April 19, 2021

noite de sexta-feira, 160421

self-para

A adrenalina pós-show fazia os dedos formigarem e as mãos ficarem pegajosas de suor, muito diferente da sensação morna que seguiu as apresentações das semanas anteriores. A Awakened Curse estava oficialmente de volta, depois de tantas semanas ruins, e o tecladista estava tão elétrico que poderia dar um choque em quem o encostasse. Figurativamente, claro — seu cabelo estava suado demais para criar qualquer estática relevante, puxado para trás de um jeito qualquer para não grudar na testa.

Não se poderia dizer que esconder-se em algum lugar mais reservado foi a primeira coisa que fez, por que a primeira coisa que fez foi uma rodinha com o resto da banda com todos gritando enlouquecidos, como qualquer banda que se preze. Foi o que ele fez logo em seguida, no entanto, segurando o celular com duas mãos só pra ter certeza de que ele não ia cair de suas mãos por que ele estava muito louco e procurando um contato específico: criatura abominável, apelido carinhoso para a irmã mais velha também conhecida como Clara. Foi atendido um ou dois toques depois, mas a outra não teve nem chance de falar algo antes que a voz de Johann começasse a ladainha:

— Você viu o show? Se você não tiver visto eu vou te matar, eu te falei o horário e-

— Eu assisti o show, seu trouxa. —Interrompeu, o divertimento óbvio na voz com o estado do irmão.

— E aí? — A expectativa era clara (com o perdão do trocadilho), tanto que o outro lado da linha ficou em silêncio pelos segundos mais longos da vida de Johann. Era uma máxima na familia do pianista que ele estava perdendo tempo com essa coisa toda de punk rock, tempo precioso que poderia estar sendo investido em uma carreira de verdade fazendo música de verdade. — Meu deus garota, fala logo, eu vou morrer aqui e você vai ficar sem irmão! — Uma risada e um "hmmm" pensativo do outro lado da linha.

— Vocês não foram mal. Certamente fizeram muito barulho. Estou quase orgulhosa. — Concedeu, arrancando um sorriso do irmão em Jeju. Veja bem, na língua da família Cho, isso era quase como dar uma medalha de ouro em uma cerimônia. Clara não era exatamente uma apoiadora de suas escolhas de vida, mas era a mais mente aberta em relação à elas. Mas se continuasse assim talvez, e apenas talvez, conseguisse convencer os pais a assistí-lo.

E a se orgulhar dele, eventualmente.