Psicologia
July 30

Quando A Igreja Não Cura: Um micro-estudo de caso sobre a invisibilidade social na "casa de Deus"

🗓 30/04/2026

⚠️ A experiência de leitura desse artigo fica mais imersiva acompanhando os vídeos e canções indicados. Use fones de ouvido e boa leitura!

"Porque toda vez que fizestes isso a um destes meus pequeninos, o fizestes a mim". Mateus 25:40

Sendo um psicólogo que foi criado num ambiente religioso, desde pequeno frequentando igreja, penso que consegui acumular uma certa dose de experiências a respeito de como esse ambiente pode ser tanto um ambiente de cura quanto... de peso. De fato, existe inclusive uma área da Psicologia dedicada a estudar os fenômenos religiosos e o comportamento: se chama Psicologia da Religião. Nas áreas humanas em geral existe um grande interesse por esse tipo de estudo e a gente poderia observar reverberações desse tipo de análise (com focos diferentes) na Sociologia da Religião, Filosofia da Religião e Antropologia da Religião.

...Entretanto, a matéria de hoje é mais um recorte de uma experiência pessoal com uma ótica de quem estudou um pouco dessas áreas a respeito do quanto o ambiente religioso pode nem sempre ser um ambiente acolhedor.

Meu próprio pai é pastor evangélico e esteve com problemas de saúde algum tempo atrás. Sensibilizados, alguns dos membros da igreja estiveram presentes algumas vezes nesse período para visitá-lo. Em uma dessas visitas, foi ministrado brevemente (mais de uma vez e por mais de uma pessoa) a respeito da importância das amizades, de prestar atenção no próximo e de como o reino de Deus envolve fortalecermos uns aos outros... Ao final, nas despedidas, estando eu mesmo presente, terminei por receber um estranho cumprimento que foi mais ou menos assim: "Tudo bem, né? Como você está sempre com a gente eu nem te notei..." O "eu nem te notei" quicava em meus pensamentos como uma bola de ping pong sendo arremessada de um lado para o outro. Depois disso, tive a certeza de que eu deveria falar sobre invisibilidade na igreja.

Não me entendam mal, eu compreendo que qualquer pessoa pode passar desapercebida por alguém... por vários motivos. Mas dizem que "quanto maior a luz, maior a sombra" e, nesse caso, eu sou a sombra, eu fui um dos invisíveis. Então, ao invés de lamentar, eu escolhi me perguntar o que os membros de igreja podem aprender através da MINHA experiência? Matutando inicialmente eu gostaria de propor a seguinte pergunta:

Vocês conseguem responder para si mesmos quem são os seus amigos... E por quê?

Mateus 9:1-8 nos conta a história de um grupo de amigos que literalmente tirou o telhado de uma casa para que um paralítico tivesse a chance de ser curado (e ele talvez nem estava de fato doente porque o que Jesus disse pra ele de imediato foi "teus pecados estão perdoados"). É difícil pra mim lembrar dessa passagem sem me lembrar também de Mateus 5:20:

"Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus".

A invisibilidade de que quero falar não é aquela de "ficar invisível" e "transparente" como uma porta de vidro (que você, às vezes, até mesmo dá de cara por falta de atenção), mas daquela "invisibilidade" em que você deixa de "ser uma pessoa" e se torna "parte da paisagem do lugar" de tanto que estar ali ficou "normalizado". E a Bíblia está cheia dessas pessoas invisíveis. Por exemplo: Qual não deve ter sido a surpresa do aleijado "invisível" esperando uma simples esmola às portas do Templo de Jerusalém e recebendo a força pra se levantar em Atos 3:6! Ou da mulher do fluxo de sangue que teve de se esconder para tocar em Cristo já que se sua impureza fosse notada seria expulsa da multidão.

Há alguns anos atrás, me lembro inclusive que um dos membros da igreja pregou uma mensagem sobre "amizade" e eu me apeguei tanto ao que ele dizia que pedi para que ele me enviasse o texto (que eu tenho salvo no celular até hoje com uma lista de versículos) sobre muitos aspectos da amizade... nos mostrando que Jesus "é nosso amigo" a ponto de entregar sua própria vida em resgate de muitos; sobre como "ser amigo de Deus"; quem de fato são os "bons amigos" (aqueles que dão bons conselhos e permanecem conosco nos momentos de dificuldades) e os perigos decorrentes das "más amizades"... O que me fez lembrar de "People Are Strange" do The Doors que, parafraseando, começa dizendo: "Pessoas estranhas te olham estranho, de cara feia, quando estás só":

The Doors - People Are Strange [Tradução/Legendado]

O engraçado é que eu tenho mais discos em mp3 do que amigos (e não sou o único, tem até um blog relativamente famoso com esse nome). Uma curiosidade: a maioria das minhas canções favoritas não está escrita em português. Uma delas, escrita originalmente em inglês, se chama "Os Perdoados" ("The Forgiven", de David Ramirez)... que tem um trecho que diz:

Lacey Sturm - The Forgiven (David Ramirez) - legendado
"Talvez foi isso que matou todas as últimas vozes desse mundo, eu sangrava por cada linha, mas ninguém sangrava de volta".

Eu fico triste quando ouço versões traduzidas de músicas que não respeitam a intensidade do texto original. Ex.: Muitos de vocês talvez também conheçam a canção "Aleluia" em português na voz de Gabriela Rocha dizendo:

Aleluia - Gabriela Rocha

"Senhor, preciso do Teu olhar; ouvir as batidas do Teu coração (...) e Te render glória e aleluia"

...Mas a letra original de "Hallelujah", de Leonard Cohen, na verdade dizia:

"Hallelujah", interpretação de Jeff Buckley (minha favorita❤)

"E eu vi sua bandeira no arco de mármore e o amor não era uma marcha vitoriosa, mas um frio e sofrido aleluia".

Uma das coisas que eu tento lembrar aos meus pacientes é que o movimento da vida é como uma roda em que você tem os momentos de altos e baixos, subidas e descidas, ascese e queda..

Isaías 53:10 nos lembra: "Contudo, foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer".

...A vida só te dá o que você entrega. Então, em algum momento você vai ter que se perguntar: Quem irá te visitar quando você estiver doente esperando uma cirurgia? Quem vai te ligar quando você estiver longe de todos e com o coração destroçado? Quem vai te pagar um lanche quando seu dinheiro acabar e você estiver falido? Quem vai visitar você quando você for um velho solitário, acamado e desinteressante? Quem irá até sua casa orar por você quando seu casamento estiver em crises? Quem irá te visitar quando você for acusado injustamente? Quem vai te ouvir e chorar contigo quando um divórcio esmagar sua esperança? Será que você já fez alguma dessas coisas por uma única pessoa que seja? O que a vida vai te devolver quando Deus resolver te esmagar? Mateus 7:2 nos diz "Com a medida que usares para medir os outros, igualmente medirão a vós". Não é questão de "se", mas de "quando" será a SUA vez.

🎧 Oficina G3 | Quem

Eu dou graças a Deus que, mesmo diante das minhas fraquezas e pecados, me permitiu amparar pessoas o bastante pra que alguns (poucos) me amparassem de volta em meus próprios sofrimentos... E a maioria deles não está nas igrejas. Tento entender o porque, mas a resposta não é simples: vai desde a conduta de encarar a igreja como uma espécie de "central de entretenimento" até o outro extremo em que as pessoas frequentam o ambiente apenas para "bater o ponto" pra não receberem cobrança a respeito da sua própria frequência. Há quem frequente igrejas pelo ambiente, por tradição, por ter recebido a religião de seus pais, porque seus amigos frequentam esse local e até aqueles que vão porque não tem nada melhor para fazer.

A grande questão é que uma boa igreja é tão boa quanto a comunidade que a forma. É comum ver grupos religiosos estabelecerem que o "ponto central" de se reunir numa igreja seja (dependendo do grupo religioso) a "tradição", a "forma de culto" ou mesmo a "verossimilhança do conteúdo das proposições de acordo com as Escrituras Sagradas". Novamente, não me levem a mal: tudo isso é importante. Mas a qualidade da comunidade onde se está inserido e a capacidade da mesma de se tornar parte da sua vida não deveria ser encarada como um ponto importante?

É fácil para os grupos religiosos esquecerem na prática que a cruz de Cristo tem uma representação dupla: o relacionamento vertical, entre Deus e o homem; e o horizontal, entre nossos "semelhantes". ...Mas seriam mesmo essas pessoas "semelhantes" entre si num mundo de bolhas virtuais, polarização política e gostos cada vez mais nichados como resultado das mudanças nos padrões de socialização induzidos pelos algoritmos das redes sociais? E aqui, eu nem vou colocar o problema dos neurodivergentes que já são essencialmente diferentes e, por isso, custam mais a conseguir socializar nem dos mais pobres, pois a Bíblia já censura quem faz "acepção de pessoas" (Atos 10:34).

A Universidade Brigham Young (EUA), publicada em 2015, que identificou que o isolamento social aumenta o risco de morte prematura em cerca de 29–32%, nível comparável ao de fumar 15 cigarros por dia.

HOLT-LUNSTAD, Julianne et al. Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: a meta-analytic review. Perspectives on Psychological Science, [s. l.], v. 10, n. 2, p. 227–237, 2015. DOI: 10.1177/1745691614568352.

📲 Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1745691614568352

A comparação “equivalente a fumar 15 cigarros por dia” é uma interpretação jornalística e de autoridades de saúde (como o cirurgião-geral dos EUA, Vivek Murthy) com base nos achados de risco de mortalidade desse estudo e de trabalhos correlatos.
De acordo com Holt-Lunstad et al. (2015), o isolamento social e a solidão estão associados a um aumento de aproximadamente 30% no risco de morte prematura, efeito na saúde comparável ao de fumar 15 cigarros diariamente.

Nas igrejas cristãs (evangélicas e católicas, por exemplo) há grupos geralmente divididos por "idade" ou "estado civil", mas de alguns anos pra cá me passam alguma impressão de que agora é "cada um por si". Quero dizer, não aparecem realmente muitas situações em que haja uma tarefa em comum que permita a essas pessoas criar "vínculo verdadeiro" porque "vínculo verdadeiro" pressupõe "expor suas fraquezas sem medo" e ganhar algum grau real de "intimidade" no processo.

Não sei vocês, mas tenho notado cada vez mais a dificuldade de algumas pessoas em formar vínculos "por gostar". Ademais, para quem estuda saúde mental, neurodivergência e temperamentos, existem perfis de pessoas que só consegue formar "vínculo verdadeiro" por PROPÓSITO SEMELHANTE. Isso é bem documentado na área de humanas desde Hegel até Carl Gustav Jung: A intimidade real brota do reconhecimento que nos dá motivo para viver, e esse "reconhecimento" é uma identificação de que ambos os amigos estão "olhando juntos para mesma direção" (como na definição de amizade que C. S. Lewis nos dá no livro "Os Quatro Amores: "A amizade costuma começar quando alguém diz ao outro algo como: 'Você também? Eu pensava que era o único.' ”). Sem a dimensão do reconhecimento é impossível estabelecer relações duradouras e profundas... e sem relações duradouras e profundas não existe cura psicológica... nem social.

Encerrando esta reflexão, também me recordo que, no que seria o último e melhor show de uma das minhas bandas favoritas - Alice In Chains - o então vocalista Layney Stanley se despediu da multidão de modo parecido com como meu pai às vezes faz. Ele disse: "Esse foi um dos melhores shows da minha carreira, eu gostaria de sair daqui e abraçar cada um de vocês... (mas não vou)". Layney morreria pouco tempo depois, sozinho em sua casa, sendo seu corpo encontrado apenas após 2 semanas... porque ninguém se lembrou dele... por 2 semanas!

...Não se pode obrigar, comprar, conquistar, convencer nem pedir por afeto ("O amor não se compra, nem se merece... O amor se ganha, de graça o recebe") . Particularmente, creio que amigos reais não se escolhe, se reconhece. E, se você tem algum, invisível ou não, apenas se lembre de lhes dar flores enquanto ainda estão vivos. 🙏🏽💐