Afinal, o que é magnetismo?
É correto falarmos magnetismo e passe magnético na Doutrina Espírita?
Passados 160 anos de Doutrina Espírita, podemos dizer que não é atual usarmos a palavra magnetismo para expressar fenômenos espíritas como o passe, a cura, a ação da prece à distância, ou a simples transmissão, transfusão ou troca de fluidos entre as pessoas. Isso porque a palavra 'magnetismo' se tornou conhecimento científico apenas em física e com significado bem próprio e distinto daquilo que outrora chamavam por 'magnetismo animal'.
Magnetismo animal não é um fenômeno magnético como a ciência entende hoje: um tipo de força entre partículas de carga elétrica que estão em movimento ou decorrente de uma propriedade quântica de partículas microscópicas chamada spin.
O magnetismo animal é um fenômeno de interação entre as pessoas através de passes e imposição de mãos, cujos mecanismos, hoje, só o Espiritismo explica, baseando-se na existência e propriedades do fluido universal. Por essa razão, o Espírito E. Quinemant, na Revista Espírita (junho/1867), afirma que o magnetismo é "uma variedade do espiritismo, na qual Espíritos encarnados agem sobre outros Espíritos encarnados."
O Espiritismo ensina que a modificação das qualidades dos fluidos se dá através da ação do pensamento, assim explicando a eficácia do que outrora chamavam de magnetismo.
Em A Gênese
Em particular, no item 33, do capítulo 14 de A Gênese, o Espiritismo define os conceitos de magnetismo humano, magnetismo espiritual e magnetismo misto em termos puramente espíritas. Isso demonstra a excelência da Doutrina Espírita como teoria capaz de explicar todos os fenômenos psíquicos.
Na atualidade, precisamos corrigir o hábito de chamar de magnético o passe ou prática similar, lembrando que Kardec ressalta em A Gênese que podemos corrigir, sim, certos conceitos: "Caminhando com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem que está errado em um determinado ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita."
O movimento espírita, na verdade, já fez isso. Já corrigimos hábitos de se usar determinadas palavras presentes nas obras fundamentais do Espiritismo. Embora tenham sido utilizadas por Kardec na Codificação, evitam-se, por exemplo, as palavras 'punição' e 'castigo', que não refletem o entendimento doutrinário correto em torno dos seus significados. Sabemos que Deus não pune, nem castiga, e só permite o sofrimento e a expiação para educar de forma similar ao remédio amargo que cura. Todos entendemos que essas palavras foram usadas por serem comuns à época de Kardec. Aqui, propomos o mesmo: que se evite a palavra magnetismo no movimento espírita por entendimento que ela não serve mais para explicar nenhum conceito espírita em nossa época atual. Assim como ninguém precisou corrigir as obras de Kardec por causa das palavras punição e castigo, mas apenas evitar de utilizá-las nas explicações espíritas, o mesmo é proposto com relação a palavra magnetismo.
Kardec já sabia que o termo magnetismo era inadequado para denominar o fenômeno. Ele o utilizou em sua época apenas porque a palavra e o conceito eram atuais e conhecidos. Naqueles tempos, o magnetismo animal era uma área do conhecimento com muitos adeptos, promissora para se tornar uma área científica, o que, acabou não ocorrendo.
Não podemos ser simplistas no movimento espírita, a ponto de acharmos que isso tudo não tem importância, sendo apenas uma questão de palavras, podendo-se usar o termo magnetismo sem problemas. Como nem todos conhecem o Espiritismo, ao ouvirem a palavra magnetismo sendo usada no meio espírita, estabelecem a referência direta ao conceito de magnetismo da física. E aqui aparece a grande dificuldade: ao notarem que não existe qualquer relação entre o magnetismo da física e aquilo que se pratica no meio espírita, formam uma má opinião a respeito dos espíritas, como se estivessem desatualizados.
A razão e o bom senso
A Doutrina Espírita destaca a importância da fé raciocinada. Kardec diz que a base da fé raciocinada "é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer." (item 7, cap. 19 de O Evangelho Segundo o Espiritismo). Se nós, espíritas, não sabemos direito o que é o magnetismo, segundo o conhecimento da física, como usar uma palavra, cuja inteligência perfeita não temos, para descrevermos um fenômeno que tem explicação apenas pelos conceitos espíritas? Essa é uma prática equivocada.
Kardec disse na Revista Espírita (janeiro/1869) que o magnetismo e o Espiritismo eram duas ciências irmãs gêmeas. Mas é preciso que se leia uma frase à frente, quando ele diz que "são reciprocamente como a física e a química, a anatomia e a fisiologia". Ninguém nega que essas são ciências irmãs. Mas nunca foram gêmeas! Se o magnetismo e o Espiritismo "são reciprocamente como a física e a química, a anatomia e a fisiologia" então certamente não são gêmeas. A palavra 'gêmeas' no texto não significa a mesma ideia que temos hoje, de serem praticamente iguais em tudo ou quase tudo. Os pares física e química e anatomia e fisiologia são pares de ciências bem distintas entre si, com teorias, regras, critérios bem diferentes. Às vezes, elas têm em comum alguns objetos de estudo, mas suas abordagens são distintas.
Kardec quis apenas dizer que o magnetismo e o Espiritismo são ciências que tratam de assuntos semelhantes, que têm alguns objetos de estudo em comum, mas com certeza o Espiritismo é uma doutrina muito mais completa que a teoria do magnetismo animal, e vai mais além ao descrever não somente os fenômenos do passe e curas, mas todas as leis morais e que dizem respeito ao progresso da alma.
O próprio Quinemant, em trecho de mensagem acima citada, afirma de modo claro que "O magnetismo é, pois, um grau inferior do Espiritismo,..." E verifiquem que Kardec faz elogios ao conhecimento desse Espírito.
Por fim, é preciso esclarecer que a proposta de se evitar a palavra magnetismo não significa evitar a prática espírita do passe. O passe, a cura, a imposição de mãos, as técnicas estudadas até o presente podem e devem ser utilizados, já que independem do nome que se dê ao fenômeno. Em havendo necessidade de dar a esses fenômenos um nome ou um adjetivo, que chamem de 'espiritismo' aquilo que no meio espírita costumam chamar de 'magnetismo', e chamem de 'fluídico' aquilo que geralmente chamam de 'magnético'.