don't be such a perfectionist
tw: auto depreciação, burn out
i spent my whole life trying to be perfect. role model to my brother. pride and joy of my mother.
terça feira, 28 de setembro, 2 a.m.
soltou um grunhido de frustração, seguido pelo apertar teclas aleatórios do piano com força e com raiva, como se pudesse descontar no instrumento a insatisfação que sentia por não conseguir fazer nada decente. àquela hora da madrugada, allegro já não estava conseguindo raciocinar tão bem, fazer os dedos obedecerem do jeito que deviam, organizar a partitura e anotar as sequências de notas com a atenção que precisava, ainda mais quando se era levado em conta o dia exaustivo que tivera, cheio de treino e com direito a uma hora e meia na academia, mesmo que os músculos implorassem para um descanso.
o italiano não era nenhum super humano então devia saber que o cansaço nunca o deixaria compor algo decente e que agora allegro deveria era estar no décimo segundo sono, mas não, ele insistia em estar no estúdio, com a desculpa que era a única hora que podia trabalhar sem ninguém encher o saco por estar compondo para si mesmo e não para o chaos, fingindo que não precisava de alguma ajuda profissional.
o barulhinho de notificação do celular o tirou a atenção do piano bem rápido, quase como se buscasse a primeira desculpa para trocar um pouco de foco. o sorriso se alargou no momento em que viu de quem era a mensagem, e o conteúdo só o deixou ainda mais mole: um vídeo enviado por seu pai, no qual seu irmãozinho caçula tentava imitar os passos de uma fancam de allegro em seu último comeback, que passava na tv. allegro deixou a Itália quando o irmão tinha por volta de cinco anos, e agora que estava com seus dez, o idol sentia o agridoce de ver o rapaz crescendo bem e saudável, porém de longe, tendo perdido quase todas as etapas.
"ele leva mais jeito na dança do que eu ㅋㅋㅋㅋ" foi a resposta que enviou ao pai após assistir o vídeo mais umas duas vezes. não demorou dois minutos para que estivesse recebendo uma ligação de vídeo e fazendo allegro rir sozinho. donghae era assim mesmo, não se dava bem com mensagens de texto e vendo que o filho estava online, não hesitaria em ligar.
— não devia estar dormindo? — o pai perguntou do outro lado, assim, sem nem um oi ou boa noite, e allegro riu, desviando o olhar da câmera.
— não está tão tarde. — respondeu e donghae o olhou sério, sabendo que aquilo não era verdade, e allegro entendeu imediatamente, por isso tratou de remendar: — não consigo dormir, então vim ao estúdio compor.
allegro apoiou o celular na estante de partitura acoplada ao piano, arriscando tocar algumas notas aleatórias que ele não prestava muita atenção, agora que estava com as mãos livres. odiava ficar parado, então a necessidade de fazer isso vinha de maneira tão natural que o song mal percebia.
— você parece exausto, alle. meu menino estaria sorrindo muito mais normalmente.
— eu só... sei lá. é muita coisa. — baixando o olhar outra vez, allegro passou a tocar uma música um pouco mais lenta, prestando atenção ao que os dedos faziam agora.
— quer conversar? sabe que pode me falar qualquer coisa.
por alguns segundos, o idol hesitou. suspirou, olhou para os lados, considerou se devia ou não, até que relaxou os ombros e torceu o cantinho da boca para baixo, tomando coragem de colocar para fora os pensamentos que o assolavam há um tempinho, sem ser em forma de piada dessa vez.
— acho que eu não consigo mais fazer isso. é muita pressão e... o vídeo do dongsaeng... é incrível que ele goste tanto do que eu faço e eu sempre quis ser uma inspiração pra ele, mas eu não quero que ele acabe igual eu agora.
— igual você? carinhoso e determinado?
— exausto e inseguro. — corrigiu, mesmo que um sorriso brincasse nos lábios com os elogios. allegro amava como os pais sempre o apoiaram tanto e tinham coisas boas para falar de si, mesmo que ele nem sempre concordasse.
— olha, alle, você sabe que eu fui produtor de k-pop e eu sei como é a rotina e tudo mais. claro que não se compara a rotina de um idol, eu só acompanhava de perto mas nunca senti na pele, por isso eu posso só imaginar o que você está passando agora. mas veja, você não diz que quer isso desse os doze anos de idade?
— sim... eu só não sabia que ia ser tanta coisa.
o pai se remexeu um pouco, parecendo que queria entrar dentro do celular para dar um abraço em allegro. sempre funcionaram assim, com colo, abraço, carinho no cabelo e bastante apoio. a distância entre os dois pesava bastante, principalmente nesses momentos.
— olha, você deve seguir o seu coração, alle. se acha que não aguenta mais, não se força. mas o pai acha que você tem toda a capacidade e potencial do mundo. você é um multi instrumentista, compositor, com uma voz e um coração de ouro que está no começo da carreira. todo mundo tem que engolir alguns sapos principalmente no começo, e mesmo assim você já está conseguindo fazer um sucesso. — donghae olhava firmemente para allegro através do smartphone e o rapaz balançou a cabeça, sem jeito. adorava elogios, mas não sabia reagir a nenhum. — me conta, como você se sente quando sobe no palco?
assim que ouviu a pergunta, allegro abriu um sorriso enorme, automaticamente. não precisava pensar muito: a sensação era incrível. Já era boa nos music shows, mas em tour? quando ouvia os gritos, sentia o calor dos fãs, performava e cantava para aquele mar de gente ao vivo? indescritível.
— eu não me vejo fazendo qualquer outra coisa. eu amo estar no palco. — e por mais que estivesse cansado e realmente considerando desistir, aquela era a resposta mais sincera que allegro poderia ter dado.
— vê? você ama fazer isso, você ama música e eu sei que você ama o chaos.
o idol riu pelo nariz, assentindo com a cabeça e tentando esconder um pouco o rosto, como se pego desavisado. não era nenhum segredo, mas ele parecia envergonhado mesmo assim.
— mas eu te conheço e sei que você não aguenta não ser perfeito em tudo, e que você deve estar se forçando mais do que devia. — donghae continuou, usando um tom um pouco mais grave e sério agora. — é ótimo que você queira ser bom em tudo que se propõe a fazer, só que você faz isso de um jeito que não é saudável, allegro. como eu disse antes, você deve fazer o que decidir, não quero te forçar a nada, porém a dica do pai é você não desistir, mas tirar o pé do acelerador. não se force até o limite. sua saúde é importante. você tem se cuidado?
— eu- algo assim. — deu de ombros, querendo evitar o assunto, só que sem querer mentir, exatamente. não é como se conseguisse esconder qualquer coisa de seu pai.
não precisou de mais do que isso para que donghae entendesse e soltasse um suspiro triste do outro lado da linha.
— eu não estou aí pra cuidar de você, alle, então você precisa fazer isso por conta própria. por favor, se cuide. eu digo mentalmente também. eu te conheço, e você não parece bem, filhão.
— eu 'tô bem! só cansado. — acostumou-se tanto a dar essa desculpa que saiu no automático. muitas das vezes, allegro estava exausto mesmo; a rotina puxada as vezes tirava o sorriso de seu rosto por puro cansaço, só que agora tinha que admitir que não era o único motivo para não estar tão animado quando normalmente.
— sei. pensa no que eu te disse tá bem? e vá dormir, você está precisando.
— tudo bem. obrigado, pai. eu te amo.
— também te amo. não se esqueça que eu tenho muito orgulho de você. eu, sua mãe e o pirralhinho aqui. — allegro riu, assentindo com a cabeça para aceitar as palavras positivas de seu pai. — boa noite, allegro.
— boa tarde, pai. — sorriu de lado por causa da própria brincadeira com a diferença de fuso horário entre eles e desligou o telefone com um suspiro.
encarou a partitura meio riscada, bagunçada com anotações eletras pela metade, por alguns segundos, considerando ignorar o que lhe foi aconselhado e voltar a compor, mas ao invés disso, pegou a caneta e escreveu ao final da folha como um lembrete, algo que deveria colocar em pratica desde já: "não seja tão perfeccionista" e fechou o piano.