CAPÍTULO I: Matheus
Essa é uma ótima pergunta, só não sei exatamente se consigo respondê-la. Talvez o rapaz que não pode tocar em ninguém sem ver seus segredos. Ou aquele que sabe exatamente a senha do seu guarda-roupa, pois era nisso que você estava pensando quando nos beijamos na primeira vez.
Ironicamente, isso não era nem o começo.
Normalmente, a primeira pergunta que me faziam era a mais óbvia. Por que meus olhos eram violetas?
Não era minha culpa, mas, muito provavelmente, da minha genética maluca. Mas isso não era uma exclusividade, só uma raridade congênita. Minha irmã gêmea, Lexa, também os possuía, mas essa não era uma informação de domínio público. Não há mais de nove anos, desde o nosso oitavo aniversário.
Nossos cabelos eram de um loiro simples. Pelo menos isso.
Porém, a genética tinha resolvido, por força maior, aprimorar o resto.
Pele rosada. Corpos esguios. Relativamente atraentes. E poderosos.
Os bruxos gêmeos da linhagem Herveaux.
Ou só Matheus e Lexa para os íntimos.
Talvez fosse por isso que possuíamos olhos de uma cor tão rara. Pois, em si, nós éramos raros.
O que não me ajudava a me misturar, vivendo no país errado para não parecer nem um pouco bronzeado.
Bruxos gêmeos não eram algo que acontecia todo dia, e, quando acontecia, todo mundo ficava sabendo do par de bruxos poderosos vagando por aí. Como a tradição mandava, nós deveríamos ser criados separadamente.
E por quê? Por falta de termo melhor, segurança. Porque, quando uma ocorrência como essa acontecia — como com minha irmã e eu —, nós tínhamos mais poder do que poderíamos controlar nos primeiros anos de desenvolvimento da nossa magia. Para isso, deveríamos ficar distantes um do outro, até que estivéssemos na idade para aprender.
Mas nossos pais, Alicia e Lucius, não quiseram ouvir a voz da razão. E por oito anos vivemos juntos e simulamos uma família normal no Rio de Janeiro, cidade natal da minha mãe. Contudo, quando minha mãe morreu, tudo desabou.
Ainda lembro com tamanha exatidão do enterro.
Da dor. Da tristeza. Da tempestade...
E porque foi o último dia em que vi a minha irmã em carne e osso.
Normalmente, os poderes de um jovem bruxo não despertam antes do início da adolescência humana, como uma estranha etapa da puberdade. Entretanto, nós éramos bruxos gêmeos; muitas coisas eram diferentes para nós. Então aconteceu. Naquele lugar.
Nossos poderes despertaram, transformando o que sentíamos em algo físico. Nunca mais voltamos ao cemitério depois daquilo. Para ser mais exato, ninguém voltou para lá por um tempo, já que a tempestade havia destruído quase metade do lugar. E Lexa e eu éramos os responsáveis.
Depois daquele dia, fomos separados.
Nosso pai aceitou um emprego — antes recusado — em um museu londrino, na Inglaterra, país onde tinha sido criado, e se mudou com Lexa, levando a separação de forma literal. Eu fui morar com meus avós maternos em São Paulo, onde todos presumiam que, como carioca, eu deveria ter sotaque, cabelos escuros e pele menos pálida.
Mas isso não nos tornou estranhos um para o outro.
Conversávamos bastante e com frequência.
A internet era uma grande aliada.
E a ligação que tínhamos, mesmo confusa, era maior que isso.
Mas a distância construiu em nós diferenças notáveis e, talvez, obstáculos.
Lexa era como o nosso pai: sua atitude, coragem, segurança. Ela era uma cópia dele. Só que sem o distanciamento emocional. Por minha vez, eu era uma cópia da nossa mãe, em qualidades e defeitos. Então a vovó sempre me chamava de gentil e paciente. Sempre ali para escutar e nunca julgar.
E o que mais eu poderia fazer? Julgar não poderia fazer parte de mim. Não quando os segredos de todos estavam a um toque de distância. Literalmente falando.
Não éramos como a maioria dos bruxos normais; isso era visível desde sempre. Havíamos nascido com magia das sombras, como a maioria, só que todos viam isso de forma diferente.
Claramente não era algo ruim ou bom. Não era tão no preto no branco, ou magia branca e magia negra como os humanos gostavam de retratar. Isso não existe de verdade em nosso mundo. Por isso chamamos de magia das sombras, por não estar em um lado ou outro da balança, mas na interseção dos dois.
Quando um jovem bruxo despertava a chama de sua magia, ele se tornava naturalmente capaz de fazer feitiços. Porém, ele também era capaz de fazer muito mais. Nascíamos sempre com habilidades. Algumas simples e outras raras e difíceis de controlar. E, no meu caso, desconfortáveis também.
Meu toque era capaz de abrir a mente das pessoas e me fazer esgueirar pelos corredores fechados dos seus segredos. Então, manter uma relação comigo que não fosse naturalmente invasiva era complicado. Vovó e vovô aprenderam a viver perto de mim sem me tocar com frequência. A dançar ao meu redor sem nunca me esbarrar. Porém, adolescentes normais tinham uma péssima capacidade de entender o espaço pessoal de alguém.
Entretanto, nem sempre que eu tocasse em alguém eu veria um segredo, às vezes, meu toque era só um toque, às vezes não. Por ora seria assim. Mas logo, quando finalmente começasse meu treinamento, eu conseguiria aprender a controlar. Pois essa falta de controle era comum para todos. Tanto que jovens bruxos raramente faziam parte de sociedades rodeadas por humanos como eu faço.
Mas, para mim e para minha irmã, Lexa, viver rodeados por outros bruxos não parecia uma opção para o nosso pai. E eu não fazia a menor ideia do porquê. Como sempre, a mente dele era um total mistério para mim. Mas meus avós concordavam. E eu honestamente gostava.
E agora tudo estava para mudar por completo de novo.
Em uma semana estaríamos indo para Nova Salém, Massachusetts, a cidade feita de fumaça. Lar da Academia Beladona. Uma das mais prestigiadas academias para jovens bruxos, e provavelmente a sentença final da minha loucura, mandando-nos bem mais longe do que eu tinha antes pensado em estudar. Não que fosse incomum, era parte da maneira que tínhamos de diversificar nossas linhagens e culturas, tornando-as uma, e não só grandes facções separadas por linhas invisíveis de território.
Americanos ou brasileiros, não fazia diferença. Éramos bruxos, em primeiro lugar, antes de qualquer coisa.
Todos nós íamos para alguma academia entre nossos quinze e vinte anos. Não havia uma idade certa, e entrar mais novo ou mais velho fazia muita pouca diferença. Idade era substancialmente relativa para nós. O amadurecimento para os bruxos só começava de verdade nas academias; era algo infundido em nossa biologia.
Algo relacionado ao fato de que, quanto mais treinássemos nossos poderes, mais maduros ficávamos. Eu sempre achei tendencioso, mas havia algum fundo de verdade.
As academias eram incrivelmente variadas e espalhadas pelo mundo. Cada país tinha pelo menos uma, alguns bem mais que isso, dependendo do tamanho do país. Todas com algum tipo de especialidade. E, nesse caso, havíamos sido escolhidos para uma em particular, com certo histórico de complicações. Já que a especialidade da academia Beladona era lutar contra nossos inimigos naturais: os demônios do purgatório.
E, como era de se esperar, quando o assunto era bruxos gêmeos, isso provavelmente tinha alguma coisa destrutiva relacionada.
E todos conheciam uma das mais famosas academias de bruxaria de todos os tempos. A Academia Beladona era como a Hogwarts para nós. Só que com uma taxa de admissão menor e uma taxa de mortalidade ainda maior. Pelo menos era assim que Lexa descrevia sempre que tocávamos no assunto.
E ir para lá era sinônimo de coragem, poder e destino. Mas, principalmente, era sinônimo de uma inevitável parcela de morte.
Uma quantidade considerável dos alunos que entrava não voltava. Mortos ou internados. Por algum motivo ligado diretamente aos demônios, ir para lá era como ganhar na loteria e assinar seu contrato de morte. Então não dava para entender como os pais ficavam tão orgulhosos quando seus filhos eram escolhidos para serem mandados para lá. Mas era assim que funcionava. Pois, se você se formasse lá depois de três anos, era não só um bruxo extraordinário em primeiro grau, mas também um sobrevivente, e provavelmente já tinha enfrentado um demônio ou dois. E isso não era uma coisa para qualquer jovem bruxo realizar.
Mas a possibilidade de fazer magia de verdade. De estar com a minha irmã novamente ou de ser um bruxo realmente, era tentadora demais para me assustar.
A vovó perguntou batendo na porta do meu quarto, que estava aberta. Eu disse que sim, balançando a cabeça, e peguei minha mala. Tudo estava pronto, feito e encerrado aqui em São Paulo. Meus amigos, Diogo e Erica, haviam se despedido de mim ontem e tudo poderia seguir como deveria.
Erica me abraçou com tanta força que fui capaz de descobrir que ela havia roubado os brincos de diamantes da caixa de joias da mãe e penhorado para comprar uma guitarra nova, cinco meses atrás. Diogo simplesmente me deu um tapinha no ombro e sorriu. Eles deixaram de fora o detalhe de que estavam se relacionando romanticamente pelas minhas costas há algumas semanas; porém, não era algo que eu realmente queria fazer questão de saber mais do que já sabia.
Eles eram meus melhores amigos há anos, mas, volta e meia, eles eram pegos pelos meus poderes e pelas suspeitas de sempre haver algo errado ou diferente em mim. Então isso dificultava as coisas.
Contudo, eles eram o mais próximo da vida humana normal que eu tive, e isso estava prestes a ficar no passado.
Daniel, por outro lado, não passou aqui.
Presumi que não fosse. Ele não havia superado muito bem o nosso término dois meses atrás. Não que eu soubesse como consegui chegar a namorar alguém por completos seis meses. Por algum estranho motivo eu conseguia me controlar melhor perto dele, porém, não tanto como gostaria, o que resultou em saber sobre sua traição, que se sucedeu no nosso término.
Respirei fundo e guardei essas informações em uma parte separada da minha cabeça. Era provável que eu nunca mais fosse ver Diogo, Erica ou Daniel outra vez depois de hoje, mas isso não era necessariamente ruim. Era só diferente.
Desci as escadas e encontrei o vovô pegando as chaves do carro. Com seu sorriso meio de lado como sempre. Ele parou um segundo para olhar minhas roupas. Não havia nada nelas de diferente. Calça jeans preta. Meu casaco, uma camiseta e tênis do mais comum possível. Mas era perceptível a preocupação. Volta e meia ele comentava como eu o lembrava dela. Da minha mãe. Ele tentava dizer como se fosse algo bom e eu gostava de acreditar que sim, mas eu sabia que era por outros detalhes. Os que tinham levado ela a fazer o que fez.
– Não esqueceu seus remédios, certo? – Perguntou.
– Sim, todos. De qualquer maneira, eles vendem ansiolíticos nos Estados Unidos, vovô, e eu finalmente terminei o desmame dos meus antidepressivos.
Respondi tentando acalmá-lo, mas ele só sorriu e eu não disse mais nada. Havia uma grande montanha-russa de emoções acontecendo com ele há muito tempo, e a minha ida para a academia não deixava melhor.
Eu tinha me assumido pouco antes de namorar Daniel, então ainda era recente para ele. Não que isso fosse um grande problema, só era recente. Ele não estava preocupado tentando entender o que era ser gay ou qual tipo de gay eu fosse ser, se é que isso era importante. Ele só temia por mais uma coisa em mim.
Disse a vovó atrás de mim, vendo o marido sair porta afora levando minhas malas. Eles realmente pareciam um casal normal. Quem imaginaria que meu avô já tinha passado da casa dos seus cento e poucos anos? Mais do que o dobro do que ele aparentava. Para qualquer um que desconhecesse a verdade sobre mim, eles eram meus pais, e Lucius, Lexa ou Alicia nunca existiram. Era mais fácil manter a fachada dessa forma do que explicar por que meu pai biológico e meu avô aparentavam ter a mesma idade, mesmo que tivessem nascido com várias décadas de diferença.
Disse calmamente, sabendo que a minha percepção da mente das pessoas com quem eu estava familiarizado era meio distorcida, mas útil.
– Eu sei. Está ansioso para ver sua irmã?
– Estou mais preocupado em tentar ficar despercebido, e convenhamos que minha irmã não é exatamente uma garota fora do radar.
– Lexa, é. Bem, Lexa é como Lucius, porém, um pouco mais animada.
– Ela vai se acalmar eventualmente, como ele.
– Eu só não entendo bem a mente dele.
– Para isso precisaríamos nos ver. O que nunca acontece. Ao menos a Lexa eu vou começar a entender.
– Tudo vai se acertar agora que você e sua irmã ficarão juntos.
É, isso não me parecia muita verdade. Mas a vovó acreditava nisso.
A viagem de carro começou lenta e tediosa. Mas uma pontada de ansiedade preventiva estava se amontoando na minha cabeça.
Três anos era o período dos estudos na academia. Não era dividida em anos escolares convencionais. Não repetíamos, era sucesso ou falha. Mas tínhamos que ficar lá por três anos para nos formarmos e sermos bruxos de verdade. Ou, pelo menos, sobreviver o suficiente para dar o fora de lá quando fosse possível.
Meus avós me contaram sobre as várias coisas que iriam fazer na nossa casinha de dois andares. Pois minha volta não era esperada tão cedo, ambos tinham uma estranha convicção que eu me daria muito bem naquele lugar. Para ser honesto, eles diziam isso sobre qualquer lugar. Eu não sabia o que pensar, então tentei não me sobrecarregar. O que parecia uma piada de mau gosto.
Vovô queria fazer do meu quarto, o maior cômodo do segundo andar, um salão de jogos. Vovó, uma sala de costura. Minha vontade era perguntar o porquê disso tudo se eles eram bruxos.
Todos eram mestres em bruxaria há quase um século e meio, não que eu os visse fazer magia com frequência. Mas eles eram poderosos mesmo assim, dava para sentir. Todavia, eles priorizavam manter sua vida o mais normal possível perto dos humanos. Então a coisa mais mística em nossa casa era nosso porão, que era o único lugar realmente protegido com magia, onde os livros das sombras dos meus avós ficavam.
Os livros das sombras eram nossa maior herança. Os construíamos assim que entrávamos nas academias. Era praticamente a única coisa que todas as academias de bruxaria existentes partilhavam em comum.
O livro das sombras da vovó era largo como um caderno de desenho, e era de um bege claríssimo com detalhes em marfim. O do vovô era grosso, quadrado e menor, quase todo em verde musgo. E era assim que você descobria de onde o bruxo vinha. As cores da academia eram as cores representadas nos livros das sombras.
A Academia Dousseau, na França, onde a vovó estudou, não existia mais, pois foi destruída por demônios trinta anos atrás. Um ataque que ninguém esperava, por dois motivos: demônios atacando academias era uma coisa ousada, porém, a Academia Dousseau não era conhecida por formar guerreiras, mas sim como uma escola para formar damas da magia. Nome dado às bruxas responsáveis pela socialização entre sobrenaturais e os humanos. Por isso meus avós eram tão habituados à vida normal.
Já a Academia São Lázaro, do meu avô, ainda estava de pé, situada em meio às montanhas de Salvador, conhecida por formar pensadores, conselheiros e estudiosos no geral.
Dessa forma, o vovô tinha conseguido estudar no seu país de origem, enquanto minha avó tinha parado do outro lado do oceano, no mesmo país em que meu avô paterno tinha nascido.
– Vocês poderiam se mudar para alguma cidade de bruxos.
Disse cortando o meu silêncio e a conversa deles.
A vovó riu e o vovô a acompanhou.
– Estamos habituados aos humanos, filho – o vovô respondeu. – Nossos hábitos de normalidade seriam vistos como horríveis tiques nervosos.
E isso era verdade. Os humanos eram maioria no mundo. Mas não eram os favoritos. Ficar nas sombras da ignorância deles era mais fácil do que tentar explicar sobre o reino místico.
A última vez que tentamos uma introdução de nossa cultura à deles foi há séculos, o que ficou conhecido como Idade das Trevas. Pois o pandemônio foi quase absoluto. Então ficar entre as lendas e fábulas era mais simples e menos complicado.
– Tem total certeza de que pegou tudo, não é?
Respondi e ele voltou a discutir sobre o que fariam com o meu quarto.
Minhas coisas não eram assim tão difíceis de arrumar. A maioria das coisas que usaríamos seria dada a nós pela academia, então levar algumas coisas pessoais era somente o necessário.
Então, para mim, eram só roupas, sapatos, meus remédios e meu relógio de bolso prateado, presente do nosso pai quando ele se despediu de mim anos atrás.
Ele poderia ter me visitado mais se quisesse. Todos sabíamos disso. Trocado alguns dias com meus avós que também praticamente nunca viam a Lexa, mas ele estava sempre ocupado viajando e viajando, que nem mesmo Lexa o via nos últimos tempos.
– Você deveria dormir, rapaz. Ainda vamos demorar até chegar ao aeroporto.
Acatei o que meu avô disse quase como uma ordem, pois as horas não ficariam mais rápidas se eu me mantivesse acordado.