VIII • Cuts Like A Knife
Quando voltamos para nossos quartos após o jantar, finalmente descobrimos com o que iríamos lidar como punição.
Em resumo seriamos obrigados a participar de um tipo de teste que seria dito a nós somente no dia, até lá teríamos que aprender o máximo sobre todos os outros alunos, pois poderíamos parar com qualquer um, forçando assim que nos conhecêssemos melhor, e caso falhemos em nosso teste, teremos um mês inteiro de castigo.
O que nos deixaria sem saídas a noite, sem sala de musculação, sem internet, sem lanchinhos da madrugada - de nenhum tipo - Seriamos literalmente prisioneiros dentro de nossos quartos, liberados somente para usar o banheiro e o refeitório nos horários das refeições. Até mesmo para usarmos a biblioteca teríamos que marcar horário. E com absoluta certeza, eu não queria ficar presa por todo esse tempo.
Mas há coisa boa nisso tudo era que eu finalmente tinha convencido todos a irem à Arcadia no sábado à noite, sem exceções. Era uma pequena tentativa de fazer toda essa união idiota valer a pena.
Contudo ainda teríamos que passar na aula de hoje.
A professora MiMi tinha aproveitado para usar esse momento de reflexão estudantil para incrementar sua aula. Então passamos a maior parte do tempo usando nossos dons uns nos outros de forma a demonstrar como nossos poderes funcionavam. O que eventualmente fez que Hazel acabasse dentro do meu corpo, que Samir disparasse uma rajada de azar em Javier acidentalmente, e Chris absorver quase todo oxigênio da sala tentando demonstrar seu controle, sem contar com Roman fazendo nevar, e Henrique convocando um esquadrão de abelhas assassinas que eram totalmente obedientes a eles. Resultando também na descoberta da forte alergia a abelhas da Hya.
Depois disso tivemos mais uma aula de Teoria e Conceito Intermediário de Magia da semana, onde ouvimos o professor Garrett reclamar e reclamar sem parar. Para variar. O que na verdade foi mais emocionante do que as outras aulas da semana, para dizer a verdade, já que ele tinha resolvido explicar o funcionamento atrás de um feitiço de deslocamento de tempo e espaço, que em resumo era um feitiço para trazer um objeto de um lugar para outro através de um conjuro relativamente simples. Até você ouvir toda a física quântica por trás de um simples jogo de palavras em latim.
Mas assim que fomos liberados era hora de um pouco mais de confraternização "amigável".
– Para falar a verdade eu não saberia dizer.
Kat respondeu a Hazel, que tentava controlar a conversa no refeitório. Pois a outra novidade a qual tínhamos descoberto durante o café da manhã, era que não adiantava em que lugar ou com que pessoas você estava, no minuto em que você se sentasse seria transferido para um assento diferente, com pessoas diferentes e seria obrigado a terminar sua refeição com elas.
Pela manhã, meu café da manhã tinha sido dividido com Vernon, Juliette e Hya e para meu azar agora era minha vez com Hazel também, junto da Kat e da Zita. E o assunto era meio que unânime para todos, mas com abordagens ligeiramente diferentes.
– Você pode não ser a fim de garotos, mas é impossível negar que o chefe dos enfermeiros é delicioso.
Hazel comentou da forma mais oferecida que conseguiu. Não que o uniforme dela não ajudasse.
Katerina deu de ombros e voltou a comer, enquanto Zita fingia estar ocupada mexendo na tela do seu celular. Como a maioria eu não sabia muito sobre ela, além do seu país de origem, a Hungria, por causa do sotaque.
– Talvez ele seja comprometido – comentei fingindo interesse – diferente dos outros professores que parecem amargos e sozinhos.
– Você quer dizer casado? – Kat perguntou, agora curiosa – Ele parece tão novo.
– Talvez, não sei se nesse estado o casamento gay é legalizado.
Disse pouco antes de mordiscar meu bife.
Hazel me entreolhou torto antes de falar.
– Por que vocês simpatizantes têm que presumir que toda pessoa bonita é gay também?
– Não acho isso porque eu seja "simpatizante" – respondi com deboche na voz – Disse isso por que temos que ser sinceras, queridinha, seu gosto é bastante duvidoso quando se trata de outros caras, então eu só segui o padrão.
Disse sorrindo ingenuamente como se estivesse elogiando seu shortinho curto.
Zita tentou disfarçar a risada pondo a mão no rosto, mas foi inevitável, Katerina por outro lado, nem tentou. Hazel ficou vermelha de raiva.
– Não fique brava, Hazel, isso acontece com todo mundo.
Kat acrescentou enquanto brincava com a alça do seu macacão preto com os dedos, sobre a sua camisa social cinza.
– Não faço a menor ideia do que vocês estão falando.
– Posso pensar em alguns nomes – acrescentei rapidamente – Como seu ex-namorado, e para as pessoas que não sabem, o do Killian também, já que você o beijou, praticamente a força, depois de passar semanas se oferecendo para ele, somente para ser trocada no mesmo dia, no baile de Natal, pelo meu irmão.
Disse por fim fazendo o rosto dela se quebrar em mil pedaços pequenos. Mas duvidava muito que a maioria soubesse sobre ela e Killian, agora isso se tornaria história muito rapidamente.
– Rex não é amigo do seu irmão agora?
Katerina perguntou e vi a expressão de Zita mudar, para total e completo interesse na conversa.
– Melhores amigos, até. Math o ajudou a sair do armário antes do fim do ano letivo. Eles são muitos próximos agora.
Disse me vangloriando pela primeira vez de algo que envolvesse Rex Holt, o que era bastante novo para mim.
– Acho que não vamos precisar da ajuda da Clea para resolver esse padrão, pois parece bem simples.
Kat comentou já se levantando para ir embora, mas Hazel foi mais rápida batendo as mãos sobre a mesa.
– Não sou nem um pouco obrigada aturar suas piadinhas, idiotas – disse com raiva – Vocês se merecem. Talvez deveriam começar a transar, isso se já não estiverem.
Comentou como se tivesse vencido a briga.
Kat respondeu fazendo Hazel voltar a encará-la com fúria no olhar.
– Talvez se eu tocar nela por alguns segundos, possa acabar me identificando como bi ou lésbica.
Comentei olhando para Kat, como se Hazel não pudesse mais nos usar.
Hazel bufou e saiu esperneando refeitório a fora, seguido por Hya que abandonou sua mesa e foi atrás dela.
Math perguntou nos encarando de longe. Ele dividia a mesa com Asa, Zac e Juliette. Não saia exatamente muita conversa dali.
Jogando um joguinho de meninas malvadas.
Então é melhor se apressar a aula vai começar daqui a pouco.
Quando finalmente descobrimos como era sala de Práticas de Cura e Primeiros Socorros, ou P.C.P.S. para simplificar, não foi exatamente uma grande surpresa. A sala era uma versão circular da enfermaria. Com macas em vez de assentos e a mesinha de escritório simples em vez de uma enorme mesa como as dos outros professores, com um acento normal de metal, com estofamento comum.
Birdy comentou assim que todos entraram.
– Exatamente, senhorita Cleawater. Era exatamente a intenção.
Disse Robert McHale atrás de nós, ou professor McHale agora.
Todos viraram surpresos, tanto garotas quanto rapazes. Ele estava sorrindo com seus olhos castanhos brilhando e os dentes de um branco perfeito.
Ele tinha mudado o corte de cabelo, para algo mais moderno, como Math e Joshua, porém, meu irmão era incapaz de controlar seu novo penteado que ele vivia caindo para o lado criando uma franja longa.
– Agora, por favor, escolham seus lugares, e podemos começar.
Disse ele drasticamente nervoso.
Por outro lado, seu sorriso era calmo. Contudo seus dedos dançantes no ar delatavam o contrário.
Ele usava o mesmo jaleco de sempre, com uma camisa polo por baixo, calças jeans e tênis brancos simples e sem graça. Tinha óculos de leitura no pescoço que eu nunca o vi usar e um relógio estranho, daqueles que marcavam seus batimentos cardíacos. E a pele parda estava mais corada também.
Samir perguntou apontando para as macas, claramente confuso como todos. O café da manhã e o almoço tinham mostrado como livre arbítrio estava fora de cogitação por aqui, por ora.
– Ah, sim – disse Robert sorrindo – Tive permissão da diretora. Bem, acho que isso que você ganha quando é a sua primeira aula.
Disse ele enquanto procurava algo entre os bolsos do jaleco.
Isobelle perguntou tirando três tranças da frente do rosto fazendo os ornamentos metálicos refletirem a luz, se sentando com Clea em uma das macas na frente. Hya e Hazel tinham sentado ao lado delas, cada maca tinha espaço para uma dupla, porém, as quatro tinham interesses diferentes, obviamente.
– Para ser bem sincero, não. E não achei que fosse precisar me preocupar com isso até o próximo ano letivo, mas vocês nunca devem estar muito confiantes com essas coisas, elas tendem a te surpreender, principalmente quando há magia envolvida.
Comentou tentando fazer uma piada.
Ele tinha sempre aquele sorriso clínico e esperançoso no rosto, como se estivesse tentando nos contar que todos tínhamos câncer, mas que isso não era o fim do mundo ainda.
– Quantos anos você tem, então?
– Bem eu posso dizer que sou bem mais novo que os outros professores – respondeu rindo – Alquimistas se desenvolvem mais rápido nos nossos estudos depois da graduação. Tenho quase quarenta – esclareceu e ele poderia passar por vinte e cinco tranquilamente – O que é o dobro da idade do senhor Kane, que é o mais velho de vocês. Mas prometo, que isso não vai ser um problema muito grande.
– Professores das academias não deveriam ser mestres em magia de nível avançado?
Rex perguntou, dando uma olhada discreta para Javier que estava do lado oposto a ele, ambos iríamos começar a disputa logo.
– Normalmente sim. Como sabem, após a graduação vocês são classificados como bruxos de primeiro grau que não possui uma denominação específica já que seus níveis de poder variam muito, após isso com algumas especializações vocês pode ser tornar bruxos de segundo grau conhecidos como betas, e se atingirem certo nível de poder e conhecimento, vocês sobem para o nível seguinte, mestres em magia. Com o primeiro nível sendo os magos, aonde os professores das academias se classificam e outras pessoas importantes da nossa sociedade e o nível superior sendo os alpha magos, que são todos os bruxos que integram os Conselhos dos Clãs, ao redor do mundo, nossa mais alta hierarquia. Mas para minha classe em específico eu recebi autorização para lecionar mesmo sendo somente um bruxo de segundo grau.
Respondeu se virando para uma lousa branca atrás dele. Isso era algo que já sabíamos. Com o círculo formado, nos seis tínhamos automaticamente ganhado o titulo de bruxos de primeiro grau mesmo que ainda não tivéssemos nos graduado de verdade, pois nosso poder em si já superava a maioria.
Bem, pelo menos seu primeiro comentário não foi sobre a bunda dele.
Amora acrescentou, sendo como sempre implicante.
Perguntei olhando para ela com cinismo puro no olhar, a fazendo revirar os olhos de raiva.
– Aqui, como os outros professores também. É uma tradição da academia Beladona. Mas não é uma regra instituída pelos Conselhos para outras academia no geral. Professores podem vir de qualquer lugar, dependendo do que eles possam acrescentar para esses locais.
Respondeu sorrindo deixando de fora um detalhe importante.
Nós, do círculo, sabíamos da existência do clubinho secreto dos professores, mas honestamente nunca tinha me ocorrido se eles eram ex-alunos ou não. Muito menos o chefe gostosão dos enfermeiros também era.
– Então quem lecionava essa disciplina antes de você?
Javier perguntou tirando o controle de Rex da conversa.
Robert demorou um pouco para responder, já que estava escrevendo seu nome e o nome da disciplina que atualmente lecionava na lousa.
Ele deve ser das antigas, talvez.
– O chefe dos enfermeiros antes de mim, ele veio a falecer no ciclo escolar anterior, antes disso eu fui seu assistente e estagiário quando estudei aqui.
Disse ele tampando a caneta azul com dificuldade.
– Você quis dizer, assassinado, não é?
Vernon perguntou, ele normalmente não falava absolutamente nada, então eu mal reconhecia sua voz.
– Não – comentou surpreso – Ele morreu dormindo. Ele tinha quase dois séculos de idade.
– E o que o senhor vai nos ensinar?
Birdy perguntou, segurando a barra do vestido branco.
– Um breve resumo e algumas explicações que vocês precisaram ter em mente sempre que forem tentar salvar alguém, ou a si mesmo, principalmente usando de feitiços. Nem tudo pode ser curado e principalmente reconstruído com a simples palavra sana. Vocês todos precisam ter isso em mente.
– E o que isso significa no caso dele?
Javier perguntou apontando para Joshua que até então tinha conseguido passar despercebido.
– Não vejo como discutir o dom do senhor Strider, seja relevante, senhor Gatti.
Robert respondeu em tom sério, uma mudança nova a sua personalidade sempre calma.
– Ele pode curar e sofre com isso, só queria saber se isso vai acontecer conosco.
Comentou como se não fosse nada demais.
Amora o fuzilou com o olhar, mas Joshua não abaixou a cabeça dessa vez, continuou ali, olhando na direção do professor como se não fosse o assunto em pauta.
– Vamos descobrir – comentou antes de esticar a mão no ar – Secare.
Conjurou e o próximo som foi Javier arfando de dor enquanto balançava a mão no ar.
– Você me cortou, como se fosse uma lâmina afiada!
Exclamou surpreso, entretanto Robert tinha voltado a ficar calmo.
– Primeira lição, mesmo que vocês não tenham estudado uma matéria, é bom que saibam pelo menos alguns feitiços sobre ela. Pois mesmo que seja perigoso conjurar uma arte que desconheçam, esse conhecimento pode vir a calhar cedo ou tarde, agora alguém diga a ele um feitiço de cura simples e o senhor descobrirá a sensação – disse ele se virando e voltando a lousa branca – E se mais alguém tiver alguma pergunta pessoal sobre o senhor Strider sugiro que pergunte diretamente a ele, em algum momento adequado e privado.
Pelo menos alguém está do nosso lado agora.
Disse pelo elo, observando Javier tentando lançar um feitiço de cura sobre o pequeno corte na mão, auxiliado por Chris.
Joshua comentou animado, mesmo que agora ele não sentisse que precisava de proteção, era bom saber que havia pessoas que não o culpavam por algo que seus ancestrais haviam feito e que ele não tinha nenhum controle.