Vol. I • Fumaças & Cinzas
August 5

CAPÍTULO IX • Scars To Your Beautiful

Lexa

​Ouvir toda a introdução da professora MiMi Santiago havia sido entediante, mas isso havia me dado tempo para analisar outras coisas, como, por exemplo, o fato de que Amora van Allen havia ficado mais deslumbrante que eu no seu uniforme.

​Ela ainda usava as botas que trajava no primeiro dia, porém, tinha transformado sua saia em um short curto e largo na barra, o blazer tinha sido cortado pela metade e acrescentado nele espécies de ombreiras com espinhos prateados. O tecido também havia mudado para um tipo de couro duro e levemente mais escuro.

​O cardigã que eu a tinha visto usar não parecia nada comparado com aquela nova jaqueta, como se os dois visuais fossem de duas pessoas diferentes. Não absurdamente opostas, mas com inclinações sutilmente diferentes. Como triste e deslocada, para ameaçadora e decidida.

​A nossa segunda aula da semana de Artes Especializadas estava acabando. A professora MiMi já tinha passado pelo processo anterior na tarde passada de perguntar como nós víamos nossos poderes, e pelo menos nosso atual grupinho não precisou falar, mas o restante dos alunos pareceu bastante empolgado para se mostrar.

​Como na aula de Teoria e Conceito Básico de Magia, Rex foi o primeiro a se voluntariar para algo. O próximo foi Skandar Romenick, seu colega de classe. Ele era até bonitinho, mas tinha um olhar perdido que eu poderia jurar só ter visto em usuários adeptos de alucinógenos. Seu dom era mudar de forma, mas somente para formas de aparência humana. E, pelo que ele havia mostrado, não importava se a pessoa em que ele se transformasse fosse menor, maior, ou qualquer outra coisa, não parecia haver incômodo ou dificuldade alguma em transitar entre sua forma e a que ele escolhesse. E aquilo sim era controle.

​Cecilly foi a próxima quando a professora pediu que ela falasse. Desde ontem ela parecia novamente doente, mas hoje parecia pior, e ninguém apontava nada. Os mais interessantes depois disso foram a própria Amora – que disse ter a capacidade de criar ilusões, o que me despertou certa dúvida –, sua colega de quarto Hazel Corazón – que tinha o dom da possessão, podendo literalmente lançar seu espírito para o corpo de outra pessoa mas só por um período limitado –, e uma garota chamada Birdy Cleawater, que também vinha de uma parte da Inglaterra com cabelos pretos e longos, e tinha um dom estranho de absorver energia tanto de objetos quanto de pessoas, que ela poderia usar para aumentar suas próprias reservas naturais ou disparar como raios de energia, ou qualquer coisa do tipo.

Depois daí, os dons não me pareceram tão incríveis, como o de Zander Konstantin, um rapaz com pele de oliva que podia ficar invisível, e como eu não tinha reparado nele até agora, era bem provável que fosse verdade. Ou até mesmo o da própria professora, que tinha a capacidade de ver o passado dos objetos com os quais entrasse em contato físico.

​– Mais algum dom que alguém queira saber?

​A professora MiMi perguntou.

​Para que ela voasse ao redor das nossas cabeças como as fadinhas dos desenhos animados, faltava muito pouco. Onde aquela mulher achava tanta alegria de viver?

​Samir levantou a mão meio sem jeito. Ele era um pouco mais baixo que Josh, mas tinha características físicas parecidas.

​Contudo, Josh tinha olhos azuis e cabelo um pouco mais escuro, já Samir tinha olhos verdes.

​– Qual é o nome dado ao dom que pode forçar os outros a obedecer às suas ordens?

​Um murmúrio estranho rodou a sala e voltou para nós.

Por que estão olhando para a gente?

​Matheus perguntou mentalmente.

Não sei.

​– Deixe-me ver, há inúmeros dons que podem fazer esse tipo de coisa. Mas se formos ver pelas demonstrações que tivemos, eu diria que o senhor está falando do dom que chamamos de Subjugar. – o tom de voz dela fez aquilo de novo, saltando de alegre e distorcido para sério. – É uma habilidade comum para os demônios, mesmo que só funcione em humanos comuns, sem nenhum traço de magia. – o murmúrio ficou maior. – Porém, também ocorre em alguns bruxos. Como parte de vocês deve ter visto. Nesse caso, podendo afetar qualquer ser, dependendo, é claro, da sua força de vontade e proteções mentais, já que é basicamente uma habilidade psíquica. – todos, sem exceção, olhavam para nós, e até mesmo a professora agora prestava atenção extra em meu irmão e em mim. – Porém – voltou ela a dizer –, esse dom é pouco sutil, a pessoa que o tem pode forçar a outra a fazer o que quiser, mas não pode controlar sua mente, somente seus movimentos. Então você vê claramente que a pessoa tem seu corpo controlado, e se o bruxo ou demônio em questão não se concentrar em manter a boca do seu fantoche fechada, ele pode simplesmente falar que está sendo controlado. Mas isso não faz do dom menos letal.

Rex! – Matheus quase saltou da cadeira ao dizer isso na minha mente. – Nós fizemos isso ao Rex... Eu achei que tinha sido a telecinese, mas foi isso.

​E agora eu estava absurdamente surpresa.

​Manipular o que os outros sentiam era uma coisa, suas mentes se encarregavam de dar motivos e explicações, mas se aquilo que fizemos com Rex na briga fosse exatamente o que a professora disse, nós tínhamos muito mais em mãos.

​Antes que pudesse perceber, já estava com a mão levantada, pela primeira vez nas duas aulas.

O que está fazendo?

​Matheus perguntou, mas não o respondi.

​– Como ele é ativado?

​Perguntei, e os murmúrios a partir daí se tornaram quase expressões de pavor em todos.

​– Bem, a própria palavra já diz: você precisa subjugar a vontade do outro sob a sua. Tomando sua mente. É uma habilidade que requer muita concentração, contato visual direto na maior parte das vezes e muito, muito poder. Não deve ser usada à toa ou por qualquer coisa.

​E aquilo foi quase como uma advertência jogada no ar, acertando diretamente nós dois.

​Mas se realmente podíamos fazer isso, por que nunca tinha se mostrado?

​//

​– Você não devia ter perguntado aquilo, Lexa!

​Matheus exclamou.

​A aula de Artes Especializadas já tinha acabado, e nosso almoço também. Estávamos a poucos minutos da aula de Demonologia.

​– Temos um novo dom, e você não quer saber como funciona? Me poupe irmão.

​Respondi pasma.

​– Claro que não. Viu como todos nos olharam? Sermos os esquisitos dos esquisitos já é ruim o suficiente. Agora temos uma habilidade que é mais conhecida pelos demônios do que pela nossa própria espécie? Isso vai taxar a gente como adoradores de Satã em pouco tempo.

​– Então vamos fazê-lo se remexer na prisão dele.

​Comentei, levando um bufar irritado do meu irmão.

​– Não faça brincadeiras, Lexa.

​Arfou.

​– Você nem é cristão, ou católico, ou judeu, isso se eles acreditarem em Satã, mas, de qualquer maneira, relaxe.

​Retruquei.

​– Mas eu ainda acredito em alguma coisa, e não gosto de zombar da religião dos outros. E você entende que algumas coisas que você diz podem ser muito ofensivas, não é?

​– Os humanos zombam da nossa há séculos e nos ridicularizam, é quase como uma troca equivalente.

​– Lexa, estou falando sério! Não tente controlar a mente de ninguém ou coisa assim. Temos que nos manter vivos e não virar os alvos da academia inteira.

​Completou nervoso.

​– Não vou, e, de qualquer jeito, só usamos esse dom uma vez na vida, acho que precisamos querer fazê-lo ao mesmo tempo na mesma pessoa para funcionar. Como um dom que só funciona em conjunto, ou sei lá.

​Disse por fim. Era a única explicação que fazia sentido.

​– Perfeito. Pois, se depender de mim, ninguém mais vai ser nosso fantoche. Okay?

​– Perfeito.

​Ironizei, fazendo careta.

​Mas eu iria descobrir como fazer isso sozinha. Disso eu tinha certeza.

​– Tudo bem, agora vamos para nossa aula.

​//

​Diferente das últimas aulas, nós dois conseguimos chegar antes do nosso professor ou professora.

​As salas já pareciam como no colegial normal.

​Lugares marcados por grupos pré-formados.

​Se tivéssemos um time de algum esporte, as líderes de torcida e um clube de xadrez, nós seríamos totalmente como os humanos são.

​Josh e Matheus engataram algum assunto incrivelmente chato enquanto esperávamos, o que me fez levar a atenção a Cecilly novamente. Agora ela parecia melhor, era estranho. Mas, de qualquer maneira, era bom vê-la assim.

​Desde que me afastei, não houve outro daqueles agouros de morte atrás de mim, mas ainda havia uma coisa na minha mente que me fazia suspeitar daquilo. Porém, nem eu seria tão estúpida de pôr a vida de alguém em perigo à toa. Principalmente nesse lugar.

​Killian e Roman também pareciam bastante distraídos.

​Em pouco tempo, meu irmão e eu parecíamos ter desenvolvido bastante interesse naquela dupla. Roman era, com certeza, lindo e muito atraente, o que justificava meu interesse inicial, mas Roman parecia mais interessante do que eu poderia imaginar inicialmente. Mas não entendia como ele se encaixava ali. Seu dom, sua personalidade, seu físico... Tudo parecia diferente, mas não tão anormal quanto a maioria dos outros alunos, incluindo meu irmão e eu.

​Killian, por outro lado, parecia se adaptar ali com perfeição. Sua personalidade era enigmática e isso era, sem dúvida, o que chamava a atenção do Matheus. A possibilidade de ter alguém que ele desconheça por completo era tentadora demais.

​Toda essa coisa de tão perto e tão longe. Sem contar que Killian também era extremamente atraente, principalmente para quem gosta dos misteriosos. E o seu cabelo ruivo era um toque a mais que combinava com sua maestria de fogo.

​E no topo desse milkshake havia sua estranha capacidade de me bloquear. Me impedindo de saber o que ele sentia.

​Josh não ficava atrás, mesmo que não fizesse meu tipo, mas ele era elegante e bonito. Não tinha nada de sedutor em seu jeito de ser, ou de duplo sentido. Ele era um rapaz educado e que sempre seguia as regras, daqueles que não passariam a mão pela minha cintura a menos que eu a puxasse para baixo. O que o fazia ser o tipo perfeito para quem precisasse de atenção e cuidados. E, especialmente, de tempo para conseguir intimidade. Isso o tornava fofo.

​Então tínhamos Rex. Ele não tinha nada de excepcional. Pelo menos para mim. Mas, se fôssemos ser críticos e imparciais, eu teria que dizer que ele tinha, sim, alguma beleza.

​Seus cabelos eram de um castanho escuro, quase preto. E ele parecia acostumado ao corte de cabelo ondulado que descia até o queixo. Sem se preocupar em penteá-lo, ou, quem sabe, usar mais do que somente shampoo e condicionador.

​Seu porte físico parecia em andamento, nem magro, nem forte ou definido ainda. Mas sua pose de superioridade e perfeição dava a ele o tom de cafajeste sedutor.

​Skandar, Zander ou Samir eram como nada e nada para mim. Sem atrativos, e quase sem personalidade, eles me pareciam mais zumbis que perambulavam do que existiam de verdade.

​As garotas, por outro lado, eram todas irritantemente bonitas e perfeitas. Isso com certeza seria algo difícil de competir.

​Amora, Hazel, Cecilly, eu, Onika, Demetria, Hya, Birdy...

​Todas nós tínhamos algo que nos destacava em beleza, mas que, juntas, éramos só mais um mar de perfeições sem utilidade. Isso era engraçado. Ser bonita junto de outras tão bonitas só fazia mostrar que a beleza que empregávamos aos outros era incrivelmente sem valor.

​Ser bonita aqui era como ser mais uma na multidão.

​Onika era, de todas nós, a que tinha o corpo mais desenvolvido, como se ela tivesse saído de uma capa de revista sobre musculação. Como uma mistura de Lupita Nyong'o e Serena Williams.

​Mas não havia arrogância, e isso era novidade.

​Demetria, sua colega de quarto, tinha cabelos pintados em tom de rosa e parecia sempre estar mascando um chiclete, totalmente perdida no mundo da lua. Uma mistura de nerd e hipster. Usando saia quadriculada no mesmo tom extremamente claro de seus cabelos, meia-calça preta e All Star cinza junto à camisa e ao blazer. O que me fazia pensar se ela seria uma das primeiras a enlouquecer ali ou uma das últimas a sobrar de tão relapsa ao mundo que ela era.

​E, no final, todas nós tínhamos pele de pêssego e um interior que provavelmente era de espinhos venenosos.

​E, em um segundo de pensamento, todas as atenções mudaram para alguém que eu não tinha percebido entrar.

​Um rapaz estava parado observando todos nós.

​Ele tinha cabelos de um castanho escuro e pele branca com pequenas veias azuladas nas bochechas, era alto e com uma postura leve, mas refinada. Seu tom de pele era pálido como se ele usasse uma base mais branca do que fosse necessário, mas eu podia ver daqui que não era. Era quase como se ele não tivesse sangue nas veias.

​O rapaz misterioso usava uma blusa cinza simples moldada ao corpo e com as mangas dobradas junto ao ombro, uma calça jeans e tênis comuns.

​Em suas mãos ele segurava uma jaqueta e, nas outras, duas pedras brilhantes.

​– Ele é um dos alunos?

​Perguntei, sem reconhecê-lo.

​– Não mesmo.

Josh respondeu

Mesmo sem meu dom, dava para sentir a inveja na ponta da língua. O rapaz tinha uma beleza diferente. Antiga e ao mesmo tempo juvenil.

​– Desculpem-me pela demora – disse ele com a voz que o fazia parecer muito mais velho do que sua aparência aparentava. – Sou Lucian Siegfried. Eu sou russo, mas vocês devem perceber que eu perdi o meu sotaque há muito tempo, e eu sou seu professor de Demonologia ou Estudo dos Demônios. Muito prazer.

Dessa vez, até mesmo eu fui pega pelo espanto. Era impossível.

​– Quantos anos você tem? Não pode ser muito mais velho que a maioria de nós.

​Rex rosnou da fileira acima de mim.

​Ele não perdia tempo.

​– Odeio dizer isso, mas Rex tem razão.

​Matheus acrescentou em tom baixo, tanto para mim quanto para Josh.

​O professor Siegfried se forçou para conter uma risada.

​– Já leciono aqui há décadas e, a cada três anos, eu sou obrigado a ouvir a mesma coisa. E nunca perde a graça.

​E, assim que a última palavra saiu de sua boca, suas íris, que eram de alguma cor clara a qual eu não tinha prestado atenção, se tornaram totalmente escuras com pequenos pontos cintilantes, contrastando com o branco gelo ao redor.

​– Você é um necromante.

​Disse Birdy quase sem acreditar em si mesma.

​Quando um bruxo fazia magia ou acendia essa chama dentro de si, seus olhos faiscavam e um pentagrama de fogo amarelo brilhante se criava dentro da sua íris, mas para um necromante esse brilho não existia. Eu não sabia o porquê, mas todos sabíamos que aquilo era surpreendente.

​– Exatamente, senhorita Cleawater. E, como a maioria deve saber, necromantes manipulam naturalmente a energia da vida e da morte. Parecer mais novo do que sou é muito simples quando se sabe o feitiço correto para se manter assim.

​Amora levantou a mão acima de mim.

​– Não precisam levantar a mão na minha aula. Só falem, do jeito que quiserem.

​– Certo – ela respondeu com um tom de voz incisivo. – Mas magia de imortalidade ou juventude não é errada?

Alguns dos rapazes riram baixo.

​– Se você está querendo dizer que eu roubo vida de criancinhas para me manter belo, pode ficar calma, senhorita van Allen. Posso alimentar essa aparência tirando vida de coisas como plantas e até mesmo animais. Porém, não é isso que faço, minha querida. Pois nem toda beleza é uma bênção, geralmente é só uma maldição.

​E aquela resposta pareceu emudecer a todos. Todos mesmos.

​– Então, o que vamos aprender na sua aula?

​Hya, a outra garota loira, perguntou.

​– Boa pergunta. Vou ensiná-los a reconhecer, matar e, se possível, exorcizar demônios. O que, infelizmente, nem sempre é uma opção viável. E, se me permitem um conselho, se tiverem que escolher entre proteger a si mesmos e aos outros ou performar um exorcismo, eu tenho que dizer a vocês que precisarão escolher a primeira opção. Mas isso ficará mais claro adiante e, se tivermos sorte, vocês não precisarão descobrir isso tão cedo. Mas não só isso, eventualmente, para ensiná-los sobre os demônios, eu terei que ensiná-los sobre a história desse lugar também. – disse ele com os braços abertos. – Não só da Academia Beladona, mas de toda a Nova Salém. Muitos conhecem seu nome, seu título – a Cidade Feita de Fumaça –, mas poucos entendem o porquê dele. Então, alguém pode me dizer?

​– Porque a cidade foi destruída no Grande Incêndio – Rex respondeu como se aquilo estivesse o tempo todo na ponta da sua língua –, em uma guerra entre bruxos e demônios. Os humanos, como sempre, viram aquilo só como um mau planejamento da cidade.

​– Superficialmente falando. Mas quem iniciou a guerra? Quanto tempo ela durou? O que se fez depois que ela acabou? Como lidamos com as mortes? Como explicamos todas as destruições? Como nós nos curamos?

​Ninguém soube responder a todas aquelas perguntas.

​– Nos diga logo, professor.

​Roman entoou com bastante educação, por sinal.

​– Claro que vou. – respondeu com um sorriso. – Há pouco mais de trezentos anos, na época conhecida como a Inquisição ou Caça às Bruxas na história humana, um grupo de demônios controlados pelo Arquiduque, o atual rei do Purgatório, se infiltrou na cidade possuindo corpos de humanos que tinham algum poder ou influência no governo. Lentamente eles começaram uma euforia sobre bruxas e pestes que eles mesmos provocavam. A sociedade humana na época era claramente muito impressionável sobre qualquer coisa que não soubesse explicar por sua ciência falha. E em pouquíssimo tempo todas as mulheres que eram taxadas por alguma diferença foram caçadas como bruxas. Algo que devo dizer foi criado pelos próprios humanos – disse sem rir, era desgosto. – Bruxas e bruxos revidaram do jeito que puderam. Lutamos nas sombras, como sempre fazíamos, mas os demônios queriam lutar aos olhos dos humanos e o pandemônio foi inevitável. Um exército de demônios subiu para a Terra e a batalha se tornou sangrenta, por fim, durando somente alguns dias. O que ajudou os humanos a chamar aquilo de o Grande Incêndio de Salém, nome pelo qual optamos para que também possamos falar livremente sobre o ocorrido.

​– O Grande Conselho dos Clãs da época, junto ao Círculo de Prata, uma das maiores forças da cidade, conseguiu derrotar o exército e trancá-los longe de tudo, com muito sacrifício. E o Arquiduque foi derrotado. Mas a cidade havia sido completamente destruída. Bruxos e dezenas de outros seres místicos haviam morrido. Mas Salém não seria destruída para sempre. E nós renascemos daquilo que nos sobrou. Usamos da fumaça e das cinzas e nos reerguemos, como a Cidade Feita de Fumaça. E voltamos a ser o que éramos e ainda mais impetuosos. Desde aquela época, o círculo de bruxos que forma o Conselho dos Clãs ao longo dos anos vem lançando diversos feitiços na cidade para nos proteger de um novo ataque. E uma academia de bruxaria foi criada para produzir guerreiros para nos proteger quando o Arquiduque do Purgatório quisesse vingança. Dando à academia o nome da linhagem da principal bruxa que tentou proteger a cidade, Satella Beladona. – disse com orgulho. – O resto das respostas eu irei dar a vocês ao longo dos meses que virão. Agora, alguém saberia dizer algum desses feitiços?

​Josh levantou a mão tão rápido que quase me assustou.

​– O Feitiço do Invisível – é, ele era um nerd. – Que faz com que qualquer evento místico seja interpretado de uma maneira diferente pelos humanos.

​– Muito bom, senhor Strider. A mente de um humano normal é pré-programada para não absorver tudo que vê, como um mecanismo para proteger sua sanidade. Então, é muito provável que, quando um humano vê um evento místico qualquer, sua mente interprete de outra maneira; mas um evento como o Grande Incêndio não passaria despercebido nem pelo humano mais distraído de todos. Por isso o feitiço de proteção foi criado, guardando nosso segredo e para proteger a mente dos humanos dos perigos do nosso mundo...

​Ele continuou a explicar como o feitiço funcionava e como outros grandes centros de populações místicas o haviam adotado, mas isso não era importante.

​– Como sabe de tudo isso?

​Matheus perguntou a Josh.

​– Eu pesquisei, lembra? Minha irmã mais velha ajudou. Descobri muitas coisas sobre a cidade. Vocês deveriam ter feito o mesmo. Tiveram muito mais tempo que eu.

​– Nem todo mundo é tão aplicado, Josh.

​Matheus ironizou, mas Josh não pareceu levar como um insulto.

​– Mas, meus alunos, não é só de história que se mantém uma cidade – disse ele com um tom de voz mais elevado –, e de futuro também. Um que vocês irão ajudar a proteger. E, para consegui-lo, precisarão saber como lutar...

​– Mas – Rex voltou a tomar a vez –, se a sua matéria é tão importante como a própria diretora disse, por que temos mais aulas de Artes Especializadas do que da sua disciplina?

​Matheus revirou os olhos. Aquilo o irritava.

​– Simples, a maioria dos alunos nos dois primeiros anos não chega a esbarrar com nada muito demoníaco de verdade. A cidade, mesmo com seu histórico de pequenas invasões, é muito protegida. Porém, os dois primeiros anos são onde alguns de vocês desistem. Para ajudar a protegê-los, a diretora decidiu que vocês precisariam saber como usar seus próprios dons da melhor maneira possível. Fazer magia ofensiva ou de proteção é algo que vão aprender desde o início, mas nenhum feitiço vai se mostrar mais útil para vocês do que os seus dons naturais. E, se sobreviverem aos dois primeiros anos, garanto que estudarão bastante comigo. Agora, se está tão interessado em saber como lutar contra demônios, me diga, senhor Holt, como podemos matar um demônio?

​– Prata – respondeu sem titubear. – Acertá-los com ela os matará, tocar sua pele os queimará. Exorcismo os manda de volta para o Purgatório, mas quase sempre mata seus hospedeiros. Selos podem prendê-los em cômodos. Fogo não faz efeito, nem água ou armas convencionais.

​Irritantemente impressionante.

​– Não é à toa que está aqui, senhor Holt, e muito bem colocado. Prata mata os demônios e é uma ótima coisa para se ter. Dessa forma, joias e outras coisas desse material são praticamente um acessório indispensável para alguém como vocês, e podem salvá-los. – nós nos olhamos no mesmo instante. Matheus com sua mão no bolso e eu no meu pescoço. Ambas as coisas dadas a nós pelos nossos pais eram de prata. – Saber um exorcismo também é algo valioso, mas um demônio não vai ficar parado esperando ser exorcizado, principalmente porque o resultado raramente é satisfatório. Então, uma faca de prata é algo mais útil em uma luta corporal. Porém, temos outra coisa nessa sala que pode ser letal a eles.

​Todos se viraram para nós com tamanha velocidade que quase me fez ficar envergonhada, mas a risada do professor cortou essa sensação.

​– Mais para a direita.

​Disse ele fitando Cecilly.

​– Eu?

​Ela perguntou assustada.

​– Seu poder é a luminescência, certo, senhorita Stein?

​– Sim.

​Disse ela estendendo a mão e criando uma esfera de luz brilhante.

​– Faça uma demonstração, por favor. Fogos de artifício nunca fazem mal.

​Cecilly fechou a palma das mãos e depois a abriu com rapidez, criando um arco de luz no ar, e da palma de suas duas mãos faíscas de luzes foram lançadas ao teto, explodindo e caindo como uma chuva cintilante.

​Todos ficaram perdidos por alguns segundos. Cecilly, até agora, não tinha chamado a atenção para si em nenhum momento. Porém, isso tinha mudado.

​– Luminescência é o dom natural de criar e manipular a luz. Quando esse dom é controlado, pode criar uma luz tão intensa e pura que pode queimar um demônio como prata. É um dom muito difícil de controlar, pois parece tão inofensivo que é normalmente deixado de lado. Mas também é um fardo, como a senhorita deve estar percebendo.

​Cecilly quase se afundou ao meu lado, odiando a atenção. Sua pele voltou a ficar meio verde, mas isso provavelmente era enjoo por causa da vergonha que sentia.

​– Mas como o poder dessa inútil é mais importante que o meu?

​Rex rosnou tão alto como se estivesse sentado em um pedestal de ira.

​– Não precisa ser um idiota, Rex.

​Matheus retrucou antes que eu pudesse defendê-la. E aquilo me deixou surpresa. Mas não deveria. Matheus podia não gostar de chamar atenção indesejada para si, mas tinha um senso de justiça que também não o deixava ignorar as coisas.

​Rex não respondeu, mas seus olhos fuzilavam a nós dois.

​– Senhor Holt, entenda algo muito importante para sua arrogância. Todos vocês foram escolhidos para vir para essa academia diretamente pelo Oráculo. Então não há ninguém melhor ou pior aqui. Há simplesmente diferenças que devem ser cultuadas, respeitadas, compreendidas, e não estereotipadas. Ou você achou que vocês poderiam fazer o que quisessem com seus uniformes por um simples capricho? É a diferença que os torna tão poderosos, o esquisito em vocês é o que os faz perfeitos para esse lugar. E não só seu nível de poder. Ou o jeito que ele se aparenta. O fato de que você consegue controlar o seu poder melhor do que ela agora não significa que a senhorita Stein não possa te vencer no futuro.

​E agora era hora de Rex tentar se afundar o máximo que conseguia dentro da sua cadeira. Pois nem mesmo Skandar estava solidário a ele, o mesmo tinha até se arrastado alguns centímetros para o lado, mas ainda mantinha o olhar perdido de sempre.