Vol. I • Fumaças & Cinzas
July 15

CAPÍTULO VII • bury a friend

Lexa

Como Cecilly havia se recuperado da intoxicação alimentar, os dias começaram a correr mais rapidamente.

​Por causa dos dias em que ficou doente, a diretoria retirou Cecilly das aulas de Artes Especializadas.

​Usei o restante do meu tempo livre para pensar em como customizar meu uniforme e tentar fazer alguma melhoria naquela coisa monocromática.

​– Já teve alguma brilhante ideia?

​Lly perguntou.

​– Não. Pelo menos nada que seja realmente original.

​Pus meu uniforme de modo que ficasse montado em cima da minha cama.

​Blazer preto. Camisa social branca. Saia preta. Meias cinzas. Sapatilhas pretas.

​– Pensei em algumas coisas, mas tudo parece ficar horrível em mim.

​Disse ela por fim.

​Peguei minha segunda mala que estava escondida embaixo da cama e retirei minha maleta de costura. Não que fosse minha atividade preferida, mas era nessas horas que as aulas obrigatórias de Saint'Anne pareciam servir para alguma coisa.

​– Você não parece uma garota que costure.

​Cecilly acrescentou rindo.

​Desde a briga com Rex, ela havia ficado estranha comigo. Mas agora que estava melhor da intoxicação tinha voltado ao seu normal. Talvez fosse por causa da comida mesmo.

​– Aprendi nos meus dois primeiros internatos. Era uma atividade obrigatória. Éramos treinadas para ser damas. Damas costuram, cozinham, limpam a casa, fazem chá e esperam os maridos chegarem em casa. Pobres delas, não sabiam o que tinham dentro daquelas paredes.

​Disse com um sorriso cínico que esbanjava uma confiança exagerada.

​A primeira coisa a fazer era cortar o tecido. Claro que se eu cortasse errado poderia destruir o uniforme para sempre, e eu não fazia ideia se receberia outro ou se Cecilly sabia um feitiço para consertar roupas. Então tentei visualizar alguma coisa na minha cabeça.

​E, depois de conseguir algo, finalmente comecei.

​Joguei praticamente tudo o que estava na minha maleta sobre a parte vazia da cama. Organização de qualquer forma nunca tinha sido minha melhor qualidade, e ser espetada por agulhas era praticamente um pré-requisito básico para se costurar qualquer coisa.

​Segurei a manga com uma mão e com a outra simplesmente puxei o ombro do blazer com força. Mas foi como rasgar papel, quase como se a roupa fizesse o que minha imaginação queria. Retirei a segunda manga e a joguei no chão. Arranquei o emblema da academia e o joguei em cima do bolso da camisa. Na mesma hora, a costura do emblema se amalgamou à da camisa. Elas simplesmente conversavam entre si.

​– Como fez isso?

​– Não fiz – respondi. – O uniforme parece responder ao que eu penso.

​Segurei a saia no alto e depois a larguei. Ela continuou onde estava, simplesmente flutuando. Pelo menos para levitar roupas, minha telecinese funcionava sem problemas. Procurei entre as quinhentas amostras de tecidos espalhadas em uma sacola algo que servisse para minha saia pregueada, e consegui.

​Consegui encontrar um cinto fino branco perdido em algum lugar das minhas coisas, e um lindo broche de metal no formato de uma rosa.

​Segurei a tesoura entre os dedos e comecei a cortar as mangas do blazer em quatro tiras. Segurei a ponta de duas perto uma da outra e, como o emblema e a camisa, as linhas do tecido se uniram até parecerem imperceptíveis.

​– O que vai fazer com isso?

​– Um suspensório.

​Respondi esperando que o que eu presumi fosse acontecer.

​Refiz o processo com mais duas tiras até ter duas longas. Depois, coloquei as duas pontas de ambas de forma que se transformassem em um suspensório. O material se afinou na minha mão até se tornar um tipo de elástico escuro e firme. Absolutamente perfeito.

​– E as sapatilhas?

​Ela perguntou.

​Peguei as sapatilhas com as pontas dos dedos e as coloquei dentro da lata de lixo.

​– Tenho minhas botas novas – disse apontando para o par de botas pretas ao lado do guarda-roupa. – E, de qualquer jeito, meu pai pagou uma nota naquelas belezinhas de grife. A condição que ele impôs foi simples: eu deveria usá-las pelo resto da vida.

​Disse sorrindo de orelha a orelha.

​Coloquei o broche de metal e o prendi nos suspensórios, guardei o cinto junto da saia e depois dobrei tudo novamente.

​– Já pensou no que fazer no seu, Cecilly?

​– Acho que vou deixar como está, ver o que as outras garotas vão fazer primeiro.

​Ela respondeu, nada empolgada com essa etapa. Havia algo errado. Desconforto vindo dela.

​– Boa decisão, garota.

​Acrescentei tentando animá-la. Mas não funcionou.

​– Acho que vou descer um pouco.

​– Okay.

​Algo estava diferente. Mas saber o que os outros sentiam não era o mesmo que saber o que eles pensavam.

​Prendi os cachos loiros do meu cabelo com a primeira coisa que achei, um simples lápis, e comecei a andar. A porta do quarto se desfez como sempre, mas não era o corredor que eu via. Na verdade, eu não via nada, somente uma grande escuridão.

​Continuei parada esperando que algo ocorresse, mas nada aconteceu.

​– Quem é você? – gritei. – Sinto as emoções dos outros, idiota. Sei quando alguém está me observando. Sempre sei.

​Levantei meu queixo de forma ameaçadora e insolente. Contudo, não era nem perto do que eu sentia por dentro.

​Uma mão ossuda saiu das sombras como se tentasse alcançar algo no ar, mas não tivesse força para segurar um grão de areia.

​– O que você quer?

​Gritei mais alto.

– Você precisa parar.

​Uma voz moribunda sussurrou.

​– Parar o quê?

– Ela vai acabar morta por sua causa.

​– Quem?

– Cecilly...

​Sussurrou outra vez.

​– Por quê?

– Você precisa parar, pare agora!

​Então as sombras desapareceram. Duas garotas estavam paradas na minha frente me encarando como se eu fosse algum tipo de lunática ou retardada mental.

​– Vocês não viram as sombras, não é?

​Perguntei.

​– Doida.

​Disse a mais alta e magra, a loira por quem eu não tinha tido empatia alguma na cerimônia do cálice. Então as duas riram.

​– Idiotas.

​Retruquei em alto e bom som.

​Dei três passos para trás e a porta se refez.

Temos um problema.

​Disse mentalmente para o Matheus.

O que você fez?

​Perguntou desconfiado.

Eu? Nada. Alguma coisa, sim.

O que você quer dizer com alguma coisa?

Eu adoraria saber, me encontre atrás da Casa da Leoa, agora.

​Desci as escadas tentando não parecer apreensiva ou assustada. Ninguém levou o olhar até mim, nem mesmo Cecilly, que conversava com uma garota em quem até então eu nunca tinha reparado, mesmo ela tendo cabelos azuis repletos de pequenas flores coloridas. Talvez se fossem pequenos girassóis eu lembrasse.

​Matheus estava onde eu mandei. Porém, ele não estava sozinho.

Era para você ter vindo sozinho.

​Comentei irritada. Josh estava ao seu lado, claramente confuso.

Ele é de confiança, Lexa. Vai guardar o segredo. Prometo.

Você precisa explicar algumas coisas sobre esse rapaz depois.

​Acrescentei, sabendo que havia algo a mais sobre o Josh que ele estava escondendo.

​– O que você viu exatamente?

​Perguntou ele, antes que Josh percebesse nossa conversa telepática.

​– Uma sombra saindo do corredor.

​– Sentiu alguma coisa?

​Dessa vez Josh perguntava.

​– Não. Havia a presença de alguém, mas eu só posso sentir quando alguém está me observando. Porém, sem conseguir olhar, eu não sei dizer quem é.

​– Talvez você possa me mostrar.

​Matheus acrescentou.

​– Pensei que seus dons não funcionassem um no outro.

​Josh completou.

​– Nós podemos bloquear um ao outro, mas eles funcionam – Matheus respondeu. – Só se concentre, talvez eu consiga ver.

​– Vale a pena tentar.

​Estendi a mão para meu irmão e ele a segurou. Foquei meus pensamentos nos exatos momentos que haviam ocorrido minutos atrás.

​– Estranho. Eu vejo você, o corredor, as garotas te encarando, seus gritos ao vento. Mas não vejo mais nada.

​– Não estou louca.

​Respondi rapidamente.

​– Sei disso. É diferente. O vovô me contou sobre isso. Loucos não sabem diferenciar a realidade da fantasia. Sua mente mostraria para mim o que acha ser real, mas, no seu caso, eu não sei dizer.

​– Maldição!

​Arfei chutando uma pedra.

​– Talvez tenha sido um agouro.

​Josh acrescentou.

​– Garoto da cura, seja mais claro.

​Retruquei.

​– Um agouro de morte é um espírito vagante que aparece normalmente em sonhos ou visões para dizer que uma pessoa próxima a alguém vai morrer. É a explicação mais lógica que eu tenho.

​– Mas por que teria um agouro de morte no meu quarto?

​Perguntei confusa e irritada. Isso não era o que eu esperava por aqui.

​– Veja por um lado – voltou ele a dizer. – Esta academia tem uma taxa de mortalidade maior do que qualquer outra neste país. Não me surpreenderia se o terreno inteiro estivesse infestado de fantasmas. E, como nós três sabemos, eles são bem reais.

​– Ele tem razão, mana.

​Matheus completou.

​– Mas então por que eu seria responsável pela morte da Cecilly?

​Essa era a parte de tudo aquilo que mais estava me intrigando.

​– Não sei – Matheus continuava a segurar minha mão enquanto falava. – Mas, por via das dúvidas, você precisa se afastar dela.

​– Não vai ser problema, pois acho que ela já está fazendo isso. Mas e depois?

​– Vamos pesquisar.

​Josh respondeu.

​– Onde?

​– Onde todos pesquisam. – seu olhar se levantou – Na biblioteca.

​– Nós temos uma biblioteca?

​Isso era novidade.

​– Isso é uma escola – Matheus voltou a falar. – Óbvio que temos uma biblioteca, só não faço a menor ideia de onde.

​– Esse lugar tinha que ter uma daquelas caixinhas de sugestões. Pois um mapa não faria mal a ninguém.

​Comentei olhando ao redor. Se havia uma biblioteca, ela não ficava por aqui.

​– Mas o que vai fazer por ora?

​Josh perguntou mostrando preocupação.

​– Tentar não ser a culpada da morte da Cecilly ou de qualquer um.

​Respondi por fim.

​O que achou dessas ideias para selar o mistério e a investigação que estão começando a se formar?