Vinculos & Monstros
February 8, 2025

CAPÍTULO I • My Songs Know What You Did In The Dark (Light Em Up)

Matheus

- Vamos perder o avião, Lexa!

Gritei do final da escada.

- Vocês vão chegar a tempo, meu querido.

Vovó acrescentou pondo a mão sobre meu ombro desnudo.

O toque ainda era novidade para mim nos últimos meses, mas eu estava finalmente me acostumando a recebê-lo sem recuar.

- Juro, que se ela nos fizer perder esse vôo eu vou fazer o cérebro dela virar geleia - comentei sorrindo, vovô surgiu nesse momento com um olhar que dizia: Você não pode usar seus poderes contra sua irmã, Matheus Herveaux! - Não permanentemente, é claro.

Acrescentei, abrandando seu olhar.

- Quem está enrolando agora?

Lexa perguntou da metade da escada, com cinco malas de tamanhos diferentes e tonalidades de rosa distintas, flutuando atrás dela.

Rosa era sua cor do momento, para tudo.

- Isso tudo nem vai caber no carro.

Comentei.

- Vai, se você me ajudar a diminuir o tamanho para caber aqui.

Disse mostrando a pequena bolsa de mão que combinava com o short jeans.

E sim, ela tinha me feito gravar essa informação.

- Vovó...

Murmurei, mas ela só sorriu.

Ela estava sempre com esse sorriso beirando a um choro brando, era a primeira vez em dez anos que ela nos tinha no mesmo lugar por tanto tempo e nós tínhamos que ir embora de novo, depois de poucas semanas.

- Vocês podem nos visitar lá na academia.

Disse tentando reconfortá-la.

- Ou em Oregon, onde estamos indo agora.

Lexa acrescentou enrolando vovô com seus braços, ele também não estava acostumado com tanto afeto físico.

- Só foram três semanas, nós quase não tivemos tempo algum junto.

Acrescentou a vovó, agora puxando Lexa e a mim para perto.

- Vamos voltar antes de irmos para academia, no final de julho. E ficaremos bem na casa dos pais do Roman.

Lexa completou.

- Nós já tínhamos prometido que todos os seis estaríamos juntos no aniversário dele, e é amanhã. Então temos que ir. E Amora e Joshua já estão dentro do avião indo para Portland e nós também temos que ir.

Disse com pressa.

- Então, vai me ajudar ou não?

Lexa perguntou enrolando a mexa de cabelo cor de rosa com o indicador, ela tinha pintado essa manhã.

- Okay - disse por fim levando meu olhar até as malas flutuantes - Diminuto.

Conjuramos ao mesmo tempo e as malas encolheram de uma única vez.

Desde que unimos o círculo não precisávamos nos tocar mais, só a proximidade de nossos corpos estabelecia a conexão, e estávamos ainda melhores em adivinhar o que o outro iria realizar. Então a arte de conjurar feitiços tinha ficado mais fácil.

Lexa

- Rex, novamente?

Perguntei.

Math só tinha se acalmado depois que finalmente entramos dentro do carro. Mas não demorou muito para seu celular começar a vibrar.

- É, ele está perguntando se já chegamos no aeroporto. E eu estou dizendo que se não fosse por certa alguém, nós já estaríamos lá.

Retrucou, e eu só revirei os olhos procurando meu espelho dentro da bolsa.

- Ele passa mais tempo trocando mensagens com você, do que a pessoa com quem ele namora.

Respondi, acertando os cílios com a ponta dos dedos.

- Você ainda continua nessa? Ele não está apaixonado por mim, e você sabe. Não há como esconder esse tipo de segredo de nós.

- É, eu sei. Ele tem toda aquela aura de paixão por outra pessoa, mas ainda sim.... Tem algo no meu sexto sentido que diz outra coisa. Sempre tem.

- Você é só maluca.

- Math!

Vovô acrescentou em tom sério.

- Desculpe

Talvez mentalmente instável seja um termo mais adequado para nós dois.

Disse Math mentalmente, sorrindo cinicamente para mim.

Trapaceiro.

Mas falando sério, agora. Ele estava perguntando se há alguma novidade.Sobre Paimon?É. Ele nunca mais apareceu desde aquele dia, tem que ter um porquê.Eles não podem tentar destruir o próximo selo pelo menos pelos próximos seis a oito meses, esse é o porquê. Ele só queria te assustar.

Acrescentei otimista, Math por outro lado ainda lidava com tudo aquilo, mesmo que tentasse ignorar.

Daniel Fernandes havia sido dado como oficialmente morto pelas autoridades locais depois da intervenção do Conselho dos Clãs Brasileiro. Mas isso não encerrava o caso para nós, ele ainda estava lá fora, tramando a próxima batalha contra o meu círculo e contra Nova Salém.

Podemos pensar só em coisas felizes?

Perguntei.

Como o que?Sexo - respondi, louca para tocar no assunto e fugir de nossos problemas, pelo menos por mais algumas semanas - Três semanas e eu estou ficando maluca e não diga que não está pensando o mesmo, porque eu sei que está.

Não sou um viciado como você e o Roman.

Respondeu ele olhando para teto.

Roman me contou das marcas de queimado no chão. Nos cobertores. Nos colchões, e no teto. E eu nem tenho certeza de como vocês conseguiram fazer aquilo lá sem perder a concentração e cair.

Comentei vendo meu irmão ir de pálido para extremamente vermelho.

- Falta muito tempo?

Perguntou ao nosso avô deixando o ar e o nervosismo escapar pelo canto da boca.

//

- Nos liguem se qualquer coisa acontecer.

Disse a vovó quase esmagando nossas mãos.

- Nós vamos.

Respondi sorridente mandando uma ligeira onda de calma sobre ela.

- E tomem cuidado, vocês vão precisar.

Vovô acrescentou e Math acenou em afirmativa. Cumplicidade masculina, presumi.

Então entramos com os outros passageiros.

- Você acha que fizemos o certo?

Math perguntou logo que ficamos longe o suficiente para que nossos avós não nos ouvissem.

- Não contando a eles que seus netos queridos e inocentes têm sangue de demônio correndo em suas veias? - Perguntei sarcástica - Sim, eu acho. Fico mais confortável sabendo que ninguém mais tem a leve suspeita sobre isso.

- Eu também.

Respondeu.

Matheus

A viagem de avião foi quase tranquila, ignorando todos os rompantes da minha irmã, e seus excessivos comentários sobre todas as coisas que planejava fazer com Roman assim que o visse. Mas ela parou de comentar assim que as duas presenças surgiram em nossas nucas.

Sensação a qual eu sentia tremenda falta.

- Senti falta disso.... Deles. É assustadoramente tranquilizante.

Comentei, sabendo que ela entendia.

- Sentimental.

- Vai me dizer que não sentiu falta deles...

- Eu? Sou uma rocha instransponível.

Respondeu cínica.

- Você nem sabia o que significa essa palavra até ontem à noite quando eu te expliquei.

- Quem sabe...

Respondeu sorrindo e tirando o cinto de segurança antes da comissária de bordo aparecer.

Quando finalmente saímos do corredor de desembarque nós os avistamos, quase como se não houvesse mais ninguém. A mesma energia que eu havia sentindo meses atrás quando reencontrei Lexa pela primeira vez. Aqueles corações sincronizados com os nossos. Batendo em uma frequência que só nós entediamos.

Senti uma mão me empurrar até perceber Lexa correndo na direção do Joshua e da Amora e os agarrar pelos ombros em um abraço exagerado.

- Senti tanta falta dos meus Muppets.

Comentou os agarrando com tanta força que eu quase conseguia sentir.

- E vai sentir mais se não nos der espaço para respirar.

Amora comentou dando tapinhas nas suas costas.

- Rocha instransponível, não é?

Perguntei ao ar, mas Lexa fingiu nem ouvir. Joshua me abraçou logo depois, a sensação era genuinamente boa.

- Três semanas é demais para nós.

Comentou rindo.

- Concordo totalmente.

Respondi.

- Minha vez.

Amora acrescentou e dessa vez eu a abracei.

- Ownt, vocês são tão fofos.

Comentou o homem parado logo atrás dos dois.

Giovanni era da altura do Roman, tinha barba rala, e cabelos negros curtos e cacheados, pele bronzeada e olhos escuros e vestia uma calça vermelha com uma jaqueta de couro marrom sem mangas.

- Fofos? Espere para nos ver de roupa de banho.

Lexa comentou dando um passo à frente, com um olhar fatal estampando no rosto, estendendo a mão no ar para que Giovanni a beijasse.

- Audaciosa.

Acrescentou.

- Ou maluca. Você pode escolher.

Amora comentou e nós três rimos.

- Inveja é uma coisa tão feia, Amora. E falando nisso, como foi a semana na casa dos assustadores Mamãe e Papai Strider?

Perguntou sem nenhum pouco de discrição, mas Amora não respondeu.

- Está tudo bem, você pode falar - Joshua acrescentou - Eles foram como o esperado. Intimidadores, para dizer o mínimo, e houve até um jantar onde eles tentaram fazer lavagem cerebral nela.

- Sério?

Perguntei.

- Uma discussão enorme e bem elaborada de como o Grande Conselho dos Clãs atual era uma organização mesquinha e que servia somente a seus próprios interesses, diferentes de outros Conselhos, como o Canadense - Amora completou - Eles não disseram com todas as palavras que a maldição da família tinha sido exageradamente realizada, mas deu para entender.

- Eles ainda continuam com o plano de tentarem desfazer a maldição?

Lexa perguntou.

- Sim, não. Não sei mais. Só estava louco para sair de lá o mais rápido possível.

Josh respondeu.

- Então, é muito bom que todos vocês chegaram, pois estamos indo para minha casa agora.

Giovanni acrescentou olhando o relógio de pulso e dando três tapinhas na tela.

- Não funciona mais?

Perguntei.

Pelo que Roman tinha nos contado, Giovanni era famoso por se atrasar, mas ele respondeu em tom baixo enquanto todos os outros começavam a andar.

- Funciona até bem de mais, Michael se assegurou disso.

Recebi uma piscadela logo depois então ri.

Lexa

- Só eu ainda acho estranho te ver usando uma regata?

Joshua perguntou olhando para o meu irmão.

- Pelo menos algumas coisas nunca mudam.

Math acrescentou batendo com seu ombro contra o do Joshua, que usava uma pequena gravata borboleta sobre a gola da camisa jeans de botões.

- E outras continuam mudando.

Acrescentei sem perder a oportunidade de ressaltar a nova cor da mexa do meu cabelo.

- E só eu acho estranho que nós quatro caibamos no banco de trás desse carro? - Amora comentou, ela estava entre mim e Joshua e meu irmão se sentava na outra janela - Ele provavelmente tem o tamanho do meu quarto, no apartamento que vivo com meu pai em Greensley.

- Primeiro, minha linda - Giovanni acrescentou - vocês quatro são tão magros quanto varetas e depois, é só uma das maravilhas de ter nascido com magia e casado com alguém financeiramente promissor.

- E de qualquer maneira, um de nós estaria no banco da frente se ele não estivesse ocupado pela bagagem da Lexa.

Math retrucou.

- Não tenho culpa se nosso feitiço de encolher se desfez sozinho.

Respondi.

- Pelo que vi só cinquenta por cento.

Joshua acrescentou.

- Vocês brigam assim o tempo todo?

Giovanni perguntou.

- Só quando ela está envolvida.

Amora o respondeu.

- Vocês não estão sempre juntos?

Perguntou.

- Yeah!

Respondemos em uníssono.

//

Demorou mais uma hora de carro até chegarmos à residência dos Leonov-Grant, mas nenhum de nós estava esperando por aquilo.

Primeiro fomos pegos pela sensação dos corações de Killian e Roman batendo em sincronia aos nossos, enquanto nossos corpos se aproximavam ainda mais como no aeroporto, e depois fomos pegos pela surpresa.

- Quando Roman disse que vocês eram donos de um clube de caça, ele não disse que vocês moravam lá.

Joshua acrescentou olhando para janela por cima dos ombros do meu irmão.

- Ou que era tão enorme.

Amora completou.

Podem dizer, eu acertei em cheio com ele.

Disse pelo telepático.

- Os pais do meu marido eram donos de metade de todo esse terreno, e Michael e eu, juntos, angariamos a outra parte e reconstruímos tudo e nos mudamos para cá, para facilitar com as despesas iniciais. E tem um incrível salão de festas para ocasiões como essas.

Giovanni explicou.

- E eu que achei que a mansão antiga da minha família era grande.

Joshua acrescentou por fim, pasmo como todos nós.

- Vocês já podem se sentir?

Perguntou curioso.

- Há algum tempo.

Math respondeu ainda olhando ao redor pela janela do carro.

- Vou provavelmente morrer sem nunca formar um círculo e vocês seis, tão novos... De um lado perigoso, de outro extraordinário.

- Contanto que a parte extraordinária se sobressaia, tudo vai ficar bem.

Acrescentei por fim.

Matheus

Descemos do carro logo assim que ele parou e eles estavam lá, abrindo as gigantes portas da entrada do clube. Ambos majestosos como sempre.

Killian e Roman caminharam em nossas direções e minha garganta secava e a pulsação de Lexa aumentava a cada centímetro percorrido.

Primeiro eu parei, Lexa não hesitou, correu até os braços do Roman e o beijou e ele a agarrou pela cintura em abraço apertado e a rodopiou com as pernas delas levantadas para cima. Só depois percebi que não havia por que não fazer praticamente o mesmo, era uma zona livre como a academia tinha se tornado.

- Senti sua falta.

Killian comentou com seu rosto perto do meu, com as mãos dentro dos bolsos da calça.

- Eu também.

- Por favor, se beijem logo, eu quero entrar, está na hora do almoço.

Roman comentou com Lexa ainda enrolada em seu ombro.

- Ele tem razão - disse Giovanni já na porta com os dois cachorros pequenos com suas cabeças batendo em suas pernas - O Killian não sabe falar de outra coisa além da vinda de vocês desde que chegou e nós sabemos que quando ele falava de vocês, ele queria dizer, você.

Enfim acatei segurando seu rosto com as mãos e sentindo o calor que tinha se afastado por mim por três longas semanas. E senti os outros me acompanharem também, em três beijos diferentes.

- Juventude... Vocês têm que aproveitar muito antes que as rugas comecem a aparecer e os músculos que antes eram rígidos se tornem não tão rígidos.

Giovanni acrescentou nos fazendo parar e rir.

- Você não mudou nada em décadas, então espero que isso não seja uma indireta para mim.

Disse um homem caucasiano surgindo do mesmo lugar que Killian e Roman. Ele era mais alto que Giovanni, pouco menor que Roman em estrutura física e de cabelo raspado e porte sério, com certeza era o Michael.

- Claro que não. E mesmo que eu envelheça devagar, eu ainda sim envelheço.

Respondeu antes de trocarem um beijo rápido, senti a alegria de Roman vazar entre os canais que nos ligavam. Mas Michael tinha provavelmente razão. Com a nossa taxa de envelhecimento sendo completamente diferente dos humanos comuns, era provável que Giovanni tivesse exatamente a mesma aparência vinte anos atrás quando conheceu Michael, enquanto ele envelhecia como todos os outros humanos.

- Você estaria em muita melhor forma se parasse com os Doritos.

Michael retrucou.

- Eu amo aquelas coisas triangulares. Nunca vou parar. Nunca, mesmo.

Giovanni comentou e o olhar de repreensão e afeto de Michael era tão parecido com os da vovó, que eu me sentia em casa.

- Realmente amo ver vocês dois trocando essas conversas cheias de amor, mas nós podemos entrar? Estou ansioso para mostrar os quartos para eles.

Roman pediu com aquele sorriso largo e infantil que não poderia ser negado. Os três mostravam um contraste claro e bonito que divergia completamente do restante de nossas famílias com facilidade.

- Vão, o almoço ainda vai demorar mais meia hora. Os trigêmeos atacaram novamente.

Michael comentou como se tivesse enxaquecas somente em pensar nos sobrinhos, provavelmente era verdade, já que eles já tinham posto fogo no cabelo do meu namorado uma vez.

- Valeu. Vocês vão adorar, é como na academia, só que estamos todos no mesmo corredor - Roman acrescentou voltando a atenção a nós - E tem algo diferente em vocês dois.

Disse ele apontando para Amora e Josh.

- Meu cabelo está mais longo.

Amora respondeu, e era verdade ela tinha crescido bastante nas últimas semanas, só que agora ela tinha uma mexa inteira de cabelo prateado.

- Eu engordei quase dez quilos.

Joshua acrescentou depois.

- O que os seus pais estão te dando? Fermento?

Lexa perguntou pasma.

- Ele criou mais massa muscular na verdade, mas não é isso, é algo diferente - Killian completou - Mais íntimo.

- Vocês são especialistas agora?

Lexa contestou confusa.

- E desde quando o papel de crítico saiu de mim e parou em você?

Perguntei rindo.

- Vemos isso depois, agora vamos.

Roman bufou nos cortando. Me perdi cinco minutos depois, entre as trocas de corredores e de desviar de empregados que corriam para lá e para cá com bandejas e todos os tipos de coisas.

- Para que tudo isso?

Perguntei ao Killian.

- Vai ser um grande evento amanhã, vocês nem fazem ideia. Os pais de Roman convidaram umas duzentas pessoas.

- Achei que você só tivesse duas tias.

Josh acrescentou.

- E isso está certo, mas os pais do Michael tinham irmãos e esses irmãos tiveram filhos, netos e afins. E todos são convidados para esses tipos de evento quando ocorre aqui.

Roman respondeu.

- Então vamos ser os únicos seres sobrenaturais presentes, tirando o Giovanni?

Amora perguntou.

- A minha abuela, Rosalinda está vindo também, de Puerto Rico, ou mais ou menos. Ela voltou a morar lá depois da morte do meu avô, depois de passar a maior parte do tempo com ele na Rússia. Mas ela sempre aparece para essas coisas. Vovô por outro lado odiava essas coisas todas pelo que Giovanni me conta, eu era muito novo para lembrar.

Pelo que Roman havia nos contado o pai do Giovanni, Dimitriy, era bruxo russo que trabalhava para o parlamento russo como representante do Conselho dos Clãs Russo. Eles tinham se conhecido pois Dimitriy tinha estudado e feito residência por alguns anos em Puerto Rico, mas se mudaram para Rússia logo depois de se casarem, aonde Giovanni tinha nascido antes de ser enviado para uma academia nos Estados Unidos e decidido morar por aqui para trabalhar para o Grande Conselho dos Clãs.

- A diretora falou bem sério quando disse que não havia muitas famílias de bruxos aqui em Portland, vocês são uma área meio morta do reino místico.

Amora comentou.

- Bom para eles.

Joshua acrescentou e não estava errado.

Além do que manter as aparências numa sociedade que envelhecia em uma taxa diferente da sua era bastante complicado. Para todos os outros em São Paulo, meus avós eram meus pais, para a família Grant, Michael precisava estar sempre com um feitiço de camuflagem que mudava sua aparência ao logo dos anos para se adequar a de Giovanni, e a mesma coisa servia para avó de Roman, que em suma não aparentaria ser mais velha do que poucos anos a mais que o filho.

Lexa

Tinha certeza de que nenhum de nós tinha gravado o caminho até o corredor dos nossos quartos, fora que eles ficavam no segundo andar. Porém, mais alguns dias e esse labirinto seria familiar como toda a loucura das nossas vidas.

- Bem, estamos agrupados, como na academia - Roman disse apontando para o corredor - Nós na última porta, Josh e Math nessa primeira, e vocês meninas na do meio.

- Bom, isso facilita muito para que troquemos de lugar no meio da noite.

Acrescentei louca para que esse momento finalmente chegasse.

- Na verdade, não - Killian acrescentou cortando a rápida alegria que tinha me tomado - Michael fez Giovanni enfeitiçar os quartos da casa para que eles sempre saibam quem exatamente está junto de quem.

- E os casais não podem ficar no mesmo cômodo, sozinhos, depois das dez da noite, sem outra pessoa que não seja parte do círculo

Roman completou.

- Por que eles inventariam todas essas regras?

Perguntei pasma, Killian quase tinha idade para beber nesse país e no nosso, nós já tínhamos.

- Acho que meu pai tem alguma coisa a ver com isso - Amora respondeu - Ele disse que só iria me deixar ir se os pais do Roman concordassem com algumas regras. Não achei que ele fosse pedir para o seu pai literalmente enfeitiçar o local.

- Ele provavelmente não pediu - Roman completou - Giovanni pode ser o dramático da relação, mas o Michael é muito superprotetor, ele deve ter tido a ideia.

- Somos o Círculo de Sangue, podemos descobrir um jeito de burlar isso - Math comentou, levando olhares pasmos - Não olhem para mim como se eu fosse pervertido, por favor.

Pediu envergonhado.

- Podemos ver isso depois, mas antes vamos conhecer seus quartos, começando pelos de vocês dois.

Disse Roman pegando Joshua e Math pelos ombros e os jogando porta adentro.

- Até depois, garotas.

Disse Killian sorrindo e fechando a porta bem na nossa cara.

- Eles nos excluíram?

Amora perguntou surpresa.

- Assunto de garotos eu acho, e nós - disse apontando para ela e para mim - temos assuntos de garotas de máxima urgência.

- E eu não vou gostar de saber, não é?

Perguntou fazendo careta.

- E qual seria a graça se fosse o contrário?

Perguntei antes de praticamente empurrá-la para o quarto.

Todas as nossas coisas estavam espalhadas pelas duas camas no enorme quarto com estampas floridas nas paredes o que prendeu minha atenção por meio segundo.

- Você e Joshua com certeza podem ficar com esse quarto. Nada sensual.

Disse ainda meio arrepiada pela quantidade de orquídeas vermelhas desenhadas no papel de parede que revestia tudo.

- Não precisamos disso de qualquer maneira.

Amora retrucou se sentando sobre a cama onde suas coisas estavam colocadas.

- Corta essa - completei - Você não é mais virgem e eu sei disso.

Disse por fim fazendo a coitada se engasgar.

- Quê? Quê!!! Como???

Perguntou pasma.

- Há alguns dias enquanto eu dormia relaxadamente na casa dos meus avós, no que eu devo acrescentar, ser um quarto menos assustador que esse, eu senti uma avassaladora onda de emoções me invadir. Do tipo bem peculiar, que não se consegue em muitas interações. Emoções que eu presumi serem suas, já que meu irmão teria me contado, o Roman também, e o Joshua e o Killian, bem, são uma outra conversa, o que deixou tudo ainda mais interesse. Já que você não é exatamente um poço de emoções borbulhantes.

- Odeio o fato de sermos tão conectadas desse jeito.

Amora resmungou.

- A vida é uma droga querida, eu sei. Mas eu só queria deixar isso claro. Voltando ao que interessa, eu demorei mais de um mês para achar o tom de rosa claro que fosse bom o suficiente. Mas acho que consegui.

- Você me lembra a Demetria com essa cor.

Acrescentou com um olhar perdido, Demetria tinha sido nossa segunda morte depois da Cecilly, vários meses atrás, e ainda era estranho lembrar dela.

- É eu sei, mas não foi por isso que escolhi.

- Então por que escolheu?

Perguntou tirando a mexa de cabelo prateado dos olhos.

- Não vamos fugir tanto do assunto, você vai ou não me contar cada detalhe referente ao fato, que você e o meu caro cavaleiro de gravata borboleta fizeram sexo selvagem embaixo dos olhos do casal de Frankenstein?

- Não os chame assim.

Disse com o tom resmungão novamente, enquanto dobrava o vestido para conseguir se sentar melhor.

- Até o Joshua concorda que os pais dele são estranhos, agora me conte absolutamente tudo.

- Realmente preciso? Não é como se você não soubesse.

Ironizou.

- Precisa sim... Pelo menos do modo fofinho e doce que vocês devem ter feito.

- Eu odeio tanto você.

Bufou pegando um cardigã marrom semitransparente da bolsa mais próxima a ela, como se tivesse um desses em cada uma das suas malas só em caso de precaução.

- Amo você também.

Comentei pulando para o lado dela na cama, ansiosa para saber cada detalhe.

Matheus

- Por que me sentaram nessa cadeira?

Josh perguntou, mas eu não sabia exatamente a resposta, Roman o tinha forçado a fazer isso.

- Você é Amora fizeram A Grande Coisa, e eu quero saber.

Roman respondeu por fim fazendo Joshua ficar branco como papel e eu também.

Não que eu não soubesse, Joshua tinha me contado tudo, mas eu estava pasmo que ele soubesse.

- Você...

Perguntou olhando para mim, mas não tinha sido eu.

- Não disse nada.

Respondi antes que ele terminasse a pergunta.

- Dá para sentir no ar, vocês dois exalam o doce aroma di sexo. De um modo bom e saudável, é claro.

Roman explicou sorridente.

- Ele está certo, e somos seus melhores amigos, você vai ter que nos contar, querendo ou não - Disse Killian já se sentado a uma das camas, só Roman e eu estávamos em pé agora - E o Roman não vai deixar isso barato, do mesmo jeito que eu sei que a adorável irmã do meu namorado, também deve estar interrogando a Amora nesse instante.

- Alguém contou a ela?

Josh perguntou nervoso.

- Ela é... Bem, ela. O que significa que ela provavelmente já sabia antes da gente.

Roman acrescentou.

- Roman deve estar certo, minha irmã é cheia de surpresas estranhas.

Completei me sentando ao lado do Killian, sentindo seu braço cruzar o ar e se repousar no meu ombro.

- Então - Roman disse por fim tentando segurar o sorriso de orgulho - nosso bebê finalmente não é mais virgem, então como você se sente garotão?

Perguntou e Joshua olhava para mim desesperado sem saber o que responder, ele parecia mais perdido do que antes de conseguir ter a Amora.

- Me sinto ótimo - disse ele por fim deixando o ar escapar e uma gargalhada nervosa ocorrer - E culpado - completou cortando a gargalhada por uma expressão de repreensão - O que é muito confuso.

- Por quê?

Killian perguntou curioso, menos de um ano atrás ele nunca perguntaria algo assim para o Joshua, hoje ele queria realmente saber.

As coisas mudavam.

- Foi logo depois de um jantar onde meus pais tentaram levar Amora para o nosso lado negro da força, e eu senti tanta raiva deles que queria fazer algo contra eles, e meio que as coisas fugiram do controle quando eu entrei no quarto da Amora no meio da noite para pedir desculpas pelo jantar.

- Você poderia ter usado o elo telepático. Sabe disso, não é?

Perguntei.

- É, mas eu estava um pouco intencionado a fazer aquilo também.

Confessou.

- Você levou camisinhas com você!

Roman comentou surpreso, como se ouvisse da boca de Joshua e não da própria.

- Você realmente levou?

Perguntei surpreso, eu sabia de quase tudo, mais não de forma detalhada. Não dos detalhes pesados pelo menos.

- Foi meio que subconscientemente. As camisinhas. O feitiço de silêncio em todo o corredor que estávamos. E o vinho que eu roubei da nossa adega secreta no porão.

Disse ele vermelho.

- Joshua Strider, você é oficialmente um homem agora no mundo dos humanos.

Disse Killian o parabenizando.

- Mazeltov!

Roman comentou levantados os braços em total animação.

- Obrigado - respondeu confuso, já que não era judeu. Na verdade, nenhum de nós tinha qualquer ligação religiosa, principalmente quando você é considerado uma aberração da natureza em algumas e o seguidor de Satanás em outras - Eu sei, só demorou uns dezoito anos e uma luta épica entre demônios. Mas eu consegui.

Acrescentou antes que todos ríssemos.

- Okay - disse Roman nos cortando - Vamos descer, tem muita coisa para ver antes do anoitecer.

Disse por fim com um olhar que delatava os planos que ele tinha em mente para quando o sol deixasse o céu.

- Só me prometam não comentar nada na frente da Amora, ela pode ficar com vergonha.

Joshua pediu, mas eu sabia que era um pedido que não poderia ser atendido por todos.

- Josh, não se preocupe. Lexa vai fazer isso antes que nós tenhamos a chance de tentar.

Acrescentei rindo.