Vinculos & Monstros
February 15, 2025

CAPÍTULO II: Feel Good Inc.

Matheus

– Você realmente sabe o nome de todas aquelas pessoas?

Perguntei.

– Nomes, aniversários, conjugues, ex-cônjuges, ano escolar, profissões e tudo mais que pode imaginar. Se eu fosse uma banshee como a Amora, meu pai provavelmente me faria descobrir a data dos funerais também. Ele leva esse lance de família a outro nível. Como puderam ver.

Roman respondeu rindo.

Havíamos conhecido suas tias, tios-avôs e primos de vários graus diferentes em um almoço em um grande salão. E eu ainda não havia conseguido gravar todos os rostos e seus nomes. E nem estavam todos presentes. A família Grant era simplesmente gigantesca.

Estávamos no quarto respectivo a ele e o Killian, todo em tom de preto e dourado, o que parecia refletir com os dois.

– Onde era o seu quarto antes?

Josh perguntou, ele e Amora estavam deitados na cama do Roman, junto do mesmo. Lexa, Killian e eu dividíamos a outra.

– Na outra ala – Roman respondeu – Mas eu mudava de quarto constantemente, mas Killian e eu ficamos com esse aqui antes de irmos para academia então achei que seria legal voltarmos para cá.

– Vocês dividiram um quarto, tendo outros milhões?

Amora perguntou confusa, todos ficamos, Killian riu.

– Ambos estranhamos a sugestão na época – Killian acrescentou – Mas depois de umas semanas parecia natural.

– Quem somos nós para falar de alguém?

Josh acrescentou e foi minha vez de rir, basicamente tínhamos sido melhores amigos desde a primeira semana, então não tínhamos exatamente muita moral no assunto.

– Ah, os garotos, sempre tão fofinhos – Lexa acrescentou em tom cínico – Fico me perguntando o que dois rapazes adolescentes normais teriam feito em uma situação como essa.

– Teriam ficado bêbados e trazidos garotas para uma orgia – Roman a respondeu – E potencialmente alguma coisa homoerótica em tempos de crise.

Acrescentou casualmente.

– Não me faça pensar isso.

Supliquei, Joshua e Amora pareciam me apoiar pelas expressões.

– O que foi? – Lexa perguntou novamente em tom cínico – É a natureza da exploração e da curiosidade. Não sejamos tão puritanos.

– Você fala como se já tivesse beijado alguma garota.

Joshua retrucou e ela não pareceu gostar.

– Não, não beijei. Mas só por que eu sempre soube do que gosto, e devo salientar que gosto bastante do que está a minha disposição, e tem bastante caso queira dividir comigo – completou o fazendo ficar vermelho, Roman se divertia como sempre – Mas sua namoradinha por outro lado...

– Você prometeu nunca contar!

Exclamou Amora exaltada e todos ficamos pasmos.

– Você já beijou uma garota?

Josh perguntou para Amora.

– Eu tinha onze anos e ela me beijou, e eu nem sabia o que estava acontecendo. Então tecnicamente sim, e você é péssima para guardar segredos.

Bufou para Lexa.

– Você fala como se eu tivesse dito a eles que você e Joshua não são mais virgens.

Lexa acrescentou se deitando sobre o colo de Killian.

– Você acabou de dizer!

Amora respondeu totalmente pasma.

– Eles meios que já sabem.

Joshua completou aumentando a surpresa dela.

– Em defesa dele, nós descobrimos sozinhos.

Roman completou.

– Por favor, não vamos fazer disso uma conversa.

Amora suplicou envergonhada.

– Então vamos falar daquele Preston – um primo de terceiro grau do Roman – Que não tirou os olhos do nosso pequeno curandeiro.

Lexa acrescentou.

– Ele não fez isso.

Josh retrucou, mas ela tinha certa veracidade nisso.

– Reparei isso também.

Roman completou rindo, mas o vibrar no meu bolso me distraiu, senti o olhar de Killian escorregar pelo meu ombro até minha mão aonde o celular agora se encontrava.

Rex?

Perguntou pelo elo telepático, e mesmo com os seis conectados éramos capazes de fazer conversas privadas também.

Sabe que não tem motivos pra ter ciúmes, né?

Perguntei enquanto respondia as mensagens, ele ainda falava sobre o jantar que os pais queriam dar para conhecer a pessoa que tinha feito o filho brilhar.

E você sabe que eu ainda vou ter, né?

É eu sei, mas ele é meu amigo e você sabe o que eu venho lhe dizendo.

"É bom ter amigos fora do círculo".

Resmungou telepaticamente, mesmo que Killian agora fosse muito mais aberto conosco, ele ainda era a muralha de gelo flamejante para a maioria, mesmo que ele também tenha tido progresso enorme com os outros estudantes.

Vocês são tudo que eu preciso. Minha própria constelação.

E eu te amo por isso.

Comentei antes de largar o celular sobre a cama e segurar seu rosto em um beijo.

– E o que foi isso?

Roman perguntou.

– Só aproveitando o tempo que ainda temos juntos no mesmo quarto.

Respondi.

– Nós vamos burlar isso, não vamos, amor?

Lexa perguntou se insinuando para Roman.

– Claro que vamos, mas antes eu queria fazer outra coisa.

Roman acrescentou.

– O que?

Amora perguntou.

– Quem está a fim de conhecer um pouco as ruas de Portland?

– Só se eu puder dirigir.

Joshua respondeu animado, ele gostava bastante dessa nova capacidade.

Não que ele tivesse uma habilitação.

Desde que unimos o círculo, não estávamos só mais fortes ou partilhávamos a mesma vida, nós agora, éramos realmente um ser que praticamente funcionava como um. Sendo capazes de fazer diversas coisas que o outro sabia. Como no dia que Lexa conseguiu vencer o professor Garrett em uma luta de espadas usando a experiência de Killian, ou quando Roman conseguiu realizar uma perfeita poção de mudança de forma, com as informações do cérebro do Joshua. Mas não somente as capacidades em relação a magia. Lexa agora dançava balé como Amora, e Josh podia dirigir o jeep com perfeição. E agora o minigolfe parecia muito mais lógico para mim. Além de todos termos conseguido uma grande melhoria em nossas técnicas de luta.

Lexa

– O que estamos fazendo aqui exatamente?

Perguntei depois que Joshua estacionou o carro em frente a um estúdio de tatuagens.

– Meu presente para os meus pais.

Roman respondeu.

– Michael não odeia essas coisas?

Math perguntou confuso, Killian não parecia surpreso, o que significava que só nos quatro estávamos por fora da novidade.

– Ele vai gostar dessa, tenho certeza. E acho que vai ser bom, já que estamos lutando em uma guerra potencialmente letal.

Esclareceu.

– Então... – Joshua murmurou por de trás de nós – Sem querer ser mal-educado, mas eu realmente não quero ser obrigado a sentir você e as outras duas outras pessoas que estão aí dentro fazendo sessões nesse momento, sendo picadas por uma agulha motorizada, então Amora e eu vamos dar uma volta pela cidade, tudo bem?

Perguntou com as chaves do jeep em mãos.

– Isso é só uma desculpa para usar o carro de novo.

Comentei balançando a cabeça.

– Claro que é – Joshua concordou sorridente – E, por favor, não faça nenhuma tatuagem ridícula ou que tenha referência a felinos, beleza?

Pediu claramente falando sobre a tatuagem do Giovanni.

– Já tenho uma ótima ideia na minha cabeça, mas bem que eu poderia completá-la, talvez eu pudesse até por uns dreads se eu quiser, não são só caras brasileiros com dreads coloridos que ficam sensuais com essas coisas.

Roman retrucou ofendido, chegando sozinho num raciocínio que não acompanhamos, exatamente.

– Por que você está se comparando com o Henrique Braga?

Killian perguntou, agora ele parecia surpreso.

– Não sei. Acho que eu sempre quis usar aqueles dreads legais.

Roman confessou me fazendo rir, ele tinha traços de uma criança disfarçados no corpo de um adulto de ombros largos.

– Nós estamos indo.

Amora acrescentou cruzando os braços dela e do namorado.

– Adeus covardes.

Disse acenando.

– E se vocês forem parados pela polícia...

Math tentou dizer, mas Amora foi mais rápida.

– Posso criar uma carteira de motorista do estado do Oregon num piscar de olhos, ficaremos bem. Até daqui algumas horas.

– E antes que eu esqueça – comentei por fim – Não façam sexo no banco de trás, Roman e eu já estreamos aí.

– Nojento e desnecessário.

Amora completou já virando de costas e arrastando Joshua consigo.

– Você realmente gritou isso no meio da rua?

Math perguntou, mas não o respondi, só abri a porta do estúdio com as mãos, já que havia me acostumado novamente a usar essas coisas.

Matheus

– Você está assustadoramente quieto.

Killian comentou se esgueirando atrás de mim enquanto eu folheava um dos portfólios do estúdio.

Roman já estava com o tatuador há pouco mais de meia hora e Lexa estava com ele, enquanto isso nós dois ficamos na sala de espera, junto a atendente de origem paquistanesa.

– Só pesando.

Respondi e ele retrucou.

– Perigoso. Muito perigoso.

– Se o meu silêncio é perigoso imagine o seu.

Acrescentei.

– Uma bomba nuclear. Mas ser tão bonito compensa.

Completou me fazendo rir, ele estava cada vez mais aberto a piadas.

– Então eu não sou bonito o bastante para ficar quieto?

Perguntei fingindo ofensa.

– Não, Ollie. É o mais lindo do universo, então não conta.

– Tudo bem, mas isso nem faz sentido.

– Nenhum de nós faz. Mas no que estava pensando?

– Que já se passaram três semanas e em menos de seis, vamos voltar para Nova Salém e tudo vai explodir em nossas cabeças novamente e isso me faz sentir, pela primeira vez que as férias de meio de ano fazem falta.

Respondi com sinceridade, não havia por que mentir.

– Ainda está preocupado com o que Paimon revelou a vocês?

Killian perguntou em tom sério e preocupado, não havíamos falado muito sobre o assunto linhagem demoníaca depois daquela noite.

– Um pouco. Contudo estou mais preocupado com o fato dele ainda estar por aí usando o corpo do meu ex-namorado para me abalar.

– Temos mais poder agora, e vamos continuar aumentando isso. Vamos ficar bem.

– Você tem certeza?

Perguntei, mas não era justo com ele.

– Tanto que eu sei que você passou os últimos minutos tentando bloquear os pensamentos da atendente porque provavelmente não gostou do que ouviu.

Respondeu rindo.

– Quem é o telepata aqui mesmo?

Perguntei.

Você.

Respondeu ele em pensamento antes de me beijar, mas não pelo elo, mas sabendo que eu ouviria de qualquer maneira.

Ter a mente dele agora desse jeito, aberta para mim, era algo que antes eu poderia achar desconcertante, hoje, depois de termos unido o círculo, era só mais um afeto junto a muitos outros que formavam a naturalidade da minha vida.

Nossos poderes haviam aumentado de formas presumíveis e de outras que não imaginavam. Para mim significava que eu não precisava mais temer o toque humano. Minha mente finalmente havia se estabilizado, se tornando capaz de invadir outras só com meus pensamentos. Para os outros ainda significava coisas que estávamos começando a entender.

Lexa

– Achei que fosse levar mais tempo.

Math comentou.

– Leva mais tempo quando o desenho é mais complicado, nesse caso foi só questão de preencher.

O tatuador respondeu guardando o equipamento sobre a mesinha ao seu lado, Roman estava deitado sobre uma cama mexendo em seu celular com o braço direito, a tatuagem era no braço esquerdo.

– Está fantástica, só não fazemos a menor ideia do que significa.

Disse por fim me aproximando.

O tatuador tinha cabelo em tom de verde escuro e braços repletos de figuras de vídeo games famosos, e olhos preenchidos com alguma coisa que deixava o branco dos globos oculares em um tom escuro, que me fez lembrar por um segundo dos demônios.

Por sorte, meu irmão e eu tínhamos uma espécie de sexto sentido, e eu poderia dizer com total certeza de que não havia força demoníaca por aqui.

– Eu vou explicar.

Roman acrescentou.

– Bom, porque eu adoraria saber por que tem três linhas tatuadas no seu braço, já que esperávamos algum felino com uniforme de pirata.

Amora comentou surgindo da sala de espera com Joshua.

– Ótimo – acrescentei – Por que eu adoraria saber por que o seu namorado está usando uma camiseta dos Portland Timbers...

– Futebol não é a paixão americana?

Perguntou como se fizesse alguma ideia realmente de quem era aquele time.

– Você por acaso já assistiu alguma partida na sua vida? Aqui ou no Canadá?

Perguntei enquanto Joshua mordia um pretzel.

– Algumas vezes, no porão da casa do Kato.

Respondeu rindo.

– Primeiro por que vocês assistiam futebol no porão em vez de pornografia?

Perguntei dessa vez encarando-o, Amora tentou se camuflar ao ambiente ao escutar o final a minha frase.

– Essa é a sua namorada?

Perguntou o tatuador a Roman, aparentemente eles se conheciam da vida mortal de Roman na cidade.

– Ela é mais amorosa depois que você atravessa algumas camadas.

Respondeu ele sorrindo.

– Se você está dizendo.

Respondeu ele por fim voltando para sua salinha.

– Você pode explicar tudo no caminho de volta para sua casa, por favor?

Amora suplicou quase se projetando porta a fora.

– Então eu encontro vocês depois...

Killian acrescentou acenando com seu capacete.

Aonde ele vai?

Perguntei a meu irmão.

Alguma coisa a ver com o presente do Roman.

Respondeu.

//

– Ainda estou tentando tirar da minha cabeça o fato que vocês dois realmente fizeram sexo nesses bancos.

Math comentou.

Roman estava dirigindo dessa vez, já que Joshua estava muito ocupado aproveitando a culinária local que ele encontrou em barraquinhas de rua.

– Posso te fazer uma lista de coisas que sua irmã me contou que eu tento tirar da minha cabeça até hoje. Uma lista, muito, muito grande.

Amora completou.

– Podemos nos concentrar na história do meu namorado, ou vocês vão querer saber um pouco mais sobre nossa vida sexual?

Perguntei sorrindo para o espelho retrovisor.

– A história, por favor.

Joshua respondeu depois de terminar um cachorro-quente.

– Como eu estava dizendo – Roman voltou a falar, com as mãos ainda no volante e plástico-filme enrolado ao braço, sobre a tatuagem – Ela significa família para nós. Quando criança, cai uma vez depois de escalar uma árvore com alguns colegas da escola, e fiquei com três arranhões horríveis no braço e doía tanto que eu só queria que acabasse. Mas meu pai não deixou que o Giovanni me curasse, ele tinha me advertido a não fazer aquilo e agora eu tinha que me curar como um garoto qualquer, então Giovanni pegou uma das canetas esferográficas da minha mochila e desenhou essas três linhas circulando meu braço e me disse que era um lembrete da nossa família, nos três sempre unidos. Ele tirou a minha dor, sem que Michael soubesse, mas deixou que o machucado cicatrize normalmente. Desde então se tornou algo nosso. Por isso as pulseiras de couro. É o nosso símbolo.

Terminou por fim sorrindo.

– A materialização do seu amor.

Amora comentou comovida, Roman era sempre o de nós o mais gentil, e ele fazia isso sem quase nunca precisar se esforçar. Eu realmente não conseguia entender quão fácil para ele era fazer tudo aquilo.

Matheus

Quando chegamos de volta a residência do clã Leonov-Grant tudo parecia estar ainda mais agitado do que antes e fomos pegos logo na entrada do salão principal pela tia de meia idade do Roman, Charlotte, com um distinto odor de uísque que eu reconhecia das tardes que o vovô se sentava na sua poltrona e falava alguma coisa que eu nunca entendia e terminava passando a mão em minha cabeça e me mandando fazer dever de casa.

– Onde vocês estavam? Tenho tanta coisa embaraçosa para contar aos seus amigos, principalmente porque o ruivo não me deixou fazer isso com aquela expressão de imparcialidade no rosto, da primeira vez que ele esteve aqui.

– Estávamos dando uma volta, tia Charlotte.

Roman respondeu confuso, sua tia parecia uma mistura de Lexa, com bem, alguma outra pessoa estranha, que ironicamente diferenciava ela da minha irmã e de Giovanni, que eram perigosamente parecidos.

– Falando nisso cadê o Killian?

Perguntou ela realmente curiosa, era de se esperar que pelo tempo que ele tinha ficado aqui antes, sua ausência fosse facilmente percebida.

– Ele já deve estar voltando.

Respondi.

– Bom, não faz diferença. Duvido que ele fosse ficar envergonhado de qualquer maneira. Tenho ótimas fotos da época que os dois trabalharam no minigolfe da cidade.

– Vocês trabalharam em um minigolfe? Por quê?

Josh perguntou surpreso.

– Estávamos entediados e nenhum dos meus adoráveis pais nos deixou fazer aulas de salto com paraquedas.

Roman respondeu como se fosse à coisa mais lógica a se dizer nessas ocasiões, mas isso explicava por que ele tinha ficado tão animado em nos levar ao minigolfe em nosso décimo oitavo aniversário.

– Eu realmente quero ver essas fotos.

Lexa comentou animada.

– Não há tantas assim – disse Charlotte com tristeza - Eles só trabalharam lá por umas duas semanas e meia.

– Vocês pediram demissão?

Perguntei curioso.

– Não – Roman respondeu – Fomos demitidos.

– O que fizeram de tão errado que não podia ser remediado?

Lexa perguntou, agora surpresa.

Especialmente com magia, completou.

– Killian e eu fomos pegos com as filhas gêmeas do gerente perto da torre Eiffel, buraco nove, aliás.

Confessou quase gaguejante.

– O que vocês têm com gêmeos?

Amora perguntou mais pasma que eu.

– Elas tinham pernas enormes e mini shorts bem, bem curtos mesmos.

– E eu garanto que elas sabiam tirá-los, bem, bem rapidinho, também.

Lexa acrescentou sarcasticamente.

– Não responda essa, querido.

Tia Charlotte completou.

– É melhor ouvir essa.

Disse Lexa com um sorriso que dizia que ele iria levar um tapa se dissesse qualquer outra coisa.

– Aliás, queridos, algum de vocês tem um irmão ou irmã mais velha?

Perguntou Charlotte.

– Eu tenho, na verdad...

Joshua tentou dizer, mas ela o cortou, pegando a mim e minha irmã pelas mãos.

– Pois você tem muita sorte de terem a exata mesma idade, por que quando você percebe que seus irmãos mais novos conseguiram ótimos casamentos, ótimos trabalhos e filhos, mesmo que eles sejam pequenos monstros, é quando você sabe que a sua vida está acabada e você será para sempre só a tia...

Completou por fim deixando todos sem ação.

– OKAY! Tia Charlie que tal você ir pegar aquelas fotos, enquanto nos tentando achar o papai para ver como anda as coisas da festa, e depois a gente se encontra?

Roman perguntou tão perto do rosto dela que eu quase tive certeza de que ele usava algum feitiço silencioso de compulsão. Se não fosse o fato, que nós sempre sabíamos quando um estava usando magia.

Lexa

– Ela ficou um pouquinho desequilibrada depois que a tia Candice teve os trigêmeos e ela nem mesmo tinha um namorado fixo.

Roman explicou assim que a sua tia, levemente alcoolizada, desapareceu na imensidão de corredores.

Aparentemente ser a mais velha de três irmãos e não ter formado uma família feliz e estável por aqui era grande coisa.

– O que vamos fazer agora?

Amora perguntou enquanto brincava com as pulseiras cheias de espinhos metálicos realmente afiados, já havia me cortado mais vezes com os acessórios punk rock dela do que fazendo depilação.

– Temos que achar um dos meus pais e descobrir os planos do jantar, provavelmente há algum.

Roman respondeu encarando meu irmão e ele entendeu a deixa. Sua visão ficou vaga e o pentagrama de fogo se traçou em seus olhos violeta.

– Achei o Giovanni em uma sala repleta de cabeças de animais empalhados.

Respondeu rapidamente.

Sua telepatia não tinha só se estabilizado, mas também expandido, o deixando capaz de localizar alguém, somente deixando-se livre para escutar os pensamentos que vagavam perdidos ao redor.

– Sala de troféus então, fica do outro lado.

Roman respondeu.

//

A sala de troféus ficava na direção oposta ao corredor dos nossos quartos, e era toda pintada em verde e marrom, como a maioria do clube.

Encontramos Giovanni sentado em um sofá de couro preto com dezenas de papeis médicos sobre o colo e uma mesinha retangular de vidro.

– Eae, velhote!

Disse Roman se lançando ao ar e se jogando na poltrona a frente do pai.

– Me chame assim novamente, e nem seu círculo completo, vai ser capaz de deter a minha ira.

Giovanni ameaçou, usando um tom sério pela primeira vez desde que chegamos horas atrás. Era bem difícil saber exatamente qual era sua idade real somente olhando para sua aparência então não havia como saber se sua indignação era plausível ou não.

– Queria saber os planos do jantar, já que vai ser nosso momento auge da noite...

Comentou olhando de soslaio para o chão e para o pai, Giovanni pareceu entender o que ele quis dizer.

– Muito bom que vocês entenderam isso, nem mesmo vocês podem desfazer aquilo. Alguns feitiços não podem só ser quebrados, e eu já te expliquei isso uma vez.

Giovanni respondeu com um olhar diferente, Roman pareceu reagir de uma forma que eu também não entendi. Havia cumplicidade ali.

– Então, quais os planos?

Perguntou mais uma vez.

– O de sempre – respondeu desistindo de ler os papeis – E sua avó ligou e disse que só vai conseguir chegar amanhã de manhã. Algo aconteceu com o pingente que ela usa para estabilizar o feitiço de teletransporte e ela vai ter que esperar até amanhã para conseguir outro.

– Ela está tão longe assim?

Perguntei curiosa, me sentando no braço da poltrona onde Roman estava.

– Grécia, se não estou enganado. Mas não é por isso, Lexa, mamãe não suporta os meios dos humanos. Ela confia só na própria magia e como boa porto-riquenha não há discussão com ela.

– Sei que é comum para bruxos terem pais de nacionalidades diferentes, mas honestamente eu não faço a menor ideia de como deve ser essa imersão de culturas na sua vida.

Joshua acrescentou, como bom nerd.

– Bem, isso te faz ver as coisas com outras perspectivas é claro. Sem contar que eu falo russo, que é minha língua materna. Espanhol que é minha segunda língua. O bom e velho inglês e o nosso amigo de todas as manhãs, o latim. Então são dois a mais que a maioria dos nossos.

– Achei que a maioria dos bruxos só usasse o feitiço de tradução universal. Como o da academia.

Comentei.

– Bem, meu pai é exceção também. Ele é um bruxo e mesmo assim um professor de idiomas em universidade – Amora completou – Bem, recém-admitido ao cargo. Aparentemente nossa atual situação colocou um pouco de juízo novamente nele. E ele parou de beber também.

Comentou por fim percebendo que havia fugido ligeiramente do assunto.

– E ela também sabe ler francês, alemão e italiano.

Joshua acrescentou a abraçando por trás, orgulhoso.

– Eu ainda me pergunto por que alguém aprende a ler alemão.

Disse por fim agora na direção do Giovanni, no mesmo segundo a presença de Killian se tornou presente, ele estava perto.

– Bem, Killian está chegando então vamos nos reunir de novo.

Disse Roman pulando poltrona a fora.

– Antes de ir, procure seu pai, ele queria ter um momento com vocês seis, e filho, você sabe que eu posso sentir a magia escondendo o que é que seja isso no seu braço, não é?

Perguntou com um sorriso paterno que era adorável.

– É uma surpresa para a festa.

Roman respondeu despreocupado.

– Seu pai vai provavelmente me culpar por isso, então que ela seja uma bela surpresa.

Respondeu.

– É verdade, mas você já não destruiu qualquer expectativa que ele tenha de que as coisas não vão ficar mais malucas, uns dez anos atrás?

Roman perguntou o que fez Giovanni se levantar para responder.

– Filho, eu me esforço a cada dia para mostrar ao meu amado marido, e seu benevolente pai, que tal coisa nunca vai existir, quando se trata das coisas que eu posso fazer e que ninguém espera que venham a acontecer.

Comentou ele segurando as mãos de Roman como se estivesse dando ao filho a benção antes do casamento.

Então, eu vou dizer o que todos estamos pensando sobre as propensões do Roman para relacionamentos amorosos – Amora acrescentou dentro de elo, mas nós quatro a seguimos com perfeição – É totalmente Patológico.

Matheus

– Sentiu minha falta?

Killian perguntou perto do meu ouvido.

– Com todas as fibras do meu corpo.

Respondi.

– Arrumem um quarto.

Lexa comentou passando entre nós dois.

– Eles vão – Roman completou – E nós também.

Disse ele com um olhar estranho.

Estávamos agora perto do salão principal onde a festa iria ocorrer amanhã à noite. E a decoração parecia quase toda completa. Só não fazia a menor ideia do que seria.

– Finalmente os encontrei.

Disse Michael surgindo atrás de três empregados.

Ele tinha queixo protuberante e olhos de um verde brilhante. Usava roupa social, mesmo dentro da própria casa-emprego e um relógio no pulso que eu jurava ser mais caro que a minha mesada anual. E mocasis tão bem engraxados que eu conseguia ver meu reflexo em seus pés.

– Como anda as coisas, pai?

Roman perguntou animado, Michael parecia se amenizar sempre que estava na presença do filho.

– Quero demitir metade da equipe que eu contratei e gritar com a outra para trabalharem dobrado, mas como seu pai diz, eu me preocupo de mais com todas as coisas...

– E isso vai provavelmente te fazer ter um ataque do coração.

Roman acrescentou.

– Ainda bem que você se casou com um médico, então.

Lexa completou e Michael riu, ele também deveria ver o que todos víamos.

– Aliás, os trigêmeos ainda não voltaram, não é?

Killian perguntou, havia naturalidade e medo em sua voz, o que era presumível pelo tempo que passou vivendo sobre o teto deles.

– Ainda não – Michael respondeu – Candice e Godfrey – seu marido – resolveram passear de bicicleta pela cidade. Têm algumas na garagem se vocês também quiserem.

– Aqueles pequenos diabretes conseguem ficar quietos, tempo o suficiente para subirem naquelas coisas?

Roman perguntou, mas Michael o olhou como se ele tivesse ofendido o Papa em pessoa.

– Ela é a mãe deles, e eu não vou reclamar dos meus lindos sobrinhos estarem fora das minhas propriedades, pelo menos assim, temos menos estragos antes da festa.

Comentou pondo a mão no ombro do filho.

– Vai precisar de nós para alguma coisa?

Roman perguntou.

– Na verdade não, descasem antes do jantar, vai ser servido as oito. Vocês estão de férias, aproveitem isso, tudo bem?

Pediu, tentando fazer toda situação parecer normal. Como se ao fim dessas férias nós fossemos voltar para o lugar mais seguro do universo e não para um preparatório de guerra que aceitamos proteger.

//

Preston, um dos primos de Roman, que na verdade era filho postiço, do seu tio avô pela parte do Michael, tagarelava sobre as universidades que pretendia cursar no ano seguinte e como seria fácil ser aceito em todas elas. Enquanto Godfrey tentava não coçar os recentes curativos na sua testa, presente esse que eu presumir vir dos seus próprios filhos.

O outro tio avô do Roman, Lionel, parecia sofrer de um forte ressecamento nos lábios, já que ele não conseguia parar de passar a língua sobre a boca de forma a umedecê-la, e aquilo criava uma estranha atração hipnótica, mesclando horror e curiosidade mórbida.

Mas com o passar do tempo o assunto ia e vinha para o mesmo ponto.

Nós e principalmente Lexa, já que todos queriam uma provinha dos amigos misteriosos do parente favorito, Roman.

Candice, sua tia, havia até mesmo perguntado por que tínhamos idades tão variadas, já que estudávamos juntos, porém, Giovanni nos ajudou nessa saltando uma infinidade de frases aleatórias. Que supostamente explicaria o motivo. Candice não pareceu entender uma vírgula, porém, era claro que ela era uma dessas pessoas que não suportava sair de tola no final de uma conversa, então por fim ela concordou.

Lexa havia aprendido com o nosso tempo na academia, como atrair atenção para si, presente do professor Garrett. E no final da noite todos estavam satisfeitos com as explicações vagas que havíamos dado, aparentemente teríamos trabalho pelas próximas semanas de residência, mas valia a pena.

Para todos eles, éramos só jovens estranhos, para nós, eles eram as pessoas que tínhamos e iríamos proteger.

Fomos os primeiros a sair da mesa, quando Michael deu ligeiramente a atender que era a hora dos adultos conversarem e todos com menos de vinte cinco anos deveriam simplesmente partir e foi o que fizemos. Despistando o restante dos primos do Roman que tinham uma grande curiosidade sobre Amora e Lexa, no caso de Preston, em Joshua.

Aparentemente o cromossomo XX não era muito proeminente na família, já que fora Candice, Charlotte e a tia avó Greta que mal conseguia falar de direito, não havia mais parentes do sexo feminino. Além das esposas agregadas a família.

– E agora, o que vamos fazer?

Minha irmã perguntou de frente a porta do quarto que dividia com Amora.

– Nós fazemos magia.

Roman respondeu com um sorriso que ele só poderia ter aprendido em um lugar, com a Lexa.

– E como vamos fazer isso exatamente sem soar um alarme silencioso em todas as dependências desse lugar?

Amora perguntou cética, e eu também estava.

– Sendo criativos.

Killian a respondeu, e obviamente eles tinham pensado em algo.

– Eu conheço meu pai – Roman completou – E ele já me disse uma vez que quando um feitiço não pode ser quebrado você precisa ser mais inteligente que o bruxo que o lançou e entrar dentro dele para modificá-lo, de forma a não o tornar mais um empecilho. Temporariamente ou não.

– Então o grande plano é entrar no feitiço do Giovanni de algum jeito e mudá-lo para aceitar outras combinações?

Perguntei aos dois.

– Em resumo sim.

– E como exatamente planejaram fazer isso?

Josh perguntou.

– Killian e eu pensamos em tudo, só precisamos da força completa do círculo para não ocorrer nenhum erro, e tudo vai sair perfeito.

Roman o respondeu.

– E algumas velas.

Killian acrescentou.

– Então o que estamos esperando para fazer magia de verdade?

Minha irmã perguntou.

Lexa

– Todos estão preparados?

Roman perguntou.

Estávamos exatamente em cima do corredor dos quartos, alguns andares depois, em uma sala usada para estocar caixas e mais caixas de papelão que eu não tive a menor curiosidade para descobrir o que eram.

Mas era afastado o suficiente de qualquer movimentação humana, nos dando a privacidade necessária para o feitiço.

– Não se passou nem um mês desde que saímos da academia, então eu ainda sei como lançar um feitiço.

Amora retrucou ofendida, estávamos todos sentados ao redor de um amontoado de velas.

– Então o que temos de fazer?

Math perguntou a Roman.

– Vamos usar o feitiço de interrupção que o professor Garrett nos ensinou há alguns meses e depois eu vou lançar o mesmo feitiço que meu pai usou, mas dessa vez criando outras combinações.

– E o que acontece quando o antigo feitiço retornar e se chocar com o novo?

Perguntei.

– Ele não vai – Killian respondeu – Roman vai concentrar o novo feitiço nas velas, de forma que quando o antigo retornar ele seja absorvido e remodelado.

– Vocês têm certeza?

Amora perguntou.

– Sim – Roman a respondeu – Eu já enfeiticei as velas para absorver o feitiço que eu lançar dentro do círculo de sal – que rodeava o amontoado de velas – E como Giovanni o conjurou bem na minha frente, foi fácil fazer isso. Mas eu ainda preciso de vocês para estabilizar o feitiço de interrupção e depois para assoprar as velas quando o primeiro feitiço cessar.

– Então, manda ver.

Comentei animada.

– Sigam a minha deixa – disse Roman estendendo os braços para mim e Killian – Mysticum pretium, lorem voluntatis. Conteri.

Foi necessário que repetíssemos mais quatro vezes até a energia se estabilizar o suficiente para fazer efeito.

Hoje em dia, era tão natural realizar magia com todos eles como era com meu irmão. De forma que não fazer, era agora, antinatural.

A magia se concentrou em nosso centro e depois se espalhou, alcançando cada centímetro do clube de casa e das instalações.

– Minha vez agora – comentou meu garotão – Flamma prohibet eos transeat.

Conjurou derramando sal sobre as velas ainda apagadas.

– Fogo, agora.

Pediu e nós cincos estalamos nossos dedos e Killian sacou seu isqueiro e as velas se acenderam como o fogo em nossos olhos.

– Vão.

Ordenou e era a vez de trocarmos de lugar.

Mutatio locus.

Disseram um de cada dupla, fazendo nossos corpos se transformar em fumaça.

Reapareci na frente do Roman, em seu quarto, que segurava em mãos uma das velas e eu também.

Mais alguns segundos – acrescentou mentalmente concentrado no vazio – Já!

Então assopramos. Sentindo ambos os feitiços conjurados por Roman e Giovanni se mesclando na névoa invisível da magia.

O ar ficou pesado e chão parecia vibrar.

Um feitiço tentava se sobrepor sobre o outro, sem descobrir quem era o prioritário.

Um queria nos expulsar, o outro nos aceitar, por fim as velas se tornaram pó e o show de tremores cessou.

– Funcionou?

Perguntei.

– Você continua aqui, não é? Em carne, ossos e roupas.

Comentou orgulhoso do seu plano bem-sucedido.

– Não por muito tempo.

Acrescentei arrancando minha blusa para fora do meu corpo.

– Oh, como eu senti falta deles.

Completou por fim me fazendo rir e corar.