Vol. I • Fumaças & Cinzas
August 17

CAPÍTULO X: Burn

Matheus

– Por que eu sinto que você não está tão animado assim como a maioria?

Perguntei.

– Talvez porque eu não esteja.

Josh respondeu terminando de arrumar a gravata borboleta no espelho de corpo inteiro com movimento. Depois de ouvir o que o professor Siegfried disse na última aula, ele decidiu que deveria pelo menos mudar alguma coisa no uniforme. Então estava ali usando aquela gravata.

– Até eu estou animado para a aula prática. E eu não sou exatamente um exemplo de amante de contato físico.

Comentei fazendo piada.

– Veja pelo meu lado, estar em um lugar onde provavelmente várias pessoas estarão se atracando é como enfiar navalhas na minha pele por diversão.

Um flash de lembrança cortou minha mente. Tentei manter a mente limpa antes que ele percebesse que eu estava me lembrando de algo. E dessa vez a memória era completamente minha. Lembrando das marcas que deveriam estar em minha pele.

– Vai ser legal – menti, parecia o certo. – E não devemos fazer nada muito drástico hoje. Pelo menos presumo que ninguém vá parar na enfermaria. Um lugar, por sinal, que eu não faço a menor ideia de onde seja.

– Alguém sabe onde fica qualquer coisa nesse lugar?

– Você.

Respondi com um sorriso que parecia tê-lo acalmado.

– Talvez.

Respondeu. Três batidas fortes se fizeram do lado de fora do nosso quarto.

– Já estão prontos?

Roman perguntou.

Um arrepio correu meu corpo ao imaginar Killian do outro lado, o que também fez meu corpo se impulsionar para frente, fazendo a porta se desfazer em pó.

Mas somente Roman estava parado à nossa frente. Novamente tive que forçar meu rosto a não transparecer o que minha mente pensava. Como frustração.

– Sim.

Josh respondeu depois de um longo silêncio que eu deixei acontecer sem perceber.

– Onde está o Killian?

Perguntei em seguida.

Josh tossiu atrás de mim, relembrando à minha mente os bons modos.

– Quer dizer, bom dia, Roman.

Tentei sorrir para disfarçar alguma coisa, mas foi tão inútil como tudo o que eu fazia em relação a esse rapaz.

– Ele foi dispensado da primeira aula de exercícios práticos de bruxaria.

Respondeu como se não fosse nada demais.

– Ele está bem?

Disse preocupado.

– Não, quer dizer, sim. Só está dormindo, ele não tem nada. Só foi dispensado, vai ficar o dia inteiro sem fazer nada.

– Então vamos.

Josh acrescentou.

Lexa

Trancei meu cabelo de modo que ele ficasse como um coque, da maneira mais curta que consegui. Cecilly já estava lá. Sua vitalidade tinha voltado desde a aula de demonologia ontem à tarde.

Tínhamos conversado um pouco até, ela parecia estar melhor. Mas algo em mim ainda se preocupava.

Agarrei meu livro das sombras e desci as escadas.

Bom dia, maninho.

Disse exalando profunda alegria.

Por que sua alegria me assusta?

Perguntou preocupado.

Pois tudo em minha audácia assusta sua psicose.

Respondi fazendo careta, mesmo que ele não pudesse vê-la.

Exatamente por aí. Bom dia para você também.

Preparado para chutar alguns traseiros?

Estou mais preparado para sermos arremessados meio ginásio adentro.

Confessou rindo.

Temos um ginásio?

Como se eu fosse realmente saber disso, Lexa.

Respondeu irritado.

Um de nós precisava ser mais informado.

E por que eu tinha que ser esse?

Agora ele estava ofendido, era bem divertido.

Sou bonita e naturalmente popular demais para me preocupar com essas coisas.

Respondi satisfeita em não ter que precisar inventar nada.

Sabe que para realizar feitiços é preciso estudá-los e gravá-los, não é?

Tenho sua mente para pesquisar, não se preocupe com esses detalhes.

Nem sabemos o quanto esse elo telepático funciona direito, fora ser uma linha telefônica sem fio.

Aparentemente somos capazes de qualquer coisa, não vamos nos limitar agora.

Acrescentei.

Então pare de achar, pare agora!

Retrucou cortando o elo.

Olhei rapidamente ao redor antes de falar.

– Alguém vai vir nos buscar dessa vez?

Perguntei em alto e bom som para as garotas da sala de convivência.

As garotas da minha turma se entreolharam e deram de ombros, sabendo tanto quanto eu. Amora estava parada lendo alguma coisa. Um livro pequeno, menor que a palma da minha mão. Seu rosto tinha um ar carrancudo que não me inspirava conectividade nenhuma.

Assim que virei meu rosto, a porta principal da Casa da Leoa se desfez e um grande ginásio se tornou visível.

– Garotas.

Chamei encarando nossa nova entrada.

Matheus

Foi como se a Playboy tivesse liberado suas modelos para uma amostra grátis. Pois a excitação foi generalizada.

Os alunos da outra turma olhavam para nós com um desejo ardente. Aparentemente a aula deles era só na sexta-feira. Para nós seria agora.

Entramos no ginásio ao mesmo tempo em que as garotas surgiram.

Tudo aqui ou era pintado em tons de cinza ou de marrom, então, fora as Casas Azuis, a academia inteira tentava ser como uma pintura de natureza morta, sem a parte da natureza.

Havia uma grande mesa retangular espalhada no meio do ginásio circular.

O chão era marcado de um jeito que criava dois lados, para times opostos ou para duplas literalmente se atracarem.

– Bem-vindos.

Disse uma mulher que se materializou atrás da mesa retangular. Ela tinha olhos castanhos que beiravam a um cobre, que se sobressaltavam em sua pele negra.

A mulher tinha uma postura semelhante à da diretora Witwer. Seus cabelos escuros e lisos estavam presos em um rabo de cavalo. Ela vestia uma blusa de cetim verde, uma saia tubo escura e um salto alto.

Nos aproximamos até ficarmos os quinze na frente da mesa, que dava exatamente para todos nós em uma fila larga. Lexa e eu éramos os únicos que se espremiam para ficar juntos. Mas não era questão de espaço, mas de necessidade.

– Estão prontos?

Perguntou, seu sotaque era igual ao meu.

– Estamos.

Respondemos em uníssono.

– Muito bom. Sou sua professora de Prática e Exercício de Bruxaria, Katia Moraes, e eu venho do Brasil, mas vocês podem me chamar somente de professora Moraes.

Meio segundo depois, Rex fez novamente, levantando a mão antes que qualquer um pudesse ter tempo de raciocinar o ato e fez a primeira pergunta.

– Vamos aprender algum feitiço hoje?

– Não exatamente, senhor Holt. Antes de conjurar qualquer coisa, vocês precisam aprender como controlar a energia que possuem. Por isso as velas.

– Que velas?

Ele perguntou, mas assim que as palavras saíram da sua boca, as velas surgiram. Uma para cada um de nós, ou mais ou menos isso. Para Lexa e eu, havia um candelabro com duas velas. Ligando a nós a mesma base.

– Todos vocês já usaram e abusaram de seus dons. É algo fácil. Natural. Por isso mesmo, todo bruxo nasce com um, às vezes mais que um. O seu dom natural. Mas conjurar magia é diferente, e requer um controle da sua força de vontade que seu dom normalmente não precisa, pois ele age instintivamente. Por isso as velas. Pois acender uma chama tão pequena necessita de um controle tão ridiculamente preciso que se torna difícil.

– Como acender velas pode ser difícil?

Hazel perguntou.

– Vamos tentar, senhorita Corazón. Todos vocês toquem nas bases de metal e digam incendia. Só os aviso a não porem suas cabeças muito em cima das velas. Pelo menos se quiserem manter suas sobrancelhas ou seus rostos intactos.

A maioria se afastou um pouco para trás.

Lexa e eu seguramos a base do candelabro, que era grande o suficiente para nossas duas mãos, uma em cima da outra, mas do tamanho ideal para nos manter em contato direto, um com a pele do outro.

E agora se fazia óbvio o porquê de Killian não estar aqui; ele não seria capaz de fazer isso com feitiços. Mas se todo bruxo precisava aprender essa parte, isso também significava que ele já sabia. Como se tivesse recebido treinamento especial antes ou coisa do tipo. Mas tudo era possível, já que eu não fazia a menor ideia de quem seriam seus pais ou sua história até agora.

Lexa disse incendia umas três vezes enquanto eu pensava, mas nada aconteceu. Outros faziam como ela, com olhos faiscantes de pentagramas brilhantes, e os resultados eram totalmente opostos, com chamas que chegavam a mais de dois metros vindo das velas.

– Não funciona.

Arfou ela com muita raiva.

– Deixa eu tentar – respirei fundo e lancei o feitiço. – Incendia.

Nada aconteceu também. Nem meus olhos faiscaram.

Rex, Amora, Roman, Hazel, Josh, Cecilly e os outros tinham um resultado semelhante entre si, mas Lexa e eu estávamos parados no nada.

– Vocês precisam se focar – disse a professora na nossa frente. – Não decifraram ainda, não é?

– Não deciframos o quê?

Lexa perguntou sem se preocupar em não parecer insubordinada.

– Vocês partilham a mesma chama de magia, estão envoltos em um manto de energia. Não precisam só estar perto ou se tocando para ter poder, precisam querer o mesmo. Focar no mesmo.

– Então estou fadada a pedir permissão a meu irmão para todo feitiço que eu quiser?

– E vice-versa?

Completei a pergunta.

– Exato. Mas, com o tempo, aprenderão a trabalhar em conjunto de uma forma que seus desejos serão quase um só. Mas enquanto isso, tentem só acender a vela.

Olhei para Lexa sem entender, mas disposto a tentar. Ela concordou com a cabeça. Miramos nossos olhares para as pontas do pavio. Respiramos fundo. Fechamos os olhos por alguns segundos e depois os abrimos, dizendo ao mesmo tempo.

Incendia...

E foi como abrir uma comporta de magia e deixar fluir. Nossos olhos foram tomados por aquele brilho faiscante.

As chamas de nossas velas alcançaram alguns metros de altura como o resultado de todos os outros, porém, não eram só as nossas velas que se acendiam. Eram todas, simplesmente queimando e queimando a nosso desejo.

– Math!

Josh gritou ao meu lado, me fazendo retomar o foco. Desgrudei minha mão do candelabro e, sucessivamente, da minha irmã. E o feitiço foi cortado e as velas se extinguiram de uma única vez.

Tentei não olhar para os lados, mas foi inevitável. Todos nos encaravam novamente. Lexa, contudo, parecia tão orgulhosa do que tinha feito que nem percebia minha preocupação.

Lexa

E aquilo tinha sido surpreendente. Sentir a magia fluir de dentro de mim para fora era tão... Era tudo que eu queria fazer. Claro que ficar presa ao consentimento do meu irmão não era algo que eu esperava. Quando me diziam que eu estava presa a fazer magia com ele, alguém poderia ter sido mais específico ao dizer que isso era total e completamente literal. Entretanto, deveria haver alguma maneira de remediar isso. Tinha que ter.

– Isso não é justo – disse Rex batendo na mesa com força. – Claro que eles têm mais poder.

Sorri cinicamente para ele, o que pareceu irritá-lo ainda mais.

– Acalme-se, senhor Holt – a professora acrescentou séria. – O exercício não era para criar a maior chama, e sim para acender com precisão. Tanto você quanto os gêmeos Herveaux falharam. Isso só mostra que nem tudo é fácil para eles também. Ter mais poder só torna ainda mais difícil de controlar.

E aquilo fez o sorriso que não existia no rosto do meu irmão se afundar mais ainda, mas nada iria tirar minha felicidade.

– Consegui.

Disse Josh cortando todo o diálogo.

Sua vela estava acesa, uma simples chama normal.

– Exatamente o que estou dizendo – a professora argumentou. – Precisão, isso o torna mais perigoso para conjurar feitiços do que vocês três.

Disse ela com um ar de orgulho em relação a Josh, que o fez ficar totalmente vermelho.

Parabenizações cortaram o ar até ele, o fazendo ficar como um tomate que tinha corado. O que chegava a ser fofo.

– Continuem tentando até conseguir, só sairão para almoçar depois que fizerem certo. E senhor e senhorita Herveaux, mais concentração e menos energia.

//

O exercício tinha passado de empolgante para estressante.

Mais quatro pessoas tinham conseguido uma chama normal: Roman, Hazel, Skandar e Samir. O restante parecia próximo de conseguir, mas Matheus e eu éramos, como meu irmão deveria estar nos chamando por dentro, os esquisitos superpoderosos.

– Algum superconselho, Josh?

Matheus perguntou.

Todos nós tínhamos saído da mesa e nos sentado espalhados pelo chão tentando conseguir alguma maneira de acertar a precisão da magia.

Matheus e eu sentamos com nossas pernas cruzadas e colocamos o candelabro no meio e demos as mãos, dando o máximo de espaço possível com nossos braços, para evitar de sermos queimados.

– Eu só mentalizei na minha cabeça como queria, só isso. Mas, claramente, ela enfeitiçou as velas para tornar isso mais difícil. Tenho certeza, porque eu pude sentir alguma coisa lá. Algo que não era meu.

Ele respondeu inocente, sem nem imaginar direito como tinha conseguido a proeza há mais de uma hora atrás.

– Você pode ir se quiser, Josh, não precisa ficar nos esperando.

Acrescentei tentando não parecer grossa.

– Para onde eu iria? Sentar com Roman e Killian no refeitório? – ele riu como se a possibilidade de ser amigo dos dois sem a nossa ajuda fosse quase impossível. – Prefiro ajudar vocês.

– Então faça alguma coisa, antes que queimemos metade da academia.

Matheus ironizou.

– Vocês dois precisam achar um foco em comum. Algo que ajude suas mentes a se concentrarem e darem o mesmo nível de energia. Só o suficiente para acender a vela e não para causar um buraco no teto.

– Preparada?

Perguntou meu irmão.

– Sempre.

Respondi.

Segurei sua mão e voltei a olhar fixamente para a vela. Só um pouco. Nada demais. Somente o suficiente para acendê-la.

Incendia.

E, como um som que se propaga, aquela palavra ecoou dentro da minha cabeça.

– Funcionou.

Gritei, até me lembrar que era só uma vela.

Matheus

Só voltamos para a sala depois do almoço. A maioria tinha conseguido depois de algumas muitas tentativas, mas, entre acender uma vela e conjurar alguma coisa realmente poderosa, tínhamos um longo caminho a percorrer.

Killian estava sentado com Roman quando chegamos ao refeitório. Lexa não fez sinal para que fôssemos atrás deles, então me mantive quieto.

Quando já estávamos na sala, as velas tinham sido reagrupadas na mesa novamente, como antes, mas dessa vez o candelabro sumiu, sendo substituído por duas velas individuais junto às quatorze restantes.

– Teremos que continuar com isso?

Lexa perguntou com pouca vontade de refazer o nosso trabalho de antes.

– Acho que não.

Josh respondeu.

– Bem-vindos novamente. Como podem ver, as velas retornaram – a professora Moraes dizia aquilo como se fosse um jogo muito interessante. – Vocês conseguiram aprender a acender uma única vela, agora quero que acendam múltiplas velas. Porém, do mesmo jeito que antes, controladamente.

Ela terminou aquela parte olhando para mim e Lexa.

– E qual é a diferença?

Birdy perguntou.

– Muito simples. Direcionar suas mentes a um ponto único e imóvel é simples. Agora, conseguir dividir essa energia dentro de vocês em partes iguais e direcionar cada uma para um ponto diferente não é tão fácil quanto parece. Agora, começando da esquerda, dê um passo à frente e tente.

Zander foi o primeiro. Ele conseguiu acender somente três das velas, duas delas com uma chama de meio metro. Depois dele foi a vez de Hazel, que conseguiu acender cinco de maneira mais uniforme, mas o resultado não a agradou. Ela saiu batendo o pé e irritada. Samir e Skandar conseguiram os dois acender sete. Amora foi a próxima e conseguiu dez das velas, e foi um número impressionante.

Birdy e Hya só conseguiram duas, Roman, como Amora, tinha acendido dez velas. Onika não conseguiu manter a concentração quando Rex murmurou algo baixo em seu ouvido, e só conseguiu acender a primeira vela, que alcançou os dois metros de antes. Demetria conseguiu quatro delas. Josh foi o próximo conseguindo oito, e Cecilly. E agora só faltavam Rex, Lexa e eu.

– Olhem e aprendam.

Disse Rex rosnando para mim.

Ele se aproximou da mesa e pôs suas duas mãos sobre ela.

Incendia.

Disse confiante e de olhos faiscantes, e todas as dezesseis se acenderam.

– Muito bom, parabéns.

Parabenizou a professora.

Não podemos passar vergonha.

Disse, mudando totalmente meu pensamento inicial de não chamar atenção.

Rex e você são como papel e fósforo.

Isso, só que eu sou mais bonito.

Acrescentei.

Segurei sua mão e voltei a respirar fundo. Queria fazer certo, e não ficar atrás do Rex, mesmo que fosse melhor deixá-lo vencer essa, mas algo em mim também queria a glória. E isso me assustava um pouco.

– Preparado?

Lexa perguntou aproveitando a chance de se amostrar.

– Completamente.

Diferente de todos, levantamos nossas mãos até que ficassem cada uma em cima de uma vela. Se elas perdessem o controle como as primeiras, ficaríamos gravemente feridos; se não, faríamos um belo show.

Incendia!

Disse em voz alta e tonificada.

As velas se acenderam antes mesmo que a última letra fosse pronunciada, mas não só elas, as tochas espalhadas por todo o ginásio circular inflamaram. E um sorriso convencido brotou na minha face, um que despertou uma sensação estranha de ser bom em alguma coisa, ou pelo menos chamativo o suficiente para acharem que sou bom.