CAPÍTULO V: Black Out Days
Terminei de enrolar a última mecha do meu cabelo numa trança longa. Já Cecilly havia desistido de ir à Arcadia conosco, depois do fiasco que foi essa última manhã. Mas Matheus e Josh ainda estavam de pé. E principalmente eu.
Passamos a tarde tentando ficar fora de confusão, o que para mim pareceu mais fácil do que o normal, devo acrescentar.
E agora era a hora da diversão.
Disse mentalmente a meu irmão.
Só estávamos juntos há pouco mais de trinta e duas horas, então ainda era estranho estar a poucos metros de alguém com quem você tem uma ligação tão forte, mas que nunca pôde testá-la.
Nós também. O que está vestindo?
Cabelo trançado caindo sobre meu seio esquerdo, vestido preto justo e sem alças, minha inseparável jaqueta altamente inútil para os dias de frio, minhas novas botas de salto de couro italiano. Estou deslumbrante. E claro, com o colar da mamãe. E você?
Acrescentou ele antes de cortar a conexão mental.
Dei uma última olhada no espelho e puxei uma pequena mecha para fora da trança para que ela descesse pela minha testa e ficasse sobre minha sobrancelha.
Encontrei os dois entre as duas Casas Azuis, me esperando.
Matheus estava usando calça jeans justa, e uma das suas dezenas de blusas de manga longa, que ele furava na barra da manga para que pudesse passar seu dedão e se assegurar de que a pele do seu braço não ficasse exposta.
Josh vestia calça jeans e um casaco normal. E tentava não parecer fora de foco arrumando os óculos a cada cinco segundos.
– Alguém sabe como chegar nesse lugar?
– Que eu imagino que você não tenha uma resposta, correto?
– Exato. Mas eu posso dar um jeito.
Dei dois passos para o lado e levantei minha mão acenando.
Killian e Roman estavam saindo da Casa do Leão.
Matheus reclamou, mas o deixei falando sozinho.
Roman foi o primeiro a falar.
– Sim, vocês sabem como chegar à Arcadia? Pois estamos meio sem rumo aqui.
Sorri de modo convidativo, pois havia algo que me chamava atenção. Fora a óbvia beleza e os olhos castanhos bem claros. E só nesse momento percebi que Roman não era só atraente, mas talvez interessante.
Ele colocou a mão no bolso da calça e tirou uma chave de carro.
– Killian e eu vamos no meu jipe, se quiserem carona.
Matheus começou a dizer, mas me coloquei na sua frente.
– Adoraríamos. Certo, Matheus?
Perguntei sem nem mesmo olhar para meu irmão.
Ele arfou em tom baixo e concordou.
Respondeu desistindo de lutar.
– Absolutamente perfeito – complementei. – Mas eu vou no banco da frente, Killian.
Tomei dianteira e fui para o lado de Roman, que estendeu o braço para que eu segurasse.
Ele vestia uma camiseta simples, mas que era impossível de ficar justa sobre os músculos do peitoral. E aquilo era chamativo. Bruxos não costumavam exibir corpos esculturais ou trabalhados daquele jeito. Meu irmão ou até mesmo Josh tinham o corpo masculino padrão. Somente atléticos e com poucos músculos internos. Mas Killian também parecia malhar ou fazer alguma coisa, principalmente porque os reflexos dele nessa manhã mostravam claramente que ele treinava, e bastante.
Roman nos levou para trás da Casa do Leão, onde descobrimos haver uma garagem. Consegui avistar um sedan prateado e mais duas motos. Roman se dirigiu para o seu jipe preto e abriu a porta para que eu entrasse.
Killian foi para o banco de trás sem reclamar, ou falar qualquer coisa para dizer a verdade. Ele não estava desconfortável, pelo menos eu presumia; só então tinha percebido que as emoções dele eram bem mais difíceis de ler, para ser sincera, eu não tinha leitura nenhuma. E isso me irritava um pouco.
Josh se sentou no meio dele e do meu irmão, e isso claramente criou uma estranha sensação nele. O que me fez rir.
Matheus acrescentou mentalmente, dando claros motivos para o desconforto de Josh em ser a Suécia entre meu irmão e o ruivo misterioso.
A viagem levou vinte longos minutos para o meu irmão, e vinte agradáveis minutos para mim e Roman.
Era fácil conversar com ele, por um simples motivo: ele não questionava.
Não perguntou sobre a pergunta mais óbvia e nada relacionado. Ele simplesmente estava ali do meu lado, falando sobre assuntos diversos enquanto escutávamos músicas no rádio. Isso era uma mudança de cenário do que eu esperava que fosse.
Estudar em internatos a vida toda não deixou minha vida social das mais grandiosas e glamorosas nas vielas de Londres, mas eu tinha um certo orgulho de ter mais experiência que minhas amigas; contudo, nada havia me preparado para aquilo.
A Arcadia não era só uma boate, era tão gigantesca quanto a Casa Cinza da Academia. O lugar todo era vermelho-vivo, iluminado por luz negra do lado de fora e provavelmente por dentro também.
A primeira coisa que procurei foi um letreiro, qualquer coisa que simbolizasse que ali era realmente o lugar, mas não achei. Porém, o som da música alta passava pelas grossas paredes até ali.
Roman parou na primeira vaga que achou, e nem me tratei de perguntar o quão fácil aquilo tinha sido. A fila para entrar estava quilométrica, mas não consegui reconhecer ninguém da academia nela.
– Ou chegamos cedo demais ou atrasados demais.
Disse assim que pisei para fora do jipe.
– Seres místicos não precisam esperar na fila, podemos entrar.
– Só precisamos chegar à portaria e olhar para cima à esquerda – Killian falou pela primeira vez nessa noite. – Vocês vão entender.
Matheus levou seu olhar trêmulo para o outro lado.
Josh disse tentando parecer confiante, o que me fez pensar que ele tinha outros planos em mente. Quais?
Ele e Matheus começaram a andar e conversar normalmente. O que me fez prestar maior atenção neles dois. Em poucas horas, a amizade deles havia evoluído de um jeito que parecia um tanto surreal. Mesmo que Cecilly fosse legal também, não estávamos tão próximas quanto esses dois estavam, mesmo sem perceberem.
O primeiro pensamento de uma pessoa normal seria presumir que talvez eles tivessem algo romântico rolando. Mas esse era o problema de se saber sempre o que os outros sentiam. Não havia desapontamento, não havia surpresa. Você sabia de tudo sempre.
Conhecimento era uma dádiva, com certeza, mas ignorância era um presente para poucos. Não havia os porquês, ou os talvez, era quase sempre uma sucessão de exatidão. O que chegava a ser irônico, já que as emoções eram as coisas mais volúveis que todos nós tínhamos.
Roman, Killian e eu fomos logo depois e paramos os cinco na frente do homem gigante que era o porteiro. Meia dúzia de pessoas nos regaram com uma tonelada de xingamentos; em resposta, eu simplesmente sorri e acenei tentando ostentar a educação que eu não tinha.
Mas foi outra coisa que me chamou realmente atenção. Fazendo exatamente o que Killian havia dito, levei meu olhar para cima, e aconteceu. A palavra Arcadia se escreveu no ar, com fios de luz em neon brilhantes. Porém, havia algo mais: um símbolo que vinha logo no início da palavra, era como três pétalas unidas, feitas de um único traçado.
Mas foi outra coisa que me chamou realmente atenção. Fazendo exatamente o que Killian havia dito, levei meu olhar para cima, e aconteceu. A palavra Arcadia se escreveu no ar, com fios de luz em neon brilhantes. Porém, havia algo mais: um símbolo que vinha logo no início da palavra, era como três pétalas unidas, feitas de um único traçado.
Era um símbolo da bruxaria, porque eu o reconhecia de algum lugar, só não me lembrava de onde. Me ocorreu por um segundo apenas, de uma série de TV com bruxas com o mesmo símbolo. Pelo que entendi, havia três linhas curvas, como se o desenho fosse feito a partir de três pontos como um triângulo. A primeira linha curva ia da primeira aresta à segunda à sua frente, a segunda linha curva ia da segunda até a terceira acima dela, e a terceira curva ia da terceira aresta até a primeira formando o estranho desenho, que vagamente lembrava uma flor de três pétalas.
E todos os "A"s estavam invertidos para baixo, enquanto cada letra se conectava com a outra mesmo escritas em forma, como se fossem lâmpadas neon de verdade e não algum tipo de projeção mística.
Disse baixo, mas o suficiente para o porteiro ouvir. Ele se moveu levemente para o lado e tirou aquela cordinha vermelha da porta.
Disse com sua voz ríspida, que parecia muito com o motorista que nos trouxe ontem, me fazendo pensar se ele também não era uma gárgula em forma humana, já que tinha os mesmos óculos pretos.
Roman me guiou e nós entramos.
Matheus acrescentou, e era verdade. O lugar inteiro, se não era perfeitamente lindo, era deslumbrante. Por dentro, a Arcadia parecia três vezes maior, e talvez fosse; feitiços para maximizar espaços não era algo incomum em estabelecimentos como esses.
Como presumi, o lugar era todo em luz negra. A música tocava alta e eu não a reconheci; porém, meu atual gosto musical era altamente questionável.
Killian voltou a falar, aumentando o tom de voz para que pudéssemos ouvi-lo.
Acima de nós havia uma pequena escada, que levava para o que parecia uma parte privativa.
Roman respondeu sorrindo para mim.
– Então o que estamos esperando?
Um de nós tinha que ser, Matheus, pelo menos um. Preparado?
Perguntei estendendo minha mão livre e ele assentiu, segurando meu dedo mindinho com o dele. As luzes tremularam rapidamente, mas aquilo poderia ser muito bem parte da própria programação de iluminação.
Atravessamos a escada e entramos. Não havia um segundo porteiro aqui ou nada do tipo; porém, não vi mais ninguém tentando entrar, como se sentissem que não deveriam subir.
Estávamos agora em uma sala que parecia toda feita de vidro, tanto as paredes como o chão. Era nítida a visão debaixo dos meus pés de todas aquelas pessoas dançando, o que chegava a provocar um pouco de enjoo.
– Esse lugar é diferente de tudo que eu já vi.
Roman acrescentou para Killian.
Exclamei e fui para o centro puxando Matheus comigo.
Consegui reconhecer pelo menos algumas pessoas aqui dentro sendo da academia, mas havia tantos outros que eu nunca tinha pensado existir. Residentes da cidade, presumi.
Matheus perguntou mentalmente.
Em coisas. Muitas coisas. E você?
Em como isso é estranho, tudo isso.
A academia ou rapazes da academia?
Eu sinto, lembra? Sinto tudo. E você está de olho no Killian, isso é quase óbvio demais.
Ele agarrou meu ombro e me girou, me lançando para o lado com pouca força.
Roman e Killian estavam no bar; nenhum deles parecia ter mais de vinte e um anos para poder beber, mas não seria eu a discordar de qualquer coisa.
Matheus voltou para o lado de Josh, o que me deixou intrigada a testar uma coisa. Sem parecer óbvia demais, continuei dançando até chegar a ficar do lado dos meninos. Matheus negou minha existência, mas Josh não.
Comecei a dançar ao redor dele, de costas, da maneira mais sensual que consegui sem parecer uma stripper que só usava roupa de baixo comestível. O desconforto cresceu nele como uma erva daninha, e meia música depois de eu ter iniciado minha dança, ele já estava praticamente enterrando-se dentro do próprio casaco com tanta vergonha.
Matheus retrucou quase rindo.
Puxei meu irmão pela manga da sua blusa e o aticei a dançar ao redor de Josh também. Tentei usar meu controle emocional contra ele, mas, como tínhamos presumido, nossas habilidades não funcionavam um contra o outro desse jeito; havia algum jeito de criar portas e dessa forma abrir e fechá-las. Mas Matheus caiu na brincadeira de qualquer maneira. A inserção do meu irmão pareceu acalmar o desconforto excessivo de Josh. Aquilo parecia deixar mais claro que eu não estava tentando realmente seduzi-lo, ou talvez ele estivesse se perguntando o que Matheus acharia de ele se atirar contra sua irmã gêmea; de qualquer maneira, ele parou.
Porém, meu irmão tinha um foco. Eu sabia disso.
Com o passar dos minutos, Josh se entregou a dançar conosco, sem jeito, mas com alguma desenvoltura. Tentei negar a existência da maioria das pessoas; contudo, aqueles dois tinham focos mais direcionados. Quando até mesmo Josh começou a prestar atenção em alguém, eu não consegui aguentar.
Matheus fitava Killian ao fundo, que bebia uma mistura rosa em uma taça. Levei meu olhar aonde o foco de Josh se direcionava.
Três garotas conversavam no lado mais afastado de nós; só reconheci duas delas como estudantes da academia, a outra parecia velha demais para estar conosco. Essa tinha um cabelo preto jogado para o lado, com a parte oposta raspada e um piercing no nariz que era uma argola vermelha.
Mas não era a essa que ele prestava atenção, era à garota com cabelos curtos e bem cacheados. Seus cabelos também estavam jogados para o lado, mas não eram raspados, e sim presos por uma fileira de grampos brilhantes. Ela usava o mesmo cardigã cinza e transparente do primeiro dia aqui, e aquele colar diferente. Uma fita de cetim com um pingente de caveira as unindo.
Tive que dar meu braço a torcer: a bota de cano curto que ela usava era linda, e com um salto admirável. Mas...
Arfei num som alto o suficiente para que eles pudessem me ouvir.
– Seu amigo, ele está encarando a garota de cardigã desde que chegamos aqui. E claro, você está encarando o rapaz ruivo. Só eu que não estou ficando a fim de ninguém nesse lugar.
Josh tentou dizer alguma coisa, mas estava confuso demais.
– Eu manipulo e sinto emoções e sentimentos, mentir sobre isso não é uma opção. Você deveria se apresentar. Ela nem sabe que você existe. Também precisa descobrir o nome dela, aliás.
– Amora van Allen, é o nome dela. Ouvi hoje, mas isso não é importante.
– Okay. Primeiro: mentiroso. Segundo: por que pessoas dão nome de frutas para suas filhas? E terceiro: agora precisamos criar uma situação em comum.
Olhei fixamente para garota e sussurrei: – Curiosidade. E lentamente ela olhou para nós. Ela foi pega pelo caminho que sua mente criou para explicar a mudança abrupta de pensamento; por estarmos ao lado de Josh, provavelmente era em nós que ela tinha colocado a desculpa, mas era para Josh que ela deveria olhar.
Disse baixo, mas sabendo que ele entenderia.
Lentamente colocamos nossos corpos para o lado, quase dançando em meia-lua ao redor de Josh, deixando-o diretamente na linha de visão da garota. Amora.
Locomovi meu corpo para trás de Josh e estiquei minha mão; meus dedos se enroscaram nos do meu irmão, então fizemos. Com um movimento de mão leve e controlado, empurramos o ar ao mesmo tempo, o corpo de Josh foi arrastado até parar em frente ao dela.
– E agora é a vez dele de fazer a magia. E talvez a nossa hora de arriscar.
Comecei a andar assim que aquele corpo praticamente se materializou na minha frente.
Rex estava parado nos encarando. Seus cabelos estavam do mesmo jeito de antes. Penteados de um modo que parecesse não estar caídos até o queixo naquele rosto irritantemente modelado.
– Rexy! – exclamei como se encontrasse um dos meus melhores amigos da infância. – Sentiu saudades nossa, foi?
Ele segurava um copo em mãos, o líquido dentro dele girava como se um tufão fosse surgir na superfície da bebida.
– Vocês vão pagar, cedo ou tarde. Sabem disso né?
– Certo – Matheus respondeu. – Então, até depois.
Meu irmão respondeu agarrando meu braço e me puxando para o lado contrário com tanta força que não tive como voltar a encarar o Rex.
Disse quase o jogando contra uma pilastra atrás dele.
– Porque não quero arrumar uma briga em um lugar onde seríamos provavelmente arremessados de uma vidraça vulgo parede.
– Ele é um hidrocinético, estaríamos de igual para igual aqui. Ele não teria o que controlar.
– Você viu o copo na mão dele. E como você mesmo disse, ele é hidrocinético, então ele pode controlar todo líquido feito à base de água, e, caso não tenha percebido, logo ali há uma parede imensa com centenas de garrafas de bebidas. Algumas delas são feitas de álcool, mas outras não. E eu não estou a fim de levar uma surra de um misturado de coquetéis.
– Maldição! Eu odeio quando você está certo.
– Obrigado por reconhecer dessa vez.
Isso era verdade, mas eu bem que gostaria de iniciar outra briga com Rex, uma da qual eu fosse mais participativa, é claro.
Movi minha mão para alcançar o braço do meu irmão, até reparar no que ele fazia com a própria mão. Seus dedos puxavam a barra da manga para baixo. Ele estava nervoso. Aquilo era quase como um tique nervoso. Como se ele sentisse que alguém estivesse ameaçando rasgá-la fora para tocá-lo, várias e várias vezes.
Mas eu deveria ter presumido aquilo. Eram tantas pessoas, todas engalfinhadas num único espaço, era esperar demais que ele não passasse por isso.
Perguntei sabendo a resposta de antemão.
– Um pouco desconfortável. Nada mais.
Seus dedos ainda agarravam o tecido da roupa.
– Matheus – disse segurando seu braço com força. – Está tudo bem, ninguém vai tocar em você aqui. Nada vai acontecer.
Seus olhos começaram a correr de lá para cá, com rapidez.
– Quando foi a última vez que você saiu para um lugar como esse?
Perguntei, só poderia ser isso.
– Com o Daniel, eu acho, fomos a uma festa.
– A festa de aniversário daquela tal de Rachel, certo?
Isso não era uma coisa boa. E eu tinha sido uma idiota.
– Isso – seus olhos se fecharam por alguns segundos. – Acho que não consigo respirar.
Isso não estava acontecendo aqui e agora. Matheus estava tendo um ataque de pânico.
Comecei a correr com ele, esbarrando meu corpo em todos que estivessem em nossa frente, os forçando a ir para o lado para assim não tocarem nele.
– Vocês não conseguem ficar um minuto sem uma briga.
Disse Roman surgindo do nada.
– O quê? – Perguntei sem ligar uma coisa à outra. – Não, não. Não vamos fazer nada, na verdade vamos embora agora.
Uma onda de emoções estava sendo mandada para minha mente. E eu não tinha ajudado em nada lembrando daquela festa. Uma briga havia acontecido lá, no empurra-empurra metade da camisa do Matheus havia sido arrancada, e quando as sirenes de polícia soaram no ar, dezenas de pessoas começaram a correr esbarrando nele uma atrás da outra. Ocasionando em um desmaio pela onda massiva de pensamentos que entrou dentro dele; sem contar o transtorno de ansiedade generalizada e o histórico de depressão na família, a mente do meu irmão simplesmente não tinha aguentado a pressão.
Josh perguntou atrás de mim surgindo sem avisar também.
Roman perguntou, Killian também estava ao seu lado mudo, mais focando sua atenção no meu irmão.
– Sim... Melhor, não. Preciso levá-lo para fora daqui. Agora.
Disse Killian, quebrando seu silêncio nas horas menos esperadas. Ele se lançou para o meu lado e tentou agarrar o braço do Matheus.
Gritou meu irmão em resposta. Killian deu um passo para trás e levantou as mãos, como se tentasse dizer "sem perigo".
– Matheus, deixe-o te tocar, não vai acontecer nada. Está vestido, lembra?
Disse com minha voz calma, e agora eu queria ser capaz de induzir suas emoções. Acalmá-lo, e não só ser capaz de lê-lo.
– Não entendo – Josh disse. – Ele não está com dor.
– Ele está entrando em pânico, né?
– É – respondi me virando para voltar a falar com o Matheus. – Deixe-o ajudar, Math, por favor.
Ele fitou Killian novamente e ficou parado. O ruivo moveu sua mão lentamente até tocar em seu braço, fazendo sua testa franzir. Então voltamos a andar.
Descemos as escadas de maneira que não caíssemos e chamássemos mais atenção do que deveríamos. Para qualquer um que nos visse, ele provavelmente pareceria só um bêbado qualquer.
Quando estávamos a metros da porta, ele puxou seu braço com força e virou seu corpo todo para trás, sua cabeça girava tentando achar alguma coisa para se apoiar.
Ele respondeu enquanto o suor descia pela testa.
– Seu ex-namorado? – perguntei espantada sem me preocupar com o que Roman ou Killian iriam achar da informação. – Daniel não está aqui, Matheus, ele nem se despediu de você em casa, lembra? Ele está em São Paulo. Longe, muito longe. Agora vamos.
O agarrei de novo e nos tirei dali.
Tentei nos levar para o primeiro lugar vazio que encontrei, que era um beco mal iluminado.
Um gato pulou de uma lata de lixo e foi espantado por Roman, mas esse era só um pequeno detalhe.
Sentei Matheus no chão e agarrei seus ombros tentando fazê-lo olhar para mim.
Gritei, mas seus olhos estavam longe; ele agarrava a manga da camisa com força e puxava, como se ela machucasse sua pele de algum jeito.
Preciso que me responda, se você tomou os seus remédios, pensei, mas ele ainda parecia longe demais para ser alcançado.
– Maldição! – Voltei a dizer. – Matheus... – e então agi: – Pare!
E antes que todos pudessem impedir, a palma da minha mão tinha acertado com força o seu rosto, e o silêncio quase absoluto se fez. O ar parecia ter parado junto de todos nós.
O tapa não solucionou os seus problemas, mas foi o suficiente para fazer meu irmão abrir a porta que impedia meus poderes de funcionar sobre ele. Roman e Killian tinham se afastado, Josh tinha se aproximado, levando a mão até o próprio rosto, e eu não entendi o porquê, mas não tinha tempo para explicar.
Entoei, liberando a magia sobre meu irmão e o atingindo antes de as portas se fecharem, fazendo-o finalmente se acalmar.
Disse ele por fim, libertando a manga da camisa dos dedos que antes estavam inquietos.
– Deus! Não me faça passar por esse susto de novo. Ou eu vou chutar você em um lugar que vai te deixar realmente sem ar.
Retruquei, levantando meu corpo e estendendo a mão para ajudá-lo; ele a agarrou e se levantou.
– Dolorido, como você deve saber, mas bem.
Matheus levou suas mãos até a testa e tentou limpar o suor.
– Sim, seria a primeira coisa esperta do dia.
Perguntei, agora sentada no banco de trás com Matheus e Josh.
Estou bem, Lexa, foi só outro ataque de pânico. Vou ficar bem, contanto que eu evite multidões exaltadas como hoje cedo.
Okay. Mas eu achei que os ataques tinham parado.
E tinham. Os remédios estavam ajudando, mas estou melhor, eu juro.
Ele respondeu como se acreditasse naquilo.
Seus dedos voltavam a pressionar contra a palma da sua mão, mas com menos afinco que antes.
Não entendia o porquê de aquilo acontecer com ele às vezes. Sabia que a telepatia de contato poderia ser invasiva tanto para ele quanto para quem o tocasse. Mas era mais que isso, quase como se as mentes que entravam na cabeça dele o assustassem às vezes. E vendo por esse lado, sentir o que os outros sentiam não era nada comparado a vivenciar seus segredos a cada toque. Pois eu estava presa a sentir o que eles estavam sentindo naquele momento. Mas Matheus poderia ver e sentir tudo quando tocava em alguém, e para ele esse tipo de queda desenfreada era absolutamente desconfortável.
E com certeza sentir dezenas de pessoas entrando na sua mente ao mesmo tempo causaria pânico em qualquer um.