Diários de Uma Apotecária (Vol. 3) - Capítulo 02
A princesa Lingli, um ano e meio após o nascimento, mostrava-se bastante precoce, uma criança muito saudável. Maomao não era grande admiradora de crianças, mas até ela precisava admitir que a princesa era cativante. Cuidar dela era certamente mais agradável do que lidar com uma das garotas vendidas para o distrito do prazer. Não existe criatura mais insuportável no mundo do que uma menina na pré-adolescência.
A princesa havia passado da fase de se apoiar em objetos para se locomover e já caminhava sozinha, tendo começado recentemente a trotar por curtas distâncias. A consorte Gyokuyou observava aquela correria com um leve toque de preocupação.
“Será que esta residência não está começando a ficar pequena demais para ela?”, comentou.
O Pavilhão de Jade estava longe de ser apertado, mas não era saudável para uma criança passar todo o tempo dentro de casa. Havia também um jardim central, mas em breve ele não seria suficiente para manter o interesse da princesa.
“Talvez não fosse má ideia levá-la para dar um pequeno passeio.” Gyokuyou era incomumente aberta em sua maneira de pensar. A maioria dos nobres acreditava que jovens damas de linhagem elevada deveriam passar os dias protegidas dentro de casa, envoltas nas mais finas sedas. Ao que tudo indicava, a consorte Gyokuyou não concordava com isso. “O que você acha, Maomao?”
Maomao ergueu o olhar e resmungou baixinho, um tanto surpresa por a consorte pedir sua opinião de repente.
“Do ponto de vista da saúde, acho que seria excelente que ela tivesse mais oportunidades de sair ao ar livre.”
Maomao olhou para os pés de Gyokuyou. Eram bem formados e de tamanho perfeitamente adequado; não haviam sido enfaixados quando ela era criança. Nas regiões áridas do oeste, onde nascera e fora criada, Gyokuyou aparentemente recebera uma educação um pouco mais permissiva do que muitas das outras consortes.
De modo geral, considerava-se melhor deixar que a mãe definisse o tom da criação do filho, mas aquela criança em particular era a filha do homem mais importante do país e a menina dos olhos dele. Não podiam esperar que ele simplesmente concordasse com tudo e deixasse Gyokuyou fazer o que bem entendesse.
A consorte, naturalmente, compreendia isso muito bem.
“Então vou perguntar sobre isso”, disse ela, passando os dedos pelos cabelos de Lingli, que havia adormecido no sofá.
Alguns dias depois, foi concedida permissão para que a princesa saísse ao ar livre, acompanhada por dois eunucos como guardas. Maomao e Hongniang iriam com ela. Seria apenas uma pequena caminhada, mas o Imperador podia ser bastante protetor. Por outro lado, até então todos os seus filhos haviam morrido ainda jovens, então talvez ele tivesse bons motivos para isso.
“Eu sei que você entende bastante de flores e animais, Maomao. Talvez pudesse ensiná-la um pouco?”, sugeriu Gyokuyou, afagando a cabeça da princesa. Sua barriga já estava bastante volumosa, então ela ficaria no Pavilhão de Jade, por precaução.
“Não coloque ideias na cabeça dela, Lady Gyokuyou. Ela vai acabar ensinando à princesa as coisas mais horríveis possíveis”, insistiu Hongniang, mas a consorte pareceu surpresa.
“Céus, eu diria que as lições dela podem ser muito úteis.” Um leve sorriso elegante surgiu em seu rosto. “Afinal, nunca se sabe para onde alguém pode acabar indo após um casamento no futuro.”
Eu sabia que ela era astuta, pensou Maomao. A princesa ainda era muito nova, mas, considerando sua posição, em cerca de dez anos havia grandes chances de ser dada em casamento a alguma outra família. Se fosse concedida a um súdito leal, ótimo. Mas também era perfeitamente possível que fosse enviada para outro país, um lugar onde talvez não fosse inteiramente bem-vinda. Numa situação dessas, algum conhecimento prático sobre drogas e venenos dificilmente faria mal.
Hongniang cedeu com um suspiro. Embora claramente pouco entusiasmada, ela compreendia a lógica tão bem quanto Maomao.
Gyokuyou acenou para a princesa Lingli quando ela saiu para o passeio, e a menina acenou de volta. Em seguida, soltou um gritinho ao ver o exterior do Pavilhão de Jade pela primeira vez. Do pátio interno, ela só conseguira provar uma pequena parte do mundo exterior. Seu vocabulário ainda era limitado, e a maioria das palavras que dizia mal fazia sentido, mas mesmo assim era evidente o quanto estava empolgada ao ver tantas mulheres do palácio, muito mais do que havia em sua residência.
Maomao chegara a se preocupar que a criança pudesse se assustar e começar a chorar, mas estava longe disso. Ela tinha a ousadia da mãe.
Lingli caminhava com passinhos apressados, exclamando o tempo todo. Às vezes apontava para algo, e Maomao ou Hongniang lhe diziam como aquilo se chamava. Era difícil dizer quanto ela realmente entendia, mas ela respondia com um balbucio de “mrm mrm”, então talvez algumas palavras fizessem sentido para ela. Os eunucos guardas mantinham uma distância respeitosa; nem perto demais, nem longe demais.
Crianças pequenas eram uma visão rara no palácio interno; na verdade, Lingli era a única com menos de dez anos em todo o complexo. Naturalmente, ela atraía a atenção das mulheres. Algumas não conseguiam conter o sorriso ao ver uma criança pela primeira vez em tanto tempo; outras, percebendo que se tratava de uma princesa, davam um passo respeitoso para trás; e havia ainda aquelas que apenas a observavam sem expressão alguma. A jovem princesa não tinha consciência de nada disso, mas, ao crescer, acabaria entendendo o significado daqueles olhares.
Hongniang, que segurava a mão de Lingli, teve bastante trabalho, já que a princesa saltitava de uma coisa para outra, transbordando curiosidade. O plano era caminhar até o bosque de cerejeiras a oeste do Pavilhão de Jade, colher algumas frutas e então voltar, mas acabaram encontrando desvios e distrações pelo caminho. Por fim, avistaram o portão oeste, e Hongniang demonstrou alívio evidente ao perceber que haviam chegado ao destino.
Soava quase como o choro de um bebê, de modo que Maomao e Hongniang chegaram a pensar, por um instante, que fosse Lingli, mas a própria princesa também estava olhando em volta, procurando a origem do som. De repente, ela disparou.
Hongniang correu atrás dela enquanto a menina espiava entre alguns depósitos.
“Não, princesa, não!”, chamou Hongniang.
No mesmo instante, outro som ecoou:
Antes que Lingli desaparecesse entre os prédios, Maomao se espremeu entre os galpões, dizendo:
“Maomao!”, exclamou Hongniang.
“Miau, miau!”, gritou Lingli ao mesmo tempo. Hongniang não teve escolha a não ser recuar, enquanto Maomao continuava seguindo a princesa.
Ela viu algo de brilho dourado reluzir na penumbra. Estendeu a mão, mas a coisa escorregou entre seus pés e saiu correndo.
“Princesa!”, disse Hongniang, segurando Lingli. Uma pequena bola de pelos sujos surgiu entre os prédios. Assustada com a presença repentina de humanos, a criaturinha tentou fugir. Os pelos se eriçaram e o rabo ficou em pé.
“Miau!” A princesa apontou para a bolinha de pelos, deixando claro que queria que a pegassem. Maomao havia acabado de se livrar do aperto entre os galpões, mas não estava em posição de se atirar sobre um animal tão pequeno. Vai escapar, pensou. Mas, nesse momento, alguém surgiu atrás da bola de pelos. A criaturinha estava tão concentrada em Maomao, Hongniang e Lingli que a recém-chegada conseguiu apanhá-la com facilidade.
A ajudante era outra mulher do palácio, alguém que Maomao não reconhecia.
“É de vocês?”, perguntou, com uma voz surpreendentemente jovial. Embora fosse alta, tinha um rosto jovem; poderia ter a idade de Maomao, talvez até menos. Vestia o mesmo uniforme de Xiaolan e parecia um pouco desligada.
“Obrigada”, disse Maomao. A outra mulher lhe estendeu o montinho de pelos sujo e trêmulo. Maomao tirou um lenço e envolveu o animal nele. Mesmo através do tecido, sentia-o tremer, enquanto ele soltava um “mrrrow!” suplicante. Ele só tinha fugido por medo e se esgotara no processo; dava para sentir o quão mole estava.
“Aposto que está com fome”, disse a mulher. “Talvez você possa alimentá-lo. Bom, até mais!” E foi embora, acenando.
Tudo bem; Maomao tinha a bolinha de pelos, então considerou aquilo um sucesso. Levou o animal até a princesa. Hongniang o examinou.
“Maomao, isso é…?” Ela ergueu uma sobrancelha, com uma expressão de desaprovação.
“Miau, miau!”, arrulhou a princesa, aparentemente querendo dizer “Deixa eu ver!”
O pequeno filhote, enroscado no lenço, ainda tremia.
A princesa Lingli ficou encantada com aquela forma de vida minúscula e desconhecida. Insistia sem parar para que Maomao a mostrasse, imitando o miado do filhote com um animado “miau, miau!”, mas Maomao sabia que Hongniang jamais permitiria que a princesa tocasse naquela criaturinha imunda. Ainda assim, não podiam simplesmente deixá-la à própria sorte, então encurtaram o passeio e retornaram ao Pavilhão de Jade.
Apesar do apego da princesa ao gatinho, algo tão insalubre não podia ser admitido na residência da consorte. No fim das contas, distraíram Lingli com seu lanche favorito enquanto Maomao levava o animal discretamente até a enfermaria. Parecia o lugar mais óbvio, pois, sem cuidados, a criaturinha não sobreviveria.
Mesmo assim, Maomao estava intrigada.
Sim, a estação quente era a época em que os animais selvagens se reproduziam, mas isso dizia respeito ao mundo fora do palácio interno. Dentro de seus muros, quase não havia animais de estimação. Um pequeno número de consortes possuía aves de terras distantes, mantidas em gaiolas, mas não havia cães, gatos ou nada do tipo circulando por ali. Era necessária permissão especial para manter um animal, e era proibido manter machos e fêmeas juntos; quando chegavam, os machos eram castrados, assim como os homens. Podia soar cruel, mas era justamente para evitar problemas caso escapassem. O palácio interno não podia permitir que animais se reproduzissem indiscriminadamente por seus vastos terrenos.
Chegaram a um acordo: Hongniang concordou que o gato poderia ficar por enquanto, mas disse que os superiores precisariam ser informados.
“Ah, isso é uma surpresa”, comentou o médico charlatão. Sereno como sempre, ele não parecia refletir muito sobre o motivo de Maomao estar com um gato. No entanto, ao notar que o animal tremia, franziu o cenho com compaixão. Colocou água para ferver e, quando estava bem quente, despejou-a numa garrafa de vinho, envolveu-a com um pano e a colocou no cesto onde haviam posto o filhote.
“Parece que o senhor sabe exatamente o que fazer.”
“Não é o primeiro gato que acolho. Já tive uma tricolor muito doce.”
Por pura coincidência, o filhote também era tricolor. Enquanto limpavam a sujeira do pelo com um pano úmido, surgiram as manchas de pelo castanho-avermelhado e preto. O gatinho ainda tinha os dentes de leite, mas estava terrivelmente desnutrido; Maomao sentia a caixa torácica sob os dedos.
“O senhor não teria um pouco de leite?”, perguntou. O leite da mãe seria o ideal, mas não havia como sair à procura dela agora. Além disso, Maomao não tivera a impressão de haver outros gatos por perto quando encontraram o filhote.
“Hmm, acho que posso conseguir”, disse o médico, saindo apressado da sala. Como médico do palácio, ele tinha certa influência na cozinha.
Enquanto isso, Maomao continuou esfregando o filhote faminto com o pano, retirando as pulgas e jogando-as em óleo para matá-las. Ela preferiria mergulhar o animal em água quente para se livrar delas de uma vez, mas, considerando o estado físico do gatinho, limpá-lo daquele jeito era o máximo que podia fazer.
Alguns minutos depois, o médico voltou trotando com uma panela.
“Pelo menos havia leite de cabra.” Ele lhe estendeu a panela. Maomao molhou um dedo e percebeu que estava na temperatura exata. Umedeceu a ponta do dedo com o leite e levou-a à boca do filhote. O pequeno animal começou a beliscar e lamber ao mesmo tempo. Ela repetiu isso várias vezes, enquanto o médico os observava com ternura.
Maomao detestava se aproveitar dele só porque ele era tão bonachão, mas decidiu pedir mais um favor.
“Seria possível conseguir um pouco de tripa?” Dado o número de pessoas no palácio interno, a cozinha devia abater vários animais todos os dias. Linguiça era servida ocasionalmente nas refeições, então Maomao sabia que as vísceras não eram simplesmente descartadas.
“T-Tripas? Bem, acho que sim, mas para quê?”
O filhote estava tão fraco que levaria algum tempo até conseguir beber leite de um pires. Alimentá-lo com a ponta do dedo, porém, consumia muito tempo. Maomao pensara em usar intestinos para simular o mamilo de um animal adulto.
Quando explicou isso ao médico, ele saiu correndo novamente em direção à área de refeições. Um homem verdadeiramente generoso. Enquanto isso, Maomao continuou dando leite de cabra ao pequeno gato, tanto quanto ele conseguia beber.
Alguns dias depois, haviam conseguido limpar quase toda a sujeira, e o pelo do filhote começava a recuperar o brilho. Maomao se preocupara por um momento se o leite de cabra lhe faria mal, mas o gatinho parecia tê-lo aceitado muito bem.
Normalmente, o gato teria sido expulso do palácio interno imediatamente, mas — para o bem ou para o mal —, na noite em que o encontraram, o Imperador havia visitado o Pavilhão de Jade. Ao ouvir sua pequena princesa repetir sem parar “miau! miau!”, ele não teve coragem de negar-lhe a fonte daquela alegria. E quem foi encarregada de cuidar do animal? Naturalmente, Maomao.
“O nome dela já significa ‘gato’. São o par perfeito!”, brincara o Imperador. Maomao não soube bem se devia rir ou não, mas como a consorte Gyokuyou soltou uma risadinha, ela ao menos conseguiu esboçar um sorriso educado. Imaginou que, com o tempo, conseguiria empurrar a responsabilidade para o médico. (Como se já não tivesse feito isso em grande parte.)
A princesa ainda não podia desfrutar da companhia do gatinho, pois ele ainda tinha algumas pulgas e, mais importante, por menor que fosse, continuava sendo um animal selvagem. Maomao prometeu dividir o filhote com Lingli quando ele estivesse um pouco mais forte.
Quando o gatinho se recuperou o suficiente para aguentar, Maomao o mergulhou numa bacia e lhe deu um banho. Ele ficou visivelmente mais limpo, mas, ao esfregá-lo com sabão, a água ficou cinzenta. O subpelo ainda estava sujo. Quando Maomao sugeriu que aquele pelo branco e macio daria um excelente pincel de escrita, o médico agarrou o animal de modo protetor, balançando a cabeça. Ela dissera aquilo em tom de brincadeira, mas, quando dois pincéis novinhos apareceram para ela pouco depois, decidiu que havia saído ganhando.
Depois de o filhote passar tempo suficiente bebendo leite nutritivo, acrescentaram frango picado à sua dieta. Deram-lhe uma pequena caixa com areia, onde ele prontamente aprendeu a fazer suas necessidades. Ainda tinha dificuldade para evacuar sem que seu ânus fosse estimulado, porém. O médico foi gentil o bastante para usar um pano úmido e ajudá-lo.
Os dentes ainda eram pequenos, mas, ainda assim, eles cortaram e limaram as unhas do filhote. Não era um procedimento fácil em um gatinho, mas se ele acabasse arranhando alguém ou alguma coisa, não ouviriam o fim disso.
Naquele momento, pareceu uma boa ideia, ao menos, pensou Maomao, soltando um longo suspiro. Foi então que alguém chegou ao consultório médico.
A observação bem-humorada vinha de Jinshi. Como sempre, Gaoshun o acompanhava, e ele trazia consigo algum tipo de bolsa.
“Acho que a princesa já poderá vê-la em breve”, respondeu Maomao. “O único problema é que ainda não tenho um plano caso o animal a arranhe ou tente fugir.”
“Você sempre se prende demais aos detalhes.”
Fácil falar. Não era ele quem arcaria com as consequências se algo desse errado.
Maomao lançou um olhar ao animal em questão e percebeu que Gaoshun havia tirado um peixe seco da bolsa e o balançava diante do gatinho. O cenho permanentemente franzido havia desaparecido, e ele parecia até sorrir. Então ele tinha um lado brincalhão!
“Mestre Gaoshun, acho que isso pode ser um pouco duro demais para a nossa gatinha agora. Talvez eu possa fervê-lo?”
O charlatão já tinha uma panela pronta, como se estivesse aguardando exatamente aquele momento. Não dava para contar com ele para fazer seu trabalho direito, mas nessas horas ele sempre aparecia.
Jinshi pegou o gato e o esticou, examinando sua barriguinha.
“Sim. Felizmente, não há necessidade de castrá-la.” As palavras escaparam da boca de Maomao antes que ela percebesse que talvez não fosse algo apropriado de se dizer tão levianamente naquela companhia. “Perdão, senhor”, acrescentou.
“Não, não se preocupe com isso”, respondeu Jinshi, embora sua expressão fosse difícil de decifrar.
Ainda se sentindo constrangida, Maomao foi procurar algum tipo de lanche e encontrou as últimas das salsichas feitas com as sobras da tripa. Elas estavam recheadas com carne e ervas aromáticas e haviam sido cozidas, para que nada fosse desperdiçado. Então ela parou por um instante e pensou melhor.
“Algum problema?”, perguntou Jinshi.
“Não, senhor.” Maomao devolveu a salsicha à prateleira e pegou alguns bolinhos de arroz em seu lugar. Enquanto isso, o médico comia com um olhar distante no rosto.
Jinshi se divertia brincando com o gato. Ele balançava diante do filhote o ornamento que normalmente pendia de sua cintura, e fingia não perceber Gaoshun observando-o com profunda apreensão. No entanto, ele percebeu Maomao olhando para ele; virou-se e estendeu o ornamento, como se perguntasse se ela também queria brincar com o gatinho.
“Não sou muito chegada a gatos”, disse ela.
“Com esse nome?” Não era a primeira vez que alguém dizia isso.
“Você parece gostar bastante dela, Mestre Jinshi.”
“Nem tanto.” Ele olhou para Gaoshun, que trabalhava com o médico para ferver o peixe seco. Dois homens de meia-idade se desdobrando por causa de um gatinho, pensou Maomao.
“Não entendo o que há de tão bom neles”, continuou Jinshi. Ele ainda observava os dois homens, que aos poucos começavam a soar como se estivessem ronronando enquanto arrulhavam para o filhote. Francamente, era repugnante. Seu olhar dizia que ele jamais poderia ser como eles.
“Concordo com você”, disse Maomao, olhando para o gatinho. “Mas, segundo os amantes de gatos que conheço, o fato de nunca se saber o que eles estão pensando faz parte do encanto.”
“Se você os observa por tempo suficiente, acaba descobrindo que não consegue desviar o olhar.”
“Então, pouco a pouco, percebe que está ansioso para acariciar o gato.”
“Pode irritá-lo o fato de eles só agirem de forma carinhosa quando há comida envolvida, mantendo-se distantes o resto do tempo.”
“Mas quando se chega a esse ponto, tudo o que resta é perdoar esses defeitos.”
Dessa vez, Jinshi não respondeu.
Com o tempo, Maomao sabia, acabava-se querendo beijar o gato (mesmo sabendo que ele não gostaria), depois brincar com suas adoráveis almofadinhas das patas e, por fim, tocar aquela barriga macia e felpuda (mesmo sabendo que um bom arranhão seria o resultado inevitável). Para Maomao, fazer esse tipo de coisa com um animal que andava por aí fazendo sabe-se lá o quê, sabe-se lá onde, era algo profundamente anti-higiênico, mas os amantes de gatos simplesmente não conseguiam evitar. Ela olhou para Jinshi, cheia de desprezo por tudo aquilo, apenas para descobrir o filhote em cima do rosto dele.
“O que está fazendo, Mestre Jinshi?” Se ele queria tocar a barriguinha felpuda do gato, tudo bem, mas Maomao lançou um olhar pela janela, preocupada com o que poderia acontecer se alguém o visse daquela forma.
“Nada demais”, disse Jinshi. “Mas acho que agora sinto um pouco mais de empatia por essas pessoas que gostam de gatos.” Ele soava como se tivesse chegado a algum tipo de profunda revelação. (Abstenhamo-nos de discutir exatamente qual teria sido essa revelação.)
“Entendo. Bem, parece que o peixe está pronto.”
“Ah, sim, claro.” Percebendo que Gaoshun e o médico olhavam em sua direção, Jinshi rapidamente colocou o gato no chão.
“O que estava fazendo, senhor?”, perguntou Gaoshun, em tom respeitoso, mas com um olhar sinceramente ciumento.
No fim das contas, nem mesmo Jinshi conseguiu determinar de onde exatamente o gatinho havia vindo. Inúmeras carroças entravam e saíam do palácio interno todos os dias, carregadas de provisões. A dedução mais simples era que o filhote tivesse entrado seguindo uma delas, atraído pelo cheiro de comida, e passara despercebido até ser encontrado pela princesa.
Pouco tempo depois, o gatinho recebeu até mesmo um posto oficial concedido pelo Imperador, sendo agraciado com o título pomposo de Admoestadora de Ladrões. Na prática, isso significava apenas que ela ajudaria a manter o consultório médico livre de ratos. O Imperador claramente tinha um ponto fraco por sua filha.
A gata recebeu um nome cujo significado era “peluda”. Isso incomodou profundamente Maomao por um motivo muito simples: esse nome também se pronunciava “Maomao”.