CAPÍTULO XI • Nada de Bom Acontece de Madrugada
Quem liga para alguém às quatro da madrugada? Meu pai e seu estranho raciocínio.
Disse atendendo à ligação sem jeito, como em todas as vezes.
Nosso pai tinha o costume de me ligar uma vez ao mês, mas sempre num dia e horário aleatórios, não me deixando muito preparado para nossas conversas estranhas. Eu ainda preferia a ligação anual de aniversário, essa pelo menos tinha algum tema para nos apoiar.
Disse ele em resposta, e então o silêncio se fez.
Como sempre, ele não fazia muita ideia de como conversar comigo, especialmente nos últimos meses.
Perguntei tentando criar alguma pauta para a estranha conversa.
Não me preocupei com meu tom de voz, pois estava sentado no sofá da sala de convivência tentando encontrar algo na televisão para assistir. Tentando assim ignorar a dor de cabeça persistente, e também a afastando de Joshua.
As dores eram constantes. Efeitos colaterais comuns de bruxos com habilidades psíquicas como a minha. Mas, com as minhas crises de ansiedade, elas se tornavam piores. Não havia muito a se fazer, infelizmente, a não ser esperar meus poderes se fortalecerem e as dores acabarem com o tempo. Era um desenvolvimento comum para muitos bruxos.
As imagens na televisão eram de alguma reportagem do mundo dos humanos da qual eu não fazia a menor ideia do que se tratava, estava mais absorto do que o normal sobre o mundo exterior. Bruxos ou outros seres místicos não tinham redes de televisão, então acho que a ideia de termos uma TV a cabo na sala de convivência era para nos deixar a par do mundo lá fora.
Respondeu. Não era isso que eu esperava ouvir. Obviamente.
– São quatro da madrugada, pai, você está em algum lugar com um fuso horário diferente dos Estados Unidos. Só por isso.
Respondi tentando não parecer irritado.
– Às vezes esqueço que você é inteligente – comentou, e eu tentei não levar como ofensa. – Estou em um lugar ensolarado – disse por fim, sem dizer onde estava ou por que estava e, principalmente, tomando cuidado para não mentir para mim. Ele havia descoberto da pior maneira minha capacidade de dizer quando alguém estava ou não dizendo a verdade. – E a academia?
– Bem, Lexa e eu já arrumamos algumas confusões e chamamos mais atenção do que eu gostaria, mas estamos bem.
Então fiz o que sempre faço nessas horas: mudei o assunto para minha irmã, um tema que ele dominava com maior facilidade.
– Sua irmã nunca aprende. Não sei como ela sobreviveu quieta por tanto tempo nos internatos. Acho que tive sorte que o dom que ela possui não era ofensivo.
– Ela quer te deixar orgulhoso. Ela sempre quer.
Exclamei deixando escapar mais ressentimento do que deveria.
– Sempre estou orgulhoso de vocês, sempre. Dos dois, saiba disso, Oliver.
Disse ele por fim, me chamando pelo meu segundo nome, o nome do meu avô.
Mas como estaria orgulhoso de mim... Não fazia sentido.
– Hmm... Você vem nos visitar em breve?
Perguntei simplesmente para afugentá-lo, eu também não era um exímio trabalhador em nossas conversas.
– Somente no feriado de inverno, vamos passar juntos na cidade. Já preparei um hotel.
Respondeu para minha surpresa.
– Mas ainda faltam meses, por que já fez a reserva?
Perguntei confuso. Ele não era o tipo que fazia muitos planos, principalmente antecipados. E também por causa do seu trabalho.
– Não quero perder. Vai ser a primeira vez que vou ver vocês dois juntos em quase uma década.
Claro, seria mais fácil nos visitar. Era como ganhar na loteria da falta de paternidade, pensei ressentido.
Perguntei não fazendo a menor ideia do que ele poderia estar fazendo. Ser um bruxo alquimista e trabalhar em um museu como historiador e arqueólogo não era o trabalho mais comum entre a nossa espécie. Mas meu pai trabalhava exatamente para manter nosso segredo. Mesmo sendo emprego de uma empresa humana, seus chefes reais eram o nosso governo. Parcialmente ele estava descobrindo novos fatos sobre civilizações antigas e, no meio disso, encobrindo vestígios sobre o mundo místico do passado. Ou, ao menos, modificando o suficiente para que continuemos como simples mitos.
– Sim, sim. Descobrindo coisas, perdendo outras. Procurando uma madrasta – disse ele com pouca convicção. – Essas coisas.
Papai tinha voltado a namorar há três anos. O nome dela era Christine, era uma mulher legal pelo que a Lexa descreveu. Bonita também. Mas Christine era humana, e logo os segredos do meu pai a fizeram largar a relação instável; depois disso ele não namorou mais ninguém.
Disse percebendo que nunca tinha falado com ele sobre ela.
– Não precisa. Mas e você? Sei que está conjurando feitiços, arrumando briga, levitando coisas... Mas encontrou... Alguém interessante?
Okay, isso tinha ficado oficialmente estranho.
– É relativo, mas qualquer problema eu tenho o Google para ajudar.
Disse tentando construir algum diálogo cômico, sem sucesso.
– Não quero que ache que não pode falar comigo sobre seu primeiro... Namorado, Oliver.
– Papai, eu já tive um primeiro namorado, por seis meses.
Um silêncio se fez. Não soube dizer se ele tinha ficado assustado por saber tão pouco sobre mim ou surpreso por eu jogar aquela informação assustadora diretamente nele.
– Desculpe por não saber muito – disse ele com um tom de voz diferente. – Vou me esforçar mais, prometo.
– Está tudo bem, não sou exatamente o modelo perfeito de filho.
Disse enquanto cravava minhas unhas repetidamente sobre a pele do meu braço.
Eu sabia que ele tinha um histórico com a minha mãe e deveria estar habituado a lidar com alguém com transtornos psiquiátricos, mas conviver e entender eram coisas diferentes.
– Não diga isso! – disse ele quase gritando do outro lado do telefone, fazendo minha mão parar por um segundo de tentar cortar minha pele. – Ar... Vou deixar você dormir agora, tudo bem?
– Claro, até... Até mais tarde.
Me despedi como se realmente fôssemos nos falar ainda nesse dia ou nessa semana.
Ele acrescentou antes que a ligação caísse.
Bizarro descrevia o sentimento.
Levei meu rosto para minha caneca de chá esquecida na mesinha de centro que ficava na frente do sofá onde eu estava sentado.
As luzes estavam desligadas e o lugar era iluminado apenas pela luz da televisão grudada no teto perto de mim.
Coloquei meu dedo dentro do chá tentando sentir sua temperatura, mas ele já estava gelado.
Disse Killian parado a poucos metros de mim, segurando um copo de água que mais parecia um cilindro fino e exageradamente alto. E, sem esquecer, ele só estava usando uma simples cueca boxer preta.
Poderia ter reagido melhor à situação. Talvez, se eu tivesse gritado como uma criança no Natal, as coisas tivessem ocorrido de forma menos estranha.
Então acabei fitando seu corpo por longos segundos sem conseguir formar uma sentença.
Os músculos desenhados pelo seu tórax me deixavam tonto, mas provavelmente era o efeito do sono que estava começando a perfurar meus pensamentos, misturado com os meus remédios.
Ele abaixou levemente a cabeça para a direita e olhou fixamente para a caneca de chá, e logo ela estava borbulhando e soltando vapor.
Disse agradecendo por finalmente conseguir controlar meus lábios e também por não ter babado. Isso sim seria horrível.
Ele se sentou ao meu lado antes que eu pudesse perceber, seu braço nu quase encostou no meu, fazendo meu corpo recuar de modo grosseiro para longe. Não tinha me preocupado em me esconder atrás de mangas longas quando tinha ido dormir, então só estava usando uma camisa qualquer – da minha coleção de vergonhas, com estampas que iam de múltiplas versões de alguns Pokémons até mensagens de Réveillon – junto a um dos shorts coloridos de corrida que vovô tinha comprado para si, mas do tamanho errado.
Disse ele se arrastando um pouco para o lado.
– Está tudo bem, eu que teria invadido sua mente, não o contrário.
Ele perguntou e depois bebeu uma grande quantidade de água do copo exagerado.
– Existe algo que eu e minha irmã fazemos que não seja estranho para alguém? – perguntei fazendo piada. Ele não riu, mas sorriu. Nunca o tinha visto sorrir desse jeito ainda. – É mais desconfortável do que estranho – expliquei. – Mas não é sempre, é menos do que eu aparento. Mas às vezes – disse segurando meu punho, onde as marcas dos cortes estariam se a minha avó não as tivesse removido com magia – é mais desconfortável do que outras.
– Sei como é. Eu tenho que ser calmo o tempo todo – Killian acrescentou fitando os pés. – As chamas são movidas pelas minhas emoções e como eu as sinto. Se eu ficar com raiva ou irritado elas explodem, e, como não quero queimar ninguém vivo, é bastante chato tentar ficar calmo o tempo todo. Mas é parte da minha personalidade, por assim dizer. Não saberia ser de outra forma, mesmo que pudesse.
Confessou. Seus olhos verdes ficavam difíceis de enxergar no escuro, mas seu cabelo, estupidamente vermelho, ainda era bastante visível.
– Você nunca perdeu o controle?
Perguntei estranhamente confortável.
– Sim, algumas vezes. Já queimei aquela parte das frutas do supermercado uma vez.
Disse quase fazendo uma piada rasa.
Perguntei, mudando levemente o foco.
– Algumas queimaduras, já. Mas nada muito pior do que quando você encosta em uma panela quente ou esquece que está segurando um fósforo. Mas nunca feri alguém realmente, não sem ser intencional.
Fiquei tentado a perguntar o que isso queria dizer ou como ele sabia aquele lance da espada de fogo, mas me pareceu pessoal demais.
– E você, já perdeu o controle?
– Duas vezes. Uma foi bem parecida com aquela coisa na Arcadia.
Perguntou realmente interessado. Não havíamos voltado para esse assunto depois daquilo.
– Isso – e como eu odiava esse termo. – Eu sofro de transtorno de ansiedade generalizada, como já deve saber. Teve uma briga em uma festa uma vez, minhas roupas foram rasgadas e dezenas de pessoas tocaram em mim ao mesmo tempo, foi enlouquecedor tentar entender tudo aquilo. O medo de todos eles reunidos fez minha mente se quebrar. Foi assustador, depois disso eu não saí muito para locais com muita gente. Mas a ansiedade veio bem antes disso, eu tenho desde muito novo. É uma propensão genética.
Perguntou, olhando para mim sem piscar.
Segurei ainda mais firme em meu pulso. A segunda vez que isso tinha acontecido havia sido quando eu e Daniel tínhamos feito sexo, mas isso voltava à parte pessoal demais para se encaixar na conversa.
– Uma porta na minha mente se abriu e foi como receber todas as memórias de uma única pessoa. Foi como mergulhar nela, e eu tive que conter a vontade de não vomitar seus segredos para fora para tentar tirar aquilo de mim. Foram essas duas vezes.
Respondi sem identificar como aquilo havia ocorrido, e ele também não me perguntou.
Perguntou olhando para a TV ainda no mudo. Fingindo, claramente, não perceber meu desconforto.
Respondi, isso era comum para mim. Lexa, por outro lado, era como uma pedra depois que fechava os olhos. O que quer que estivesse errado comigo e minha mãe, não tinha passado para minha irmã.
– Eu também. Pesadelos? Eu tenho às vezes, com coisas que eu não tenho controle.
Completou agora olhando para a parede.
– Sim, mas não só isso. Às vezes, quando eu durmo, me sinto estranho. Tocado por algo, entende? Acho que são os medos dos outros que ficam guardados na minha cabeça; nos sonhos, às vezes eles voltam.
– Então – disse ele levantando a mão no ar –, se eu te tocasse agora, você veria algum segredo meu?
Perguntou voltando a olhar para mim com curiosidade.
– Ou um pensamento, ou nada. Como disse, não sei controlar. Às vezes acontece, às vezes não.
Ele perguntou mudando a expressão no rosto.
E, antes mesmo que eu terminasse de engolir em seco, uma dor lancinante atravessou meu cérebro, me fazendo cerrar os dentes para não gritar em agonia.
Tentei segurar minha cabeça como se aquele movimento fosse parar a dor. Três flashes de luz aconteceram, do mesmo jeito de quando alguém me tocava, só que dessa vez não havia ninguém me tocando.
As duas primeiras imagens foram rápidas demais para eu conseguir ver, mas a terceira parecia uma casa estranha e alta, cheia de vitrais, e então houve o rosnado. Como um cão grande ou um lobo.
Killian gritava tentando focar minha atenção.
– Você está bem? Toquei você?
– Não – respondi ainda mais assustado que ele. – Ninguém me tocou.
Ele desceu seu braço em minha direção tentando alcançar meu ombro coberto pelo tecido da camisa, mas algo ainda parecia errado.
Disse arrastando o ar com a palma da minha mão aberta, lançando Killian contra uma parede a três metros à nossa direita.
– Droga – arquejei. – Desculpe.
Acrescentei, pegando meu celular e correndo para as escadas o mais rápido que consegui.
Entrei no meu quarto sem me lembrar que Joshua ainda estava dormindo, mas, assim que a porta se refez atrás de mim, me dei conta das luzes acesas e de Joshua parado na minha frente.
Perguntei tentando fingir normalidade.
– Você estava com dor, eu senti.
Ele se lançou para frente e agarrou meu braço. Quase refreei o movimento, mas o toque dele dessa vez não acionou nada. Mas talvez fosse pelo sangue escorrendo pelos três cortes longitudinais no meu braço direito.
Perguntou tão assustado quanto Killian.
Mas a questão aqui é que eu não sabia nem um terço do que eu tinha feito ou do que era capaz de fazer a mim ou a qualquer um.
– Eu não sei, eu realmente não sei.
Josh se revestiu com aquela personalidade séria novamente. Puxou um pano branco de dentro de uma sacola plástica e enrolou no meu braço tentando estancar o sangue.
– Precisamos achar uma enfermaria.
Disse já me levantando antes que ele se voluntariasse.
– Não. Você tem como explicar por que está assim?
Perguntou antes que eu pudesse me levantar.
– Então eu vou curar você. E depois tentamos resolver.
Disse recolhendo meu braço para perto do meu corpo.
Então ele sorriu. Tão amigavelmente que chegava a ser estranho.
– Está tudo bem. Agora fique quieto.
Ele saiu do quarto e voltou com outro pano branco molhado.
Sua mão pousou sobre meu braço e sua magia fez o que fazia com perfeição. Me curando, não causando dor.
A luz cinza que subia do seu antebraço até os dedos e consecutivamente para a minha pele era morna e dava uma sensação de dormência e náusea ao mesmo tempo. Logo depois, os cortes tinham sumido, e Josh tentava não franzir a testa.
– Tem alguém atrás da porta. Senti a dor dele também agora pouco. Um corte no queixo e um ombro deslocado, eu acho.
Josh acrescentou ainda envolto no ar sério de quando estava tomando decisões.
– Provavelmente deve ser o Killian, eu o arremessei contra uma estante.
Disse guardando todas as coisas sujas de sangue em um mesmo lugar e as escondendo embaixo da cama.
– Não sei, aconteceu depois da dor. Imagens surgiram na minha cabeça, e depois um rosnado. Essas imagens eram sobre uma espécie de casa estranha com vitrais. Eu entrei em pânico novamente e o lancei contra uma estante e subi para cá.
– Uma casa com vitrais? Como uma igreja?
Seu rosto formulava alguma coisa.
– Exatamente. Você sabe do que estou falando? Você viu também?
– Sim e não. Você deve ter visto a Igreja Preta e Branca. Quando a cidade foi reconstruída, alguns marcos foram criados: a academia, por exemplo, o cemitério e a igreja. Se você está falando sobre visões sobrenaturais, eu aposto que é sobre lá.
– Como eu vi algo que nem mesmo sabia que existia?
– Não sei te responder isso. Mas e a Lexa, ela também viu?
– Não, se ela tivesse visto algo assim teria me acordado.
– Mas você não a acordou, certo?
Dei um olhar torto para ele que o fez repensar.
– Certo – voltou a dizer. – Ela é a Lexa. Mas vocês não têm aquele lance da ligação mental, não deveriam ver as mesmas coisas, ou sei lá o quê?
– Como se eu entendesse alguma coisa sobre ser um bruxo gêmeo.
– Você, nada. Minha irmã e eu, por outro lado, vamos descobrir o que está acontecendo conosco. Você fica fora dessa confusão.
– Vocês dois estão sendo assombrados por agouros e imagens de lugares que não conhecem. Vão precisar da ajuda de alguém.
– Nos conhecemos há o quê, duas semanas? Que também corresponde ao tempo em que estamos aqui, e minha irmã e eu já estamos presos em algum tipo de enigma na cidade que é o epicentro da magia americana. Por que não fomos mandados logo para Sunnydale? Seria mais prático nos exterminar.
– Se o destino fosse claro e fácil, acho que todos saberíamos dele.
– Por ora, eu me interessaria em saber do meu presente, pois ele está bastante confuso.
– Independente disso, eu quero ajudar. Você é o primeiro jovem bruxo que não me tratou com desdém ou superioridade por eu ter o sobrenome que tenho.
– Okay. Mas convenhamos, não estou em patamar para ser preconceituoso com ninguém.
– Talvez seja por isso que somos colegas de quarto.
Ele acrescentou, e aquilo realmente fazia sentido.
E ele deu de ombros fitando o relógio, que já marcava quase cinco da manhã.