about hope, heartbroken and boats
Carol não é uma dessas pessoas esperançosas e otimistas, que acreditavam que o futuro só traria bons frutos e felicidade.
O.K, uma pequena correção: ela não é mais uma pessoa otimista.
Houve um tempo, quando criança, que acreditou fielmente que o avô dela pararia de beber e passaria a ser alguém um pouquinho mais agradável de se conviver, mas então, em um final de semana qualquer, bem no dia em que Chae tomou coragem e perguntou se podia treinar um pouquinho na guitarra dele, recebeu o primeiro e o último soco da vida.
Durante a adolescência, jurou que algum dia os pais acordariam para a vida, parariam de brincar de músicos e de investir o dinheiro que não tinham em uma gravadora que não oferecia nada além de prejuízos e dor de cabeça. Com frequência, imaginava uma vida em que não vestia roupas de segunda mão, os pais pagavam todos os passeios de verão que ela quisesse participar e, o principal, não era mais conhecida como a “asiática pobretona com pais esquisitões” na escola. Nada disso aconteceu, óbvio, continuou sofrendo bullying durante todo o Ensino Médio.
E na faculdade, bem na época em que tudo parecia estar perfeito, quando fazia um curso que gostava, tinha um namorado perfeito, amigos gentis, era vocalista de uma banda e tinha a certeza de que estava no rumo certo, finalmente!, tudo ruiu quando descobriu, no último ano, que era conhecida como Uma das Maiores Cornas da História do Curso de Nutrição da Universidade de Pittsburgh e que arrancava gargalhadas dos amados colegas quando passava pelas portas.
Antes de entrar no Echo Grounds fazia das tripas coração pelo consultório e por Deborah, a chefe, na esperança de ser convidada para ser a sócia do consultório (o que lhe foi prometido) e de ser assumida como a namorada oficial dela (o que não lhe foi prometido, mas ela era esperançosa, otimista e loucamente apaixonada), mas só recebeu como presente a notícia de que o consultório, Deborah e a nova noiva dela se mudariam para a Flórida. Na ocasião, a única coisa que uma Carol embasbacada conseguiu balbuciar foi um “Noiva? Como assim noiva?” enquanto tentava digerir a informação de que virou amante.
Então, é, Carol era uma pessoa esperançosa e otimista, que acreditava que o futuro só traria bons frutos e alegria. Que culpa tinha de não esperar mais nada de bom da vida? De preferir esperar sentada a desgraça acontecer do que se esforçar para evitar que a merda exploda? Nenhuma, diria ela, eu sou a vítima.
Mesmo assim, lá estava Carol Chaewon Lee, em outro país, no meio da natureza, realizando, de certa forma, o sonho de adolescência de participar de um acampamento de verão e, para o terror dela, sendo obrigada a encarar de frente todos os maiores terrores — a possibilidade de viver como uma artista de sucesso, a oportunidade de permitir-se sentir esperança novamente, a necessidade de se esforçar mesmo com nenhuma vontade. Ignorando a realidade, focava em aproveitar todas as benesses do acampamento: participava da yoga pelas manhãs, se deliciava com refeições fartas e deliciosas ao longo do dia, descobria o acampamento ou se inscrevia em alguma oficina à tarde e, quando a noite chegava, fumava escondida, deitava na cama e fingia dormir enquanto repassava, amarga, toda a vida na cabeça.
Com 28 anos, estava desempregada, tinha um chifre enorme, a provável fama de amante, um avô viciado e alcoólatra que não aceitava encarar a realidade de que foi um roqueiro fracassado, pais que sempre estiveram mais preocupados em tocar uma gravadora falida do que dar a atenção que ela achava que merecia e ocupava uma vaga de vocalista que nem sabia se deveria ser dela, até porque era só era um tapa-buraco, que antes ajudava os amigos a divulgarem a Half a Person na internet e, de uma hora para a outra, ocupou a posição só porque sabia cantar — oferecimento dos pais dela, aliás. Se fosse para ser sincera, e Carol odiava chegar naquela conclusão, imaginava que em Pittsburgh teria mil e uma outras cantores infinitamente melhores, com mais força de vontade e menos mágoa da música do que ela.
Ainda assim, lá estava ocupando uma posição de privilégio, vivendo o sonho de muitos, então o certo deveria agarrar a oportunidade com unhas e dentes e fazer vale à pena, não? Já não tinha nada a perder mesmo. Poderia ir além, até. Poderia dar voz àqueles pensamentos ridículos que povoavam a sua mente mesmo com todos os esforços para abafá-los.
Madrugada adentro, quando apenas o som da respiração das meninas enchiam o ar, Carol imaginava se ela não era a Escolhida. Sim, os Lee eram músicos fracassados. Sim, o avô dela fez péssimas escolhas de vida. Sim, os pais dela pararam no tempo. Mas ela, o rebento da terceira geração dos Lee depois que chamaram os Estados Unidos de morada, aquela que tentou fugir da vida artística a todo custo, a vocalista que foi encontrada no meio do nada, poderia ser a responsável por levar o sucesso para a família. Finalmente, depois de tantas tentativas, tantas feridas, tantas lágrimas, suores, sangues derramados, depois de tanta decepção, tanta dor. Finalmente, ela, Carol Chaewon Lee, os salvaria da maldição.
Ridículo, ela sabia, por isso se virava, tentava dormir e seguia com a rotina diária. Nas manhãs, tranquilidade e contemplação. Nas tardes, aventuras e descobertas. Nas noites, reflexão e amargura. Tudo isso com uma pitada de ameaça meio brincando, meio séria de que sairia da banda em breve.
Foi uma mensagem que partiu o coração dela.
“Não aguento mais essas brincadeirinhas de que vão sair da banda. Parece que só eu me preocupo com o nosso futuro.”
Carol sentiu dó. Era uma pena que ainda se preocupassem com algo que estava fadado ao fracasso, bastava somar 1+1 para chegar naquela conclusão. A avaliação foi horrorosa nos últimos shows, outras bandas atraiam bem mais público do que eles, a competição estava no fim e, para piorar, a Half a Person foi a única banda da competição que conseguiu ser desclassificada numa prova. Ela ficava triste pelos outros membros, que pareciam amar, respirar e viver pela música, que ensaiavam continuamente, que sonhavam com aquilo com seus corações e suas almas, mas a realidade era uma só.
“lamento por querer sair de um barco que só afunda.”, foi a resposta dela.
Com uma mensagem, Robin a tirou do eixo
“Pelo visto você não está se esforçando nenhum pouco pra dar certo. Desse jeito não vai dar mesmo”
Inicialmente, ela só soube rir. Claro que iriam colocar a culpa nela, era óbvio! A banda inteira estava ferrada, mas a única responsável pelo fracasso se chamava Carol. Patéticos. Toda aquela história de reality show era patética. Ser vocalista de uma banda era patético, uma perda de tempo, de dinheiro, de saúde, de autoestima. Mas é claro que ela seria a culpada das péssimas avaliações que eles estavam recebendo ultimamente, da baixa posição deles no ranking. Quando tudo aquilo acabasse, ela faria as malinhas dela e iria embora de Pittsburgh, nunca mais iria querer ver Robin, Maya ou Yuzuki — mesmo que sentisse um pouquinho de dor quando pensava naquela decisão. Se fosse para ser honesta, era para ter saído da cidade desde que foi proclamada como Uma das Maiores Cornas da História do Curso de Nutrição da Universidade de Pittsburgh. Agora, ela devia ter a fama de corna, amante e fracassada. E ainda recebia toda a culpa. Que vida maravilhosa!
De tudo o que poderia digitar, limitou-se a um “tendi, a culpa é minha agora” enquanto se esforçava para evitar que as benditas lágrimas não caíssem. Carol até poderia digitar mais uma ou outra coisinha se não achasse ridículo discutir por mensagem.
Bom, se ela estivesse no estúdio com os outros talvez pudesse brigar pessoalmente, mas estava sozinha aproveitando o ar livre e a calmaria do lago. Naquele instante, ao olhar para o horizonte, teve uma visão: um barquinho com cinco pessoas dentro, quatro delas remando sem parar, enquanto uma — ela — estava de braços cruzados, gritando aos quatro ventos que queria descer. Depois, uma lembrança da vez em que os fãs puderam passar o final de semana no acampamento, no quanto foram extremamente gentis, simpáticos e amorosos enquanto pediam fotos e no monitor das filas de caiaques que admitiu, mesmo em meio a timidez, que pediu para trabalhar lá porque era fã da Half e que aquele era o melhor dia da vida dele.
Era difícil admitir, mas, é, ela era uma grande filha da puta. Constrangida e com mais raiva dela do que qualquer outra coisa, prometeu que deixaria toda a birra de lado e investiria na Half a Person pela primeira vez na vida. Enquanto seguia para o chalé decidida a começar os preparativos da nova fase, tentou ignorar a todo custo a esperança, o otimismo que nasciam em seu peito.