Tente Implorar - Capítulo 35
Laços Emaranhados e Túmulos Escondidos
[ Caro James Blanchard Jr.
Tive um tempo muito satisfatório com a prostituta particular que você me mandou. Já viu a srta. Riddle nua? Imagino que não. Se tivesse visto, não a teria mandado para mim. Fiquei encantado com um item tão bom. Além disso, não esperava que me valorizasse tanto a ponto de me mandar sua noiva. Em especial, preparei para ela um confinamento solitário. Pelo bem da sua pobre noiva, que ainda se espera que dê à luz um herdeiro da família Blanchard, a “Família Real do Exército Revolucionário”, com o corpo manchado pelo meu gozo, peço que faça uma visita. É melhor se apressar, porque se demorar demais, pode acabar criando meu filho primeiro.
Divisão de Inteligência Doméstica, Inteligência do Comando Oeste
Capitão Leon Winston. ]
A carta estava amassada, e alguém pôs a mão no ombro de Jimmy enquanto ele apoiava a testa.
Entre os que tentavam consolá-lo, destacavam-se os rostos de vários anciãos que tinham sido contra tirar Grace de lá. Vendo-os trocando olhares sombrios, Jimmy fechou os olhos, desiludido.
— Vocês tentaram fazer o cão comer o cão...
— O cão que mandaram pra comer foi comido.
Quando ele abriu os olhos e fuzilou os dois anciãos, eles pigarrearam e calaram a boca.
— O que vamos fazer com Grace... aquela pobre coitada... Que Deus cuide dela.
Quando a anciã ao lado dele estalou a língua e fez o sinal da cruz, o homem de cabelo grisalho respondeu com voz baixa:
— Pelo menos a vida dela foi salva. Acho que ele vai mantê-la viva por um tempo, então temos sorte. Sinto pelo Wilkins.
O homem olhou para o único lugar vazio na mesa redonda com olhos amargos, antes de tirar um cigarro e perguntar. O pai de Fred, Dave, não estava presente; preparava o enterro. Jimmy fuzilou o ancião que acendia o cigarro. Sentia pena de Fred. Ninguém sabia como ele fora descoberto logo antes da extração. Fred disse que tinha falado sobre Winston antes que Nancy perguntasse que coisas horríveis Winston fizera com ele, mas ficou calado sobre como fora descoberto. E de repente sumiu da casa em Winsford e foi encontrado morto numa vala no dia seguinte. Então só Grace sabia a resposta.
Mesmo assim, Jimmy sabia. Provavelmente todos os anciãos ali reunidos intuíam que não tinha sido culpa de Grace.
— Vamos começar pela operação.
Recuperando a compostura com esforço, ele começou a planejar a operação de resgate de Grace.
— Dei ordens a Peter pra vigiar os movimentos dos Winstons, e uma equipe de resgate já foi enviada pra Winsford com antecedência. Durante o transporte...
— Mas existe chance de o esconderijo em Winsford ser descoberto.
— Não acho. Ainda não há nenhum movimento ou tendência suspeita, e até Nancy disse que não teve rastro nem vigilância.
— A equipe de resgate encontrou um novo esconderijo...
Foi quando Jimmy ia continuar discutindo a operação de resgate.
— De qualquer forma, Grace sabe demais, estou preocupado.
Todos ficaram em silêncio diante das palavras do ancião. Todos ali reunidos estavam condenados a levar um tiro no momento em que Grace abrisse a boca. Enquanto trocavam olhares carregados de significado, o ancião mais velho sorriu amargo para Jimmy e trouxe à tona palavras difíceis.
Os olhos de Jimmy tremeram só de pensar em ordenar o suicídio dela. Na mesma hora, uma discussão acalorada explodiu em volta da mesa.
— Ainda assim, ela nem cumpriu o papel dela.
— Tem razão. Ela é uma carta, e seria uma pena queimá-la assim.
— Porém, essa carta agora está nas mãos do exército? Seria como entregar nossa localização pra eles.
— Se descobrirem o valor da carta, pode ser usada como propaganda contra nós...
— Isso não está certo. Se descobrirem, vão se livrar dela.
Houve um momento de silêncio, como se todos concordassem com aquela afirmação.
— De qualquer forma, acho razoável dar a Grace a chance de morrer em paz.
Os executivos que chegaram a um acordo começaram a olhar para Jimmy, embora ele ainda não estivesse pronto para responder.
Ouviu-se o som de uma cadeira sendo puxada, e um dos anciãos que se opusera à extração de Grace se aproximou, pôs a mão pesada no ombro dele.
— Existem muitas mulheres. Espero que não tenha apego pessoal.
— Pra ser sincero, Angie estava viva na época, então fiquei quieto, mas desde o momento em que você ficou noivo de uma mulher de sangue sujo, eu quis me opor.
Um ancião que não podia ignorar o desconforto de Jimmy acrescentou:
— Posso parecer cruel agora, mas você é nosso comandante-chefe. Tem de pensar em todos e na causa primeiro, não nos sentimentos pessoais.
— Sim, tem alguém aqui que não sacrificou alguém que amava?
Diante dessas palavras, o ar na sala de reuniões ficou ainda mais pesado. Jimmy soltou um longo suspiro e abriu a boca a contragosto.
— Não tem como entregar a ordem. Começar uma nova infiltração é arriscado demais, e não há garantia de que Grace receba um jornal lá...
— Peter não consegue entrar na cerca de Winston...
— Quero dizer, acredito que Grace me mandou uma lista do que foi fornecido para a sala de tortura. Esconda a ordem dentro e mande para o lado de Peter.
Não havia mais espaço para objeção. Jimmy acenou com a cabeça, relutante, e fechou os olhos.
Abril, com seu céu caprichoso, passou sem que ninguém percebesse, e dias ensolarados continuaram. Era o começo de uma estação que Leon, com seu olfato apurado, não gostava nem um pouco.
Mesmo assim, ao entrar no jardim, o perfume delicado das lilases não parava de flutuar no ar e incomodá-lo. No caminho para a estufa, ele parou de repente diante de um canteiro de lilases em plena floração. Ao estender a mão, ignorou o olhar curioso da mãe, que andava ao lado dele de braços cruzados.
Um passarinho marrom pousado num galho de flores roxas claras, bebendo néctar, bateu as asas assustado. Quando o pássaro quebrou o galho onde estava, a mãe sussurrou, olhando de canto de olho para os convidados que caminhavam.
— Não é digno dar para Grande Senhora.
Em vez de responder, Leon só torceu levemente os lábios.
A Grande Senhora... Era um presente para aquela mulher. Não seria má ideia colher as flores de maio pra aquela mulher que não sabia a data nem a estação. Ele estava muito curioso para ver que cara ela faria ao saber que as lilases estavam em flor.
Pegando o galho de flores na mão, voltou a andar. Enquanto atravessava o jardim de lilases e subia o caminho reto ladeado de árvores cinzentas, a mãe sorriu ao ajeitar o lenço de seda que ele levava no peito.
Ela falava do terno que ele vestia em vez do uniforme de oficial; ela detestava uniformes militares. Dias antes do encontro com a Grande Senhora, ela vasculhara o guarda-roupa dele e preparara um terno. Foi engraçado quando ela implorou para ele tirar o uniforme, sabendo que ele ia aparecer de farda. No fim, ele acabou vestindo um terno bem longe do estilo antiquado que a mãe escolhera, mas ela parecia satisfeita.
— Se receber o título, saia do exército.
Leon não conseguia acreditar que um filho inteligente tivesse saído de uma mulher assim. O Grão-Duque discutia um noivado com um oficial militar porque a família precisava. Mas sair do exército... será que ela sabia o que estava dizendo?
— Você fez bem em fechar a sala de tortura.
Leon olhou pra baixo para a mãe, que sorria aprovadora. Ela não sabia que o filho escondia uma mulher no subsolo da mansão.
— Espero que você não tenha esquecido quem é o verdadeiro dono desta família.
— Sim, Capitão. Vou ficar calado.
A governanta chefe, sra. Belmore, seguia fielmente as instruções dele. Foi inevitável revelar pra sra. Belmore que uma mulher anônima estava presa no porão do anexo. Se refeições entrassem na sala de tortura que diziam estar fechada e roupas de mulher aparecessem na lavanderia, era só questão de tempo até os boatos se espalharem.
— Então por que ainda tem soldados no anexo?
Elizabeth achava que os soldados horríveis iam desaparecer da mansão também. Mas foi inesperado que os soldados não só guardassem o anexo enquanto Leon quase morava lá e trabalhava lá.
— É coisa do exército, é melhor não ter curiosidade.
Como o filho deu uma resposta afiada como faca, Elizabeth fez cara de espanto.
— É assunto da minha mansão, mas não é meu assunto.
Eu sou o chefe da casa, não se meta.
Elisabeth, com o orgulho ferido, baixou a voz e perguntou, sabendo que havia convidado.
— Bem. Se você sempre tivesse sido sensato, eu teria confiado em você e entregado tudo da família como antes.
Ela aludiu ao único erro que o filho, sempre sensato, cometera. Havia algum tempo circulavam boatos de que o Capitão Leon Winston tinha uma criada como amante. Da boca de Leon, que não podia não saber disso, saíram as palavras que Elizabeth queria ouvir.
— Aquela mulher, você nunca mais vai ver. Nem a mãe, nem ninguém.
— Confio em você. — Elizabeth, relutante em insistir, não perguntou mais. — Tem de cair no gosto de Rosalyn, de qualquer jeito.
A Grande Senhora, sentada do outro lado da mesa de chá suntuosa, sorriu suave diante das palavras gentis de Elizabeth.
— É etiqueta de dama recusar sobremesa, mas não consigo recusar este bolo.
Elizabeth sorriu feliz. Gostava do jeito de Rosalyn falar; nobre e modesto, mas com bom senso de humor.
— Eu estava preocupada que tivesse sido preparado para o meu gosto antiquado, mas fico contente.
— Que antiquado? Eu é que estou feliz. Ouvi dizer que a senhora tem bom gosto.
Era verdade que era tão sem graça... O gosto dela, essa conversa. Vendo a mãe e a Grande Senhora trocando elogios pretensiosos, Leon inclinou a xícara de chá pensando nisso.
— O duque de Winsford desta vez também...
O Grão-Duque, que ouvia a história por trás de uma reportagem recente de um dos veículos de Jerome, tinha cara de quem queria ir embora imediatamente. Foi Leon, não a mãe, quem chamou Jerome pra esse encontro. Tinha um forte pressentimento de que o Grão-Duque ia trazer algum assunto chato, então chamou Jerome pra distraí-lo.
Porém, a conversa começou a seguir o rumo que o Grão-Duque queria.
O título oficial de Jerome, que tinha doutorado em humanidades, era doutor.
— O artigo de análise que você publicou outro dia na sua revista de negócios foi bem útil.
— É uma honra, Vossa Excelência. Aliás, qual artigo?
— O do desenvolvimento da mina de diamantes de Bria.
Estava claro que ele forçava a mudança de assunto pra chegar ao ponto. Leon sorriu de canto atrás da xícara de chá.
Mina de Diamantes de Bria. A mina que acabara de começar a ser desenvolvida no exterior tinha fama de conter o maior depósito de diamantes já descoberto. Como o governo da República de Bria, que sofria com dificuldades financeiras, anunciara recentemente que faria licitação aberta para os direitos de exploração, a maior competição de todos os tempos também estava marcada. O Grão-Duque pensava em entrar na licitação.
Não importava o que o Grão-Duque fizesse, Leon não tinha interesse, mas pedir investimento era um incômodo. A família Winston já tinha uma mina de diamantes, embora menor que a de Bria. Mesmo que fosse a maior escala esperada, Leon não tinha intenção de fazer investimento duplicado no mesmo tipo de luxo. Embora tivesse algum dinheiro sobrando, já decidira investir na indústria de aviação e em imóveis do Novo Mundo, que um dia substituiriam grande parte do setor naval.
Mesmo assim, o Grão-Duque Aldrich repetia o pedido de uma joint venture pra desenvolver a mina de Bria.
— O Barão Chapman também concordou em entrar. Você sabe o que quero dizer.
Sim, significava que a família real ia sugar o doce da família Winston e jogar fora. O Barão era tio materno do Rei. Em outras palavras, o barão só emprestava o nome e o investidor de verdade era o Rei. Se a Família Real participasse diretamente da licitação aberta para a mina na República de Bria, ia dar muito pano para a manga. Com a história de colapso por causa da revolução popular e só poucas décadas desde a restauração da monarquia, a família real instável se preocupava bastante com a opinião pública.
Por isso, a família real investia no exterior mobilizando parentes distantes, incluindo o Grão-Duque e o Barão, e pedia que a família Winston entrasse...
Um idiota que achasse que essa chance era uma honra talvez abaixasse a cabeça e estendesse a mão. Mas Leon não era idiota. As finanças da realeza não eram boas. O Grão-Ducado tinha muitos bens, mas também muitas dívidas. A estabilidade patrimonial da família Winston era muito superior.
“...Significa que só o dinheiro da família Winston vai ser investido como água para ganhar a licitação, e o retorno do investimento vai ser dividido entre a Família Real e o Grão-Ducado.”
Estava claro que a mãe, que só queria aceitar o título, ia pedir para ele participar de qualquer jeito. Porém, o Grão-Duque não tocou na joint venture com a mãe, como se não tivesse intenção de discutir negócios com uma mulher.
— Capitão Winston, você pode usar o diamante mais precioso de lá para dar um anel de noivado pra Rosalyn.
O Grão-Duque, que debatia o valor do investimento na mina de Bria com Jerome, por fim revelou suas verdadeiras intenções pra Leon, que ficara calado.
— É uma pena, mas vai levar pelo menos dois ou três anos pra o desenvolvimento da mina de Bria começar.
Foi uma ótima estratégia ter Jerome nessa posição. Além disso, até a mãe distraída veio ajudar dessa vez.
— Não se pode deixar uma bela moça solteira por tanto tempo. Não se preocupe, Vossa Excelência, já estou de olho num anel de noivado pra Rosalyn. Há algum tempo, numa mina que pertence à minha família...
Enquanto os outros membros da família Winston cuidavam dos convidados chatos, Leon lembrou da mulher que deixara amarrada no porão do anexo.
“Será que ela está aguentando bem?”
E se ela não aguentasse? O olhar zombeteiro de Leon parou na mesa de chá, cheia de bolos encomendados de um café perto da mansão.
Ele ergueu o dedo quieto diante do pensamento súbito. A criada que estava à porta da estufa se aproximou rápido. Então ele deu a lilás que pensara em dar para a Grande Senhora para a criada.
Elizabeth, que sorrira quando ele colhera as lilases, achando que o filho tinha uma ingenuidade infantil, franziu a testa.
— Diga à sra. Belmore para entregar no anexo às seis em ponto, sem falta.
Além disso, não gostava que o filho planejasse jantar sozinho no anexo mais uma vez hoje.
— Capitão, tem um boato interessante circulando ultimamente.
O Grão-Duque, que olhava para trás da criada que saía da estufa carregando o galho de lilás, falou com Leon. Estava claro que trouxera o assunto com um sorriso significativo depois de ele dar as flores para a criada.
— Boatos são cobertos de boatos.
Leon pôs a xícara na mesa e deu um sorriso tranquilo. Não era a atitude de alguém sendo interrogado sobre um caso com uma criada.
— Eu já dissipei os boatos ruins sobre mim...
Até o Grão-Duque sabia que essa conversa de casamento era só um negócio. Era só pressão porque não gostava do jeito que ele lidava com isso. De qualquer forma, não seria bom se o absurdo desonroso sobre sua impotência fosse calado com um caso com a criada?
— Não se preocupe, pode falar com a mãe.
Elizabeth não escondia o sorriso, mostrando que estava orgulhosa do filho. O escândalo com a criada a fazia sentir como se estivesse numa corda bamba. Mesmo assim, passou naturalmente como se ele tivesse agido de propósito pra calar os boatos. Nessas horas, ela gostava que Leon fosse esperto.
Procurando uma chance de sair com o Grão-Duque, Elizabeth dobrou o guardanapo e colocou na mesa.
— Como velha, devo me levantar agora pra deixar os jovens passarem tempo juntos. Ah, pensando bem, tem uma pintura nova que comprei no último leilão da capital real, e quero mostrar primeiro para você.
Era só uma desculpa pra deixar o Grão-Duque apreciar a pintura de forma nobre enquanto os dois iam discutir os termos do noivado esnobe.
Quando o Grão-Duque desapareceu, Jerome revelou sua verdadeira natureza para a Grande Senhora.