383O">Ninguém precisa ficar tão velho quanto eu para trilhar a vida com alegria!</p>
  <p id="17SO">Procure pensar as feridas da alma, esqueça os dissabores, faça as pazes com o passado, aqueça o  coração na esperança do amanhã.</p>
  <p id="qQ1x">Mas, lembre-se: Nada é para sempre!</p>
  <p id="LwyV">Baruch dizia que devemos aproveitar a vida, na sua plenitude, respeitando o próximo, amando a família, tecendo amizades, cuidando da natureza. </p>
  <p id="2bwK">Filósofo brilhante, Spinoza escreveu que manifestamos o pulsar da Divindade quando beijamos a mulher amada, agasalhamos a filhinha, nos braços - ou sentimos a dor do outro. </p>
  <p id="5HVy">E continua a nos exortar, com seus ensinamentos, que desfrutemos das maravilhas do mundo, redescobrindo Deus que mora em nós mesmos.</p>
  <p id="hbb4">Sob o azougue do pensamento de Spinoza, que atraiu a Europa, no século XVII, Ética, sua obra-prima, é uma joia da filosofia moderna, cuja tessitura é similar a um tratado de geometria, algo realmente genial.<br />  <br />Ao me deparar com os  escritos magistrais de Spinoza, a chama do farol da fé aumentou o seu fulgor, tornando-me  um discípulo menor.</p>
  <p id="OOQa">Assim, vejo Deus na poesia das manhãs, no luzir das estrelas, no fragor das ondas do mar, no voo solitário da gaivota, na doçura do olhar de uma criança.</p>
  <p id="xYk2">É nesse Ser Supremo, Alfa e Ômega,  imanente, misericordioso, que me acolhe, debaixo de Suas asas protetoras, em quem acredito.</p>
  <p id="Mm0f">Incondicionalmente! </p>
  <p id="8QY3">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/H7uvnLmdwr_</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/H7uvnLmdwr_?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/H7uvnLmdwr_?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>FOLHAS CAÍDAS</title><pubDate>Thu, 24 Feb 2022 21:22:50 GMT</pubDate><description><![CDATA[Recostado numa árvore, o velho olhava as folhas caídas ao chão, com o  anzol de ponta afiada do  pensamento fisgando o passado.]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="NFF8">Recostado numa árvore, o velho olhava as folhas caídas ao chão, com o  anzol de ponta afiada do  pensamento fisgando o passado.</p>
  <p id="mRgH">De tanto insistir, algo inato ao bom pescador, conseguiu encher o cesto de recordações, enquanto o coração se desfazia na navalha da nostalgia.</p>
  <p id="IQHS">Perto dali, com a mãe, uma criança tentava pegar o sol, que se coava das copas, sorrindo quando a luz, teimosa, fugia de suas mãozinhas.</p>
  <p id="gc6E">Recluso no mundo das ilusões perdidas, com o barco zarpando, indo além das Tormentas, o ancião não viu a menininha que brincava.</p>
  <p id="5TFZ">Navegando à bolina, ajustando a vela, mantendo a embarcação num ângulo de 45.graus em relação ao vento contrário, ziguezagueando, veloz, naquelas águas profundas, não demorou muito que aportasse.</p>
  <p id="hnKa">Ao desembarcar, solitário, no cais, estranhamente o homem remoçara.</p>
  <p id="kkEc">Sem entender nada, ainda, notou que as dores haviam sumido, a visão voltara a ser perfeita, o tremor das mãos cessara - e as pernas, outrora claudicantes, eram ágeis novamente.</p>
  <p id="2Ui3">Depois de contemplar o milagre, ele ouviu alguém chamá-lo com doçura.</p>
  <p id="FaG8">Eis que uma bela jovem, de tranças no cabelo, corre ao seu encontro.  </p>
  <p id="EQiE">E o calor do sorriso que ela trazia derreteu de vez suas incertezas!</p>
  <p id="6ZH8">Nisso, um conhecido seu, cortando caminho, pelo parque, ao voltar para sua casa, vê o idoso, deitado no solo, sereno, sem mais preocupações. </p>
  <p id="EcEg">Radiante com a beleza do lugar, o navegador observou que nenhuma nuvem estava encalhada, na vastidão daquele céu azul turquesa, cheio de luminosidade, onde cada átomo parecia pintar um oceano de paz.</p>
  <p id="fi0s">E seguiram, ele e sua amada, caminhando, juntos, recordando sublimes momentos da vida!</p>
  <p id="AsvI">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/aM28ARKze0k</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/aM28ARKze0k?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/aM28ARKze0k?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>O CAVALO DO CAPATAZ DO MORGADO</title><pubDate>Mon, 17 Jan 2022 12:48:36 GMT</pubDate><description><![CDATA[Quem diz por aí que o cachorro é o melhor amigo do homem é porque certamente não conheceu o endiabrado cavalo Vizir.]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="q8K1">Quem diz por aí que o cachorro é o melhor amigo do homem é porque certamente não conheceu o endiabrado cavalo Vizir.</p>
  <p id="zmCB">E olha que não estou falando do corcel árabe que Bonaparte montou quando liderou suas tropas através dos Alpes, seguindo os passos de Aníbal e Carlos Magno, na heroica campanha militar  contra os austríacos em maio de 1800.</p>
  <p id="wy5Z">Esse que vou vos falar trata-se de um plebeu alazão, com um sinal em forma de cruz, na testa ampla, de andar majestoso, doido pelo dono, igual a uma criança pelo pai, antigo capataz da Fazenda Morgado.</p>
  <p id="fAd7">Josias, esse era o seu nome, sempre fora um homem trabalhador, afeiçoado às lides do campo, que nada sabia de geografia, nem tampouco nunca ouvira falar sobre o imperador dos franceses que, a exemplo de  Alexandre, o Grande, quis conquistar o mundo com o seu poderoso exército.</p>
  <p id="NwM1">Bem apessoado, ele logo caiu nas boas graças de D. Joaquina, irmã mais velha do proprietário da fazenda, que herdara, além do nome, também a feiúra daquela outra da realeza brasileira distante.</p>
  <p id="NJxy">Todavia, diferentemente da Rainha Consorte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, de origem castelhana, que cedo casara com D. João VI, esta possuía um coração bondoso - e uma alma nobre -  que a todos cativava.</p>
  <p id="Rl0m">E não demorou ela e o Josias se casaram!</p>
  <p id="Ee84">Como ninguém é perfeito, pouco tempo depois do nascimento do primeiro filho, ela não demorou a perceber que o marido andava a arrastar uma asa por alguma cotrovia, porque, desde então, ele não mais aquecera a sua cama.</p>
  <p id="Qmzt">E isso a deixava muito triste!</p>
  <p id="dVn4">O que a boa mulher não supunha é que, na verdade, as duas asas de Josias estavam partidas ao meio pelo coração de Ivana, uma cabrocha faceira dona de uma bodega, léguas dali, que ele visitava com relativa frequência para tomar uns tragos.</p>
  <p id="FFah">Nessas ocasiões, aos domingos, ele montava o Vizir, que já estava.a relinchar de felicidade, pelo curral, sabedor de cor de seu destino, naquele dia, caminhando propositamente a passo, para demorar a chegar, e, fingindo-se inocente, por  que cúmplice daquela safadeza, parava sem aviso defronte à casa da amada do dono.</p>
  <p id="ALhW">Disfarçando, como se fora gente, após  o capataz desmontar, dirigindo-se, apressado, à residência, ele se afastava um pouco, de cabeça baixa, de olhos fitos no chão, tentando não escutar  a sinfonia do amor que subia até os serrotes. </p>
  <p id="Xi9x">Mas não tinha jeito!</p>
  <p id="eanN">Horas se passavam quando, finalmente, os gemidos cessavam, e ele, pelo canto do olho, via com que satisfação Josias se despedia de sua amante, ciente que agora devia aproximar-se mais, porquanto era chegado o momento de voltar para o lar.</p>
  <p id="qmpF">E com que alegria ele sentia o dono montar, assobiando, feliz, deixando o bridão frouxo, dizendo a ele que podia escolher o caminho de retorno que quisesse, usualmente trotando na trilha  que acompanhava o Rio Contendas.</p>
  <p id="lH7U">E isto se repetiu por anos a fio!</p>
  <p id="nJgr">E o Vizir, que nunca soube o porquê de ser chamado assim, muito embora um reles animal plebeu, teve vida de imperador, talvez porque jamais ousou falar nada, principalmente com as éguas das redondezas, sobre os segredos do patrão, tornando-se, assim, um valioso talismã.</p>
  <p id="QWWg">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/JDtWBhPv-ID</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/JDtWBhPv-ID?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/JDtWBhPv-ID?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>DA INDIGNAÇÃO</title><pubDate>Mon, 17 Jan 2022 12:34:19 GMT</pubDate><description><![CDATA[Etmologicamente a palavra indignação vem do latim indignatĭo, referindo-se à revolta que temos contra as ações ignóbeis praticadas por uma pessoa.  ]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="q79i">Etmologicamente a palavra indignação vem do latim indignatĭo, referindo-se à revolta que temos contra as ações ignóbeis praticadas por uma pessoa.  </p>
  <p id="2DOx">Na Filosofia, a indignação surge como uma reação espontânea que sentimos contra algo que se considera inaceitável, como, por exemplo, um ato de injustiça praticado contra um  ou mais indivíduos.</p>
  <p id="zl4U">Por sua vez, a nível do comportamento, a indignação pode ser convertida no motor predominante da ação e do pensamento.</p>
  <p id="oQ60">Quando um povo vira gado, tolhido na sua forma de se expressar, amordaçado pelo  desbrio, não se indignando contra as injustiças, calando-se, covardemente, mesmo quando solapam os  seus direitos mais sagrados, estabelecidos na Carta Magna, aceitando tudo, omisso,  ele se torna indigno de sua própria liberdade.</p>
  <p id="2lGx">Sem as asas desse pássaro estendidas sobre nós, não podemos jamais voar para o futuro, nem tampouco desfrutarmos da beleza poética do voo solo do presente. </p>
  <p id="CDM7">O poeta Alves da Costa já dizia:</p>
  <p id="eXlz">&quot;Na primeira noite eles se aproximam        e roubam uma flor <br />do nosso jardim.<br />E não dizemos nada.<br />Na segunda noite, já não se escondem:<br />pisam as flores, e <br />matam nosso cão,<br />e não dizemos nada.<br />Até que um dia,<br />o mais frágil deles<br />entra sozinho na nossa casa,<br />rouba-nos a luz e,<br />conhecendo o nosso medo,<br />arranca-nos a voz da garganta.<br />E já não podemos dizer nada.&quot;</p>
  <p id="3Jp4">Antes que adentrem os jardins, arranquem não somente as rosas, mas também o broto da esperança, que vinga à luz do sol da razão, não se importando com mais nada, porque sabem que não resistiremos, imersos na concha da pusilanimidade, é chegado o momento de nos indignarmos. </p>
  <p id="2kDC">Indigne-se!</p>
  <p id="25dE">Não permita que isto aconteça!</p>
  <p id="tSSR">Indigne-se!</p>
  <p id="zM34">Não deixe que roubem os princípios e valores morais, que são as pilastras mestras de uma Pátria livre e soberana.</p>
  <p id="djpb">Indigne-se!</p>
  <p id="tXyD">Não aceite como normal os absurdos cotidianos perpetrados, país afora, que, simplesmente, por omissão, silenciamos.</p>
  <p id="6nJZ">Indigne-se!</p>
  <p id="JWQH">Não compactue com o escárnio daqueles que conspiram contra a nação brasileira, desejando aqui implantar um regime cruel.</p>
  <p id="I50w">Indigne-se!</p>
  <p id="mXKJ">Não se deixe enganar por uma mídia falaciosa, que tenta a todo custo, dia e noite, desinformar aos incautos, instilando o mal na sociedade, alienando a muitos com o seu poder quase que absoluto.</p>
  <p id="mM20">Indigne-se!</p>
  <p id="FUp0">Não dê ouvidos a políticos corruptos, que só pensam na manutenção do seu próprio  bem-estar, do estabilishment, que entoam um cântico falso de sereia que seduz, infelizmente, aos desavisados e apátridas.</p>
  <p id="Q1fd">Indigne-se!</p>
  <p id="Goq6">Se não agirmos a tempo contra estes desmandos, amparados na legalidade, à luz do Direito, eles não contentar-se-ão somente em levar as flores dos jardins, e matarem o cão, roubarão também o que temos de mais caro: a nossa dignidade.</p>
  <p id="HpUg">Indigne-se!</p>
  <p id="3EYZ">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/Fl2B60yuLYy</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/Fl2B60yuLYy?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/Fl2B60yuLYy?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>O CORONEL DO RIO SALGADO</title><pubDate>Mon, 17 Jan 2022 12:33:06 GMT</pubDate><description><![CDATA[Durante quase cem anos, em Lavras da Mangabeira, ao lado da família, dono de vastas terras, e de incontáveis almas, o coronel Otaviano Paiva teve vida de rei.]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="ZYEs">Durante quase cem anos, em Lavras da Mangabeira, ao lado da família, dono de vastas terras, e de incontáveis almas, o coronel Otaviano Paiva teve vida de rei.</p>
  <p id="c1zU">Agora, na velhice, com o falecimento da esposa, e de dois filhos, encontrava-se somente na companhia da filha caçula. </p>
  <p id="LMwp">Da casa colonial, fincada num outeiro, divisava-se o Rio Salgado, lá embaixo, estancar o passo, repentinamente, ao fazer uma curva sinuosa, escorrendo,  devagar, à sombra de oitizeiros, ansiando correr de novo para abraçar o Jaguaribe.</p>
  <p id="QZXy">Naquela fim de tarde, espiando a roda do tempo girar, desenrolando, sem pressa, o novelo de seus pensamentos, enquanto o passaredo dizia adeus ao dia, cantando, pelos bosques, o fazendeiro, postado na ala noroeste do alpendre, observou que alguém subia o monte, a cavalo, puxando uma mula, a trote, dirigindo-se ao casario.</p>
  <p id="l1o8">Quando o estranho finalmente apeou da montaria, amarrando-a, com cuidado, ao lado do animal de carga, numa cerca de pau a pique, perto do curral, o coronel, de pé, sob o facho bruxuleante da luz de um lampião, dava boas vindas ao visitante.</p>
  <p id="mtfm">Nesse exato instante, um vento frio varreu a escuridão, uma chuva forte começou a cair, enquanto relâmpagos riscavam o céu e o ribombar de trovões era ensurdecedor.</p>
  <p id="aJ5b">Vestido num gibão de couro, bastante  maltratado pela inclemência dos anos, com um surrado chapéu de aba larga a cobrir-lhe parte do rosto, de aparência soturna, o forasteiro, com uma voz cavernosa, agradeceu a hospitalidade, ao senhorio, rogando-lhe, com humildade, que lhe desse abrigo por aquela noite.</p>
  <p id="Gg1D">Desde a mocidade, o coronel Otaviano Paiva fora um homem destemido, sendo aclamado por todos, na região, por sua coragem, jamais deixando de agir, nas situações mais extremas, construindo, assim, amizades - e muros de inimizade. </p>
  <p id="LAwH">Entretanto, sem saber o porquê, ele se sentia agora amedrontado diante daquele desconhecido, de roupas rotas, cheirando mal, parado à soleira da porta, silencioso, que aguardava a resposta ao seu pedido.</p>
  <p id="ticd">E o coronel ouviu a si mesmo dizer, sem muita convicção, quase que num sussurro, que o estranho podia ficar sob o seu teto, até a manhã seguinte, resguardando-se da frialdade da madrugada que seria intensa.</p>
  <p id="MZlq">Depois de dizer ao homem que podia dispor de um aposento lateral, fora da residência, usado antigamente como dormitório, pelos rurícolas, e de oferecer-lhe uma refeição, que fora recusada, o coronel foi deitar-se. </p>
  <p id="rie4">Mas, demorou a conciliar o sono!</p>
  <p id="CD7V">E teve um pesadelo!</p>
  <p id="1e3K">No sonho, ele via o forasteiro, debaixo de um temporal, munido de uma ferramenta, abrindo uma cova rasa, no caminho que dava ao Rio Salgado, perto dali, enquanto um corpo mutilado jazia sobre a relva.</p>
  <p id="86Fp">Quando o coronel aproximou-se mais para ver se reconhecia o morto, deu um grito de pavor, deparando-se consigo mesmo.</p>
  <p id="dANh">Com a chuvarada cessado, ao raiar da Alva, um viandante, montado num alazão, saía tranquilamente da propriedade do coronel Otaviano Paiva, carregando uma besta, que trazia, estranhamente, dentro de um saco, uma pá ainda suja de terra.</p>
  <p id="AF63">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>

]]></content:encoded></item><item><guid isPermaLink="true">https://teletype.in/@avelarsantos/BjTkuhgKTRN</guid><link>https://teletype.in/@avelarsantos/BjTkuhgKTRN?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos</link><comments>https://teletype.in/@avelarsantos/BjTkuhgKTRN?utm_source=teletype&amp;utm_medium=feed_rss&amp;utm_campaign=avelarsantos#comments</comments><dc:creator>avelarsantos</dc:creator><title>O TRIBUNAL DE APELAÇÃO</title><pubDate>Sun, 26 Dec 2021 20:17:34 GMT</pubDate><description><![CDATA[Situado na parte oriental da cidade da Babilônia, num suntuoso palácio, com visão privilegiada do  Eufrates, rodeado por belos jardins, o Tribunal de Apelação estava reunido, naquela manhã, sob a presidência do eminente juiz Adramalec.]]></description><content:encoded><![CDATA[
  <p id="T416">Situado na parte oriental da cidade da Babilônia, num suntuoso palácio, com visão privilegiada do  Eufrates, rodeado por belos jardins, o Tribunal de Apelação estava reunido, naquela manhã, sob a presidência do eminente juiz Adramalec.</p>
  <p id="cqV4">Dentre os assuntos da pauta do dia, um  dizia respeito ao pedido de soltura de um conhecido comerciante de vinhos, preso, injustamente, há meses, com a anuência vergonhosa dos membros da Corte, por ele ter se insurgido contra o novo imposto das mercadorias vindas do estrangeiro.</p>
  <p id="6YvO">O juiz, conhecido por sua crueldade e   luxúria desmedidas, mal ouvia, agora, as alegações finais do advogado de defesa ao afirmar que seu cliente não cometera crime algum, expressando somente o seu desagrado contra aquela abusiva taxação.</p>
  <p id="BHyO">Requeria, portanto, com base nos autos do processo, a liberação imediata do condenado, em face, sobretudo, do seu precário estado de saúde, por conta da idade avançada, solicitando, com voz convincente, clemência para o réu.</p>
  <p id="hM3J">Despejando um olhar vazio de compaixão sobre o acusado, que estava visivelmente abatido, o maldoso juiz, com o barco dos pensamentos libidinosos navegando além do Tigre, deslizando, apressados, para os braços macios de Isthar, sua amante, fez um gesto de enfado, exigindo atenção.</p>
  <p id="XRDZ">Diante daquilo, o defensor emudeceu, enquanto o plenário aguçava ainda mais os ouvidos, aguardando, impaciente, o veredicto do magistrado, sabedor, desde sempre, que aquela Corte jamais se preocupava em fazer justiça, cujas penas impostas poderiam  chegar facilmente ao Dia do Juízo. </p>
  <p id="rpDx">Cansado de esperar em vão pela liberdade, macerado pelo sofrimento, o comerciante logo bateu à porta do céu. </p>
  <p id="JFuP">Do alto da sua empáfia, Adramalec exercia sua tirania absoluta no Tribunal de Apelação, à medida que a ampulheta do tempo se esvaziava, sem que ninguém ousasse contestar as ações abjetas por ele perpetradas.</p>
  <p id="UdoH">Por séculos, silenciosos, os zigurates testemunharam os caminhos trilhados pelas estrelas, trazendo até nós o brilho inconfundível da civilização suméria.</p>
  <p id="WPyX">Por milênios, as perversidades do ignóbil juiz babilônico perpassaram as gerações, mostrando-nos que as trevas do mal podem encobrir o luzir do bem, sendo dissipadas, por completo, quando todos  aprenderem a lutar verdadeiramente por seus direitos.</p>
  <p id="Pa5s">E, assim, deveria caminhar a humanidade! </p>
  <p id="mPmC">AVELAR SANTOS <br />A/S CAMOCIM-CE</p>

]]></content:encoded></item></channel></rss>