the quiet aftermath and lingering reflections
17 de julho de 2009.
O canto das cigarras naquele fim de tarde acompanhavam a melodia desajustada do violão gasto nas palmas do homem. Completamente desajustado naquela cadeirinha dobrável, se apresentava em uma cena praticamente reconfortante do lado de fora daquela casa sob rodas. Era um dos poucos momentos em que Axel desfazia-se da carranca e permitia-se relaxar um pouco, mesmo que por poucos momentos. Dedilhava as cordas do violão, nutrindo o dueto com os insetos como se fossem uma dupla íntima e imbatível, mesmo que por coincidência.
Não muito longe dali, uma criança encontrava-se no campo de trigo, brincando ao ritmo da música. Apreciava aqueles curtos momentos em que podia se dar ao luxo de se lembrar de se divertir. Na maior parte do tempo, rendia-se ao medo, agarrando-se a barra da calça do pai em qualquer ínfima situação. Axel deixava os dedos correrem sobre as cordas quase por instinto, os olhos fixos no horizonte que ia perdendo a cor aos poucos. O instrumento gasto não tinha mais o timbre dos seus dias mais brilhantes; o tempo havia o gasto, e outrora melodias polidas sairiam dali, mas ele preferia assim. Todas as memórias que o levaram até ali faziam ser o que era.
Lá longe, ele conseguia ouvir o riso baixinho da menina correndo, e aquilo doía de um jeito bom. Sabia que não podia prometer a ela um lugar fixo, uma escola de verdade, amigos que ficassem, mas podia prometer isso: uma canção toda tarde, o mesmo colo pra correr quando o medo chegasse, e a certeza (mesmo que não fosse do jeito habitual), de que era amada.
Fechou os olhos por um segundo e deixou a música dizer o que ele nunca soube dizer direito. Ele não queria estragar tudo, e quando os reabriu, ela estava olhando pra ele, parada no meio do trigal, com aquele sorriso raro que só aparecia em tardes como aquela. Ele sorriu de volta. Não tinha carranca nenhuma sobrando pra esconder.
O menear da cabeça foi o suficiente para que Helena voltasse aos seus sentidos mais uma vez. No peito, carregava as memórias de um passado que não era vergonhoso, entretanto, revivê-lo trazia consigo um amargor. O cenho se franziu antes que pudesse sentir de fato e as lágrimas encontraram o seu caminho. Os dígitos desembolaram uma pequena carta que denunciava a sua idade; amarelada, gasta e com amassados nas pontas. Desdobrou a folha e as orbes correram por aquela despedida.
“Você não vai lembrar de mim como eu queria. Vai se lembrar do frio, dos lugares que a gente nunca ficou tempo o bastante pra chamar de casa, mesmo que você quisesse, da pressa, de não pertencer.
Mas talvez, só talvez, lembre do som do violão misturado ao canto das cigarras, das palavras cantadas e do quanto eu te amo, minha Helena. Tenho orgulho de você, filha.”
Uma gota manchou a tinta preta e foi o suficiente para que guardasse os papeis no bolso mais uma vez.
Ouvia os pássaros ao longe, a voz do pai, o pôr-do-sol no fundo da mente. “Todas as pequenas vitórias são por você.” Murmurou baixo, fechando os olhos ao erguer o próprio punho e confortá-lo sob o peito. “Te amo e sinto sua falta. Sempre.”