Vol. I • Fumaças & Cinzas
July 6

CAPÍTULO VI • MIND OVER MATTER

Matheus

​Terceiro dia. Eu já tinha causado alvoroço com um cálice, uma briga por causa de um banco de concreto e tido um ataque de pânico por causa de uma boate. Isso, com certeza, era algum tipo de recorde pessoal.

​Me pergunto o que Erica e Diogo iriam achar disso agora. Eles não teriam entendido as duas primeiras coisas, mas já haviam me visto tendo um ataque de pânico antes, um que eu não soube explicar na época. Por sorte, o assunto foi esquecido na semana seguinte quando um rapaz vomitou no diretor da escola. Aquilo tinha sido mais do que nojento.

​Entretanto, Erica e Diogo não eram algo com que eu devesse me preocupar, com tantas outras coisas para pensar.

​As luzes se acenderam sozinhas como no dia anterior, mas dessa vez eu já estava acordado há algum tempo.

​Josh levantou tentando não fazer barulho, mas uma pilha de livros caiu da sua cama.

​– Droga.

​Disse ele tentando arrumar as coisas em silêncio.

​– Já estou acordado, Josh. Não se preocupe.

​– Desculpe.

​– Não consegui dormir de qualquer jeito.

Respondi, me virando na cama.

​– Ainda está sentindo...

​– Estou bem.

​Respondi tentando cortar o assunto.

​– Hm...

​– Vou tomar um banho.

​Disse por fim, já me levantando.

​Peguei meu uniforme de dentro do armário e minha escova de dente. As toalhas ficavam dentro do banheiro, sempre limpas e trocadas quando alguém usava.

​As portas que se desfaziam ainda eram algo a que eu tinha que me acostumar. Porém, o banheiro não me parecia assustador, pois depois que eu entrasse em um daqueles lavabos, poderia ficar um pouco a sós. Só eu e a água quente, e nada mais.

​Virei primeiro para a pia, e foi quando aquele corpo recuou violentamente para trás assim que me viu.

​– Oi.

​Killian disse segurando a toalha que estava ao redor da cintura.

​Seu corpo estava com uma fina camada de água por causa do vapor condensado. Seu cabelo, totalmente encharcado e pingando. Contudo, foi sobre o seu tórax desenhado que meus olhos correram em primeira instância.

​Forcei meus lábios a se manterem fechados e respondi acenando com a cabeça. Ele fez um meio sorriso e a conversa acabou. Mas antes que ele pusesse seu pé para fora do banheiro eu disse, ainda de costas.

​– Obrigado!

​Aquela palavra saltou da minha boca sem aviso prévio. Não soube como me portar depois, então simplesmente me joguei para dentro do primeiro lavabo que encontrei aberto e me tranquei ali mesmo.

​Não ouvi uma resposta vindo dele, mas talvez ele nem tivesse me ouvido.

​Pus meu uniforme em cima da porta e comecei a tirar minha roupa.

​Meus braços, que antes estavam curados pela magia de Josh, agora mostravam finas marcas avermelhadas causadas pelas minhas unhas na última noite.

​Sem notar, levei meus pensamentos até o registro do chuveiro e ele girou lentamente no sentido anti-horário. Levei um pequeno susto ao perceber a água caindo nas minhas costas, mas, de algum jeito, minha telecinese estava começando a surgir.

​Anos a bloqueando tinham se desfeito com facilidade.

​Tentei respirar fundo e me manter calmo e controlado, mas as lembranças da noite passada causavam náuseas no meu estômago. E antes que pudesse perceber, estava arranhando meu braço novamente. Forcei meus dedos a pararem. Se Josh percebesse o que eu estava fazendo, ele iria tentar perguntar, e ninguém começa uma amizade dizendo: "Oi, às vezes eu me corto para ter certeza de que o que estou sentindo é realmente um pensamento meu".

​Invasivo. Invasivo. Invasivo!

​Essa era a palavra que eu dizia com regularidade sobre como era ter uma relação comigo, era uma via de mão dupla interminável. Ao longo dos meses, era complicado lembrar quais pensamentos, medos e inclinações eram realmente meus e não segredos de outras pessoas. E isso mexia com a minha cabeça. Então estar em um lugar cheio de pessoas se esfregando perto de mim parecia um tanto assustador, mas eu não pensei que fosse ter outro ataque de pânico tão cedo.

​//

​Me apressei no banho depois que percebi estar parado sem me mexer por mais de vinte minutos. Josh já não estava no quarto quando eu voltei, então só terminei de me arrumar. Logo depois ele apareceu.

​Nossos uniformes pareciam muito com os que Lexa usou ano após ano nos internatos londrinos. Blazer, calça, camisa social, e o emblema da Academia, um brasão com as iniciais daqui. Tudo nas cores preto e cinza.

​Saí do corredor no exato momento em que Roman e Killian saíram também. O único de nós a ter algo diferente era Killian, que usava um sobretudo preto.

​Coloquei a mão no bolso para checar se meu relógio de bolso estava lá e agradeci por ter o blazer de manga longa para usar todos os dias.

​– Bom dia, raios de sol.

​Roman foi o primeiro a iniciar uma conversa, seguido de Josh, que o respondeu alegre, ignorando o que poderia ser identificado como uma ofensa. Mas Roman não parecia ser do tipo que fazia piadas idiotas.

​Killian e eu só acenamos com a cabeça novamente. Ele por ser sempre quieto, eu por estar nervoso demais para formular sentenças corretas.

​Lexa estava impaciente nos esperando na sala de convivência do dormitório masculino. Aparentemente ela poderia entrar no primeiro andar da casa sem nenhum problema. Eu não sabia dizer se ela poderia subir, e ela também não tinha tentado.

​Como não havia mais nenhum outro rapaz para lhe fazer companhia, ela tinha ficado sozinha, enchendo minha cabeça de reclamações telepáticas.

​– Estão atrasados.

​Disse ela impaciente.

​– Mas já estamos aqui.

​Respondi sorridente, e falso como uma rocha com problema mental.

​Atravessamos uma porta que nos levou ao refeitório e nos sentamos na mesma mesa redonda.

​O conteúdo das nossas bandejas era o mesmo do dia anterior, só que dessa vez o pudim parecia ter uma cara melhor, não que isso fizesse diferença. Odiava aquilo mais que tudo. Só a consistência me dava um refluxo no estômago, então eu iria sempre escolher a fruta que vinha como segunda opção.

​– Onde Cecilly está?

​Perguntei a Lexa.

​– Na cama. Parece que algo a fez passar mal na última noite. Está com uma cara horrível.

​Lexa terminou sua última colher de pudim enquanto nos contava sobre os gemidos de dor de Cecilly à noite. O rosto dela não passava tanta empatia assim pela garota.

​– Posso passar lá mais tarde. Tentar ajudar.

​Josh completou se juntando à conversa.

​– Ela já foi medicada. Aparentemente temos um enfermeiro. Robert era o nome dele. Bonitinho.

​Disse ela mordendo a colher e olhando para Roman.

​Tomei coragem para olhar diretamente para Killian desde que nos encontramos no banheiro e no corredor. E só então reparei que na bandeja dele só havia uma garrafa d'água.

​– Você não come?

​Perguntei sem pensar. Josh e Lexa me encararam curiosos.

​– Não gosto de tomar café da manhã. Senão, eu perco a fome para o almoço.

​Ele respondeu como se já estivesse acostumado a explicar.

​Por um segundo me permiti olhar para ele com outros olhos. E, falando neles, Killian tinha olhos de um verde tão claro que parecia improvável que fossem reais, quase como os meus olhos violetas.

​– A propósito, algum de vocês três sabe como chegar ao subsolo?

​Roman perguntou depois de devorar o terceiro sanduíche. Ele aparentemente comia bastante, talvez para manter o corpo.

​– Não.

​Respondemos em uníssono.

​– Mas eu posso ajudar com isso.

​Disse uma mulher que se materializou do lado da nossa mesa.

​Quatro de nós gritaram de susto. Killian não.

​– Quem é a senhora?

​Lexa perguntou.

​– MiMi Santiago, sua professora de Artes Especializadas.

​Disse a mulher baixa e gordinha.

​A professora Santiago tinha cabelos escuros e bem curtos, pele de um dourado fosco e usava um vestido pomposo que parecia a deixar ainda maior do que deveria ser. Ele era roxo e chamativo, mas combinava estranhamente com o rosto redondo e doce que ela empunhava.

​– Muito prazer.

​Dissemos todos os cinco.

​Ninguém mais pareceu perceber a mulher perto de nós.

​– Que educados. Agora se levantem, meus pombinhos, temos trabalho a fazer.

​Pombinhos?

Lexa perguntou mentalmente.

​– A senhora vai nos levar para a sala de aula?

​Josh perguntou.

​– Sim, sim. Vocês trouxeram seus livros das sombras?

​Ela perguntou enquanto pegava o pudim ainda na metade da bandeja do Roman e comia com os dedos, parecendo uma criança inocente.

​– Não sabíamos.

​Respondi.

​– Tudo bem. Tudo bem – ela levantou os dedos e os estalou. – Pronto, já estão lá agora. Então sigam-me, meus novos pombinhos.

​E ela começou a andar com as prováveis perninhas curtas escondidas no vestido roxo.

​Levantamos correndo tentando acompanhar seus passinhos rápidos. Ela parou na frente da porta lateral em que nós entramos vinte minutos atrás.

​– Sala de Artes Especializadas, por favor.

​As portas se desfizeram em pó como sempre. Porém, dessa vez não estávamos olhando para o lado de fora do refeitório, mas para o lado de dentro de alguma outra coisa.

​Entramos lentamente e a porta se refez logo depois.

​O lugar parecia a sala de aula de uma faculdade, todo em madeira escura, com uma sala em meio círculo, com fileiras postas como uma arquibancada, de modo transversal e não longitudinal como era nas escolas convencionais. Pelo menos como todas as minhas no Brasil.

​– Sentem-se na ordem em que estão nesse exato momento.

​E o espanto correu pelo meu rosto.

​Lexa estava do meu lado direito e Killian estava do meu lado esquerdo.

​Avistamos cinco livros das sombras na terceira fileira do lado esquerdo e subimos.

​Os livros das sombras da academia eram pretos e feitos de couro envelhecido. Eles tinham o tamanho de um livro normal e uma correia para fechar feita também de couro, que dava duas voltas. Com o passar do tempo, os livros das sombras se tornavam parte dos bruxos e lentamente começavam a mudar suas características gerais e a ficar mais parecidos com o dono; porém, eles sempre mantinham algumas características padrão, como um meio de sempre terem alguma parte da academia que os criou.

​– Muito bem, muito bem. Temos uma turma pequena hoje, pessoal – disse a professora Santiago como se estivesse realmente dando aula para uma turma completa, que estava somente com algumas faltas. – Sou a professora MiMi Santiago, e vou ensinar a vocês, nos três anos que conseguirem sobreviver, como usar seus dons. Então preciso que me contem como eles funcionam e, com algumas aulas grupais e algumas sessões individuais, vamos aprender a dominá-los e maximizá-los.

​Josh levantou a mão.

​– Sim, senhor Strider.

​– Temos que dizer a origem de certas habilidades para a turma inteira?

​Lexa e os outros o encararam, até mesmo Killian, mas Josh não estava falando de agora, e sim de quando as aulas realmente começassem. Sua preocupação era bem fundada. Pois dizer no meio da aula que sofre de uma maldição imposta por causa de um crime na sua linhagem seria uma grande confusão.

​– Não, senhor Strider. Na verdade, todos os professores e a diretora estão cientes de seus dons, como os dos outros, de antemão. Pois, convenhamos, leva-se tempo para criar aulas especializadas para trinta e dois alunos. Porém, o que eu quero aqui é saber como vocês veem seus dons.

​– Certo.

​– Quer ser o primeiro?

​– Não.

​Ela riu, uma risada de criança.

​– Posso ser o primeiro.

​Roman disse levantando a mão.

​– Fabuloso!

​A senhora Santiago estalou os dedos novamente e uma tigela apareceu ao lado do livro das sombras do Roman.

​– Certo – ele obviamente entendeu para que ela iria servir. – Meu nome é Roman Leonov-Grant, dezoito anos, e posso controlar o clima da maneira que eu quiser. E também posso criá-lo em ambientes internos.

​Josh, que estava na ponta mais afastada, olhava para ele tentando entender. Lexa e eu também.

​Roman colocou a mão em cima da tigela e a girou no ar lentamente. Nada aconteceu por alguns segundos até que uma fumaça se fez... uma minúscula nuvem acinzentada. E quando ele parou de girar, a chuva aconteceu. Derramando gotas e mais gotas sobre a tigela sem molhar nossa mesa.

​– Magnífico. Então você é capaz não só de controlar, mas também de criar uma atmosfera climática em locais fechados, certo?

​– Sim, mas quando estou do lado de fora é mais difícil. Se eu tentar criar uma tempestade, por exemplo, algo que exija mais energia, e isso cobrir uma distância longa, eu vou perdendo a consciência do que está acontecendo ao meu redor. Então presumo que se eu tentar demais, posso até ficar totalmente inconsciente enquanto faço o que faço.

​Comentou, ingênuo. Claramente ele não sabia a extensão de todo o seu poder. Porém, eu presumia que nenhum de nós realmente soubesse.

​– Exatamente – respondeu a professora com um tom um pouco mais sério. – Seu dom o liga com a energia vital da natureza, por isso é capaz de fazer o que faz. Porém, sua consciência precisa tocar a natureza para que você faça a magia, e quanto mais você tenta, mais você precisa sair do seu corpo. E é por isso que você perde a consciência com o decorrer do espaço e energia usada. Próximo.

​– Eu.

​Lexa exclamou. Uma bola de cristal do tamanho de um globo de neve surgiu para ela assim que a professora MiMi estalou os dedos novamente.

​– Meu nome é Lexa Herveaux, e eu e meu irmão temos dezessete anos, tendo eu nascido alguns minutos depois dele. Posso sentir e manipular as emoções, sentimentos ou sensações alheias. Como ira – disse ela sussurrando para a bola de cristal que ficou vermelha –, alegria – a cor cambiou para rosa –, tristeza – azul – ou amor – e dessa vez ela se tornou multicolorida.

​– Esplêndido. Poder adorável.

​Comentou a professora, mais do que animada.

​– Nem sempre – disse ela com menos empolgação. – Saber sempre o que os outros sentem não é tão legal quando se torna constante.

​O rosto da senhora MiMi mudou de expressão como o da Lexa, mas logo voltou a sorrir exageradamente.

​– Você agora.

​Apontou ela para mim estalando os dedos pela terceira vez.

​Uma mão de madeira surgiu na minha frente, tão bem-feita que tinha até articulações para se tornar móvel.

​– Okay, certo. Matheus Herveaux, meu dom é telepatia por contato. Desse jeito, se eu toco em alguém, pele a pele, sou levado a ver seus pensamentos, quase sempre um segredo. Mas às vezes também, qualquer lembrança aleatória. Normalmente, quanto mais tempo eu ficar em contato com a pessoa, mais os segredos vão se tornando íntimos e bem escondidos.

​– Isso deve ter dificultado sua vida, meu querido.

​Acrescentou ela com compaixão.

​– Um pouco.

​Respondi sem graça, principalmente percebendo como estava em desvantagem.

​– Agora, senhor Strider, sua vez.

​Para o Josh um pássaro pequeno apareceu, dentro de uma gaiola minúscula. Sua asa estava amarrada em uma atadura. Não tive coragem de perguntar se eles tinham realmente ferido um animal tão indefeso.

​– Certo – Josh tirou o animalzinho da gaiola e o colocou em sua mão. – Sou Josh Strider, tenho dezesseis anos e sou um bruxo curandeiro e empático em relação à dor física de qualquer um ao meu redor. Porém, diferente do que a maioria presume, eu não tenho nenhum poder regenerativo, então minha magia de cura não exerce nenhum efeito em mim.

​Disse ele enquanto passava seus dois dedos pela asa quebrada do pequeno pássaro. A luz cinza surgiu da manga do seu blazer e tocou o animal, que bateu a asa antes quebrada até a atadura desaparecer e começou a voar até a senhora MiMi e desaparecer por debaixo do seu vestido.

​– Pobre criança, culpada por erros que não são dela.

​A professora comentou, mas somente eu entendi.

​– Por último, mas não menos importante. Você.

​E antes que eu pudesse pensar, uma vela presa em um suporte de metal apareceu na frente de Killian.

​– Killian Kane, dezenove anos. Possuo maestria de fogo, o que me dá a capacidade de controlar o fogo como eu quiser. Também posso esquentar coisas com minha mente sem precisar tocá-las, só vê-las. Posso criar formas sólidas de fogo se eu me concentrar o suficiente – como a espada no outro dia, presumi. – E, como todo elemental, sou incapaz de criar fogo usando minha própria magia.

​A professora foi um passo para o lado e apagou com dois dedos uma vela próxima a ela. No mesmo instante, a de Killian se acendeu.

​Ele não demorou muito para fazer seu truque. A chama da vela alcançou quase um metro de comprimento no ar. Primeiro as chamas se tornaram um círculo acima de nossas cabeças, então outra coisa aconteceu. Flechas foram lançadas contra a professora, que simplesmente não pareceu demonstrar nenhuma preocupação.

​A poucos metros de se chocar sobre ela, as flechas tomaram a forma de cavalos flamejantes e começaram a dançar sobre sua cabeça.

​– Incrível e fabulosamente esplêndido.

​E, por algum estranho motivo, ele não estava observando sua própria criação. Ele estava olhando para mim.

​Não pisquei, não dei sinal de que estava percebendo. Só continuei ali, respirando.

​– Tão perceptíveis aos outros. Presos nos fardos de seus dons. Em seus corações. Vocês são um grupo diferente. Selvagens, até.

​E algo no tom de voz dela mudou, quase como admiração mascarada em outra coisa. Mas eu não via como poderia classificar a mim ou a Josh como selvagens. Lexa, sim. Nós dois, nem tanto.

​Levantei minha mão assim que ela terminou de falar.

​– Sim, senhor Herveaux.

​Sem dizer nada, peguei a mão de Lexa e apertei. Novamente aquilo aconteceu. Uma onda de vento se criou do ponto onde nos tocávamos e percorreu a sala.

​– Isso.

​Disse por fim.

​– Descargas de energia acumulada – ela deu uma risadinha fraca entre as frases. – Vocês não precisam se preocupar. É algo comum entre os bruxos gêmeos.

​– Não temos muitos outros bruxos gêmeos espalhados por aí para eu perguntar – Lexa respondeu sendo mais insolente do que deveria. – Não fazemos a menor ideia do que é comum ou não.

​– Claro, claro – voltou ela a dizer. – Imaginem assim: quando um jovem aprendiz desperta a chama de sua magia, ela começa a crescer exponencialmente por toda a vida. Independente de ele treinar ou não para controlá-la. Um dos motivos de termos centenas de bruxos completos espalhados por orfanatos e afins pelo mundo todo. Mas, como diz a tradição, bruxos gêmeos são criados separadamente até o dia em que sejam escolhidos para ingressar em uma academia. Então a conexão que une vocês é cortada; porém, a chama de sua magia continua ali, existindo. Crescendo. Se fortalecendo. Mas sem ser usada. Agora que estão juntos, toda essa energia que se acumulou ao longo dos anos não sabe para onde ir e tenta escapar toda vez que se tocam.

​– O que podemos fazer para parar isso?

​Perguntei.

​– Descarregar, por assim dizer.

​– Usá-la?

​Lexa perguntou.

​– Não exatamente. Vocês precisam colocar essa energia acumulada para fora de um jeito ou de outro, ou ela descobrirá modos de escapar e vocês não terão controle. Trabalharemos isso melhor até o final dessa semana. Com algumas sessões, tudo estará resolvido. Em um mês, no máximo.

​– Até lá o que fazemos?

​– Tentem não se tocar a menos que seja necessário. Agora vamos falar do dom universal. Algum de vocês quer demonstrar?

​Ela perguntou mudando de assunto.

​Killian levantou a mão a poucos centímetros da mesa e a deixou estendida. Alguns segundos depois, o estojo felpudo em cima da mesa da professora voou até sua mão.

​– Impressionante, se você não fosse você – comentou com um sorriso engraçado. – Próximo.

​Era como se ela esperasse, quem sabe, até mais. Porém, ela mesma havia dito que estava ciente do nosso nível de experiência, então deveria ser isso mesmo.

​Roman fez o mesmo que Killian. Dessa vez o vaso de flores em cima da mesa flutuou, mas não veio até ele, simplesmente se manteve no ar.

​– Bom, muito bom. Mais alguém?

​Antes que ela terminasse de falar, o livro das sombras do Josh estava acima de sua cabeça girando devagar.

​Seu rosto mostrava um sorriso ingênuo como sempre. Ele parecia estar bem satisfeito com o progresso.

​Em resposta, a professora deu três palmas rápidas e alegres com as mãos. E virou seu olhar para nós.

​– Não sabemos como ativar isso exatamente.

​Respondi, antes que Lexa o fizesse e falasse mais do que devia.

​– Mas ele conseguiu levantar um dos bancos de concreto da academia ontem.

​Roman acrescentou com ar animado.

​– Você também, senhorita Herveaux?

​A professora perguntou a Lexa.

​– Não, não. Só algumas pedrinhas. Foi a primeira vez que usamos telecinese com sucesso. Mas não faço a menor ideia como ele – disse dirigindo-se a mim intencionalmente em tom pejorativo – fez aquilo.

​– Obrigado pelo voto de confiança, mana.

​Acrescentei.

​– Tão diferentes em temperamento. Em poder. Vocês são como os diferentes dos diferentes – a senhora Santiago complementou sem fazer o menor sentido. – Quero dizer, bruxos gêmeos, no geral, são sempre um complemento um do outro, mas de uma forma menos unilateral. Como se fossem um reflexo, quase sempre. Vocês, por outro lado, não. Fazem jus às diferenças.

​Lexa e eu nos entreolhamos sem saber o que responder, então nos mantivemos quietos. E mais duas palmas rápidas se fizeram no ar.

​//

​O restante da aula se sucedeu entre levitarmos dezenas de objetos pequenos, para frente e para trás. Para baixo e para cima, para um lado e para o outro, como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

​Lexa teve maior dificuldade para iniciar o processo do que eu, o que deixava evidente que haveria uma diferença entre nossos níveis de magia. Por sorte, a professora não quis medir nossa capacidade de levitar objetos pesados, o que seria desastroso. Pois tudo de que eu não precisava era parecer melhor que minha irmãzinha.

​Provavelmente isso tivesse a ver com minha capacidade telepática, algum tipo de maior controle mental, ou sei lá o que... Mas por ora eu não iria comentar nada.

​Fomos direto para o refeitório depois que a aula acabou e sentamos juntos novamente. Todos os alunos fitavam nossas costas com uma curiosidade mórbida que parecia corroer o ar.

​E agora ser capaz de ler pensamentos a longa distância se mostraria não só útil como muito menos perturbador.

​– Acho que viramos a fofoca da academia novamente.

​Josh acrescentou.

​– Eles devem estar falando: "Quem eles acham que são para ter aulas antes de nós?".

​Disse Lexa em resposta tentando imitar uma voz masculina, quem sabe a de Rex.

​– Melhor – Roman colocou um dedo na garganta e continuou a falar. – "Eu vou afogar todos eles. Porque eu sou perfeito, bronzeado e modelo de cuecas da Calvin Klein".

​Todos nós rimos, pois seu tom de voz e timbre haviam simulado com perfeição os de Rex. Por sorte, ele estava longe demais para ouvir.

​– Isso não é justo, não podemos fazer magia.

​Lexa retrucou.

​– Como isso funciona, exatamente?

​Roman perguntou, agora para os dois.

​– Não sabemos ainda – respondi. – Só sabemos que temos de nos tocar, nada mais.

​– E quando tentamos fazer alguma coisa... Bem, você viu o resultado.

​Lexa acrescentou, enquanto flertava com ele.

​– Andar com vocês será como atrair problemas, não é?

​– Não – respondi ao mesmo tempo em que brincava com a minha salada. – Andar com a gente será como casar com o fator problema.

​Meu tom de voz saiu mais depressivo do que deveria, o que, de alguma maneira, fez todos encararem como uma piada inocente.

​E inocência era a coisa que menos predominava naquela mesa. Não com Lexa e Roman flertando a cada diálogo, e eu em meus pensamentos ocultos.