Fumaça & Cinzas
May 14, 2022

CAPÍTULO XLII: O PROBLEMA COM AS VOZES

Matheus

– Vovó! Vovô!

Exclamei sem saber o que falar.

Lexa havia me levado até nossos avós. Roman tinha levado Killian para o outro lado do salão, e tinha feito nevar para distrair todos da nossa cena, e agora eu não sabia o que fazer, ou como agir.

Vovô estava parado na minha frente sem reação, tanto ele como eu e vovó não sabia o que falar. Ninguém sabia.

Então aquela sensação caiu sobre nós e todos viramos para o mesmo lugar. O senhor Garrett estava lá, parado, sorrindo, vestindo um terno novo e brilhante. Ele estava descaradamente chamando atenção com seu dom. Por causa de nós ou por causa dele mesmo? Não sabia dizer, mas era impressionante ele poder atrair tanta atenção. Éramos muitos, e só então dei por mim. Todos eles tinham visto meu beijo.

Cada família da academia tinha presenciado meu ato de loucura apaixonada com Killian e agora eu não sabia onde me esconder, mas sabia onde queria estar.

Então a sensação se acabou. Ele simplesmente quebrou seu controle sobre todos, mas ninguém voltou a olhar para cá, então me concentrei a olhar somente para o professor, não queria de jeito nenhum encontrar algum olhar me fitando, se não fosse o de Killian, é claro.

Desculpa.

Disse a Lexa pelo elo.

Mas ela não me respondeu só enroscou os dedos aos meus e se aproximou de mim.

Consegui encontrar Joshua e sua família pelo canto do meu olho, droga... eu arruinei tudo pra ele.

Sua mãe parecia muito com a diretora Witwer, era exageradamente magra e alta. Só que Lucinda Strider parecia tão amarga que o jeito a qual Joshua tinha descrito ela, agora parecia até doce e feliz. O pai dele que eu ainda não sabia o nome, era parecido com a mulher, que chegava a ser muito estranho. Os três eram pálidos, de cabelos de um tom escuro penetrante, só que diferente dos pais, Joshua não tinham um rosto intimidado e murcho de rancor, o dele no caso estava mais para claramente assustado. Só que normalmente ele parecia bem mais feliz do que demonstrava agora.

Lexa

Minha mente mal conseguia processar tudo que meu irmão tinha feito e da forma que tinha feito, mas eu só conseguia sentir orgulho e nada mais. Mas por ora era melhor não falar nada. Claramente não era melhor momento para eu dar pulos de alegria, não mesmo. Era o deles. E da vovó e do vovô também, que ainda estavam em choque.

Não demorou muito depois que o professor Garrett apareceu para que o restante dos professores também aparecesse, junto da diretora. Essa que vestia um deslumbrante vestido preto para ocasião, com luvas da mesma cor.

Enquanto falava ninguém se atreveu a olhar para cá. Primeiro pela onda maciça do poder do nosso professor sobre eles, segundo porque ninguém seria mal-educado o suficiente para não olhar enquanto a diretora Witwer falava e terceiro porque eu estava discretamente manipulando a energia de todos. Mandando ondas de calma e a apatia a cada intervalo de quinze segundos.

Mas Killian não se deixava abater tão facilmente.

Seu olhar estava aqui, sobre nós. Segurado por Roman que olhava na direção da diretora. Mesmo que eu não fosse capaz de saber o que Killian sentia, era fácil perceber que ele queria voltar, e continuar o que estavam fazendo antes. Mas ele não faria outra cena. Bem, ele tinha começado isso tudo, não é? Então não sei exatamente o que eles eram ou não capazes de fazer quando suas emoções estavam em jogo desse jeito.

E por algum motivo eu ri.

Eu estava feliz por eles. Pois independente de tudo, ninguém aqui, fora aqueles dois, poderia dizer qualquer coisa sobre aquele beijo. Pois não interessava a ele, não mesmo. Interessava somente aos dois.

Matheus

Preciso falar com ele. Olhar para ele.

Comentei telepaticamente com minha irmã assim que a diretora interrompeu seu discurso para começar a música.

Deixe de fogo, vocês esperaram tanto, podem aguardar mais um pouco.

Respondeu me repreendendo.

– Lamentamos muito seu pai não poder ter vindo.

Disse a vovó puxando assunto.

Olhei ao redor rapidamente, ninguém olhava para cá. Todos estavam falando entre si. Conversando com suas famílias. Então eu faria o mesmo, tentaria.

– É o papai...

Comentei, me arrependendo logo depois por ter começado com cinismo e deboche.

– Ele que saiu perdendo.

Lexa acrescentou. Não tive tempo para perceber como ela estava linda no vestido rendado.

– Ele sente muito crianças.

Vovô comentou tentando apaziguar, como sempre.

– Hmm... Talvez apareça para o nosso aniversário.

Respondi tentando parecer calmo.

– Ele vai, e nós vamos tentar também – vovó acrescentou – E devo dizer que seus últimos meses devem ter sido muito interessantes.

Completou rindo. Ela estava se divertindo.

– Aparentemente mais interessantes que os meus quando eu estudava.

Vovô completou.

– Isso porque o senhor frequentou uma academia no milênio passado, vovô. Muitas coisas evoluem.

Lexa acrescentou debochada.

– Você tem que lembrar que eu também estudei no milênio passado, querida

Disse a vovó.

– Mas a senhora envelheceu bem.

Lexa respondeu.

– Teoricamente todos os bruxos envelhecem do mesmo jeito – disse em resposta sorrindo, vendo vovô achar graça de tudo – Eles parecem ser só dez ou quinze anos mais velhos que o nosso pai.

– Obrigado, Matheus.

Vovó respondeu sorrindo.

– Oi – Joshua disse surgindo atrás de nós como uma salvação – Preciso de ajuda.

Meus avós ficaram curiosos automaticamente.

– Com o que?

Perguntei.

– Meus pais querem conhecer vocês. Vocês dois.

Respondeu ele tremendo.

– Claro.

Lexa respondeu sorrindo. Calma e concentrada, totalmente diferente de mim.

– Aliás muito prazer, senhor e senhora Lopes, meu nome é Joshua Strider.

Disse Josh aos meus avós, antes que seu sorriso desaparecesse quando o fizemos virar o corpo e começar a andar.

– O que eles acharam da minha cena?

Perguntei rapidamente antes que não houvesse mais tempo.

– Eles não disseram. Não tiveram tempo. Enchi eles com informações de vocês dois, e como são claramente os melhores alunos daqui em anos. E que Lexa tinha um namoro com Roman. Isso pareceu alegrá-los.

– Eu não namoro o Roman.

Entoou ofendida. Sem motivo aparente para mim.

– Sei disso, mas eu tinha que dizer algo. Só não contradigam nada que eu disser. Nem mesmo se for algo ruim.

– Certo.

Assentimos juntos.

Paramos de correr assim que entramos no campo de visões de seus pais. Coloquei um sorriso no rosto, tomando cuidado para que ele não aparecesse afetado, mas só confiante. E torci para que Lexa manipulasse as emoções aqui.

– Pai, mãe, esses são Matheus Herveaux e sua irmã gêmea – disse ele enfatizando a palavra – Lexa.

O olhar do senhor Strider pareceu tão arrogante ao me ver que quase me fez quebrar o sorriso calmo no rosto. Mas achei melhor não fazer nada.

– Muito prazer – disse ele com sua voz rouca e cansada, como se gritasse todos os santos dias de sua vida – Rhyns Strider, e essa é minha esposa Lucinda.

O jeito a qual Josh e ele tinha dito os nomes de Lucinda e Lexa sem sobrenome era quase estupido para dizer o mínimo, que eu não entendia como Joshua era uma pessoa tão boa e altruísta.

– Muito prazer.

Dissemos juntos de forma sincronizada. Eles aparentemente gostavam da coisa estranha de gêmeos.

– A senhora está muito bonita, senhora Strider.

Lexa comentou falsamente. Isso eu tinha certeza.

– Obrigada – respondeu no mesmo tom – Joshua não tinha me dito sobre vocês em suas cartas. Não consigo crer o porquê.

– Ele é tímido – acrescentei – Mas somos grandes amigos.

– E pelo jeito o rapaz ruivo também.

O senhor Strider acrescentou, e aquilo me deixou vermelho. Não fazia a menor ideia de como agir.

– Sim, pai – respondeu Josh – Killian Kane, é o nome dele. É o pupilo pessoal da diretora, mora com ela desde que era um bebê. São praticamente mãe e filho.

Tratou ele de explicar rapidamente. Presumi que Killian não fosse se importar de ter sua vida exposta, se fosse para um bem maior.

O senhor Strider pareceu gostar da informação. Era claro que é o que estivesse acontecendo em nossas vidas pessoais não influenciavam, quando tínhamos coisas que o interessavam.

– Por favor, juntem-se a nós.

Disse a diretora de seu palanque.

Não peguei o início da conversa, mas vi o restante dos pais dos alunos sair de seus lugares e começarem a acompanhá-la em uma porta – vovó e vovô também – então presumi que fosse a hora em que a diretora fosse fazer algo que se assimilasse com uma reunião dos pais. Só que mais natalina e menos educacional.

– Nós precisamos ir – disse ele a mim, não a Josh, sua mulher só assentiu – Mas foi um prazer Matheus – disse estendendo a mão para que eu apertasse e fiz – Lexa.

Disse por fim simplesmente fazendo um gesto para minha irmã, então saíram. Lentamente e educadamente como todos os outros.

– Ar... Foi melhor do que eu pensei.

Josh acrescentou, sem perceber que eu fitava a minha mão.

– Algum problema?

Lexa perguntou em tom baixo.

– Nenhum.

Menti.

Pois não era hora para dizer que quando toquei no senhor Strider todas as partes do meu corpo gritaram para nunca confiar nele.

E essa era a primeira vez que isso tinha acontecido.

Lexa

Math voltou seu olhar a Killian assim que os pais de Joshua começaram a andar, mas ainda não era hora. Então o puxei para o outro lado quase tombando contra Amora.

– Ah...

Disse o senhor van Allen que quase se sujou com a taça de vinho exageradamente cheia.

Joshua quase congelou com o choque de ver Amora tão deslumbrante quanto estava, mas ela novamente não pareceu perceber os olhares dele sobre ela.

– Strider, Joshua.

Disse ele estendendo seu braço ao pai de Amora que o fitou sem entender.

Me joguei na frente e sorri, anos no internato tinham me feito boa para interagir com adultos quando era preciso.

– Muito prazer senhor van Allen, Lexa Herveaux, colega de quarto da sua filha.

A onda de alegria que enviei a ele também ajudou a prender atenção em mim. Amora estava claramente confusa com tudo.

O senhor van Allen era facilmente identificado como um professor de universidade, já que seu terno marrom claro, as costas encurvadas, a barriga saliente e os grandes óculos, pareciam sido tirados do catálogo da GAP para Professores Conservadores do século passado.

– Prazer, senhorita.

Ele sorriu para mim e depois para meu irmão e Joshua, e foi embora.

Olhei ao redor, Birdy e Onika ainda estavam afastadas falando com pessoas da nossa idade que não eram daqui, presumi que fossem primos e primas que ainda não tinham sido escolhidos para academias em algum lugar do mundo.

Já Amora não tinha escolha de socializar, estava presa ao grupinho dos chamadores de atenção.

Então percebi Roman atrás de mim.

– Vocês estão bem?

Perguntou ele, não sabia exatamente o que ele queria como resposta.

Amora não disse nada, e a seguimos pela primeira vez.

Killian estava ao lado do meu irmão, nenhum dos dois disse nada. Provavelmente nem sabiam o que fazer. Não sem uma briga no meio.

– Na medida do possível para nós.

Comentei rindo.

– Eu só tenho uma palavra para vocês dois – Amora entoou, para Killian e Math, saindo de seu silêncio – Finalmente.

E todos rimos.

– Garota, estava na hora de você falar alguma coisa que valesse a pena ouvir. Mas agora eu quero dançar.

Disse agarrando aos braços e Roman e fazendo meu corpo girar.

Não demorou muito para que todos os adolescentes imitassem a gente e começassem a dançar.

Tentei manter todos entretidos o máximo que consegui. Então isso envolvia deixar Amora aqui para Joshua, mas também flertar com o Roman, e dar uma situação em que Killian e Math pudessem interagir da forma menos chamativa possível.

Com o passar das músicas os únicos que ainda olhavam para nós eram Hazel e Rex, e ciúmes e a raiva transbordavam deles.

Por fim aquela sensação surgiu. Meu corpo parou de girar, e o ar pareceu criar um caminho tremulante me guiando a subir as escadas – eu não sabia quais escadas, só que existiam.

A música foi se abafando. Meu corpo foi gelando e minha atenção desvanecendo aos poucos, então o barulho encheu meus ouvidos até minha visão encontrar o corpo de Amora caindo sobre os braços de Joshua.

– Amora!

Joshua chamou. Tentando não criar outro escândalo.

Ela não tinha despencado ao chão, então ninguém tinha percebido.

Seus punhos cerrados se apoiavam em sua testa franzida.

– Sua cabeça está doendo?

Math perguntou, mas Joshua respondeu.

– Não, senão eu sentiria.

Maldição, a sensação não era minha, era dela. Eu tinha captado novamente o que ela sentia.

– Você voltou a ouvir.

Disse por fim.

– Ouvir o que?

Killian perguntou se pondo entre Math e Amora.

– Ouvir o miado, ou sei lá o que era aquilo.

– Não.

Amora tratou de responder, se recompondo. Tanto fisicamente, quanto em atitude.

– Está escondendo algo, eu sinto.

Math acrescentou focado nos olhos de Amora, acho que ele não percebia que fazia isso sempre que tentava descobrir algo de alguém sem tocar nessa pessoa. Ele era sempre levado a olhar diretamente nos olhos dos outros.

– Eu não estou ouvindo um miado.

Respondeu.

– Você está com medo.

Comentei me sentindo uma idiota por não ter sentido isso antes.

– Por quê?

Matheus perguntou.

– Porque eu estou ouvindo algo.

Esclareceu.

– O que?

Perguntei.

– Vozes.

Confessou escorregando seu olhar do chão até nós.

– Está sentindo mais alguma coisa?

Killian perguntou.

Algo nele estava percebendo algo nela.

– Sinto medo – confessou – Mas não só o meu. E eu não sei a quem ele pertence.

– Seus poderes. Sua magia. Amora, eu avisei você – Joshua completou se pondo em sua frente e agarrando seus ombros – Eles estão dentro de você, não pode suprimi-los.

– Suas habilidades feéricas voltaram de novo – afirmei – E não só isso, eu estou recebendo elas também.

– Como?

Math perguntou confuso. E era fácil entender. Se eu não conseguia nem sentir o que ele sentia como estava canalizando o estresse de Amora?

– Emoções. Eu canalizei dela para mim, mas não eram dela. Nem minhas. Agora o problema real é, de quem elas são?

Disse por fim, e Amora gritou. Não como uma banshee, mas como se seu estômago estivesse derretendo por dentro.

– Algo está acontecendo – comentou ela se virando para a porta de entrada – Algo está acontecendo lá fora.

– Alguém está sangrando... Alguém está morrendo!

Joshua completou se levantando em um baque só.

Matheus

– Precisamos chamar alguém.

Exclamei.

– Não dá tempo.

Disse Joshua.

– Ele vai morrer.

Amora completou.

– Não no nosso turno. Não de novo.

Lexa acrescentou com um olhar incandescente.

– Para onde?

Killian perguntou a Joshua.

– Perto do lago...

Respondeu.

– No memorial. Eu sonhei com ele a semana toda. Deve ser o memorial.

Amora completou.

– Então vamos, agora!

Roman entoou, então corremos.

Atravessamos a primeira porta que achamos. Alguns metros perto de nós. Meia dúzia de pessoas nos seguiram com olhar, nenhuma delas eu consegui distinguir com clareza. Pois não era só mais uma cena que estávamos fazendo, era diferente. E de certa forma, estranhamente frequente.

O gigantesco pilar prateado estava brilhando. Então vimos. Com seus dois braços estirados e apoiados no pilar, com o sangue escorrendo dos pulsos e a força vital se esvaindo a cada gota.

Era o Tate, quase desabando sem energia alguma para se manter de pé.

– O que ele está fazendo?

Lexa perguntou confusa, mas nenhum de nós conseguia entender.

– Ele está morrendo, só isso.

Joshua retrucou ainda correndo na direção de Tate, para curá-lo.

Ele não só sentia a dor de Tate agora com mais potência. Também deveria estar apavorado pela possibilidade de presenciar outra morte. Dentro e fora da sua mente.

Então ele foi lançado para longe. Uns dois metros e meio.

– Tate o que está fazendo?

Perguntei gritando. Ele havia usado telecinese contra o Joshua, então sua magia ainda estava funcionando.

– O que eles me pediram – comentou com a voz fraca – O que eles me mandaram.

– Me deixe curar você.

Joshua suplicou.

– Eles não vão deixar.

Respondeu, mas Josh não ouviu e tentou novamente e mais uma vez foi lançado para longe. Cinco metros agora, chegando a passar por nós. Tate não tinha feito aquilo, não mesmo.

– Tate, pare!

Roman gritou tentando colocar juízo nele.

– Eles... Precisam de força...

– Quem?

Amora perguntou.

– Os fantasmas... Eles precisam de energia... De poder...

– Você está louco.

Lexa respondeu.

Então um calafrio cortou minha coluna. E mais um, e mais um e mais um. Até Killian segurar minha mão, trançando seus dedos quentes entre os meus.

– Eu poso vê-los. Eu posso ouvi-los... É o meu dom...

E isso estava cada vez pior.

– Eles estão aqui – gritei assim que o vento cortante surgiu – Estão absorvendo energia dele.

– Eles me obrigaram – voltou Tate a falar – Eles controlam tudo.

– Roman, pare o vento.

Killian pediu.

Roman levou seu olhar para alto, mas nada aconteceu.

– Não é natural. Não posso parar.

Disse ele em resposta. Irritado.

– São eles. Todos eles.

Tate respondeu caindo de joelhos com seus pulsos ainda sangrando.

– Ele vai morrer!

Amora gritou para mim.

– Faça-os parar Tate – Lexa pediu – Faça-os obedecerem a você! Não ceda a eles. Não morra, por favor.

E a dor na voz dela causava uma sensação de dor maior dentro de mim.

Mas não iria ocorrer de novo, não deixaríamos mais alguém morrer, não tão perto de nós.

– Eles... E-eles não me obedecem – Tate voltou a falar, sua voz estava cada vez pior – Todos os dias sem parar, eles pediram, suplicaram, mandaram, ordenaram... Eles precisavam... Eles precisam... Me deixem dar o que eles querem, por que as vozes têm que parar...

Completou. E dava para perceber que aquilo estava deixando ele fora de si.

– A energia dele está sumindo – Josh voltou a falar – Ele deve ter se conectado ao memorial, está drenando suas forças. Precisamos tirá-lo de lá, ele não vai aguentar muito tempo.

– Como vamos fazer isso? Como cortar a conexão com o feitiço sem matá-lo junto?

Killian perguntou, mas Joshua não sabia todas as respostas.

Tentei puxar Tate com telecinese mais fui impedido por um estranho muro de energia, forte o suficiente para me bloquear sem causar nenhum esforço.

– Não consigo puxá-lo.

Comentei antes que mais alguém tentasse.

– Como ele fez isso? – Amora perguntou – Como se conectou a eles?

– Ele deve ter encontrado um feitiço que transmitisse a energia vital dele aos fantasmas através de um elo físico que fosse representativo para ambos. Quase como se estivesse nos dois planos. Tanto o nosso, quanto no deles. Por isso derramar o sangue no memorial, ele é a ponte de transição.

Killian a respondeu explicando tudo.

– Precisamos de ajuda para cortar o elo entre os dois então. Ajuda imediata.

Lexa gritou o mais alto que pode, o vento tinha ficado pior. Muito pior. Mas seu corpo foi laçando ao ar antes mesmo que qualquer um de nós pudesse fazer alguma coisa para ajudar.

– Lexa!

Gritei antes de ter o meu corpo jogado pela energia invisível também. A mesma do muro.

Roman e Killian foram os próximos a serem promovidos a bolas de golfe. Isso parecia uma brincadeira de criança. Onde nós éramos a bolinhas de ping pong.

Levei meu olhar até Lexa e estendi minha mão. Isso precisava parar. Parar agora, já tinha se estendido demais.

Corremos um para outro e demos as mãos o mais forte que conseguimos e a energia se fez completa novamente. Nos tornando cheios de poder.

Immobiles.

Dissemos, conjurando o feitiço.

Mas somente o vento parou e mais nada. Tudo ainda era um completo caos. E então percebi que mesmo poderosos, éramos tão inúteis como qualquer outro se não tivéssemos ciência do que estávamos fazendo, como tinha ocorrido.

Era necessário um plano, mais do que o talento.

– Meu deus!

Amora exclamou perto de Joshua e então vimos o que ela também estava vendo.

E ela não foi a única a ter essa reação. Fantasmas haviam surgido em nossa frente.

– Mas alguém os vê?

Perguntou Amora aterrorizada, mas não foi preciso respostas.

O silêncio já respondia isso, e o medo também.

– Vocês precisam parar já.

Gritei em direção aos fantasmas.

E antes eles eram cinco, agora eram vinte.

Todos com rostos jovens, todos belos. Todos mortos. Todos eles iguais a nós. Eles eram alunos. E eles pareciam... Não, eles tinham as mesmas expressões que nós. Eles tinham medo também? Mas medo de quem? Ou pior, do que?

Isso era confuso demais.

– PRECISAMOS DELE – disseram em uníssono – QUEREMOS ELE!

Completaram, suas vozes ecoavam juntas, quase arranhando meus ouvidos por dentro.

– Ele vai morrer se continuar assim. Está um passo de se tornar um de vocês. Não podem permitir isso, não vocês – Joshua tentou apelar – Precisam me ajudar a ajudá-lo. Eu imploro. Não deixem mais um morrer aqui.

– Isso não é certo.

Roman entoou sem muita eficácia.

Nada parecia fazê-los ouvir a razão. E eu nem sabia se eles eram capazes de entender tal coisa.

– A guerra está voltando para Nova Salém – voltaram a falar – E ela nunca caminha sozinha... Nós precisamos estar prontos para tudo. PRECISAMOS DO PODER DELE... DE ALGUÉM PERTO DE NÓS... COMO ELE!

– Abusaram dele – Amora gritou trocando medo por fúria, ela parecia sentir aquilo por dentro da própria pele – Mexeram com sua cabeça, como tentaram fazer com a minha. E nenhum de nós é um fantoche para ser usado e descartado. Vocês não tinham esse direito, como acham que tem.

Então o fantasma de um rapaz – o primeiro a ter aparecido – se lançou contra Amora, sem acertá-la só ameaçando-a.

– Vocês não entendem! – gritaram ainda em uníssono, seu rosto mudou, adquirido uma forma monstruosa – O inimigo está voltando... Guerra e morte, e nós ficaremos indefesos de novo. Precisamos proteger a cidade. Precisam proteger a academia. Esse é o nosso trabalho. Nosso dever com nosso lar.

E só então me permiti analisá-los.

Não só o que poderiam estar sentindo, mas como eram. Todos eram de épocas diferentes, tinha roupas destruídas e acabadas. Tinham traços em comum, e ela estava lá também. Cecilly estava no meio deles, olhando para todos os lugares sem reconhecer onde estava. Sem entender nada, como a gente.

– Vocês estão confusos – comecei a dizer o mais rápido que conseguia falar – Estão perdidos. Todos vocês. Olhem para si mesmo. Não podem mais fazer nada, não é nem mesmo trabalho de vocês. Precisam lembrar o que aconteceu com cada um de vocês.

– O que está fazendo?

Lexa perguntou confusa.

Ela não entendia, eu sim.

– Lembrando eles. Lembrando que todos estão mortos.

Exclamei por fim encarando Cecilly no meio da multidão de aparições. Então ela achou o que eu achei. E seu corpo congelou novamente, sem expressão.

Aquele ainda era um assunto inacabado para todo mundo, principalmente para minha irmã.

– CALEM A BOCA!

Ordenaram enfurecidos, e o chão tremou. Tudo tremeu, como se não estivessem aqui, mas fossem parte do terreno. De tudo.

– Não! Vocês não são mais bruxos! São fantasmas! Precisam ver isso!

Gritei me arrependendo logo depois.

E antes eles eram vinte, agora eram cinquenta.

Tate agora estava jogado ao chão.

Joshua e Amora mudos, ele não tinha mais tempo. Segundos de vida talvez.

Tentei pensar em algo.

Em alguma coisa, mas nada parecia fluir.

Olhei então para Killian, sua expressão também era de terror.

– Ataque...

Sussurrei e ele fez, sem pensar duas vezes.

Killian começou a correr, retirando seu isqueiro do bolo, criando uma espada de fogo.

Ele girou no ar e acertou o chão criando uma pequena implosão. Roman e Joshua correram até Tate e o agarraram pelo Braço. Amora e Lexa ainda encaravam os fantasmas.

Reuni toda a energia que consegui na palma da mão e soquei o solo e tudo voltou a tremer. E por um segundo eu pensei, onde estava todos os outros que não ouviam nada?

Pedaços de pedra e do gramado começaram a voar, mas foi um esforço em vão, quando finalmente consegui traçar um plano eles se lançaram contra nós.

Como uma avalanche de energia, fechei os olhos antes de me jogar na direção da minha irmã.

Lexa

Meu único pensamento foi abaixar. Me agarrar ao Math, enquanto Roman fazia o mesmo comigo, mas quando dei por mim nada tinha nos acertado. Nada tinha chegado nem perto, então abri os olhos me sentindo incrivelmente mais fraca.

A música, o salão, tudo estava como meia hora atrás antes de vermos Tate quase sangrando e morrendo em um surto psicótico.

– O que aconteceu?

Perguntei, mas ninguém parecia saber mais do que eu.

– Tate está ali.

Amora comentou e todos nos virando ao som da sua voz. Isso não poderia ser verdade. Não fazia sentido. Menos até do que a maioria das coisas aqui.

– E nós estamos aqui. Como?

Math perguntou.

– Os professores.

Killian acrescentou.

Era a única resposta viável e explicável.

– Eles salvaram a gente? Mas por que não apareceram? Ou melhor, por que demoraram tanto? Eles não são ligados a esse lugar ou coisa parecida?

Roman perguntou.

Ele estava certo em todas as perguntas.

– E onde foram parar os fantasmas?

Joshua perguntou olhando ao redor.

Talvez tentando procurar alguém que não deveria estar aqui.

Por um segundo também fiz o mesmo, tentando achar a Cecilly na multidão. Não encontrá-la me deu um alivio estranho.

– Foram mandados embora – Amora respondeu com um tom assustado – Mas ela não.

Completou e novamente viramos para seguir o som da sua voz.

Uma garota de pele negra estava parada a nossa frente. Seu cabelo era bastante cacheado. Suas roupas claramente eram de um século muito anterior ao nosso. Nem viva, e nem morta. Nem nada. Mesmo que isso não fosse possível. E seu olhar era de uma luz branca, fraca e brilhante.

– Vocês estão em perigo – comentou, sua voz não era como a dos outros, não ecoava no ar, mas parecia sair diretamente de dentro da minha cabeça, uma sensação estranhamente familiar – Precisam ficar juntos – entoou com ainda mais força – Não contem a eles. A ninguém. Descubram as respostas. Achem à fumaça e as cinzas no início de tudo. Protejam a cidade. E me deixem entrar da próxima vez... Me deixem entrar, ou vocês seis irão morrer.

Então ela desapareceu e ninguém mais parecia tê-la notado. E tudo estava ficando assustadoramente mais complicado.

– O que fazemos agora?

Amora perguntou, pela primeira vez agindo de forma grupal.

– Ficamos juntos.

Killian acrescentou de forma clara e precisa.

E então eu vi, ele apertando a palma da mão, do mesmo jeito que eu fazia, ou que Amora, Joshua, Math e Roman também estavam fazendo, como se algo estivesse pinicando ou ardendo.

Queimando.

Mas eu queria ter certeza. Precisava.

– Amora, você está com a gente?

Perguntei sem deixar margem a qualquer tipo de interpretações.

Mas ela não olhou para mim, olhou para Joshua. Pela primeira vez vendo mais nele.

– Estou. Querendo ou não, eu estou.

Exclamou encarando a mesma direção que todos nós.

Então ficamos mudos, sem saber o que poderia vir pela frente.