Tente Implorar (NOVEL)
March 6

Tente Implorar - Capítulo 40

Véus da Fraqueza


“Tenho medo de você.”

Grace abriu os olhos.

“...Está tão claro.”

Fechou as pálpebras de novo. O que percebeu naquele breve instante foi que sua visão estava inclinada. Não estava mais pendurada no teto. Em vez da tensão da corda, sentia o toque macio do colchão e do cobertor na pele. Parecia que estava deitada de lado na cama.

Quando abriu os olhos devagar outra vez, o homem claramente responsável por tê-la colocado ali estava sentado de frente para a cama. Mas ele não olhava para ela. Grace observou em silêncio Winston, que apoiava o queixo na mão, segurando uma caneta-tinteiro e fitando os papéis espalhados na mesa.

“Grace, para ser sincero... tenho medo de você.”

Ela riu ao lembrar do eco da voz dele na mente distante. Aquele homem nunca diria uma coisa dessas. Num mundo onde o dinheiro virava onipotente, o rico que possuía todo o oeste do estado era Deus... Fora as regras da sociedade, a classe era lei, então mesmo no exército, onde havia superiores, Winston era exceção. Era um homem sem medo no mundo. Como alguém assim poderia ter medo de uma mulher presa na prisão dele...? Além disso, ele nunca a chamara de Grace desde que usara o nome uma única vez com sarcasmo.

Depois que perdeu a consciência, devia ter sonhado com ele.

“...Que sonho louco.”

Rangendo os dentes todo dia, dizendo que um dia faria aquele homem implorar, o sonho até virou realidade. Quase morrera sem realizar o sonho.

Mesmo sem saber por que Winston ainda estava ali depois que o assunto terminara, Grace não queria mais lidar com ele. Estava prestes a fechar os olhos estreitados quando...

Winston se levantou e pegou a bandeja à frente com uma mão. Uma bandeja de prata luxuosa estava coberta por uma tampa também de prata. Ele saiu pela porta com ela e voltou logo em seguida. De mãos vazias.

Grace fingiu dormir e fechou os olhos. Embora quisesse mesmo cair no sono, o som da caneta-tinteiro raspando o papel não parava de incomodar. Tentando se distrair contando carneirinhos na cabeça, alguém bateu na porta.

Quando o som da caneta parou e outros ruídos continuaram, Grace estreitou os olhos, sem conseguir conter a curiosidade. Winston pegou uma bandeja de prata idêntica à que acabara de tirar de alguém — só via a mão — e fechou a porta. Observando-o colocar a bandeja de volta na mesa, perdeu o interesse e ia fechar os olhos de novo.

— Eu sei que você acordou.

— ...

— Cuide disso antes que esfrie.

Grace, que abriu os olhos sem querer, sentou-se e encarou o homem que segurava a caneta-tinteiro com olhar confuso.

“Ele esperou eu acordar para jantar?”

Sentiu pena por quase me matar? Besteira. Ela tinha que matá-lo devagar e dolorosamente, mas devia ser mais cedo do que o planejado. Grace, embora com fome, levantou-se. Olhou em silêncio para o corpo nu, sem uma única corda. O corpo, que devia estar grudento de suor e líquido, estava seco. Ele limpou...?

“O que está acontecendo?”

Parando as ilusões, ela saiu da cama. Não tinha forças para se vestir direito, então vestiu só uma camisola fina por cima da calcinha. Enquanto isso, Winston nem olhou para ela.

— Você realmente gosta de mim?

Quanto mais pensava, mais vergonha sentia. Claro que a resposta era “não”, não era? Então era só besteira, não uma provocação séria. De todas as provocações trocadas como boxeadores antes da luta, a zombaria mais leve devia ter sido o golpe decisivo em Winston. Os olhos que não conseguiam esconder a agitação continuavam piscando. Ela encarou em silêncio o homem calmo, como se fosse outra pessoa, e ele soltou um suspiro curto.

— Você é mesmo uma princesa.

Talvez interpretando mal o olhar de Grace, Winston abriu a tampa da bandeja. Consomê fumegante, purê de batata, pãezinhos macios com manteiga e pudim de baunilha com caramelo derretido de sobremesa... tudo fácil de comer. Um beijo depois de um tapa na cara. Era Leon Winston que humanizava o ditado popular.

De qualquer forma, Grace não estava em posição de recusar o “beijo” dele. Levantou a colher com calma.

Só o som da colher batendo na tigela continuou. O som da caneta-tinteiro tinha parado há muito tempo. Winston, que fumava um charuto enquanto a observava comer em silêncio, abriu a boca de repente.

— Eu gostava de Daisy. — processando a confissão inesperada, Grace ergueu a cabeça e o encarou. — Sally Bristol... sim, ainda gosto dela.

Quando os olhos turquesa com halo de sangue tremeram, ele rangeu os dentes.

— ...Mas odeio Grace Riddle.

Era verdade ou mentira? As pupilas de Winston ficaram obscurecidas pela névoa de fumaça que subiu num instante.

— Pelo menos você fica bonita quando chora e me aceita com calma, então se quiser salvar sua vida, cuide de si mesma.

Com essas palavras, os olhos dela pararam de tremer e o fuzilaram como se quisessem matá-lo.

— Vou deixar esses olhos rebeldes passarem.

Estava dizendo que queria ir embora agora que dissera tudo? Grace fuzilou o homem que arrumava os papéis espalhados, depois passou a língua devagar entre os molares. No instante em que mordeu, o gosto afiado se espalhou junto com a dor que perfurou os olhos. Quando pegou a colher com a mão que tremia levemente de dor, assim que o ferro cheio de sopa encostou nos lábios, Grace soltou uma tossidinha pequena. No momento em que o sangue pingou da borda da tigela de sopa, a mão que fechava a tampa da caneta-tinteiro parou.

A mão tremeu e a colher, mal segura, mergulhou de cabeça na tigela de sopa.

Gasp, cough...

Grace tossiu violentamente, cobrindo a boca com a mão. Num instante, as palmas ficaram vermelhas de sangue.

— O que houve?

Winston virou a mesa e tentou vir na direção dela. Quando deu apenas um passo, Grace soltou as mãos ensanguentadas e deixou o corpo cair. Em vez de bater no chão frio, caiu num abraço quente.

Uma pessoa que andava sempre devagar estava correndo... era feio.

— Abra os olhos.

A mão que tocou sua bochecha estava fria, diferente dos braços. Ela tossiu sangue da boca de forma intermitente, fingindo estar em apuros e abrindo os olhos devagar. No momento em que os olhos encontraram os de Winston, Grace precisou de toda força para segurar um sorriso. E aqueles olhos...

Exatamente como quando perguntara se ele gostava dela, Winston estava agitado. Por quê? Não dissera que compraria outra quando ela morresse? Não dissera que ficava excitado quando ela sangrava? Mesmo assim, por que fazia aquela cara?

Leon Winston, você não consegue me domar.

Grace fechou os olhos de novo.

— Porra...

Leon parou a mão enquanto checava o pulso da mulher que desmaiara tossindo sangue. As palmas, brancas como a cabeça dele, estavam molhadas de sangue escarlate. Ao mesmo tempo, o coração batia descontrolado. Não era como quando a mulher mordera seu lábio e tirara sangue dele. O cheiro de morte não era agradável. Era a primeira vez desde aquele dia distante em que encontrara o pai num penhasco remoto.

Ele tinha medo de sangue.

...Não. Tinha medo só do sangue daquela mulher.


Leon estendeu a mão enluvada de preto até a cápsula minúscula. Quando a ergueu contra a luz do sol, cristais brancos dentro da película leitosa refletiram de forma turva.

— Deve ser cianeto.

Perguntou a Campbell, colocando a cápsula de veneno de volta na caixinha de madeira e tirando a luva.

— Onde estava?

— Dentro do colchão encomendado para a sala de tortura.

— Devem ter descoberto por aquela mulher que só era fornecido para a sala de tortura.

— Sim, parece que sim.

— Já pensei nisso desde que ela era criada, mas ela é uma mulher diligentemente desnecessária.

Campbell ficou em silêncio, sem saber como reagir.

— Aliás, a liderança é bem burra. Se colocaram no colchão ou algo assim, não sabem qual a chance de ela pegar no tempo certo.

No entanto, no fim não era uma estratégia tão errada, já que gastaram o estoque em um mês e tiveram de pedir mais.

— Canalhas, só me deram a dica de que a mulher sabe de informações bem importantes... Informações que colocariam a liderança em perigo se reveladas.

Nenhum rebelde jamais recebera ordem para cometer suicídio dessa forma. Os que foram pegos até agora eram peixes pequenos, ou mesmo se um peixe grande fosse capturado em raras ocasiões, como um fanático, mantinham a boca fechada até o fim. Ainda assim, a liderança, que tinha fé forte nos camaradas, queria se livrar só daquela mulher.

Significava que tinham motivo para virar contra a mulher, que era uma seguidora fanática mais que qualquer um.

...Será que tinha algo a ver com o motivo de os dois pais terem morrido e o irmão ter se afastado dos rebeldes?

“Mas ela diz que ainda não mudou de ideia.”

O que fazer para fazê-la virar contra os rebeldes? Enquanto a mulher estivesse nas mãos dele, achava que daria certo. Mesmo assim, humanos eram animais gananciosos. Ele também era um humano indefeso. Devia deixá-la encontrar Jonathan Riddle Jr. e descobrir o motivo? Se fizesse isso, podia acabar abrindo a barriga de um ganso que um dia podia botar ovos de ouro. Ela podia fugir sem saber que estava sendo vigiada, ou ficar desconfiada do entorno e recusar contato com os antigos camaradas...

Decidindo usar como último recurso, Leon virou a atenção para a carta do Pequeno Jimmy que estava na caixa de veneno.

[ Desculpe, Grace. Eu te amo. ]

Dizer “eu te amo” enquanto a mandava para a morte... dava até pena sincera dela. Aquela mulher burra que fingira estar doente para ser pega imediatamente teria engolido o veneno como o noivo covarde mandara quando caísse em segurança nas mãos dele.

A boca ficou amarga. Leon perguntou, tirando um charuto de uma caixa de ébano na mesa.

— E o relatório semanal de tendências do esconderijo de Winsford?(

Leon acenou para Campbell, que colocou o relatório de vigilância do esconderijo na mesa, e continuou os pensamentos.

Ficar noivo de uma mulher tão pouco confiável... Ele tinha mais uma história que queria compartilhar com aquele homem.


Haa...

Grace enxugou o suor da testa com o pulso. As mãos estavam cobertas de poeira cinza que nem a cor original aparecia.

— Vamos parar por aqui e fazer à noite?

Soltou as ferramentas da mão e pegou vassoura e pá, varrendo as migalhas e a poeira cinza acumuladas no chão e jogando na privada.

O som da porta de ferro sendo destrancada veio de fora do banheiro.

“Por que já?! Ainda falta muito para as duas horas...!”

Enquanto enfiava às pressas a ferramenta na fresta e colava o painel de volta no lugar, Grace colocou a pá no balde de limpeza no canto do banheiro. Ouviu passos apressados vindo da sala de tortura.

“Mão!”

Correu para a pia e abriu a torneira. Colocando as mãos empoeiradas debaixo da água fria que caía, Winston apareceu pela entrada do banheiro.

— Saia.

O olhar dele não estava na poeira cinza que escorria, e sim no rosto de Grace.

“Ha... quase fui pega.”

Grace lavou as mãos e o rosto com sabonete para ele não sentir o cheiro suspeito, limpou a sujeira do corpo e saiu.

— Já são duas horas.

Grace murmurou mal-humorada, sabendo que não eram duas horas, enquanto tentava desabotoar a blusa cinza. Winston segurou sua mão e balançou a cabeça. Não era estranho ele ter vindo mais cedo que o normal e ter dito para não tirar a roupa. Para mandá-la para fora da sala de tortura. Quanto tempo seria? Mesmo sem saber a data, era definitivamente a primeira vez desde que fora presa.

“Vão me escoltar?”

Ao passar pelas grades de ferro no porão e começar a subir as escadas, o coração batia forte. Da última vez que mastigara a língua de propósito e vomitara sangue, claro que fora descoberta e severamente punida, mas Winston devia ter ficado bastante chocado com o incidente, e a punição fora mais leve que antes. Era como se ele tivesse sido domesticado como homem. Teria perdido o interesse e decidido entregá-la ao comando?

No entanto, ao contrário do esperado, a porta da frente no primeiro andar estava bem fechada. Winston continuou levando Grace escada acima. A expectativa de finalmente ser solta desabou tão fácil...?

“Não. Ainda não.”

Oficiais do quartel-general podiam estar no escritório. O anexo estava quieto como uma mansão assombrada. Ninguém no caminho até o segundo andar, puxada por Winston. No corredor vazio, só poeira flutuava na luz do sol. Quanto tempo fazia que sentia a luz do sol?

Ao parar na luz quente, um corpo alto bloqueou o espaço entre a janela e Grace. Mais uma vez ela ficou presa na sombra sombria de Winston. Os braços envolveram sua cintura como cordas grossas e ele apressou o passo.

— Por que está suando tanto?

Devia ter sentido a blusa úmida de suor. Grace deu uma desculpa adequada.

— Estava limpando.

Os olhos dele olharam para ela com pena.

— Você leva mesmo a sério isso.

A única a sentir pena era Grace. Esperando implorar para ele mandar uma criada limpar, já estava numa posição miserável implorando muitas coisas a ele, mas não tinha intenção de implorar por coisas tão triviais.

Mais uma vez, as expectativas foram frustradas. O lugar para onde ele arrastou Grace não era o escritório, e sim o quarto de hóspedes.

“Vai fazer aqui hoje? Talvez esteja tentando mudar a prisão para cá...”

Então talvez pudesse escapar pela janela. A esperança subiu de novo, mas foi distorcida imediatamente.

“...Quem é?”

Quando a porta abriu, uma mulher de meia-idade estranha se levantou da cadeira em frente à janela. Cumprimentou os dois. Numa situação inesperada, Grace, que também ficou paralisada, foi empurrada para dentro do quarto por Winston.

— Vamos começar.

A pedido dele, a mulher pegou a maleta médica da mesa, e Grace só conseguiu deduzir que a mulher era médica.

“Não estou doente.”

Mesmo com marcas de corda pelo corpo inteiro e hematomas dos lábios de Winston, não havia como ele ter chamado um médico. Grace, que empalidecera com um pressentimento ruim, ficou completamente azul diante do pedido da médica.

— Pode tirar a calcinha e deitar na cama.

Virou-se para Winston com olhos surpresos. Ele estava inexpressivo, como se já soubesse que tal ordem seria dada. Grace perguntou à médica em vez do homem que não entendia.

— O que a senhora vai fazer?

Mesmo assim, a médica não respondeu e olhou para trás com olhos confusos. Era para olhar Winston.

— Faça o que a médica mandar.

— Não, preciso saber o que está acontecendo.

Como ela resistiu, Winston mandou a médica sair por um momento.

— O que vai fazer comigo?

A voz de Grace tremeu levemente.

— Não é nada e não dói. Então faça o que mandarem.

Ainda mais assustada com a resposta, Grace recuou, e Winston a ergueu nos ombros com um só movimento e a jogou na cama.

Ack! Solte!

— Já consigo ler seus socos como um livro agora.

Ele dominou com facilidade Grace que se debatia e enfiou a mão na saia para soltar habilmente as tiras da cinta-liga que seguravam as meias uma por uma. Logo a calcinha saiu e ela resistiu com todas as forças.

— Não. Pare...!

— Quer ser amarrada na frente da médica? Ou prefere que eu enfie um revólver na sua boca? Fique quieta se quiser terminar rápido.

No fim, não teve escolha a não ser “ficar quieta”. Deitada na cama humilhada, com os joelhos erguidos e as pernas bem abertas, Grace ofegava nervosa. A médica sentada na ponta da cama puxou a saia e ergueu as sobrancelhas como se tivesse visto algo surpreendente. Totalmente consciente de que as coxas tinham marcas de um caso violento, Grace mordeu o lábio e desviou o olhar.

— Pode estar um pouco frio.

Ouvindo essas palavras, ergueu a cabeça assustada. A médica tentou enfiar algo que parecia um funil de metal entre as pernas.

— O que a senhora está fazendo? Pare...!

— Não dói, não se preocupe.

A médica sorriu com gentileza e tentou tranquilizá-la dizendo que os pacientes ficavam todos assustados no começo, mas ela não se sentiu nem um pouco aliviada. Enquanto tentava evitar empurrando os quadris para cima, a mão grande de Winston pressionou a barriga dela.

Uht...

Um objeto estranho entrou devagar entre as pernas imobilizadas de Grace. Estava frio. A sensação fria logo passou, mas o desconforto continuava relutante. A sensação da coisa abrindo por dentro e alargando o caminho era aterradora. Depois de inserir o instrumento estranho na vagina de Grace, a médica tirou uma caixa de metal longa da maleta. Enquanto a médica preparava algo, Winston, que estava ao lado com as mãos atrás das costas, de repente se curvou. O olhar estava entre as pernas de Grace. Como o homem estava feliz agora. Conseguiria ver claramente o buraco que ele furava todo dia num relance. Winston, que espiava a vagina com olhos de interesse, rolou os olhos e sorriu quando os olhares se encontraram.

— Nossa querida não tem lugar que não seja bonito.

A médica, que tirava algo da caixa de ferro, ergueu as sobrancelhas. Era nojento fingir ser amante beijando na frente dos outros em vez de só dizer coisas estranhas. O que saiu da caixa eram pinças longas que pareciam tesouras. A médica pegou um dos hemisférios na caixa com as pinças e empurrou para dentro e para fora várias vezes até o lado côncavo encostar. Cada vez que trocava o hemisfério por um tamanho diferente, era como se medisse algo na vagina dela. Grace, que nunca fora a um ginecologista, não fazia ideia para que servia aquela coisa bizarra.

Era verdade que não doía. Enquanto relaxava e voltava a si, percebeu que aquilo talvez fosse uma oportunidade de se afastar daquele homem.