Behaviorismo
November 21, 2024

Não! Você não gritou porque estava com raiva

Apesar de fácil de explicar, atribuir a causa de nossos comportamentos às emoções é um erro que deve ser restrito somente às telas de cinemas.

Assim como a raiva, é comum as pessoas associarem a causa do comportamento as emoções

Certa vez conversando com uma paciente ela me relatou que estava se sentindo mal porque durante uma discussão com seu namorado ela acabara gritando com ele. Sem mais informações sobre o contexto, logo perguntei a ela por que ela fez aquilo e de prontidão ela me respondeu: "— Nossa, eu estava com muita raiva". Bom, eu já ouvi milhares de justificativas como essas, desde ter chorado porque estava triste até explicações absurdas de ter agredido alguém porque estava nervoso.

Essas explicações sobre a causalidade de nossas ações dominaram o discurso da humanidade até hoje e é uma das principais barreiras entre o autoconhecimento e o autocontrole de cada um de nós. Essa crença é tão forte que ela foi retratada até num filme de animação famoso da Disney, o Divertida Mente onde os protagonistas do filme são as emoções que controlam as ações da garota chamada Riley e se você tem dúvidas disso eles a controlam diretamente do Centro de Controle da garota.

Se a teoria abarcada pelo filme estiver correta, logo entendemos que as emoções controlam a Riley, mas afinal o que controla as emoções dela? Pensa aí, se minha paciente gritou com seu namorado porque estava com raiva, o que causou a raiva dela? Se foi a raiva por si só, me basta então somente controlar a raiva dela, certo? Errado!

A verdade é que as emoções não explicam por que nos comportamos como nos comportamos, para nós analistas do comportamento as emoções não podem ser alteradas diretamente e no fundo você sabe que isso é verdade, porque arrisco dizer que quando você estava triste a frase de alguém dizendo "não fica assim" não mudou muita coisa por si só, né!?

As emoções são produtos de uma contingência. Para você entender isso melhor vou te dizer o contexto do que aconteceu com minha paciente, ela me contou que antes de gritar com o namorado ele disse a ela que tinha dado carona a uma colega da faculdade que ele suspeitava que estava a fim dele. Agora tudo muda, né? Entendendo que o antecedente da raiva de minha paciente foi esse relato do namorado dela, as formas de evitar sua raiva naquele momento seria ele omitir a informação, ou melhor, ele não ter oferecido carona a sua colega. Ou seja, a causa do comportamento de gritar com o namorado não foi a raiva sentida por ela e sim o evento ambiental que causou também um sentimento de raiva, o relato da carona indevida.

As emoções não acontecem do nada e eu sei que é difícil compreender isso porque geralmente esses sentimentos são percebidos quase ao mesmo tempo em que as emissões dos comportamentos são feitas e pior, muitas vezes não conseguimos identificar suas reais causas, ou seja, os antecedentes. Mas nada como bons treinos de análise comportamental para te ajudar a identificar melhor essas causas. Então aqui vão três perguntas simples que vão te ajudar:

  • O que aconteceu antes de você sentir isso?
  • Se o que aconteceu antes não tivesse acontecido, ainda assim você teria sentido o que sentiu?
  • O que aconteceu depois de você ter agido "pela emoção"?

Bom, por mais que seja mais fácil explicar pelas emoções as causas de nossas ações vimos aqui que tal explicação vira uma explicação cíclica igual o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Mas você aprendeu que as causas de nossas emoções estão na contingência, ou seja, na relação entre o que aconteceu no ambiente e com o comportamento emitido. Agora que você aprendeu isso, tente fazer suas análises comportamentais e compartilhe aqui comigo suas avaliações.