Diários de Uma Apotecária (Vol. 2) - Capítulo 19
As rosas repulsivamente multicoloridas roubaram toda a atenção no banquete do jardim. Lakan as encarava com um olhar vazio. A apresentação musical praticamente o embalara para o sono; ele segurava na mão o chapéu de alguém, com uma bola de penugem grudada, sem sequer saber de onde aquilo tinha surgido.
Tanto faz, pensou Lakan, e colocou o chapéu sobre a mesa ao seu lado. O oficial ao lado o apanhou de imediato e o ajeitou na própria cabeça. Ele parecia lançar um olhar de reprovação a Lakan, mas o estrategista não fazia ideia do motivo. Decidiu então tirar o monóculo, polir a lente com um lenço e colocá-lo novamente; desta vez no outro olho.
As rosas estavam posicionadas bem no centro do banquete, como se exibissem o mau gosto de quem quer que tivesse feito o arranjo.
Ele estava em um banquete; disso ele se lembrava. A música se espalhava pelo ar, fitas de seda ondulavam, e à sua frente fora servido um banquete que era claramente o auge do luxo. O cheiro de vinho estava por toda parte.
Acontecia que Lakan nunca fora bom em lembrar de coisas que não lhe despertavam interesse. Ele recordava os fatos, mas não as emoções que os acompanhavam; sentia-se completamente dissociado delas.
Quando se deu conta, a cerimônia já havia terminado, e duas consortes, uma vestida de negro e outra de azul, recebiam do Imperador rosas da mesma cor de suas vestes. Lakan ouviu cochichos ao redor comentando como as mulheres eram belas, mas isso nada lhe dizia. Nunca tivera qualquer ligação com a noção de beleza ou feiura nos rostos das pessoas.
Que tédio. Ele não estava ali? Por que tanto esforço para provocá-lo, se afinal nem iam aparecer?
Não lhe restava escolha a não ser encontrar outra pessoa para provocar. Ao menos poderia aliviar um pouco o tédio. Olhou ao redor: ainda havia gente suficiente ali.
A maioria dos rostos lhe parecia apenas pedras de go. Ele conseguia distinguir homens e mulheres — os rostos masculinos lembravam pedras pretas, os femininos, pedras brancas —, mas todos exibiam caricaturas vagas e inexpressivas no lugar de feições reais. Algumas pessoas que conhecia melhor no meio militar haviam avançado ao ponto de parecer peças de shogi, mas só isso. Os soldados rasos eram peões, e à medida que subiam de patente passavam a parecer lanças ou cavalos, peças mais poderosas do jogo.
O trabalho de um comandante militar era simples: dispor as peças onde cada uma fosse mais adequada. Um lugar para cada coisa, e cada coisa em seu lugar. Era isso que vencia a maioria das batalhas. Não era difícil. Bastava a Lakan fazer isso, e seu trabalho estava feito. Talvez ele próprio não fosse um gênio, mas, se distribuísse corretamente suas peças, os outros fariam o trabalho por ele.
Ao menos era assim que Lakan via as coisas.
Até mesmo aquele homem que todos diziam ser belo como uma ninfa celestial… Lakan tinha de acreditar na palavra alheia. Ele não conseguia perceber. Tudo o que sabia era que precisava encontrar um general de ouro acompanhado por um prata promovido.
E encontrar pessoas era algo a que estava acostumado.
Mas, caramba, seus olhos doíam mais do que o normal naquele dia. O vermelho parecia grudar neles.
Todos tinham pigmento vermelho nas pontas dos dedos.
Esse chamado “verniz vermelho” estava na moda entre as mulheres do palácio ultimamente. O vermelho de que ele se lembrava, emergindo de suas memórias, nunca fora tão chamativo. Era mais suave, mais leve. O vermelho do bálsamo.
A palavra puxou algo em seu peito, evocando o nome de uma cortesã. Enquanto esse pensamento lhe atravessava a mente, uma pequena mulher do palácio surgiu diretamente em seu campo de visão. Ela parecia frágil e miúda, mas decidida, como a azedinha.
Ela voltou para ele um olhar vazio. Ao perceber que ele a observava, virou-se levemente, como se dissesse: venha comigo.
Além do jardim de peônias, havia um tabuleiro de shogi montado em um pequeno pavilhão aberto. Sobre o tabuleiro repousava uma caixa de madeira de paulownia, e dentro dela havia algo que parecia ser os restos ressecados de uma rosa.
“Posso lhe pedir uma partida?”, disse a jovem, com a voz plana e sem emoção, enquanto pegava as peças.
Ali perto estava o general de ouro, com seu prata promovido logo ao lado.
Que motivo ele teria para recusar? Como poderia negar um pedido vindo dessa adorável jovem — sua adorável jovem?
O que, afinal, ela esperava alcançar?
Maomao pedira a Jinshi que fosse embora, se isso fosse minimamente possível; ele, por sua vez, ignorara o pedido. Ela ficou visivelmente contrariada, mas acabou aceitando, com a condição de que ele permanecesse em silêncio. Em seguida, lançou seu convite silencioso ao comandante e começou a alinhar as peças de shogi.
Seu rosto estava completamente desprovido de emoção; em comparação, até sua habitual frieza parecia calorosa e humana. De vez em quando, ela coçava o dorso da mão; talvez tivesse sido picada por algum inseto.
“Então, quem começa?”, perguntou Lakan. Seus olhos — um deles por trás do monóculo — brilhavam com uma alegria genuína. Aquilo só demonstrava o quanto ele era obcecado por aquele jogo.
“Antes disso, vamos estabelecer as regras… e a aposta”, disse Maomao.
“Isso deve ser simples o bastante.”
Jinshi observava o tabuleiro por cima do ombro de Maomao. Lakan lhe lançou um sorriso inquietante, mas aquela era uma disputa que ele não pretendia perder. Derramou ainda mais mel em seu próprio sorriso.
Seria uma disputa padrão: três vitórias em cinco partidas. Jinshi simplesmente não entendia. O comandante jamais fora derrotado no shogi. A simples escolha do jogo já beirava a insanidade. Pelo cenho franzido de Gaoshun, parecia que ele compartilhava dessa opinião. O que, afinal, se passava na cabeça de Maomao?
“Que peças você quer como vantagem? Uma torre, talvez? Ou um bispo?”, sugeriu Lakan.
“Não preciso de vantagem alguma”, respondeu Maomao. Jinshi, porém, achou que Lakan fora bastante esportivo ao oferecer, e que Maomao deveria ter aceitado por cortesia.
“Muito bem. Se eu vencer, você se tornará minha filha.”
Jinshi quase protestou em voz alta, mas Gaoshun o conteve. Eles haviam prometido não interferir.
“No momento, estou empregada, então o senhor teria de esperar até que meu período de serviço termine.”
“Empregada?” Os olhos de raposa deslizaram até Jinshi. O sorriso não se desfez, embora ele precisasse conter um leve espasmo nas bochechas. “Está mesmo?”
“Sim. E os documentos dizem isso.”
E diziam mesmo — ao menos era o que constava no papel que Maomao havia visto. Mas e se tivesse sido a velha madame — sua guardiã, de certo modo — quem realmente assinara? O homem que, na prática, era seu pai adotivo havia arrancado o pincel de sua mão.
“Pois bem, espero que esteja tudo em ordem. Mas o mais importante…” Lakan a analisou atentamente. “…o que você vai pedir?”
“Sim, a aposta que solicito.” Maomao fechou os olhos. “Talvez eu possa pedir que o senhor compre o contrato de uma cortesã da Casa Verdete.”
“Devo dizer que, entre tudo o que imaginei que você pudesse pedir, isso não era o que eu esperava.”
Maomao permaneceu absolutamente impassível.
“A madame deseja se desfazer daquelas que já estão envelhecendo. Não vou especificar quem o senhor deve retirar.”
“Então chegamos a esse ponto.” Lakan pareceu, de alguma forma, profundamente exasperado. E então sorriu. “Mas, se é isso que você pede, é isso que devo aceitar. É tudo o que deseja?”
Maomao encarou Lakan com frieza.
“Talvez eu também possa estipular duas regras adicionais.”
“Certo.” Maomao retirou uma garrafa de vinho que pedira a Gaoshun que preparasse. Serviu quantidades iguais em cinco taças diferentes. Pelo aroma, tratava-se de algo bastante forte.
Em seguida, tirou pequenos pacotes de remédio de dentro da manga e despejou o conteúdo de um deles em três das taças. Todos continham um pó de aparência semelhante. Ela inclinou cada taça levemente, dissolvendo o pó, e então embaralhou as cinco rapidamente, até que fosse impossível distinguir uma da outra.
“Após cada partida, o vencedor escolherá uma taça, e o perdedor deverá beber dela. Não é necessário esvaziá-la inteira; um gole será suficiente.”
Jinshi começou a sentir um pressentimento muito, muito ruim. Saiu de trás de Maomao e se posicionou um pouco ao lado. Teve a impressão de que o rosto dela adquirira um leve rubor. Antes completamente inexpressivos, seus lábios agora ensaiavam um sorriso.
Ele sabia o que fazia Maomao exibir aquela expressão. Queria saber o que era aquele pó, mas não ousava perguntar. Irritava-se consigo mesmo por não conseguir fazê-lo.
Lakan fez a pergunta em seu lugar.
“Que pó foi esse que você colocou nelas?”
“Um remédio. Medicinal, em pequenas quantidades.” Mas, acrescentou Maomao, se as três taças fossem ingeridas juntas, seriam extremamente venenosas. Ela conseguiu dizer isso com um sorriso no rosto, estranha como era. “A outra regra que solicito”, continuou, “é que, se alguém abandonar uma partida por qualquer motivo, isso será considerado uma derrota. Essas são as duas regras.”
Ela balançou suavemente as taças que podiam ou não estar envenenadas. Sua mão estava manchada de vermelho, e nela o dedo mínimo era deformado.
Lakan fitou aquele dedo com atenção intensa.
Maomao tinha pensamentos aterradores, refletiu Jinshi. Mesmo sabendo que ficaria tudo bem desde que não bebesse as três taças, ela parecia lidar com isso com uma leviandade inquietante. Estaria tentando obter alguma vantagem psicológica? De fato, qualquer oponente comum poderia se deixar abalar por aquela pressão extra. Mas este não era um oponente comum; tratava-se do mestre estrategista em pessoa, amplamente considerado um jogador excepcional. Seria preciso mais do que um truque barato para tirá-lo do eixo.
Como qualquer um poderia prever, Maomao perdeu as duas primeiras partidas em sequência. Jinshi chegou a pensar que, ao menos, ela conhecia bem os meandros do jogo, mas logo ficou claro que, no máximo, sabia as regras; não tinha experiência real de jogo. Ela já havia esvaziado duas das taças; com bastante entusiasmo, inclusive. Pela enésima vez, Jinshi se perguntou o que se passava pela cabeça dela.
A terceira partida mal havia começado, mas o desfecho já parecia evidente. Quando Maomao bebesse a terceira taça, poderia acabar se envenenando. Na primeira vez, a chance de escolher uma taça adulterada era de três em cinco; depois da segunda partida, duas em quatro. Após esta última, seria uma em três. Em outras palavras, havia uma chance em dez de que ela estivesse prestes a se intoxicar de forma terrível.
Jinshi não sabia o que era mais assustador: a possibilidade de Maomao se envenenar, ou a constatação de que ele sabia que, mesmo que bebesse o veneno, ela talvez ficasse perfeitamente bem. Ele não tinha certeza se Lakan sabia o quão resistente Maomao era a substâncias tóxicas.
Ele lançou um olhar para Gaoshun, imaginando o que fariam quando o vencedor fosse decidido. Foi então que uma voz se fez ouvir:
Mas a voz não era de Lakan; era de Maomao.
Jinshi e Gaoshun olharam para o tabuleiro e viram o general de ouro de Maomao se fechando sobre o rei de Lakan. A maneira como ela havia movimentado suas peças era desajeitada, amadora — mas não havia como negar que o rei estava encurralado, sem rota de fuga.
“Bom… droga. Eu me rendo.” Lakan ergueu as mãos.
“Uma vitória é uma vitória, mesmo que o senhor tenha me dado de presente, não é?”, disse Maomao.
“É verdade. Deus sabe que não posso envenenar minha própria filha, mesmo que seja por engano.”
A expressão de Maomao não se alterou enquanto ela bebia as duas taças; era impossível dizer se havia drogas nelas ou não. Lakan encarava a filha de semblante inexpressivo com um sorriso algo acanhado.
“Essa droga que você usou… tem algum gosto?”, perguntou ele.
“É bem salgada. Dá para perceber logo no primeiro gole.”
“Certo, então. Qual você vai escolher para mim?”
Então era isso: Lakan podia se dar ao luxo de perder duas partidas. Se qualquer uma das bebidas tivesse gosto salgado, ele saberia que Maomao estava fora de perigo. As probabilidades eram as mesmas, mas esse método era muito mais seguro. Nada escapava a esse homem.
Lakan pegou a taça do centro e a levou aos lábios.
Jinshi abaixou a cabeça. Para ele, aquelas palavras soavam como o anúncio de que tudo estaria acabado na próxima rodada. Perguntou-se o que faria dali em diante…
Ele ergueu o olhar ao ouvir isso. O rosto de Lakan estava vermelho-vivo, e ele cambaleava. Em seguida, o sangue lhe fugiu do rosto, e ele desabou, pálido como um lençol.
“O que diabos está acontecendo?”, exigiu Jinshi. “Você disse que uma dose dessa droga era segura!” Por mais que ela odiasse Lakan, ele não conseguia acreditar que Maomao realmente o tivesse envenenado.
“Eu disse. E é segura”, respondeu Maomao, visivelmente irritada. Ela pegou um jarro de água que estava próximo e o levou até Gaoshun e Lakan. Forçou os olhos de Lakan a se abrirem para se certificar de que ele não estava inconsciente, depois despejou água em sua boca, obrigando-o a engolir. Ela não foi nada delicada.
“Mestre Jinshi”, disse Gaoshun, confuso. “Ao que parece… ele está bêbado.”
“O álcool é o rei de todas as drogas”, comentou Maomao. Segundo ela, havia apenas acrescentado um pouco de sal e açúcar para ajudar o corpo a absorvê-lo. Ela cuidava de Lakan com o mínimo possível de entusiasmo. Apesar da aversão que sentia por ele, era evidente que ainda assim levaria a sério sua vocação como boticária. “E este homem não tem o hábito de beber.”
Com isso, Jinshi finalmente entendeu o que ela vinha tramando desde o início. Percebeu que nunca tinha visto Lakan beber álcool; apenas sucos.
“Certo”, disse Maomao, coçando a nuca e lançando um olhar para Jinshi. “Vamos arrastá-lo até o bairro dos prazeres para que ele escolha uma flor.”
Ela soava praticamente desinteressada. Jinshi só conseguiu responder, atônito: