CAPÍTULO VIII • Are We Ready (Wreck)
A primeira semana havia terminado, e nossos horários surgiram em nossas portas na manhã de segunda-feira.
Aparentemente éramos divididos em duas turmas de dezesseis alunos. A lista de alunos foi colocada atrás dos horários. Fomos agrupados por nossos colegas de quarto, oito rapazes e oito garotas. Obviamente Lexa estava na mesma turma que eu, o que incluía Josh e Cecilly.
Roman e Killian também estavam, aquilo parecia até uma piada.
Consegui reconhecer somente mais dois nomes da lista: Rex Holt e Amora van Allen. Percebi também que não sabia quem era o companheiro de quarto de Rex. Talvez Lexa soubesse quem era a da Amora, mas eu duvidava.
O horário parecia simples. Teoria e Conceito Básico de Magia nas segundas de manhã, e Artes Especializadas à tarde, o mesmo se repetia nas sextas. Nas terças e quintas tínhamos Artes Especializadas pela manhã, e Demonologia à tarde, e nas quartas tínhamos aulas de Prática e Exercício de Bruxaria, tanto de manhã quanto à tarde.
Lexa, com muita pressão, conseguiu me convencer a deixá-la customizar meu uniforme, o que me deixou mais apreensivo do que de costume.
Josh conseguiu escapar dela assim que disse que não iria mexer em absolutamente nada. Ela tentou convencê-lo, porém, houve algo no tom de voz dele que a fez parar. Porém, ela não teve essa consideração por mim.
O mais engraçado era que o resultado final havia sido mais do que satisfatório.
Meu novo uniforme era, como ela dizia, uma piada sobre nós mesmos. Tanto o meu quanto o dela tinham suspensórios que prendiam a minha calça chino e a sua saia ao corpo. Meu blazer desapareceu e as mangas da minha camisa social foram aumentadas de forma que passassem um pouco do meu pulso. Tamanho suficiente para minha própria psicose.
Não houve mudança alguma na minha calça preta, mas meus mocassins desapareceram, e foram substituídos por uma espécie de bota masculina acinzentada de cano baixo.
Josh perguntou depois que terminou de arrumar o cabelo para o lado, parecendo um pouco arrumadinho demais.
Virei meu corpo até ele e passei meus dedos sobre uma parte do seu cabelo curto, fazendo duas mechas pequenas de cabelo com gel descerem até sua testa.
– Agora você está pronto. – acrescentei. – Isso é uma academia de bruxaria, Josh, não uma convenção de integrantes do decatlo acadêmico.
– Sou um bruxo amaldiçoado que guarda todas as expectativas da minha família. Você pensaria de outro jeito se estivesse em meu lugar.
Acrescentou, revirando-se desconfortável.
– Nada. – mentiu. Ele ainda não sabia, porém, eu sempre sabia quando alguém estava mentindo e esse era um desses momentos. – Agora vamos.
Como a aula de Teoria e Conceito Básico de Magia começava às nove, já tínhamos tomado café da manhã, então era só uma questão de descer e ir.
Fomos os últimos a descer, todos já estavam esperando na sala de convivência.
Uma infinidade de uniformes diferentes se fez no cômodo com ar colonial. Alguns, como Josh, ainda não tinham feito nada, mas a maioria tinha mudado pelo menos uma coisa.
A porta de entrada da Casa do Leão se desfez, e um homem alto e de terno apareceu.
Ele tinha cabelos castanhos perfeitamente penteados, barba rala, e uma postura firme e, ao mesmo tempo, livre de inibições. Sem contar a terrível beleza que possuía.
– Sou o professor de Teoria e Conceito Básico de Magia. Alunos da minha turma, por favor, entrem.
Disse com um assustador sorriso confiante.
A divisão foi automática. Oito rapazes em linha reta, contando comigo e Josh, entraram no estranho corredor sinuoso e escuro que se fazia atrás do nosso novo professor.
Quando a porta se refez atrás dele, a escuridão se fez completa por alguns segundos, até que as tochas espalhadas pela parede se acenderam.
– Continuem andando, por favor.
Disse ele com sua voz controlada e sedutora.
E sim, aquele homem tinha alguma coisa estranhamente curiosa.
Andamos por cerca de cinco minutos até que o corredor começou a diminuir e diminuir de tal maneira que fomos forçados a engatinhar.
– Onde aquele homem se meteu?
Rex perguntou no final da fila, mas ninguém respondeu.
Engatinhamos por mais alguns minutos em um corredor gelado até que encontramos uma passagem luminosa e simplesmente caímos.
Como se a lógica da gravidade mudasse ou algo assim, o corredor que era uma linha reta na horizontal se tornou uma linha reta na vertical e todos caímos de uma única vez ao chão.
Uma perna caiu sobre minha cabeça e um tórax sobre minhas pernas, sem contar o lugar duro em que caímos.
Risadas femininas cortaram o chão como música.
Tentei me levantar, mas ainda havia alguém em cima de mim.
O professor voltou a falar, agora sentado.
A sala em que estávamos era igual à da professora MiMi Santiago, com aquele mesmo esquema de meio círculo para as cadeiras, subindo em uma espécie de nivelação.
Havia um quadro negro gigantesco atrás do professor, armários e estantes cheias de livros e vasilhas de vidro, e um estranho cheiro de azedo, mas esse não havia na outra sala.
Procurei Lexa e me guiei até ela. Josh me seguiu e logo todos estávamos sentados.
Rex e a garota Amora se sentaram acima de mim, enquanto Killian e Roman dois níveis abaixo. Formando quatro linhas de quatro alunos.
Nossos livros das sombras estavam sobre a mesa retangular e curvada. Dessa vez fiquei me perguntando se iríamos chegar realmente a usá-los. Já que a professora MiMi não tinha feito uso deles nas três aulas que ganhamos de castigo.
– É um prazer conhecer todos vocês. – disse o professor ajeitando a gravata cinza. Tudo aqui parecia brilhar em tons de preto e cinza. – Como devem imaginar, eu sou um dos seus professores. Venho da Noruega e vocês podem me chamar tanto de Senhor Garrett ou Professor Garrett, ou só professor. Claro que se vocês me chamarem de Henriksen, meu primeiro nome, sem a minha permissão direta, eu vou trancá-los em um pesadelo sem fim. E sim... Eu tenho permissão para fazer o que quiser com vocês, contanto que estejam dentro dos muros dessa academia. Então não me irritem.
A turma ficou em silêncio, porém, não era medo. Era outra coisa.
De algum jeito ele exala um sentimento de... De admiração nas outras pessoas.
É diferente. Ele consegue afetar massas de um jeito que meu poder não consegue. Não ainda.
Perguntou o professor olhando para alguém acima de mim, me fazendo girar a cabeça para conseguir ver quem era. A garota era colega de quarto de Amora, como presumi por estar ao lado dela. Tinha uma pele morena levemente avermelhada, e um cabelo escuro com cachos longos e olhos finos, facilmente detectáveis de herança nativo-americana, não que fosse minha área de especialização.
– O que o senhor vai passar exatamente para nós?
Sua voz era fina e irritante, tanto que me fazia lembrar dos filmes de estereótipos adolescentes.
– Ótima pergunta, minha querida. – quase pude ouvir um suspiro sair dela quando ele respondeu aquilo. – Vou ensinar a vocês o que quiserem. Mais especificamente a base por trás de toda magia existente. Contudo, não só isso, mas um tema será sempre recorrente.
Disse o garoto da fileira abaixo de mim. O nome dele era Samir, se eu não me enganava. Alguma descendência árabe ou israelense. Porém, eu não estava completamente certo.
– Exato. Minha disciplina é Teoria e Conceito, mas não estou aqui para dizer-lhes como nossa espécie acredita que o mundo surgiu ou como o sol paira no céu acima de nós. Estou aqui para ensinar Teoria e Conceito Básico da Magia, por trás não só da faceta mais óbvia, mas também daquilo que nos destruiu uma vez. Então, vamos aprender um pouco de tudo. Cada um de vocês levante a mão e me faça uma pergunta. E eu responderei. – o olhar dele foi levado para acima de mim novamente, onde Rex havia levantado a mão outra vez. – Sim, senhor Holt.
– Estou com uma curiosidade, porém, não sei se ela é da sua disciplina.
O tom de voz calmo e disciplinado que ele havia usado parecia até de outra pessoa. Aquilo me fez revirar os olhos.
– Faça sua pergunta, só assim poderei dizer.
– Queria saber um pouco sobre bruxos gêmeos.
Um som baixo de risadas se fez no ar.
Lexa começou a dizer na minha cabeça, mas forcei meus ouvidos mentais a não escutar o resto.
Josh perguntou em tom baixo perto de mim.
O professor ficou mudo por um tempo, não surpreso e nem abalado. Parecia se deliciar um pouco com tudo. Não me pareceu pessoal, mas só sádico da parte dele.
– Jovens, sempre sendo jovens. Vejamos... Bruxos gêmeos são um assunto pouco abordado em qualquer lugar, pois não é sempre que nasce alguém como vocês dois, por exemplo.
Disse ele apontando para mim e minha irmã, com seus olhos quase penetrando nossas mentes.
– Mas por que eles são poderosos?
Dessa vez foi o colega de quarto de Rex que perguntou.
O rapaz de sotaque russo e olhos cansados.
– Sim, senhor Romenick. Porque eles partilham de algo que os bruxos não são capazes de fazer naturalmente. Bruxos gêmeos são envoltos em um invólucro de poder. Que funciona do mesmo jeito que a união de um círculo de bruxos faz. Como todos sabem, alguns bruxos, quando terminam seus estudos, se juntam a alguns outros bruxos, normalmente num grupo de quatro a cinco integrantes, e criam um círculo. Unindo seus poderes, espíritos, mentes, corações, alma e consciência em um só. Essa união mística é um pouco rara e predestinada. Criando uma espécie de bolha de energia que lhes permite aumentar seu poder. O mesmo acontece com bruxos gêmeos, só que de forma natural e totalmente espontânea. Eles podem maximizar o poder um do outro naturalmente. É por isso que são raros e poderosos. São tudo que a maioria dos bruxos quer ser, mas precisam ter a sorte de conseguir. Partilham até mesmo do laço mental que um círculo possui. A única diferença mais visível é que se um gêmeo morre, o outro não morre junto, pois suas vidas não foram unidas, como acontece em um círculo. Contudo, o irmão sobrevivente perde a capacidade de conjurar feitiços já que são presos a essa regra. Algo que num círculo não existe. Seus integrantes podem realizar magia livremente da presença ou contato de um outro integrante, mas bruxos gêmeos são para sempre presos a essa regra de permanência.
Respondeu satisfeito com sua explicação.
Não havia nada novo para nós, estávamos cientes de tudo aquilo.
Quatro outras pessoas levantaram a mão, incluindo Josh.
As perguntas foram se tornando cada vez mais vagas e malucas. Rex e seu colega de sobrenome Romenick não perguntaram mais nada, porém, ele pensava em alguma coisa. Dava para sentir seus olhos fitando minha nuca.
O professor Garrett parecia se divertir em tornar o que qualquer um dizia de volta para ele. O que me fez pensar que, se eu tentasse ridicularizar o Rex, o senhor Garrett poderia ficar contra mim ou vice-versa. Ele era um homem curioso.
Amora levantou sua mão logo depois, e por algum motivo aquilo reacendeu minha atenção. E principalmente a de Josh.
Comecei a observá-la com mais atenção há alguns dias e nunca a tinha visto sorrir. Porém, ela não parecia estar triste, mas com certeza não era um poço de alegria.
– Mestiços... O que eles são exatamente?
Todos miraram para o professor com mais atenção do que nunca. Mestiços eram um tema que praticamente se igualava com bruxos gêmeos no quesito de arrumar confusão.
– Excelente questão. – acrescentou com um olhar duvidoso. – Como todos devem saber, mestiços são todas as criaturas nascidas da união de duas espécies de seres místicos diferentes. Obviamente a união com humanos não é considerada alarmante, já que a maioria dos seres místicos possui uma facilidade muito grande de procriação com essa espécie, onde na maioria dos casos a prole nascerá como um ser místico. Porém, quando o assunto se torna mais eclético, tudo muda. Não é incomum que seres místicos tenham casos com seres de outras espécies ao longo da vida, e normalmente não é visto de maneira pejorativa ou vergonhosa. Porém, quando essa relação gera frutos, tudo muda. Uma criança nascida de dois berços de magia diferentes normalmente desenvolve uma série de complicações.
– Quanto mais diferentes as duas espécies forem, mais problemáticas essas crianças se tornam. Tanto em personalidade, traumas mentais, problemas de estrutura congênita e afins. São inúmeras possibilidades. Uma boa comparação é a geração de filhos com parentes próximos, ignorando a perversão nisso, como irmãos ou seus próprios pais, causando quase sempre algum problema genético. Porém, essa criança nascida de dois berços pode vir a puxar somente um lado de sua genética. Se tornando assim praticamente como qualquer outra de sua espécie. Ela pode vir a desenvolver algum tipo de sexto sentido direcionando a sua outra herança também. Mas quando ela nasce herdando ambas as características, o resultado normalmente é desordem. Tanto em sua magia, em sua mente, e como disse antes, consequências físicas. Contudo, normalmente essas crianças não passam dos primeiros anos de vida. Então achar um mestiço que tenha suas duas espécies afloradas é quase tão raro como achar outro par de bruxos gêmeos loiros por aí.
E mais uma alfinetada. Ele realmente não escolheu um lado para jogar.
– Agora quem quer saber um pouco da elegância e finesse da magia?
E novamente ele mexia as peças do tabuleiro.
Não sei, talvez a voz dele, de algum jeito somos guiados pelo que ele deseja na voz. Quem sabe...
Ela não respondeu, só tocou a ponta dos dedos sobre a minha mão perdida na mesa. Dessa vez não houve uma descarga de energia.
Acho que eu posso. Só tenho que me concentrar.
Mas assim que a sensação estranha provocada pelo professor foi anulada, ele nos fuzilou com os olhos.
Disse ele com sua voz ainda mais aveludada.
Todos nos encararam e dessa vez até Killian mirou o olhar dele até mim.
Ela agarrou minha mão com mais força.
– Então vocês querem brincar? Né?
E lentamente a risada baixa e cínica dele foi se tornando alta e descontrolada até que ele perdeu toda a compostura que tentava passar e teve que segurar o estômago.
Então ele se calou subitamente e a estranha pressão ao redor de nós desapareceu.
– Vocês são interessantes. – disse ele enquanto ninguém mais entendia nada. – Muito interessantes.
Perguntei atônito em pensamento.
Ele estava fazendo pressão contra nós, muita pressão.
É, eu senti, só ainda não sei explicar como o poder dele funciona.
O restante da aula decorreu de forma mais ou menos normal.
Lexa não precisou nos proteger de algum jeito da influência causada pela magia do professor, ele parecia tê-la parado, ou se bloqueado. Era evidente que o poder dele funcionava em um âmbito geral. Tudo ou nada, pois o restante da atenção se voltou para nós e o que tinha ocorrido ali.
Mas aquilo tudo parecia uma brincadeira estranha.
Três horas se passaram como o clarão de um relâmpago.
O professor Garrett parecia estar acostumado ao posto e conseguiu conduzir a turma mesmo sem precisar causar a influência direta, mas todos estavam atentos a ele como se esperassem algo surpreendente acontecer.
Fomos liberados para o almoço alguns minutos antes do término da aula. Três garotas e dois rapazes desceram e foram tirar mais algumas dúvidas com ele sobre o assunto que resolveu abordar, a concepção da arte da guerra.
Claramente nenhum deles estava realmente interessado naquilo, mas o interesse era na voz dele e no que ela podia causar.
Novamente não precisei abrir meu livro das sombras, e aquilo estava começando a me irritar. Queria usá-lo. Ou melhor, descobrir como.
Lexa se juntou a mim e Josh enquanto descíamos as fileiras. Cecilly, que tinha se mantido o tempo todo calada, já havia desaparecido.
Perguntei claramente me referindo à sua colega de quarto.
– Estranha. Não comigo em si, mas hoje pelo menos com todo mundo.
– Com dor ela não está. – Josh acrescentou se juntando à conversa. – Mas ela parece estranha.
– Mas depois de hoje quem não parece estranho nesse lugar?
Lexa perguntou retomando uma pose que eu só tinha visto em fotos.
Seu braço estava segurando seu cotovelo junto à cintura e seus dedos dançavam no ar perto do seu queixo.
– Pare de me encarar, e vamos comer.
Ela disse me puxando pelo braço, quase correndo assim que uma porta se desfez perto de nós.
Josh tentou dizer, mas assim que Lexa parou foi outra coisa que passou pela sua mente.
Não estávamos no refeitório, isso era claro como a luz do sol.
Perguntei, mas era óbvio. As dezenas de estantes formando um labirinto ao nosso redor, ostentando uma infinidade de livros, eram resposta mais do que suficiente.
– A biblioteca das sombras. – Josh exclamou quase gaguejando. – Uma das mais completas bibliotecas de todas as academias. Os segredos aqui guardados datam de muito antes do Grande Incêndio, coisas remotas da primeira guerra das espécies.
Isso era então mais do que impressionante. A primeira guerra das espécies foi algo de mais de mil anos atrás, quando os demônios tentaram pela primeira vez destruir os bruxos e dominar os seres místicos.
– Impressionante. – Lexa acrescentou em tom seco e sem emoção. – Mas como saímos daqui se nem tem uma porta por perto?
– Deveria ter. Todas as vezes que passamos por uma dessas portas de lugar nenhum, elas eram ligadas a outras portas.
– É a biblioteca, ela deve fazer isso.
– Magia, é claro. A maioria desses livros é carregada não só de conhecimento, mas de magia pura e concreta. Devem atrapalhar o feitiço das portas.
– Mas isso não diz como sair daqui...
– Irônico. – acrescentei rindo. – Estamos presos em um lugar sem saber como sair, sendo que esse lugar deveria nos dar respostas.
– Hahá. – Lexa arfou. – Vou queimar esse lugar se não nos tirar daqui agora. Não é porque temos duas horas de almoço que eu quero desperdiçar meu tempo.
Uma mulher de vestido vermelho apertado estava atrás de nós. Ela tinha uma cintura incrivelmente fina, mas com coxas e busto mais do que avantajados, fazendo seu corpo parecer mais irreal do que outra coisa. Seu cabelo estava armado em um corte antigo cheio de laquê, como duas ondas cortadas no meio da cabeça.
– Cassandra Klaus, personificação astral desse lugar. E é melhor você dobrar a língua para falar comigo.
– Ela é o que eu estou falando, a magia carregada dos livros. – Josh explicou tomando três passos à frente para observar a mulher. – Você é bem fantástica, senhora Klaus.
Disse tentando ser educado, ela sorriu para mim também.
Lexa fez um som com a boca como se desmentisse o elogio de Josh, mas a mulher fingiu não ouvir.
– Será que a senhora pode nos mostrar como sair daqui?
Ela estendeu o braço graciosamente no ar e tocou o livro mais próximo. Imitando o desenho de uma das portas, os livros se desfizeram em pó, e o barulho de mais de duas dúzias de adolescentes almoçando encheu o ar.
– De nada, e você, garotinha, deveria ser mais educada.
Lexa desdenhou de volta, já praticamente atravessando a porta.
Então a porta se refez antes que Lexa pudesse responder de volta.
– É só um sotaque, eu sou brasileira!
Disse ela em alto e bom som já para a porta totalmente fechada.
E, como um raio rasgando o céu, nós éramos a atenção de todos novamente.
– Você pode se calar agora, mana.
– Nem posso imaginar como você seria em um reality show.
Roman acrescentou antes mesmo que percebêssemos sua presença.
Lexa riu da mesma forma que fazia todas as vezes com ele. Killian estava na frente de Roman com seu olhar sério de sempre.
– O que aconteceu na sala de aula?
Killian perguntou enquanto eu ainda estava parando em pensamentos.
– Vocês devem ter percebido. – Lexa se adiantou para responder à pergunta de Killian. – Que o professor exerce algum tipo de influência hipnótica. Eu estava tentando bloquear ele com o meu dom, mas ele percebeu e tentou lutar de volta, também não fez muito sentido para a gente.
Começamos a andar até a mesa mais próxima e só agora eu tive tempo para reparar no que Roman e Killian tinham feito nos seus uniformes.
Killian era de longe o mais ousado. Usando o sobretudo preto envelhecido, as botas com bico de metal que pareciam sempre sujas de lama, e trocado a calça social por uma versão mais estilizada da mesma. Mas o mais interessante era que a fivela do seu cinto não era um quadrado qualquer de cobre, mas sim o brasão da academia.
Consegui reparar também que ele tinha alguma espécie de colar por debaixo da camiseta, mas era difícil de ver. Parecia algo vermelho, ou coisa parecida.
Roman vestia uma jaqueta bomber clássica nas cores preta e cinza, com o tradicional B bordado na jaqueta, quase como se quisesse dizer Beladona. Os mocassins também sumiram, e foram substituídos por sapatos esportivos enormes.
A conversa foi mais fácil de levar do que das outras vezes, pois agora tínhamos um assunto em comum. Killian pareceu mais participativo, até Josh conseguiu se manter junto de tudo. Lexa e Roman, bom, eles eram o alvo que eu só fazia observar.
Mas a minha atenção mesmo não estava naquela mesa em questão, mas nos outros.
Assim que sentamos, ninguém mais pareceu se importar conosco. Entretanto, algo na minha psicose sabia que nós dois ainda éramos assunto, e esse tipo de coisa só virava passado quando uma nova acontecia.
E se alguém não fizer algo bem inusitado em breve, duvido muito que deixemos de ser o alvo das atenções, principalmente se o adorável, persistente e irritante Rex continuasse no nosso pé.