Vol. I • Fumaças & Cinzas
Today

CAPÍTULO XIII • Born For This

Matheus

Finalmente estávamos usando nossos livros das sombras.

Ou quase.

Eles funcionavam como diários mágicos que guardavam todas as informações sobre o mundo dos seres místicos. Eram como grandes telas multifuncionais de informação.

Também descobrimos que as disciplinas de Teoria e Conceito Básico de Magia e Prática e Exercício de Bruxaria trabalhavam em conjunto.

O professor Garrett havia nos explicado a concepção do feitiço que usáramos nas velas e o conceito geral por trás da estruturação de qualquer feitiço.

Ele também nos alertara, com forte ênfase, a nunca tentar criar nossos próprios feitiços. Seria desastroso e potencialmente fatal.

A arte de criar feitiços era algo raro e, pelo que havíamos entendido, só ocorria em uma das seis categorias de dons da magia das sombras. Não havia nenhum aluno em nossa turma que fosse um Intelecto. Portanto, memorizar e compreender os feitiços que já existiam era a melhor coisa a fazer, em vez de tentar criar novos.

Ironicamente, toda a nossa turma se encaixava nas outras cinco categorias.

Médiuns, usuários de espíritos, naturalistas, manipuladores de percepção ou mestres de energia. Além disso, havia três elementais: bruxos capazes de acessar as forças elementais primárias como base de seu poder e também a magia das sombras.

Os outros tipos de bruxos eram, claramente, os necromantes e os alquimistas. Assim como os elementais, eles tinham a base da magia em outra fonte de poder, mas conseguiam acessar a magia das sombras em algum nível. Os alquimistas, porém, tinham mais dificuldade para acessar esse poder do que os necromantes e os elementais.

Olhei ao redor e vi Josh totalmente concentrado, lendo atentamente cada palavra escrita no imenso quadro-negro.

As informações eram automaticamente gravadas nas páginas de seu grimório e sintetizadas por temas.

Lexa girava um lápis sobre a mesa usando a telecinese, parecendo tão entediada quanto distante.

Aproveitei a oportunidade e direcionei minha atenção a Killian. Desde o incidente, duas semanas antes, não havíamos nos falado novamente.

Ele não parecia muito mais receptivo. Não depois de ter sido arremessado contra uma parede.

Como se alguém gostasse de ser tratado daquela maneira.

O professor Garrett não estava usando sua aura, sua voz ou qualquer outra coisa para nos influenciar, mas ainda assim havia deixado uma boa impressão nas garotas da turma, que suspiravam sempre que tinham oportunidade.

Daniel não teria gostado dele. Teria achado Garrett exibido e pomposo. Eu diria que ele só estaria com ciúmes por ter encontrado alguém pior do que ele, e nós riríamos.

Seria assim.

Mas não era.

Tentar não pensar nos humanos que haviam feito parte da minha vida durante tanto tempo era bastante desgastante.

Eu sabia que era melhor assim. Tinha consciência disso. Ainda assim, era estranho.

Daniel e eu havíamos terminado meses antes, mas isso não significava que eu não sentisse mais nada por ele. Em compensação, eu estava direcionando minha atenção para alguém que era o completo oposto do meu ex-namorado.

Killian e Daniel eram como polos diferentes, de universos diferentes.

Daniel era ousado, exibido e até um pouco arrogante. Gostava de ser o centro das atenções e despertava esse mesmo lado em mim.

Killian era calmo e comedido, sempre tentando manter o controle da própria magia. Isso era algo que compartilhávamos.

Enquanto ele se preocupava em machucar alguém, eu me preocupava demais em machucar a mim mesmo. Mesmo sem entender bem por que fazia aquilo. Era um impulso mais forte do que eu conseguia compreender ou evitar.

Mas esquecer não era o mesmo que melhorar. Mesmo que as marcas não estivessem mais ali, superar era o ideal.

Meu psicólogo e meu psiquiatra diziam que eu estava bem, mas eu não tinha tanta certeza.

E, nessas horas, queria saber como minha mãe lidava com aquilo.

Obviamente, não havia funcionado para sempre, ou ela não teria tentado tirar a própria vida, deixando nossos avós juntos para nos criarem.

Ela era uma médium, assim como Lexa e eu — mais especificamente, uma empática. Seu dom consistia em sentir os maiores medos das pessoas ao redor, e aquilo a havia destruído.

Nossa mãe era uma bruxa experiente, mas nem todo poder era capaz de combater o que existia dentro da própria cabeça.

Com o passar dos anos, seu dom cresceu. Ela se tornou não apenas capaz de saber e sentir, mas também de vivenciar o medo dos outros e provocá-lo, trazendo-o à tona.

Ela tentava bloquear aquilo com tanta força que sua magia se voltou contra ela, fazendo-a entrar em crises depressivas múltiplas vezes. Cada uma pior do que a anterior.

Ela havia melhorado depois que nascemos, mas, nos últimos meses antes do acidente de carro, voltou a sentir as dores. Não conseguia mais bloqueá-las, e tudo vinha com uma força ainda maior.

Até que, em um dia, ela não suportou mais e tirou a própria vida para silenciar uma dor que havia se tornado insuportável.

E, lentamente, eu também parecia estar seguindo um caminho parecido.

Lexa e eu havíamos desenvolvido habilidades semelhantes às dela. A empatia e a capacidade de perceber e manipular pensamentos e sentimentos haviam sido passadas para nós.

Lexa não sofria psicologicamente por causa de suas habilidades, e elas também não lhe causavam sofrimento físico. Mas eu sabia que, às vezes, ela sofria com doses de apatia. Como se tudo fosse vazio.

Para mim, haviam sobrado o pânico, a ansiedade... A psicose.

Me lembrei de uma conversa com meu pai, na qual ele explicou que o que havia acontecido com nossa mãe era algo que não tínhamos como prever, mas que também foi um episódio isolado e que, muito provavelmente, não aconteceria conosco.

Acho que ficou óbvio que aquilo não era exatamente verdade.

O primeiro corte foi tão pequeno que produziu apenas três gotas de sangue, mas havia desencadeado alguma coisa.

Lexa descobriu alguns meses depois, e eu tive de enfrentar outra daquelas conversas.

A ansiedade era algo muito comum entre jovens bruxos. A incapacidade de controlar a própria magia e os próprios dons causava estresse excessivo em alguns, mas isso passava com o tempo, à medida que os poderes amadureciam.

E havia uma grande parcela de verdade nisso.

Killian era uma prova. Josh também chegava perto de se encaixar nessa explicação.

E havia todo o resto.

No que está pensando? – Lexa perguntou, interrompendo meus pensamentos.

Sobre mim. Sobre a mamãe. – Respondi.

Foi fácil para ela deduzir o que eu estava pensando.

Você não deveria pensar nessas coisas. Sabe disso.

Ela parecia preocupada.

Eu vi sua expressão. Você também ficou assustada quando achou que eu tivesse me cortado daquele jeito.

Claro que fiquei. Mas não porque pensei que você tivesse tido um surto psicótico.

Eu pareço com a mamãe. Todos dizem isso. Talvez seja totalmente literal.

Não se esqueça de que a mamãe via o medo das pessoas. Você só vê os segredos e os pensamentos delas. Quando aprender a controlar isso, vai passar. Há quanto tempo não acontecia algo assim?

Ela me olhava com ternura. Lexa, mesmo sendo bastante imprevisível, estava sempre preparada para me confortar quando necessário.

Vários meses — respondi. — Mas, mesmo assim...

Não, Matheus. Todos estamos sob pressão. Vida nova, cidade nova, lugar novo, magia nova. O que aconteceu com você foi compreensível, mas, depois daquilo, ficou tudo bem de novo. E vai continuar assim.

Como pode ter tanta certeza? – Perguntei, com medo.

Sou a irmã audaciosa, lembra? Não me arrisco a supor. Eu simplesmente sei. E, de qualquer forma, sou mais alta que você. Pessoas mais altas tendem a viver mais. É estatística.

Disse por fim, fazendo piada.

//

— Será que alguém vai desmaiar hoje novamente? Já faz tanto tempo que nada acontece neste lugar.

Lexa perguntou enquanto mastigava sua salada.

— Você poderia tentar, mas é uma péssima atriz.

Ela me encarou e fez uma careta de nojo.

— Ela me pareceu bem hoje na aula — Josh acrescentou, retomando o assunto.

— Não reparei. Estava entediada demais — comentou, bocejando.

— Você só se contenta quando alguém está explodindo alguma coisa, Lexa — completei.

— Não sou tão maníaca assim — arfou, dando de ombros.

— Mas o que aconteceu com a Amora naquele dia, exatamente?

Perguntei a Josh.

— Não sei, mas ela não está no refeitório hoje nem esteve aqui nos últimos dias.

— Ela é estranha — Lexa acrescentou, do nada.

— Você está com ciúmes dela — falei, cinicamente.

— Eu? Por que estaria? Não por ele — disse, apontando para Josh com o garfo. — Sem ofensa. Você é fofo, mas não faz meu tipo, ao contrário dele.

Completou, apontando para trás de mim com o garfo.

Killian e Roman estavam sentados ali.

— Não me ofendeu — Josh respondeu, sem parecer realmente ofendido.

— O que quer dizer com isso? — Lexa perguntou, ofendida.

— Nada. Só o que eu disse.

— Eu não faço o seu tipo?

Ela perguntou, furiosa, fazendo-me abafar uma risada. Lexa não estava acostumada a ser ignorada nesse sentido.

— Não — Josh respondeu quase no mesmo instante.

— Você está marcado para morrer, Joshua Strider.

Ela respondeu, com os olhos cheios de raiva.

— Você disse a mesma coisa para mim. Não é justo — ele retrucou.

— Não há nada de justo na maneira como raciocino as coisas. E, se gosta tanto da outra, vá almoçar com ela.

Disse Lexa, levantando-se e saindo da mesa com a bandeja ainda pela metade.

— O que eu fiz? — Josh perguntou, completamente confuso.

— Foi honesto sobre o que realmente acha de uma garota. No caso da minha irmã, você nunca deve fazer isso. Apenas diga o que ela quer ouvir. Precisa aprender isso se quiser ter uma namorada um dia, principalmente se estiver realmente interessado na Amora.

— Eu nunca disse que estava — Josh comentou, desviando o olhar.

— E também nunca disse que não estava. E, falando nisso, você também nunca me contou sobre o que conversaram na Arcadia.

— Trocamos quatro palavras. Meu nome e o dela. Depois, ela foi embora, você teve seu ataque de pânico e nunca mais nos falamos.

— Desculpe.

— Tudo bem. Mas, já que estamos falando sobre intenções, você deveria resolver esse seu problema com ele.

Josh apontou, dessa vez de maneira mais disfarçada do que minha irmã, para Killian. Também usando o garfo.

— Nada está acontecendo — arfei e mordi o maior pedaço de maçã que consegui.

— Você olha para ele a cada oportunidade que tem. Isso me parece interesse — completou, levantando as sobrancelhas.

— Isso não quer dizer que seja recíproco ou que haja alguma chance de acontecer. Não é exatamente simples descobrir se alguém está interessado quando não se pode perguntar.

Esclareci, desistindo de tentar mentir.

— Você se esqueceu do que é capaz de fazer? Pode tocar nele e descobrir.

— Eu não sei. Nunca fiz isso. Tocar em alguém para descobrir algo específico. Geralmente, vejo o que está na mente da pessoa naquele momento.

— Então faça alguma coisa que o inspire a pensar sobre isso.

Sugeriu, inocente.

— Como?

— Pergunte se ele tem uma namorada no lugar onde vivia.

Respondeu sem precisar de um segundo para pensar.

— Desde quando você ficou tão atirado?

Disse, com uma expressão cínica.

— Não estou me transformando em nada. Só estou aconselhando você — respondeu, envergonhado.

— Mas, se eu fizer alguma coisa, você também vai ter que fazer algo com a Amora. Tentar, pelo menos.

— É diferente.

— Como? Você é hétero, ela provavelmente também. Combinação perfeita.

— Só fiz dois amigos neste lugar nas últimas quatro semanas, e apenas um deles sabe sobre a minha família. Se nem mesmo minha irmã gêmea sabe disso, como eu contaria à Amora?

— Não sei — respondi, sem saber realmente o que dizer. — Mas, em relação à Lexa, você sabe que ela não vai se importar, não é?

— Sei disso. Mas, ainda assim, é bom ser amigo de alguém que não sabe tudo sobre mim.

— Desculpe.

— Por quê?

— Meio que descobri isso à força.

— Está tudo bem. Não foi de propósito. E fui eu que toquei em você, não o contrário. Mas não dá para começar algo com alguém sem ser sincero. Você poderia tentar.

— E o quê? Me assumir para toda a Academia, andar de mãos dadas por aí e virar o centro das fofocas?

— Vocês já são o centro das fofocas deste lugar. E Killian faz espadas de fogo sólido. Não acho que alguém ousaria zombar de vocês.

— Não na nossa frente — completei.

— É irônico dizer isso, mas acho que você não deveria se importar com o que os outros dizem sobre algo que não pode controlar.

— É muito irônico mesmo.

Então rimos.

Ele tinha razão. Mas ter razão e ouvir a razão eram duas coisas completamente diferentes.

Josh abriu a boca para dizer outra coisa, mas uma bexiga-d’água estourou sobre sua cabeça. Em seguida, outra explodiu sobre mim.

Olhamos para os lados automaticamente.

Quase todos riam ou estampavam surpresa. Só então percebi que a água que escorria sobre mim era quente, viscosa e, principalmente, vermelha.

— Sangue? — perguntei, apavorado.

— Suco de groselha e chocolate — Josh respondeu, ainda confuso.

Aquilo era uma pegadinha ridícula.

Meu olhar foi levado quase automaticamente até a mesa mais distante, onde Rex, Skandar e Hazel estavam sentados.

Os três riam tanto que não se preocupavam com mais nada.

Estendi a mão no ar e cerrei o punho. Minha cabeça inclinou-se ligeiramente para o lado, e a expressão de pavor se transformou em torpor.

Uma energia atravessou meu cérebro até as pontas dos dedos.

Então, aconteceu.

A mesa onde os três estavam sentados se destruiu por completo e caiu no chão.

— Math, acalme-se — Josh tentou intervir, sem sucesso.

Os três se levantaram das cadeiras, transbordando de raiva, e vieram até nós.

Os alunos ao redor pareciam se deliciar com a euforia, como se aquilo fosse uma luta livre na televisão.

— Você está louco? — Rex perguntou aos berros.

Não respondi.

Levei o olhar até a bandeja esquecida em uma mesa ao lado dele. O conteúdo explodiu, sujando seu rosto.

Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Josh me acertou com um soco de direita, me fazendo cair no chão.

Tentei entender o que estava acontecendo, até perceber que seus olhos estavam completamente escuros e pretos, sem íris. De relance, vi Hazel sendo segurada por Skandar.

Droga. Ela havia pulado para dentro de Josh.

— Sai de dentro dele! — gritei.

Mas ela apenas sorriu. Estendeu a mão e começou a fechar o punho no ar.

Meu corpo foi levantado e colocado de pé. Logo, minha garganta começou a se fechar, e eu não conseguia respirar.

— Vem me tirar — ela disse rindo com a voz de Josh.

Levei minha telecinese até outras três bandejas sobre uma mesa e lancei contra Skandar. As bandejas pararam no ar.

Rex havia feito aquilo.

Então, uma cadeira acertou Skandar por trás, o fazendo cair no chão.

Hazel, ainda dentro de Josh, perdeu a concentração por dois segundos. Foi tempo suficiente para Roman surgir por trás dela e prendê-la pelo pescoço, impedindo que ele — ou ela — respirasse.

Meu corpo caiu no chão quando a telecinese foi interrompida.

Voltei a olhar para Rex. Agora, ele estava de costas para mim, e Lexa se encontrava atrás dele.

Um corpo caiu desacordado no chão.

Era Josh.

Roman agora tinha os olhos completamente iguais os de Josh antes. Hazel havia saltado de Josh para ele.

— Droga.

Com as duas mãos erguidas, usei a mente para prender Roman. Sabia que ele aguentaria o impacto se eu o lançasse contra Hazel e Skandar.

— Desculpa.

Então fiz.

Skandar, que havia se mostrado péssimo em telecinese, não conseguiu deter o corpo de Roman, e os dois se chocaram.

Sete bandejas foram lançadas contra a cabeça de Rex, dando tempo para Lexa correr até mim.

Minha cabeça virou rapidamente para trás.

Killian havia feito aquilo.

Rex voltou a nos encarar, com os olhos vermelhos de raiva.

Roman já havia se levantado. Skandar, Hazel e Josh continuavam no chão.

— Já chega dessa palhaçada — Rex rosnou.

Todos os líquidos do refeitório se lançaram ao ar acima de nós, criando uma espécie de redemoinho marrom. Então, simplesmente caíram sobre todos.

Não foram arremessados com força ou brutalidade. Apenas caíram, molhando-nos sem machucar ninguém.

— Eu concordo — disse uma voz feminina que eu não ouvia havia dias.

A diretora Witwer estava parada no meio do refeitório. Usava um vestido longo, luvas escuras e tinha cabelos loiro-azulados.

— Senhores Herveaux e Holt, na minha sala. Agora!

Então, como se fôssemos feitos de fumaça, desaparecemos e reaparecemos no escritório da diretora, sentados em cadeiras de couro preto.

A diretora Witwer estava sentada de maneira ofensiva em sua poltrona.

Ela era imponente e assustadora quando queria.

— Não me importo com o motivo dessa desavença entre vocês dois...

Ela foi interrompida por Rex.

— Eu não fiz nada.

— Calado! — gritou, nos fazendo encolher nas cadeiras. — Não me importo, não ligo e não quero saber. Nada disso tem relação com esta Academia ou com o que fazemos aqui. É algo mesquinho, egoísta e infantil da parte dos dois. Portanto, vocês vão resolver isso sozinhos.

Ela percorreu a sala com o olhar.

— E, da próxima vez que interromperem minhas atividades, vou castigar todos os envolvidos para sempre. Isso inclui os senhores Romenick, Kane, Leonov-Grant e Strider, além das senhoritas Herveaux e Corazón. Entendidos?

Balançamos a cabeça, extremamente desconcertados.

— Vocês dois vão limpar aquele lugar, cada centímetro dele. E vão aprender, de alguma maneira, a se entender. Alguma pergunta?

Levantei a mão, com medo de que aquilo fosse uma pergunta retórica.

— Sim?

— Eu quebrei uma mesa, então...

— Ela já está consertada. Alguma outra pergunta?

— Podemos usar magia? — Rex perguntou.

— Não. Agora vão.

E, novamente, fomos transformados em fumaça e levados pelo vento.

Não havia mais ninguém no refeitório. A única coisa que havia mudado era a mesa que eu quebrei, agora consertada. O restante estava sujo, pegajoso ou completamente molhado.

Baldes, vassouras, esfregões e latas de lixo estavam espalhados pelo local. Havia também uma caixa de papelão com panos limpos.

— Por onde começamos?

Perguntei, tentando criar algum tipo de elo entre nós.

— Vou começar tentando não matar você, idiota — Rex retrucou.

— Você começou.

— Eu não fiz nada. Você destruiu a minha mesa.

— Não venha me dizer que não foi você quem fez as bexigas de sangue falso.

Então, ele sorriu e pegou um dos esfregões.

Eu não sabia por onde começar, mas Rex, por outro lado, não parecia atordoado diante da imensidão de coisas a fazer.

Começou despejando nas latas de lixo tudo o que ainda havia sobrado nas bandejas e o que estava sobre as mesas. Então, imitei o que ele fazia.

Levamos quase meia hora para terminar de retirar a sujeira mais pesada, colocar os restos de comida nas latas de lixo e empilhar as bandejas no balcão do refeitório. Ainda faltava todo o resto.

Rex mantinha um ritmo que me impressionava.

Meu corpo doía, e eu não havia parado de reclamar mentalmente desde que comecei. Estava irritado por não ter culpa de tudo aquilo, mas também me sentia culpado por não ter conseguido me controlar.

Rex, porém, parecia acostumado a usar o esfregão.

Só então percebi que talvez realmente estivesse.

Ser poderoso, especial, anormal ou qualquer outra coisa que fosse importante o suficiente para entrar naquela Academia não tinha apenas relação com a família de onde você vinha. Tinha relação com quem você era.

— Quando você tocou em mim, vi você em um restaurante. Não havia entendido na hora — confessei, falando pela primeira vez sobre o que vi na mente dele durante a primeira briga. — Foi tudo uma bagunça. Geralmente entendo com perfeição o que vejo, mas a cena era você comendo lá. Não vi o quadro todo porque a ligação foi interrompida. Você trabalhava naquele lugar.

Disse sem olhar para ele.

Rex não respondeu, mas também não negou o que eu havia descoberto.

— Você também viveu com humanos — acrescentei.

Aquilo chamou sua atenção.

— E daí? — perguntou, irritado.

— Nada. Eu também vivi. Só não trabalhei. Como era?

— Cale a boca.

— Não fomos mandados para cá apenas para fazer o serviço de limpeza, mas também para resolver o que quer que você tenha contra mim, seu idiota.

— Contra você? Eu tenho tudo contra você.

— Por quê? Eu nunca fiz nada contra você.

— Exatamente. Você viveu como humano entre humanos. Fora esse seu dom maluco, nunca precisou fazer nada e, depois, vem para cá e é capaz de fazer tudo. É ridículo.

— O quê? Você está com inveja de mim?

Perguntei, pasmo. Não parecia possível.

— Muita. A ponto de sentir ódio — confessou. — Meus dois pais eram mortais. Você sabe o que isso significa? Eles nasceram em famílias de bruxos, mas sem magia alguma. Não eram humanos nem bruxos. Não eram nada.

Ele apertou o esfregão entre as mãos.

— Então eu nasci, cheio de magia. Eles eram ridicularizados na sociedade mística em que vivíamos e, por fim, se mudaram para viver entre humanos. Eu me esforcei ao máximo para ser o melhor, o mais forte. E tenho que ver você e sua irmã sendo capazes de fazer tudo apenas porque nasceram gêmeos. Nenhum treinamento, nenhuma força de vontade. Apenas o simples fato de terem nascido juntos.

Sua expressão endureceu.

— É revoltante.

Completou.

— Não é minha culpa. Nem dela. Nem sua. Não controlamos isso. Para falar a verdade, não controlamos quase nada.

— Mesmo assim, vocês dois têm tudo fácil.

— Você ainda não percebeu, não é?

Perguntei, revirando os olhos.

— Percebi o quê?

— O que sentiu quando descobriu que viria para cá?

Perguntei, largando o esfregão.

— O quê?

— Eu fiquei feliz. Assustado, mas feliz — respondi à minha própria pergunta. — Não porque havia sido convidado para uma das grandes academias, mas porque viveria com a minha irmã. Agora, o que você sentiu?

— Eu me senti bem, é claro. Meus pais ficaram orgulhosos. Fui o único da minha cidade escolhido para uma Academia de prestígio.

— É exatamente por isso — falei. — Não fomos escolhidos por merecermos ou por termos algum direito de berço. Fomos enviados para cá porque este é o lugar onde nos encaixamos. Filho de dois mortais, bruxos gêmeos ou qualquer outra coisa: somos especiais não apenas pelo poder, mas por não sermos iguais a mais ninguém.

Voltei a segurar o esfregão.

— Eu por ter nascido com quem nasci. Você também. Então, não precisa ser o melhor, o mais forte ou aquele que conhece mais feitiços, Rex. Você precisa ser você.

— Mas eu sou assim. Competitivo, mandão, desconfiado, arrogante e, embora não goste de admitir, às vezes inconsequente...

— Nós nos tornamos assim — disse, percebendo que Rex e eu tínhamos algumas coisas em comum. — Isso não significa que precisamos continuar sendo assim para sempre.

— Você ainda é um idiota.

Completou, desistindo de brigar.

— Você também continua sendo quem é.

— Não somos amigos — comentou, me olhando de lado.

— E eu não quero ser seu amigo. Não precisamos disso. Só temos que parar de nos atracar a cada cinco minutos.

— Ainda vou odiar você e querer ser melhor, caso reste alguma dúvida.

— Tente. Eu vou tentar mais também, se isso fizer você se sentir melhor.

— Tanto faz.

E, finalmente, havíamos chegado a algum ponto.

Rex não havia sido tocado pela minha gentileza ou fraternidade, mas sabia reconhecer a lógica. É claro que voltaríamos a nos provocar em questão de semanas e que, talvez, em poucos meses, estaríamos brigando e trocando socos novamente.

A rixa na cabeça dele não havia acabado ali.

Apenas foi amenizada por enquanto.

— E mais uma coisa — disse ele, com um sorriso cínico.

Olhou ligeiramente para a mesa onde Killian e Roman haviam se sentado mais cedo.

— Eu sei sobre você. E sobre o que sente pelo ruivinho.

Aquilo foi tão intenso que pareceu desabar sobre as minhas novas concepções de convivência.

E, se eu havia achado que poderíamos sobreviver um ao outro por alguns meses, teria que esquecer.

Aquilo ainda estava longe de terminar.