Diários de Uma Apotecária
January 9

Diários de Uma Apotecária (Vol. 2) - Capítulo 18

O frio começava, pouco a pouco, a afrouxar seu domínio sobre o mundo, e os primeiros sinais da primavera já se faziam sentir no ar. Enquanto Maomao estendia algumas roupas de cama para secar, sentiu-se quase tentada a se render ao sol morno e agradável, mas balançou a cabeça (“Nada de dormir em serviço!”) e obrigou-se a se concentrar no trabalho.

Quando os dias eram cheios e satisfatórios, o tempo passava rápido. Ainda assim, de algum modo, os dois meses que passara a serviço de Jinshi haviam parecido intermináveis.

Às vezes, ela ainda sentia falta das prateleiras abarrotadas de remédios no consultório médico do palácio externo, mas isso era algo que podia remediar ali mesmo; podia usar o médico charlatão como intermediário para colocar o setor médico do palácio interno em ordem. Além disso, podia contar com Gaoshun para conseguir qualquer coisa de que precisasse nos arquivos. Teria sido ainda melhor se pudesse sair do palácio interno quando quisesse, mas não se podia ter tudo. Enquanto estivesse servindo ali, não podia esperar ir e vir livremente.


A gravidez da Consorte Gyokuyou tornava-se cada vez mais certa. Sua menstruação ainda não retornara, e agora ela também sentia cansaço. Sua temperatura estava levemente elevada, e parecia evacuar com mais frequência do que o normal. A princesa Lingli às vezes encostava a bochecha no ventre de Gyokuyou e sorria, como se quisesse mostrar que sabia que havia algo ali dentro.

Será que bebês conseguem perceber isso? Maomao se perguntou. Lingli acenava em despedida para a barriga de Gyokuyou enquanto Hongniang a levava para a soneca da tarde.

Crianças eram criaturas profundamente misteriosas.

A princesa começara a andar sozinha; o Imperador lhe dera um par de pequenos sapatos vermelhos, e ela, em troca, dera às damas de companhia uma boa dose de dor de cabeça. Também se tornara mais expressiva; se alguém lhe oferecia um pãozinho macio e bonito, ela retribuía com um sorriso largo. As damas do Pavilhão de Jade não tinham filhos próprios, mas aparentemente possuíam instinto materno, pois mimavam a pequena princesa sem cessar.

Hongniang passou a dizer coisas como “Talvez eu tenha um filho meu um dia”, mas as outras mulheres, incluindo Maomao, não sabiam bem como responder. Hongniang parecia apreensiva ao dizer isso, mas ninguém esperava que a dedicada chefe das damas deixasse seu posto. Mesmo que surgisse uma proposta adequada, as outras provavelmente fariam de tudo para impedir que Hongniang partisse. Era ela quem permitia que o Pavilhão de Jade funcionasse com uma equipe tão reduzida.

Ah, ser competente demais também tinha seus desafios.

Maomao passou a entreter a princesa Lingli quando não tinha outras tarefas. A lesão em sua perna também influía nisso. Em vez de sobrecarregar as damas ocupadas e saudáveis com mais essa função, não era mais eficiente deixar a mulher que só tinha de provar comida cuidar da princesa?

Assim, naquele dia, Maomao se encontrou mais uma vez brincando com Lingli, que empilhava blocos de madeira (feitos de propósito com material leve) apenas para derrubá-los em seguida. Ela também demonstrava interesse por livros ilustrados, então Maomao copiava as imagens dos livros que pedia a Gaoshun para pegar emprestados, escrevendo as palavras abaixo de cada figura. Lingli tinha apenas dois anos, mas Maomao ouvira dizer que nunca era cedo demais para começar. Infelizmente, Hongniang deu fim prematuro a seus esforços educativos ao confiscar os desenhos.

“Desenhe flores como uma pessoa normal”, ordenou, apontando para as flores do pátio. Ao que parecia, não importava quão bem feitos fossem, desenhos de cogumelos venenosos estavam fora de questão.

Foi assim que Maomao passou o tempo até que, certo dia, um belo eunuco apareceu pela primeira vez em um bom tempo, trazendo problemas consigo.

“Rosas azuis, senhor?”, perguntou Maomao, olhando para o eunuco com certo cansaço.

“Sim. Todos parecem bastante interessados, veja só.”

Jinshi parecia estar em apuros. Para as mulheres do palácio, ele continuava belo mesmo em aflição, e naquele momento três pares de olhos espiavam pela fresta da porta. Maomao decidiu ignorá-los.

Pouco depois, Hongniang, ela mesma visivelmente irritada, agarrou os donos daqueles olhos — com notável destreza, diga-se; dois com a mão direita, um com a esquerda — pelas orelhas e os arrastou para longe. Maomao também resolveu ignorar isso.

“Que habilidade impressionante”, comentou Gaoshun, observação que Maomao guardou para si.

Voltando ao assunto.

“Todos querem admirar essas flores”, disse Jinshi. E, por alguma razão, cabia a ele providenciá-las.

Eu sabia que isso ia dar problema, pensou Maomao.

“Quer que eu encontre algumas?”, perguntou.

“Pensei que talvez você soubesse algo a respeito.”

“Sou boticária, não botânica.”

“Só me pareceu algo dentro da sua área...” Jinshi ofereceu, sem muita convicção.

“Ah, muito convincente, senhor”, disse a Consorte Gyokuyou alegremente, de onde estava reclinada em um divã. A princesa estava ao seu lado, bebendo um pouco de suco.

Alguém em algum lugar (Jinshi dizia não saber quem) sugerira que uma das damas de Gyokuyou talvez soubesse algo sobre o assunto. Isso ao menos explicava por que ele estava ali.

Foi o charlatão? Maomao se perguntou. Não era impossível. O velho bem-humorado tinha o péssimo hábito de superestimar as habilidades alheias. Era profundamente irritante.

Maomao não era completamente ignorante quando se tratava de rosas. Sabia que as pétalas produziam um óleo usado para embelezar a pele — as cortesãs o utilizavam de tempos em tempos. Ela mesma já ganhara algum dinheiro extra ao destilar pétalas de rosas silvestres, de aroma intenso, para produzi-lo.

“Entendo que tais flores já floresceram nos jardins do palácio”, disse Jinshi, cruzando os braços. Hongniang, aparentemente já tendo terminado de disciplinar as três bisbilhoteiras, entrou trazendo chá fresco.

“Alguém deve ter visto coisas onde não havia”, pensou Maomao. Argh, minha panturrilha coça. A ferida a estava enlouquecendo enquanto cicatrizava. Pelo menos seus pés estavam escondidos sob a mesa, então podia se coçar com os dedos do outro pé. Ainda assim, isso parecia provocar coceiras em outros lugares.

“Só ouvi uma pessoa dizer isso, mas ao investigar encontrei várias que confirmaram”, a expressão de Jinshi era difícil de interpretar.

“O ópio já foi usado aqui em larga escala?”

“Se algo como o ópio se espalhasse, seria o fim do maldito país!”

A Consorte Gyokuyou e Hongniang olharam para Jinshi, arregalando os olhos diante da súbita mudança de tom. Gaoshun franziu a testa e pigarreou educadamente. A raiva permaneceu no rosto de Jinshi por mais um instante, mas no segundo seguinte o sorriso celestial já havia retornado. Maomao olhou para ele quase em súplica. Ela simplesmente não lidava bem com aquele sorriso. Gyokuyou observava a cena com visível diversão, embora Maomao não achasse graça alguma.

“Não pode tentar?”, disse Jinshi.

Credo. Espaço pessoal!, pensou Maomao. Ele continuava se inclinando, mas ela não o queria nem um pouco mais perto. Por fim, soltou um suspiro.

“O que exatamente o senhor quer que eu faça?”

“Quero que estejam prontas para a festa no jardim do mês que vem.”

Era época da festa da primavera. Já fazia tanto tempo assim desde a última? As emoções de Maomao estavam prestes a transbordar quando um pensamento lhe ocorreu. Hein? Mês que vem?

“Senhor Jinshi, o senhor sabia?”

“Sabia do quê?” Ele a olhou, curioso.

Ele não entendia. Claro que não. Não haveria rosas azuis, não podia haver rosas azuis, e o problema não era a cor.

“Vai levar pelo menos mais dois meses até que qualquer rosa floresça.”

O silêncio dele foi a prova: não fazia ideia. Como era de se esperar. Maomao começava a sentir aquele mau pressentimento familiar. Ele insistiria no assunto, e ela não iria gostar.

“Vou recusar... de algum jeito”, disse Jinshi, os ombros caídos.

“Posso lhe fazer uma pergunta, senhor?”, disse Maomao. Jinshi olhou para ela com esperança. “Por acaso esse pedido veio de um certo comandante militar?”

Era a única explicação possível, dadas as circunstâncias. Isso explicava a coceira, pensou ela. Já suspeitava disso; e seu corpo reagira com absoluta rejeição ao nome que não queria ouvir.

“De fato. Laka-”

Jinshi tapou a boca com as mãos antes que o nome escapasse. Gyokuyou e Hongniang o olharam, confusas.

Ele estava falando, claro, dele.

Não havia como evitar, então, pensou Maomao. Se ele estava envolvido, ela tinha certa responsabilidade.

“Não sei se posso ajudá-lo”, disse ela, “mas vou tentar.”

“Tem certeza?”

“Tenho. Mas há algumas coisas de que vou precisar.”

Seria insuportável simplesmente fugir do desafio. Nada lhe daria mais prazer do que arrancar o monóculo daquele rosto presunçoso e esmagá-lo no chão.


A festa primaveril no jardim aconteceria entre as peônias.

Em circunstâncias normais, teria sido realizada um pouco mais cedo, mas as pessoas continuaram reclamando do frio, e por isso o evento foi adiado. Talvez devessem ter feito isso antes, mas precedentes eram difíceis de mudar.

Um tapete vermelho havia sido estendido, e longas mesas cercadas por cadeiras foram dispostas pelo jardim. Os músicos afinavam seus instrumentos com inquietação, prontos para começar a qualquer momento. Mulheres iam e vinham, certificando-se de que tudo estivesse em ordem, enquanto jovens oficiais militares alisavam as barbas ainda ralas e apreciavam a vista.

Atrás deles, uma cortina fora erguida como biombo, e alguém fazia um alvoroço do outro lado. Uma garota esguia, magra a ponto de parecer quase desnutrida, segurava um enorme vaso de flores. Nele estavam acomodadas rosas de cores vibrantes, apesar de ainda ser cedo demais no ano para elas.

"Você realmente conseguiu", disse Jinshi, fitando as rosas, cujos botões ainda não haviam se aberto. Havia flores vermelhas, amarelas, brancas, rosas e, sim, azuis — além de pretas, roxas e até verdes. Quando Maomao prometera tentar criar rosas azuis, ninguém imaginara tamanha variedade de cores. Jinshi recuou um passo, atônito, tentando entender como ela havia feito aquilo.

"Posso dizer que não foi nada fácil. E nem consegui fazê-las florescer", respondeu Maomao, com um arrependimento genuíno. Ela não lamentava tanto ter ficado aquém das expectativas de Jinshi, mas sim não ter conseguido realizar tudo exatamente como havia idealizado. Jinshi já sabia que ela era assim, ainda assim, isso o irritava.

Irritava-o profundamente.

"Não, isso é mais do que suficiente." Ele pegou uma rosa, gotas de água escorrendo pelo caule. "Hm?" Algo parecia estranho. Ainda assim, naquele momento, ele não se importou e devolveu a flor ao vaso.

Jinshi permanecia surpreso por Maomao ter produzido um verdadeiro arco-íris de cores, quando havia concordado apenas com rosas azuis. Fosse qual fosse o método usado, ela parecia prestes a desabar de exaustão. Ele a confiou às damas de companhia do Pavilhão de Jade e levou o vaso até o assento de honra. Mesmo ainda em botão, as rosas eram mais do que suficientes para ofuscar as peônias; todos reparavam nelas, e todos se mostravam maravilhados.

Murmúrios se espalharam entre os oficiais reunidos, misturados a alguns resmungos zombeteiros: aquilo não podia ser possível.

Jinshi era um eunuco favorecido por Sua Majestade. Além disso, ainda que soasse presunçoso admitir, ele sabia que sua aparência era suficiente para tirar o fôlego da maioria das pessoas. Ainda assim, tinha inimigos. Seria preciso quase não ter ambição alguma para assistir tranquilamente a um jovem eunuco exercer influência junto ao Imperador, e poucos oficiais careciam de ambição. Jinshi manteve o sorriso etéreo no rosto, cuidando para que sua postura permanecesse impecável ao se aproximar do estrado. O Imperador, com sua barba abundante, estava sentado ali, cercado por belas mulheres.

Os olhares voltados para Jinshi escondiam pensamentos e sentimentos diversos. Desejo não o incomodava, havia inúmeras maneiras de explorá-lo. Inveja também não. Era ainda mais simples de manipular. Qualquer que fosse a emoção de alguém, desde que fosse conhecida, havia meios de lidar com ela.

Muito mais problemáticas eram as pessoas difíceis de decifrar. Jinshi lançou um olhar ao oficial sentado à esquerda do Imperador. Rosto cheio, olhos que jamais revelavam o que se passava em sua mente. Se Jinshi se sentia um pouco desconfortável perto dele, era compreensível.

Para aquele homem, Jinshi não passava de um jovem atrevido, e ainda por cima, um eunuco. Em um momento, parecia observá-lo atentamente; no instante seguinte, era como se estivesse encarando o vazio. Seu sorriso era ambíguo, impossível de interpretar com precisão.

Tratava-se de Shishou, pai de uma das consortes atualmente no palácio traseiro: Loulan. Ele desfrutara do favor imperial no reinado anterior; não do Imperador, mas de sua mãe, a Imperatriz Viúva, e continuava a impor sua autoridade sobre o governante atual.

Isso não era nada bom.

Mesmo assim, Jinshi não deixou seu sorriso vacilar…

Ao menos, não de propósito.

Então seu olhar deslizou de Shishou, à esquerda do Imperador, para o homem sentado à direita, e seus olhos se encontraram. Esse homem usava um monóculo em um de seus olhos astutos, semelhantes aos de uma raposa, e roía uma asa de galinha sem qualquer preocupação com a etiqueta. Ele parecia acreditar que agia com discrição, mas dava uma mordida, escondia o alimento dentro da manga, depois tirava outra pequena mordida antes de ocultá-lo novamente.

No momento, esse era o homem que Jinshi considerava o mais perigoso de todos: Lakan.

Ele parecia examinar a cabeça do alto oficial que estava ao seu lado. Em seguida, como se a asa de galinha já não fosse suficiente, estendeu a mão e arrancou o chapéu do homem. O que estaria passando por sua cabeça?

Por algum motivo, um tufo de penugem preta estava preso à parte interna do chapéu. Lakan fingiu surpresa. Quando perceberam que podiam ver a cabeça nua do homem, três oficiais sentados à frente ficaram em silêncio.

Era uma brincadeira cruel, expondo a peruca do homem, ainda que bem feita. Alguns riram da travessura infantil, outros demonstraram irritação aberta, e alguns lutaram para conter a raiva. Jinshi não foi o único incapaz de manter uma expressão neutra.

Ainda assim, não seria apropriado cair na gargalhada. Ele conseguiu controlar o rosto e, em vez disso, ajoelhou-se sobre o tapete. Ofereceu o vaso de rosas ao Imperador, que acariciou a barba e assentiu com prazer evidente.

Jinshi conteve um suspiro enquanto se retirava respeitosamente.

Lakan examinou as rosas de maneira teatral, desta vez segurando uma uva-passa entre os dedos. Jinshi não pôde deixar de se perguntar por que, afinal, nada nunca parecia resultar das constantes faltas de decoro daquele homem.


"Você não deve mais ir ao Pavilhão de Cristal."

A cabeça de Maomao repousava sobre o colo de Yinghua. As duas estavam em um pavilhão aberto, a certa distância do banquete. Yinghua estivera bastante preocupada com Maomao e a observava atentamente.

Com a gravidez já começando a aparecer, a Consorte Gyokuyou se desculpara por não comparecer ao evento, alegando que estava cedendo seu lugar a Loulan, a nova Consorte Pura, para quem aquela ocasião funcionava, na prática, como uma apresentação pública.

Por que Maomao havia emagrecido tanto a ponto de alarmar Yinghua? Parecia que, sempre que ia ao Pavilhão de Cristal, voltava completamente exaurida.

Era lá que ela estivera no último mês ou algo assim; fora Jinshi quem providenciara os arranjos. As damas de companhia do Pavilhão de Cristal continuavam a olhá-la como se ela fosse algum tipo de espírito maligno, mas Maomao não lhes dava atenção. Havia algo de que precisava naquele lugar para conseguir produzir suas rosas azuis.

O “local” que pedira a Jinshi era a sauna do Pavilhão de Cristal, cuja construção ela solicitara quando a Consorte Lihua estivera em recuperação. Maomao sabia que, apesar de sua alta posição, Lihua era uma pessoa bastante generosa, então imaginara que não custava tentar pedir emprestado o banho. E, de fato, Lihua concordara sem hesitar.

Ainda assim, Maomao se sentia mal por usar o local sem oferecer nada em troca, então levou consigo um livro que havia obtido recentemente na Casa Verdete.

"Este é o tipo de leitura favorito de Sua Majestade", disse ela ao entregá-lo a Lihua. O Imperador solicitara textos novos e diferentes, então não havia razão para que um deles não viesse por intermédio da consorte.

Quando Lihua percebeu que tipo de livro era, guardou-o calmamente em seus aposentos privados, mantendo a postura elegante do início ao fim. As damas de companhia cochicharam entre si enquanto observavam sua senhora se recolher. Maomao as encarou com indiferença; ninguém jamais imaginaria que uma mulher tão aristocrática tivesse um livro daqueles escondido na manga.

Tendo assim conquistado a boa vontade da dona do pavilhão, Maomao recebeu permissão para construir um pequeno galpão no pátio, para onde o vapor da sauna seria direcionado. O edifício tinha uma aparência peculiar: grandes janelas, incluindo uma no próprio teto. Assim como a sauna, era caro — bem, caro para Jinshi, que pagava tudo do próprio bolso. Para Maomao, isso não fazia diferença. Ainda assim, ela não pôde deixar de se perguntar quanto ele devia receber para conseguir arcar com gastos desse tipo.

Para dentro do galpão, ela levou rosas. Não apenas uma ou algumas, mas dezenas, centenas. Ela as cultivava no calor do vapor, garantindo que recebessem bastante luz e levando-as para fora quando o clima estava favorável.

Em noites frias o suficiente para ameaçar geada, ela passava a madrugada inteira com as flores, despejando água sobre pedras aquecidas para mantê-las aquecidas.

Mais de uma vez, todo esse vai e vem fez com que o ferimento em sua perna se abrisse novamente. Quando Gaoshun descobriu isso, insistiu em designar outra criada para ficar de olho em Maomao. Para surpresa dela, quem apareceu foi Xiaolan. (Como Gaoshun sabia dela?) Motivar Xiaolan foi simples: ao descobrir que, além de escapar de suas tarefas, ainda receberia lanches, ficou encantada com a ideia. Provavelmente foi ela quem impediu Maomao de desabar de tanto trabalhar.

O objetivo de Maomao com toda essa operação elaborada era confundir as rosas. As flores desabrocham de acordo com a estação, mas, de vez em quando, por razões desconhecidas, acabam florescendo em épocas diferentes do ano. Era isso que Maomao esperava: enganar as rosas, fazê-las acreditar que já era hora de florescer.

Ela trouxera uma quantidade enorme de plantas sabendo que nem todas formariam botões. Escolhera uma espécie de floração mais precoce, e nem todas as rosas eram da mesma variedade. Com apenas um mês disponível, não podia garantir sucesso; por isso ficou radiante ao ver os primeiros botões surgirem. Ela sabia que aquele era o verdadeiro desafio, muito mais difícil do que alcançar a cor desejada. Jinshi lhe arranjara vários eunucos para ajudar, mas as sutilezas de manter a temperatura correta eram algo que só ela podia supervisionar. Bastava um pequeno erro para que as rosas morressem, e todo o esforço teria sido em vão.

De tempos em tempos, as mulheres do Pavilhão de Cristal rondavam o local, seja por curiosidade aberta, seja para testar a própria coragem diante do simples terror de encarar Maomao. Isso começou a irritá-la, então ela decidiu arranjar algo para desviar a atenção delas. Mas o quê? A ideia surgiu quando ela ficou observando os próprios dedos, pensando no que fazer.

Ela pegou um pouco de rouge e o passou nas unhas, depois poliu cuidadosamente com um pano. Era uma decoração simples, comum no distrito do prazer, mas rara no palácio traseiro. Um enfeite desses atrapalhava o trabalho, mas imediatamente despertou o interesse das damas do Pavilhão de Cristal, que já não tinham muito o que fazer. Maomao se certificou de que as outras mulheres “casualmente” notassem suas unhas, fazendo com que corressem para seus quartos em busca de rouge.

Isso funcionou muito bem, pensou Maomao, e então teve uma ideia levemente travessa. Decidiu sugerir a manicure também à Consorte Lihua.

O palácio dos fundos tinha suas próprias modas, e quem ditava tendências com frequência eram as mulheres que chamavam a atenção do Imperador. E, como até mesmo uma criada podia ser elevada à posição de consorte se se tornasse companheira de leito de Sua Majestade, era natural que todas quisessem imitar qualquer coisa que pudesse agradá-lo.

Naquele momento, sem dúvida, Loulan estava na vanguarda da moda no palácio dos fundos, mas trocava de roupas com tanta frequência que nenhum de seus estilos conseguia se firmar como tendência. Quando Maomao voltou ao Pavilhão de Jade para provar a comida de Gyokuyou, mostrou sua manicure à Consorte Preciosa e às demais damas de companhia. Hongniang reclamou com veemência da falta de praticidade, mas as outras ficaram muito impressionadas.

Quem dera eu tivesse plantas de bálsamo ou azedinha. O bálsamo, às vezes chamado simplesmente de “avermelhador de unhas”, podia ser triturado junto com a azedinha — que, na linguagem de Maomao, também era conhecida como “pata de gato” — e aplicado sobre as unhas. A azedinha ajudava a realçar o tom vermelho do bálsamo.

Mais ou menos na mesma época em que a mania das unhas começou a se espalhar pelo palácio traseiro, os botões das rosas começaram a inchar e, então, a desabrochar, revelando uma profusão de pétalas brancas. Todas as rosas escolhidas por Maomao eram brancas.


"O que, afinal, você fez?" perguntou Jinshi quando voltou após apresentar as flores. Havia um sulco profundo em sua testa, e Gaoshun, logo atrás dele, parecia igualmente intrigado. Yinghua já havia ido embora, dispensada por Jinshi. Embora Maomao fosse publicamente uma dama de companhia da Consorte Gyokuyou, tecnicamente Jinshi ainda era seu superior direto.

"Eu as tingi."

"Tingiu? Mas não há nada nelas", disse Jinshi, puxando uma pétala.

"Não por fora", respondeu Maomao. "Eu as tingi por dentro." Ela pegou uma das rosas azuis e apontou para a extremidade do caule cortado. Pequenas gotas de líquido azul se agarravam ali.

Ela havia colocado as rosas brancas em água colorida. Era simples assim. As flores absorviam a água — e a cor junto — pelos caules, tingindo as pétalas em um arco-íris de tons. No entanto, quando eram arranjadas juntas em um único vaso, todas as flores, exceto as brancas, precisavam de um tratamento especial; caso contrário, as cores se misturariam e acabariam transformando as flores em um negro desagradável.

Por isso, embora as rosas parecessem estar todas em um único vaso, a base de cada caule fora envolvida em um pouco de algodão embebido em corante e fixada com papel oleado. Maomao só retirara o papel no momento exato em que as flores seriam apresentadas.

Era apenas isso.

Por ser um truque tão simples, era possível que alguém acabasse percebendo e comentasse algo — mas Maomao também tinha um plano para isso. Na noite anterior ao banquete, quando Sua Majestade visitara o Pavilhão de Jade, ela lhe contara exatamente o que havia feito. Todos gostam de ser os primeiros a conhecer um segredo, e, satisfeito por estar por dentro da artimanha, o Imperador parecia disposto a permanecer de bom humor, não importava o que dissessem.

Ao que tudo indicava, Jinshi se retirara antes que o Imperador tivesse a chance de lhe contar a história.

"Em outras palavras, da última vez que houve rosas azuis por aqui, foi porque alguém tinha tempo de sobra para passar os dias inteiros alimentando as flores com água azul", disse Maomao, olhando na direção do jardim de rosas.

"Mas por que alguém se daria a todo esse trabalho?"

"Quem sabe? Talvez quisesse impressionar uma mulher", respondeu Maomao, sem emoção.

Então ela retirou de dentro das dobras do manto uma caixa estreita e alongada, feita de madeira de paulownia. Parecia com a caixa em que ela guardava o fungo da lagarta, mas aquela havia sido enviada junto quando solicitara os livros “especiais”.

"Isso é incomum", comentou Jinshi, observando a caixa. "Você pinta as unhas?"

"Pinto, embora não possa dizer que combine comigo." A exposição constante a drogas e venenos, além de tanta lavagem e esfregação, deixara suas mãos em péssimo estado. O dedo mínimo da mão esquerda era levemente deformado. Pintá-lo de vermelho não mudava o formato estranho, mas ajudava.

Jinshi parecia interessado demais, então ela o encarou como costumava fazer: como se ele fosse um peixe boquiaberto espiando a superfície da água.

Ops, não posso fazer isso, lembrou-se ela, balançando a cabeça. Se um simples olhar já fosse o suficiente para desestabilizá-la, jamais aguentaria lidar com ele. Além disso, ainda havia trabalho a fazer.

"Mestre Gaoshun. O senhor tem o que eu pedi?"

"Sim. Exatamente como solicitou."

"Muito obrigada."

O palco estava montado. Ela pretendia dar naquele desgraçado o maior susto de sua vida.