Dia cansativo de inverno.
Devon se perguntava todo dia porque continuava com aquela ideia insana de se tornar um idol, quando sequer tinha vontade ou necessidade. Experiência? Talvez fosse sua vontade insaciável de experimentar e experimentar até conseguir desbloquear alguma memória do passado, mas não fazia ideia.
Era um ótimo maquiador, podia até falar que tinha um talento, e com certeza não era inteligente o bastante para outra graduação, então por que só não ficou como um maquiador? Ainda tinha contatos, ainda podia ter amigos famosos e não precisaria passar horas e horas treinando. Tinham vários fatores que o incomodavam, mas o principal era com certeza a idade.
Não entenda mal, Yumin não é velho, 24 anos não é isso tudo, mas entre uma quantidade significativa de trainees entre seus 14 a 19 anos, ele se sentia deslocado. Não era só a idade... Apesar de ser sarado e frequentar e muito a academia, a resistência de adolescentes com certeza era diferente da sua. Eles ainda tinham o fator determinação, que os destacavam em técnicas que o trainee "recém-nascido" de 2023 não tinha.
Por que diabos tinham chamado ele mesmo? Porque era bonito? Não fazia sentido vindo da VENTURA, mas ali estava ele. O que tinham visto em um maquiador que mais se envolveu em polêmicas do que trabalhou? Apesar de trabalhar bem, claro. Presença? Talvez fosse isso que eles quisessem, porque o australiano definitivamente não sabia cantar, dançar e muito menos soltar umas rimas de rap.
Naquele dia, terça-feira, sentiu aquele peso na pele, depois de uma tarde estressante de treinos intensivos. Por alguma razão, o professor de dança decidiu que até os novatos deveriam pegar aquela sequência absurda de dança, que envolvia técnicas de popping e locking que, por Deus, fez com que Devon parecesse um boneco de posto tentando imitar. Normalmente não se importaria, mas se ver daquele jeito no espelho, de alguma forma, machucou o ego do homem. Era ridículo, péssimo e com um total de 0 talento. Quando tentou cantar na aula seguinte, pior ainda. Os trainees, mesmo sem tanto treino, tinham uma base bonita, vozes melódicas, e a sua só era... Normal.
Treinos o cansavam, mas não o estressavam tanto quanto naquele dia. Em uma pequena sala de descanso, pensou que fugiria um pouco das criticas que recebia dos que antes considerava colegas - afinal, não era difícil de encontrar treinadores e dançarinos de vez em quando nas salas de maquiagem -, mas estava enganado.
Depois de uns 20 minutos refletindo sobre sua falta de competência naquele ramo, uma batida na porta despertou uma das brigas mais fervorosas consigo mesmo. Primeiro, apenas se sentou e ouviu por quase uma hora as críticas e palavras pesadas do treinador, que não cansava de repetir que "com sua idade, deveria se esforçar mais, você é muito velho para um trainee, como quer debutar se vai dançar igual a um pato?", até que, em um longo silêncio, sentiu a cabeça doer. As vezes aquilo acontecia, normalmente quando algum dos flashes de memórias vinham.
E veio, veio em uma rápida, confusa e ensurdecedora lembrança da imagem do pai, e ele gritava e gritava, chegava até a jogar um dos objetos da casa na parede, mas não era com Yumin, que só parecia um espectador. Ainda assim, aquilo doeu, lhe despertando uma sensação de puro medo, a ponto da respiração pesar e, mesmo sem querer atrapalhar o grande sermão do treinador, o deixar falando sozinho quando fugiu da sala. Sabia que provavelmente receberia uma grande de uma notificação por aquilo depois, mas era difícil ficar parado enquanto sequer conseguia distinguir o que era lembrança e o que era o caminho longo a sua frente em direção a saída.