#001 — Homeostase
Tinha um sentimento estranhamente agradável em seguir uma rotina.
Não porque gostasse de horários. Nunca gostou. O despertador das cinco da manhã continuava sendo desagradável e a privação de sono ainda o atingia como um trem bala todas as manhãs. Mas havia alguma coisa reconfortante em repetir os mesmos movimentos na mesma ordem. Levantar. Dobrar o cobertor. Lavar o rosto. Vestir algo confortável. Ir correr.
A repetição tinha um efeito curioso. Fazia parecer que existia um ontem e, consequentemente, provavelmente existiria um amanhã. Era uma ilusão barata, talvez, mas funcionava, era uma sensação reconfortante que havia algo que poderia perder. Todos aqueles hábitos artificiais acabavam produzindo um efeito inesperado: faziam-no sentir humano. Mais do que isso, faziam-no sentir um Kwon.
Não saberia dizer quando os havia adquirido. Honestamente, havia aprendido há muito tempo que sua memória não era uma testemunha confiável. Aliás, nunca entendeu por que as pessoas tratavam lembranças como provas absolutas. Bastava um erro microscópico, fosse genético ou adquirido, na comunicação entre dois neurônios para uma vida inteira ser reorganizada sem que ninguém percebesse.
As pessoas discutiam identidade como se fosse uma alma imutável, quando biologicamente bastava um neurotransmissor chegar atrasado ao destino para alguém deixar de reconhecer o próprio filho. Ainda assim, ele tinha um apego quase ridículo por aquele órgão defeituoso. Talvez por identificação.
A infância havia sido construída entre consultórios de neurologistas, receitas médicas e comprimidos que nunca deixariam de existir sobre sua mesa de cabeceira. Havia aprendido cedo demais que lembrar era um privilégio biológico, não uma garantia. Existiam dias em que tinha absoluta certeza de que o pai lhe ensinara a segurar uma faca pela primeira vez. Em outros, jurava que era a mãe quem guiava sua mão sobre a tábua de madeira. Talvez fosse a irmã. Quer dizer, ela deveria ter uns 15 anos, mas... Nenhuma das lembranças sobrevivia muito tempo antes que a outra parecesse igualmente verdadeira.
Era cansativo viver negociando com a própria cabeça. Por isso gostava tanto das rotinas. Elas eram sempre iguais.
Enquanto a manteiga derretia lentamente na panela, os movimentos aconteciam quase sem esforço. Medir. Misturar. Esperar. Mexer. Conferir outra vez. Conferir mais uma. Não porque fosse necessário. Porque precisava ter certeza de que realmente havia desligado o fogo. Precisava ter certeza de que adicionara açúcar. Precisava ter certeza de que não estava confiando demais em um cérebro que, estatisticamente, já havia falhado antes. Era só seguir a rotina.
Cozinhar não era exatamente um ato de amor na residência Kwon. Na verdade, comida era apenas comida. A mãe repetira isso tantas vezes que provavelmente ainda conseguiria reproduzir sua entonação exata: "Comida serve para nutrir. Só isso."
Quando pequeno, ouvia a irmã reclamar da frieza. Hoje, suspeitava que a irmã também tivesse chegado à mesma conclusão: na família Kwon, amor nunca foi carinho. A forma de demonstrar amor dos Kwon sempre tivesse sido garantir que continuassem vivos até o dia seguinte.
Nunca lhe perguntaram se estava feliz. Em compensação, perdera a conta de quantas vezes respondera se havia tomado os remédios. Nunca ouvira um "eu te amo", mas havia respondido inúmeras vezes sobre o almoço.
Em algum momento, seu cérebro decidiu que aquelas perguntas significavam exatamente a mesma coisa. Era uma associação curiosa, talvez até mesmo errônea. Mas o cérebro fazia esse tipo de coisa o tempo todo.
— Haneul... — a voz escapou antes que percebesse. O olhar percorreu a cozinha até encontrar o do garoto naquele pequeno canto que ambos haviam adotado como esconderijo improvisado, afinal, parecia único ponto onde o fluxo de pessoas diminuía e não havia quaisquer câmeras.
Era estranho chamá-lo pelo nome. Normalmente o que proferia era algum apelido carinhoso ou o pseudônimo do melhor amigo. Parecia mais fácil esconder o afeto atrás de uma brincadeira do que permitir que o nome que tanto repetia durante a adolescência escapasse com tanta naturalidade.
Era... melancólico. Quando cruzara com Haneul novamente, meses atrás, a sensação havia sido estranha. Já fazia tanto tempo que aprendera a perder pessoas que sequer cogitava reencontrá-las. Era mais fácil assumir que tudo desaparecia eventualmente. Amigos. Lugares. Lembranças. Então, como uma piada escrota de uma comédia romântica, o universo decidiu devolver justamente o colega de laboratório com quem nunca havia se resolvido com certeza.
Seu cérebro odiava coincidências. Bastava um cheiro, uma palavra ou um nome para decidir ressuscitar lembranças que deveriam continuar mortas. Se é que eram lembranças que sequer haviam acontecido mesmo.
— Experimenta isso. — empurrou delicadamente um pequeno prato de biscoitos amanteigados em sua direção.
A receita era uma tentativa de reproduzir um sabor que talvez nem existisse exatamente daquela forma. Não confiava o suficiente na própria memória para afirmar que estavam iguais aqueles que fugiam da escola, por apenas alguns minutos, para comprar com trocados. Talvez estivessem completamente diferentes. Talvez a lembrança fosse diferente da realidade desde o começo e os biscoitos nem existissem. Era difícil dizer.
Observou em silêncio enquanto ele levava um dos biscoitos à boca. Era ridículo o quanto se importava. Continuava repetindo para si mesmo que, se a Last Call Cinema acabasse amanhã, nada realmente mudaria. Voltaria para casa. Voltaria a trabalhar no hospital. Quem sabe, tentaria mais uma vez a prova no exército sabendo muito bem que a etapa em que seria negado continuaria a mesma. Só encontraria outro plano. Ser baixista nunca fora seu sonho mesmo. Era apenas o plano Z, depois de tantos planos fracassados.
Então por que diabos estava há quase uma hora tentando acertar a textura perfeita de um biscoito para um desafio idiota e ainda havia arrastado Haneul para aquela bagunça como se fosse algo que importasse? O cérebro era um péssimo advogado das próprias convicções.
Já havia aceitado que a sensação de não pertencer a lugar algum nunca desapareceria por completo, mas, enquanto observava Haneul mastigar em silêncio, sentiu aquele velho desconforto diminuir alguns poucos centímetros.
O rosto se desenhou em um sorriso debochado com a própria conclusão: Era um motivo absurdamente pequeno para continuar acordando às cinco da manhã. O cérebro humano realmente era uma coisa patética.