madrugada de quarta, 140421.
w. awakened curse
Johann estava sob a impressão de ter se preparado para aquilo, copiosas horas de assistir À prova de tudo e Largados e Pelados, além de tutoriais de sobrevivência na selva, o deixaram confiante o suficiente para aderir à ideia de CJ. Era pouco convencional (talvez) e completamente imbecil (com certeza), mas essa era a definição da maior parte das coisas que a Awakened Curse fazia, não é mesmo? E por algumas horas, de fato parecia tudo bem: os membros estavam reunidos em volta da fogueira — feita por ele mesmo, apesar de o fato de ter um isqueiro ter ajudado bastante —, jogando conversa fora, e tudo parecia tão absolutamente banal. Talvez até demais, em retrospecto; a coisa sobre a calma antes da tempestade e tudo mais.
E a tempestade veio, tal como no ditado.
A atmosfera em volta da fogueira mudou rápido o suficiente para causar whiplash; em um segundo eles estavam conversando sobre bobagens e assando marshmallows espetados em gravetos, e no outro CJ estava tendo, honestamente, um surto bem na frente deles. Apesar das palavras duras e acusações do baixista, a expressão do alemão era de uma impassibilidade que parecia quase deslocada, ainda mais observando as alheias, que iam do confuso até o quase temeroso com o rompante de Juwon. O tecladista estava mais preocupado em entender de onde tinha saído aquilo, do que em registrar as palavras do outro
"A gente ‘tá fodendo tudo que o Dongwook construiu". Ah, lá estava, a peça chave. Aquilo não era tanto sobre a música, quanto era sobre ele, o elefante na sala, cuja menção do nome foi o suficiente para tirar Cloud dos eixos e fazê-lo entrar na briga. E ele ouviu, ouviu, ouviu, até não conseguir conter a própria opinião. — É claro que a gente tá fazendo algo que não tá dando certo aqui, mas é muito fácil colocar tudo na conta do Dongwook. Essa é a ideia de vocês de respeitar a memória dele, colocando o nome do cara em picuinha? Como se fosse um bando de pirralho que não consegue atravessar a rua sem pegar na mão dele? — A voz deixou os lábios muito mais alterada do que tinha planejado, mas já era tarde demais para calar a boca. — Todo mundo aqui é adulto, se as coisas tão dando errado a culpa é nossa. Já deu de ficar pagando de viúva, porra, já fazem dois anos!
Uma colocação insensível, talvez, mas factual aos olhos de Johann. E depois de uma dessa, não foi surpresa nenhuma que a briga degringolou ao ponto do "que se foda essa merda" de CJ ser respondido por Johann com um revirar de olhos e um sonoro — Ah, então é assim que você quer resolver, muito maduro! —, soando ele mesmo muito pouco maduro antes de dar as costas e ir para nenhum lugar em específico, os olhos voltados para o chão procurando gravetos para colocar na fogueira enquanto caminhava. Ocupar a mente com algo produtivo deixava as coisas mais claras do que ficar esperando uma resposta cair do céu, pelo menos para ele.
Talvez Cloud estivesse certo, e aquilo tudo tinha sido um erro. Será que eles ainda não estavam prontos pra tocar juntos de novo? Será que algum dia estariam, na ausência de Dongwook? Se fosse, era sua culpa. Ele era um dos que juntou a banda de novo, e talvez, apenas talvez, tenha sido injusto. A morte de Dongwook foi dolorosa, mais do que qualquer coisa que já tinha sentido antes, mas para Johann, já estava no passado. Os primeiros meses após a perda do vocalista eram um borrão, mas o alemão conseguia se lembrar claramente de não estar sozinho. Quando tudo deu errado, ele tinha uma família para a qual voltar, pessoas em quem se apoiar, um caminho em frente que poderia distanciá-lo para sempre da tragédia... E que ele negou, de propósito, quando chamou o resto da Awakened Curse para aquela fatídica reunião. Sentia que estava curado o suficiente para voltar, mas e os outros? Conhecia o suficiente de cada um para saber que nem todos os membros tinham a mesma sorte que ele de ter alguma coisa, qualquer coisa, além da banda. Talvez tenha sido apressado reuni-los, mas bem, eles estavam ali agora. Não tinha outra escolha além de fazer funcionar
Não demorou muito para que Johann voltasse, os braços segurando um monte de gravetos, para a fogueira. O alemão soltou um suspiro ao não ver nem sinal de Cloud e CJ, se concentrando na fogueira na ausência dos companheiros de banda, esperando-os com a inquietação de quem precisava falar algo para alguém: sinto muito por ter falado tanta merda. Mas com a volta deles, não precisou falar nada; um abraço entre todos foi o suficiente, um acordo silencioso de que as coisas seriam diferentes dali pra frente. Mesmo em meio ao chororô e à lama, Johann deixou escapar um sorriso. Talvez a ideia de CJ não tivesse sido tão ruim assim.