Vol. I • Fumaças & Cinzas
June 7

CAPÍTULO V: Black Out Days

Lexa

​Terminei de enrolar a última mecha do meu cabelo numa trança longa. Já Cecilly havia desistido de ir à Arcadia conosco, depois do fiasco que foi essa última manhã. Mas Matheus e Josh ainda estavam de pé. E principalmente eu.

​Passamos a tarde tentando ficar fora de confusão, o que para mim pareceu mais fácil do que o normal, devo acrescentar.

​E agora era a hora da diversão.

Já estou totalmente pronta.

​Disse mentalmente a meu irmão.

​Só estávamos juntos há pouco mais de trinta e duas horas, então ainda era estranho estar a poucos metros de alguém com quem você tem uma ligação tão forte, mas que nunca pôde testá-la.

Nós também. O que está vestindo?

​Perguntou.

Cabelo trançado caindo sobre meu seio esquerdo, vestido preto justo e sem alças, minha inseparável jaqueta altamente inútil para os dias de frio, minhas novas botas de salto de couro italiano. Estou deslumbrante. E claro, com o colar da mamãe. E você?

Mais do mesmo.

​Acrescentou ele antes de cortar a conexão mental.

​Dei uma última olhada no espelho e puxei uma pequena mecha para fora da trança para que ela descesse pela minha testa e ficasse sobre minha sobrancelha.

​//

​Encontrei os dois entre as duas Casas Azuis, me esperando.

​Matheus estava usando calça jeans justa, e uma das suas dezenas de blusas de manga longa, que ele furava na barra da manga para que pudesse passar seu dedão e se assegurar de que a pele do seu braço não ficasse exposta.

​Josh vestia calça jeans e um casaco normal. E tentava não parecer fora de foco arrumando os óculos a cada cinco segundos.

​– Alguém sabe como chegar nesse lugar?

​Josh perguntou.

​– Isso é uma ótima pergunta.

​Acrescentei.

​– Que eu imagino que você não tenha uma resposta, correto?

​Matheus ironizou.

​– Exato. Mas eu posso dar um jeito.

​– Como?

​Dei dois passos para o lado e levantei minha mão acenando.

​– Hey... Rapazes!

​Chamei.

​Killian e Roman estavam saindo da Casa do Leão.

​– Não... Lexa!

​Matheus reclamou, mas o deixei falando sozinho.

​Roman foi o primeiro a falar.

​– Algum problema?

​– Sim, vocês sabem como chegar à Arcadia? Pois estamos meio sem rumo aqui.

​Sorri de modo convidativo, pois havia algo que me chamava atenção. Fora a óbvia beleza e os olhos castanhos bem claros. E só nesse momento percebi que Roman não era só atraente, mas talvez interessante.

​Ele colocou a mão no bolso da calça e tirou uma chave de carro.

​– Killian e eu vamos no meu jipe, se quiserem carona.

​– Não precisa...

​Matheus começou a dizer, mas me coloquei na sua frente.

​– Adoraríamos. Certo, Matheus?

​Perguntei sem nem mesmo olhar para meu irmão.

​Ele arfou em tom baixo e concordou.

​– Claro.

​Respondeu desistindo de lutar.

​– Absolutamente perfeito – complementei. – Mas eu vou no banco da frente, Killian.

​Tomei dianteira e fui para o lado de Roman, que estendeu o braço para que eu segurasse.

​Ele vestia uma camiseta simples, mas que era impossível de ficar justa sobre os músculos do peitoral. E aquilo era chamativo. Bruxos não costumavam exibir corpos esculturais ou trabalhados daquele jeito. Meu irmão ou até mesmo Josh tinham o corpo masculino padrão. Somente atléticos e com poucos músculos internos. Mas Killian também parecia malhar ou fazer alguma coisa, principalmente porque os reflexos dele nessa manhã mostravam claramente que ele treinava, e bastante.

​Roman nos levou para trás da Casa do Leão, onde descobrimos haver uma garagem. Consegui avistar um sedan prateado e mais duas motos. Roman se dirigiu para o seu jipe preto e abriu a porta para que eu entrasse.

​Killian foi para o banco de trás sem reclamar, ou falar qualquer coisa para dizer a verdade. Ele não estava desconfortável, pelo menos eu presumia; só então tinha percebido que as emoções dele eram bem mais difíceis de ler, para ser sincera, eu não tinha leitura nenhuma. E isso me irritava um pouco.

​Josh se sentou no meio dele e do meu irmão, e isso claramente criou uma estranha sensação nele. O que me fez rir.

Eu odeio você.

​Matheus acrescentou mentalmente, dando claros motivos para o desconforto de Josh em ser a Suécia entre meu irmão e o ruivo misterioso.

​A viagem levou vinte longos minutos para o meu irmão, e vinte agradáveis minutos para mim e Roman.

​Era fácil conversar com ele, por um simples motivo: ele não questionava.

​Não perguntou sobre a pergunta mais óbvia e nada relacionado. Ele simplesmente estava ali do meu lado, falando sobre assuntos diversos enquanto escutávamos músicas no rádio. Isso era uma mudança de cenário do que eu esperava que fosse.

​Estudar em internatos a vida toda não deixou minha vida social das mais grandiosas e glamorosas nas vielas de Londres, mas eu tinha um certo orgulho de ter mais experiência que minhas amigas; contudo, nada havia me preparado para aquilo.

​A Arcadia não era só uma boate, era tão gigantesca quanto a Casa Cinza da Academia. O lugar todo era vermelho-vivo, iluminado por luz negra do lado de fora e provavelmente por dentro também.

​A primeira coisa que procurei foi um letreiro, qualquer coisa que simbolizasse que ali era realmente o lugar, mas não achei. Porém, o som da música alta passava pelas grossas paredes até ali.

​Roman parou na primeira vaga que achou, e nem me tratei de perguntar o quão fácil aquilo tinha sido. A fila para entrar estava quilométrica, mas não consegui reconhecer ninguém da academia nela.

​– Ou chegamos cedo demais ou atrasados demais.

​Disse assim que pisei para fora do jipe.

​– Seres místicos não precisam esperar na fila, podemos entrar.

​Roman me esclareceu.

​– Então o que fazemos?

​Matheus perguntou.

​– Só precisamos chegar à portaria e olhar para cima à esquerda – Killian falou pela primeira vez nessa noite. – Vocês vão entender.

​Matheus levou seu olhar trêmulo para o outro lado.

​– Então vamos.

​Josh disse tentando parecer confiante, o que me fez pensar que ele tinha outros planos em mente. Quais?

​Ele e Matheus começaram a andar e conversar normalmente. O que me fez prestar maior atenção neles dois. Em poucas horas, a amizade deles havia evoluído de um jeito que parecia um tanto surreal. Mesmo que Cecilly fosse legal também, não estávamos tão próximas quanto esses dois estavam, mesmo sem perceberem.

​O primeiro pensamento de uma pessoa normal seria presumir que talvez eles tivessem algo romântico rolando. Mas esse era o problema de se saber sempre o que os outros sentiam. Não havia desapontamento, não havia surpresa. Você sabia de tudo sempre.

​Conhecimento era uma dádiva, com certeza, mas ignorância era um presente para poucos. Não havia os porquês, ou os talvez, era quase sempre uma sucessão de exatidão. O que chegava a ser irônico, já que as emoções eram as coisas mais volúveis que todos nós tínhamos.

​Roman, Killian e eu fomos logo depois e paramos os cinco na frente do homem gigante que era o porteiro. Meia dúzia de pessoas nos regaram com uma tonelada de xingamentos; em resposta, eu simplesmente sorri e acenei tentando ostentar a educação que eu não tinha.

Mas foi outra coisa que me chamou realmente atenção. Fazendo exatamente o que Killian havia dito, levei meu olhar para cima, e aconteceu. A palavra Arcadia se escreveu no ar, com fios de luz em neon brilhantes. Porém, havia algo mais: um símbolo que vinha logo no início da palavra, era como três pétalas unidas, feitas de um único traçado.

Mas foi outra coisa que me chamou realmente atenção. Fazendo exatamente o que Killian havia dito, levei meu olhar para cima, e aconteceu. A palavra Arcadia se escreveu no ar, com fios de luz em neon brilhantes. Porém, havia algo mais: um símbolo que vinha logo no início da palavra, era como três pétalas unidas, feitas de um único traçado.

​Era um símbolo da bruxaria, porque eu o reconhecia de algum lugar, só não me lembrava de onde. Me ocorreu por um segundo apenas, de uma série de TV com bruxas com o mesmo símbolo. Pelo que entendi, havia três linhas curvas, como se o desenho fosse feito a partir de três pontos como um triângulo. A primeira linha curva ia da primeira aresta à segunda à sua frente, a segunda linha curva ia da segunda até a terceira acima dela, e a terceira curva ia da terceira aresta até a primeira formando o estranho desenho, que vagamente lembrava uma flor de três pétalas.

​E todos os "A"s estavam invertidos para baixo, enquanto cada letra se conectava com a outra mesmo escritas em forma, como se fossem lâmpadas neon de verdade e não algum tipo de projeção mística.

​– As luzes.

​Disse baixo, mas o suficiente para o porteiro ouvir. Ele se moveu levemente para o lado e tirou aquela cordinha vermelha da porta.

​– Bem-vindos à Arcadia.

​Disse com sua voz ríspida, que parecia muito com o motorista que nos trouxe ontem, me fazendo pensar se ele também não era uma gárgula em forma humana, já que tinha os mesmos óculos pretos.

​Roman me guiou e nós entramos.

​– Incrível.

​Matheus acrescentou, e era verdade. O lugar inteiro, se não era perfeitamente lindo, era deslumbrante. Por dentro, a Arcadia parecia três vezes maior, e talvez fosse; feitiços para maximizar espaços não era algo incomum em estabelecimentos como esses.

​Como presumi, o lugar era todo em luz negra. A música tocava alta e eu não a reconheci; porém, meu atual gosto musical era altamente questionável.

​– Lá em cima.

​Killian voltou a falar, aumentando o tom de voz para que pudéssemos ouvi-lo.

​Acima de nós havia uma pequena escada, que levava para o que parecia uma parte privativa.

​– Para os bruxos?

​Josh perguntou atônito.

​– Exatamente.

​Roman respondeu sorrindo para mim.

​– Então o que estamos esperando?

​Perguntei.

Você é doida, irmãzinha.

Um de nós tinha que ser, Matheus, pelo menos um. Preparado?

​Perguntei estendendo minha mão livre e ele assentiu, segurando meu dedo mindinho com o dele. As luzes tremularam rapidamente, mas aquilo poderia ser muito bem parte da própria programação de iluminação.

​Atravessamos a escada e entramos. Não havia um segundo porteiro aqui ou nada do tipo; porém, não vi mais ninguém tentando entrar, como se sentissem que não deveriam subir.

​Estávamos agora em uma sala que parecia toda feita de vidro, tanto as paredes como o chão. Era nítida a visão debaixo dos meus pés de todas aquelas pessoas dançando, o que chegava a provocar um pouco de enjoo.

​– Esse lugar é diferente de tudo que eu já vi.

​Roman acrescentou para Killian.

​– Quero dançar.

​Exclamei e fui para o centro puxando Matheus comigo.

​Consegui reconhecer pelo menos algumas pessoas aqui dentro sendo da academia, mas havia tantos outros que eu nunca tinha pensado existir. Residentes da cidade, presumi.

No que está pensando?

​Matheus perguntou mentalmente.

Em coisas. Muitas coisas. E você?

Em como isso é estranho, tudo isso.

A academia ou rapazes da academia?

Do que está falando?

Eu sinto, lembra? Sinto tudo. E você está de olho no Killian, isso é quase óbvio demais.

Cala a boca, e dance.

​Ele agarrou meu ombro e me girou, me lançando para o lado com pouca força.

​Roman e Killian estavam no bar; nenhum deles parecia ter mais de vinte e um anos para poder beber, mas não seria eu a discordar de qualquer coisa.

​Matheus voltou para o lado de Josh, o que me deixou intrigada a testar uma coisa. Sem parecer óbvia demais, continuei dançando até chegar a ficar do lado dos meninos. Matheus negou minha existência, mas Josh não.

​Comecei a dançar ao redor dele, de costas, da maneira mais sensual que consegui sem parecer uma stripper que só usava roupa de baixo comestível. O desconforto cresceu nele como uma erva daninha, e meia música depois de eu ter iniciado minha dança, ele já estava praticamente enterrando-se dentro do próprio casaco com tanta vergonha.

Lexa, pare com isso.

​Matheus retrucou quase rindo.

Não.

​Puxei meu irmão pela manga da sua blusa e o aticei a dançar ao redor de Josh também. Tentei usar meu controle emocional contra ele, mas, como tínhamos presumido, nossas habilidades não funcionavam um contra o outro desse jeito; havia algum jeito de criar portas e dessa forma abrir e fechá-las. Mas Matheus caiu na brincadeira de qualquer maneira. A inserção do meu irmão pareceu acalmar o desconforto excessivo de Josh. Aquilo parecia deixar mais claro que eu não estava tentando realmente seduzi-lo, ou talvez ele estivesse se perguntando o que Matheus acharia de ele se atirar contra sua irmã gêmea; de qualquer maneira, ele parou.

​Porém, meu irmão tinha um foco. Eu sabia disso.

​Com o passar dos minutos, Josh se entregou a dançar conosco, sem jeito, mas com alguma desenvoltura. Tentei negar a existência da maioria das pessoas; contudo, aqueles dois tinham focos mais direcionados. Quando até mesmo Josh começou a prestar atenção em alguém, eu não consegui aguentar.

​Matheus fitava Killian ao fundo, que bebia uma mistura rosa em uma taça. Levei meu olhar aonde o foco de Josh se direcionava.

​Três garotas conversavam no lado mais afastado de nós; só reconheci duas delas como estudantes da academia, a outra parecia velha demais para estar conosco. Essa tinha um cabelo preto jogado para o lado, com a parte oposta raspada e um piercing no nariz que era uma argola vermelha.

​Mas não era a essa que ele prestava atenção, era à garota com cabelos curtos e bem cacheados. Seus cabelos também estavam jogados para o lado, mas não eram raspados, e sim presos por uma fileira de grampos brilhantes. Ela usava o mesmo cardigã cinza e transparente do primeiro dia aqui, e aquele colar diferente. Uma fita de cetim com um pingente de caveira as unindo.

​Tive que dar meu braço a torcer: a bota de cano curto que ela usava era linda, e com um salto admirável. Mas...

​– Ainda sou mais eu.

​Arfei num som alto o suficiente para que eles pudessem me ouvir.

​– Hã?

​– Seu amigo, ele está encarando a garota de cardigã desde que chegamos aqui. E claro, você está encarando o rapaz ruivo. Só eu que não estou ficando a fim de ninguém nesse lugar.

​– Ar... Er...

​Josh tentou dizer alguma coisa, mas estava confuso demais.

​– Eu manipulo e sinto emoções e sentimentos, mentir sobre isso não é uma opção. Você deveria se apresentar. Ela nem sabe que você existe. Também precisa descobrir o nome dela, aliás.

​– Amora van Allen, é o nome dela. Ouvi hoje, mas isso não é importante.

​– Okay. Primeiro: mentiroso. Segundo: por que pessoas dão nome de frutas para suas filhas? E terceiro: agora precisamos criar uma situação em comum.

​Olhei fixamente para garota e sussurrei: – Curiosidade. E lentamente ela olhou para nós. Ela foi pega pelo caminho que sua mente criou para explicar a mudança abrupta de pensamento; por estarmos ao lado de Josh, provavelmente era em nós que ela tinha colocado a desculpa, mas era para Josh que ela deveria olhar.

​– Matheus...

​Disse baixo, mas sabendo que ele entenderia.

​Lentamente colocamos nossos corpos para o lado, quase dançando em meia-lua ao redor de Josh, deixando-o diretamente na linha de visão da garota. Amora.

​Locomovi meu corpo para trás de Josh e estiquei minha mão; meus dedos se enroscaram nos do meu irmão, então fizemos. Com um movimento de mão leve e controlado, empurramos o ar ao mesmo tempo, o corpo de Josh foi arrastado até parar em frente ao dela.

​– E agora é a vez dele de fazer a magia. E talvez a nossa hora de arriscar.

​Comecei a andar assim que aquele corpo praticamente se materializou na minha frente.

​Rex estava parado nos encarando. Seus cabelos estavam do mesmo jeito de antes. Penteados de um modo que parecesse não estar caídos até o queixo naquele rosto irritantemente modelado.

​– Rexy! – exclamei como se encontrasse um dos meus melhores amigos da infância. – Sentiu saudades nossa, foi?

​Ele segurava um copo em mãos, o líquido dentro dele girava como se um tufão fosse surgir na superfície da bebida.

​– Vocês vão pagar, cedo ou tarde. Sabem disso né?

​– Certo – Matheus respondeu. – Então, até depois.

​Meu irmão respondeu agarrando meu braço e me puxando para o lado contrário com tanta força que não tive como voltar a encarar o Rex.

​​– Por que você fugiu?

​Disse quase o jogando contra uma pilastra atrás dele.

​– Porque não quero arrumar uma briga em um lugar onde seríamos provavelmente arremessados de uma vidraça vulgo parede.

​– Ele é um hidrocinético, estaríamos de igual para igual aqui. Ele não teria o que controlar.

​– Você viu o copo na mão dele. E como você mesmo disse, ele é hidrocinético, então ele pode controlar todo líquido feito à base de água, e, caso não tenha percebido, logo ali há uma parede imensa com centenas de garrafas de bebidas. Algumas delas são feitas de álcool, mas outras não. E eu não estou a fim de levar uma surra de um misturado de coquetéis.

​– Maldição! Eu odeio quando você está certo.

​– Obrigado por reconhecer dessa vez.

​Isso era verdade, mas eu bem que gostaria de iniciar outra briga com Rex, uma da qual eu fosse mais participativa, é claro.

​Movi minha mão para alcançar o braço do meu irmão, até reparar no que ele fazia com a própria mão. Seus dedos puxavam a barra da manga para baixo. Ele estava nervoso. Aquilo era quase como um tique nervoso. Como se ele sentisse que alguém estivesse ameaçando rasgá-la fora para tocá-lo, várias e várias vezes.

​Mas eu deveria ter presumido aquilo. Eram tantas pessoas, todas engalfinhadas num único espaço, era esperar demais que ele não passasse por isso.

​– Você está bem?

​Perguntei sabendo a resposta de antemão.

​– Um pouco desconfortável. Nada mais.

​Seus dedos ainda agarravam o tecido da roupa.

​– Matheus – disse segurando seu braço com força. – Está tudo bem, ninguém vai tocar em você aqui. Nada vai acontecer.

​Seus olhos começaram a correr de lá para cá, com rapidez.

​– Eu sei, eu sei.

​– Quando foi a última vez que você saiu para um lugar como esse?

​Perguntei, só poderia ser isso.

​– Com o Daniel, eu acho, fomos a uma festa.

​Confessou.

​– A festa de aniversário daquela tal de Rachel, certo?

​Isso não era uma coisa boa. E eu tinha sido uma idiota.

​– Isso – seus olhos se fecharam por alguns segundos. – Acho que não consigo respirar.

​– Maldição! Vamos embora.

​Isso não estava acontecendo aqui e agora. Matheus estava tendo um ataque de pânico.

​Comecei a correr com ele, esbarrando meu corpo em todos que estivessem em nossa frente, os forçando a ir para o lado para assim não tocarem nele.

​– Vocês não conseguem ficar um minuto sem uma briga.

​Disse Roman surgindo do nada.

​– O quê? – Perguntei sem ligar uma coisa à outra. – Não, não. Não vamos fazer nada, na verdade vamos embora agora.

​Uma onda de emoções estava sendo mandada para minha mente. E eu não tinha ajudado em nada lembrando daquela festa. Uma briga havia acontecido lá, no empurra-empurra metade da camisa do Matheus havia sido arrancada, e quando as sirenes de polícia soaram no ar, dezenas de pessoas começaram a correr esbarrando nele uma atrás da outra. Ocasionando em um desmaio pela onda massiva de pensamentos que entrou dentro dele; sem contar o transtorno de ansiedade generalizada e o histórico de depressão na família, a mente do meu irmão simplesmente não tinha aguentado a pressão.

​– Estamos indo?

​Josh perguntou atrás de mim surgindo sem avisar também.

​– Estamos. Agora mesmo.

​Retruquei sem querer.

​– Ele está bem?

​Roman perguntou, Killian também estava ao seu lado mudo, mais focando sua atenção no meu irmão.

​– Sim... Melhor, não. Preciso levá-lo para fora daqui. Agora.

​– Eu ajudo.

​Disse Killian, quebrando seu silêncio nas horas menos esperadas. Ele se lançou para o meu lado e tentou agarrar o braço do Matheus.

​– Não!

​Gritou meu irmão em resposta. Killian deu um passo para trás e levantou as mãos, como se tentasse dizer "sem perigo".

​– Matheus, deixe-o te tocar, não vai acontecer nada. Está vestido, lembra?

​Disse com minha voz calma, e agora eu queria ser capaz de induzir suas emoções. Acalmá-lo, e não só ser capaz de lê-lo.

​– Não entendo – Josh disse. – Ele não está com dor.

​– É TAG, é psicológico.

​Respondi.

​– Ele está entrando em pânico, né?

​Roman perguntou.

​– É – respondi me virando para voltar a falar com o Matheus. – Deixe-o ajudar, Math, por favor.

​Ele fitou Killian novamente e ficou parado. O ruivo moveu sua mão lentamente até tocar em seu braço, fazendo sua testa franzir. Então voltamos a andar.

​Descemos as escadas de maneira que não caíssemos e chamássemos mais atenção do que deveríamos. Para qualquer um que nos visse, ele provavelmente pareceria só um bêbado qualquer.

​Quando estávamos a metros da porta, ele puxou seu braço com força e virou seu corpo todo para trás, sua cabeça girava tentando achar alguma coisa para se apoiar.

​– Matheus!

​Gritei.

​– Daniel. Eu vi o Daniel.

​Ele respondeu enquanto o suor descia pela testa.

​– Seu ex-namorado? – perguntei espantada sem me preocupar com o que Roman ou Killian iriam achar da informação. – Daniel não está aqui, Matheus, ele nem se despediu de você em casa, lembra? Ele está em São Paulo. Longe, muito longe. Agora vamos.

​O agarrei de novo e nos tirei dali.

​Tentei nos levar para o primeiro lugar vazio que encontrei, que era um beco mal iluminado.

​Um gato pulou de uma lata de lixo e foi espantado por Roman, mas esse era só um pequeno detalhe.

​Sentei Matheus no chão e agarrei seus ombros tentando fazê-lo olhar para mim.

​– Matheus! Matheus!

​Gritei, mas seus olhos estavam longe; ele agarrava a manga da camisa com força e puxava, como se ela machucasse sua pele de algum jeito.

Preciso que me responda, se você tomou os seus remédios, pensei, mas ele ainda parecia longe demais para ser alcançado.

​– Maldição! – Voltei a dizer. – Matheus... – e então agi: – Pare!

​E antes que todos pudessem impedir, a palma da minha mão tinha acertado com força o seu rosto, e o silêncio quase absoluto se fez. O ar parecia ter parado junto de todos nós.

​O tapa não solucionou os seus problemas, mas foi o suficiente para fazer meu irmão abrir a porta que impedia meus poderes de funcionar sobre ele. Roman e Killian tinham se afastado, Josh tinha se aproximado, levando a mão até o próprio rosto, e eu não entendi o porquê, mas não tinha tempo para explicar.

– Tranquilidade.

​Entoei, liberando a magia sobre meu irmão e o atingindo antes de as portas se fecharem, fazendo-o finalmente se acalmar.

​– Ai.

​Disse ele por fim, libertando a manga da camisa dos dedos que antes estavam inquietos.

​– Deus! Não me faça passar por esse susto de novo. Ou eu vou chutar você em um lugar que vai te deixar realmente sem ar.

​Retruquei, levantando meu corpo e estendendo a mão para ajudá-lo; ele a agarrou e se levantou.

​– Você está bem?

​Josh perguntou.

​– Dolorido, como você deve saber, mas bem.

​Matheus levou suas mãos até a testa e tentou limpar o suor.

​– Acho melhor irmos, então.

​Roman completou.

​– Sim, seria a primeira coisa esperta do dia.

​Completei.

​//

Você está realmente bem?

​Perguntei, agora sentada no banco de trás com Matheus e Josh.

Estou bem, Lexa, foi só outro ataque de pânico. Vou ficar bem, contanto que eu evite multidões exaltadas como hoje cedo.

Okay. Mas eu achei que os ataques tinham parado.

E tinham. Os remédios estavam ajudando, mas estou melhor, eu juro.

​Ele respondeu como se acreditasse naquilo.

​Seus dedos voltavam a pressionar contra a palma da sua mão, mas com menos afinco que antes.

​Não entendia o porquê de aquilo acontecer com ele às vezes. Sabia que a telepatia de contato poderia ser invasiva tanto para ele quanto para quem o tocasse. Mas era mais que isso, quase como se as mentes que entravam na cabeça dele o assustassem às vezes. E vendo por esse lado, sentir o que os outros sentiam não era nada comparado a vivenciar seus segredos a cada toque. Pois eu estava presa a sentir o que eles estavam sentindo naquele momento. Mas Matheus poderia ver e sentir tudo quando tocava em alguém, e para ele esse tipo de queda desenfreada era absolutamente desconfortável.

​E com certeza sentir dezenas de pessoas entrando na sua mente ao mesmo tempo causaria pânico em qualquer um.