Diários de Uma Apotecária
January 10

Diários de Uma Apotecária (Vol. 2) - Epílogo

Vários dias depois de Maomao ter retornado ao palácio dos fundos, chegou uma carta de Meimei, acompanhada de um pacote. A carta explicava claramente de quem fora comprado o contrato, e por quem. Devia estar chovendo ou algo assim quando ela a escreveu, pois a página estava marcada por manchas de gotas.

No pequeno estojo que acompanhava a carta havia um belo lenço do tipo que as cortesãs usavam em ocasiões comemorativas. Maomao chegou a pensar em fechar o estojo de novo, mas mudou de ideia. Em vez disso, foi até um baú de roupas — um dos poucos móveis de seu quarto diminuto — e começou a revirar o fundo, procurando algo bem lá embaixo.


As luzes do bairro do prazer cintilavam à distância. Para Maomao, pareciam ainda mais brilhantes e numerosas do que de costume. Do alto do muro externo do palácio interior, ela conseguia ouvir o tilintar de sinos: cortesãs dançando com seus lenços, imaginou. Vestiriam suas roupas mais belas, agitariam longos tecidos esvoaçantes e espalhariam pétalas de flores.

A compra de um contrato era motivo de celebração. Quando toda a cidade florescia por uma única mulher, as outras flores dançavam para se despedir dela. Haveria vinho e banquetes, canto e dança. O distrito do prazer nunca dormia, e a farra seguiria noite adentro.

Quanto a Maomao, o lenço diáfano que Meimei lhe enviara estava enrolado em seus ombros. Ela o segurava com os dedos. A perna esquerda ainda não estava no melhor estado, mas achava que daria conta. Tirou o robe externo e passou um leve toque de rouge nos lábios. Aquilo também fora um presente de Meimei.

Parece até algum tipo de piada, pensou.

Maomao lembrou-se da princesa Fuyou, que no ano anterior fora dada em casamento a um oficial militar, um velho conhecido seu. Será que ela já havia esquecido os dias no palácio interior? Ou às vezes se lembrava de como dançava sobre aqueles muros, noite após noite?

Agora Maomao faria o mesmo que a princesa. Vestida com o belo traje que suas irmãs praticamente a haviam forçado a usar, evocou os primeiros passos da dança que aprendera tanto tempo atrás. O rouge que recebera de sua irmã Meimei tingia-lhe os lábios. Pequenos sinos estavam presos às mangas, tilintando a cada movimento. Pedrinhas haviam sido costuradas na longa saia para que ela se abrisse em ondas sempre que Maomao girasse.

A saia rodopiava ao redor dela, o lenço descrevia arcos, e as mangas cortavam o ar. Naquela noite, deixara os cabelos soltos, adornados apenas com uma única rosa, uma pequena flor tingida de azul.

O lenço dançava, a saia subia no ritmo, mangas e cabelos ondulavam juntos.

Não pensei que lembraria tão facilmente, refletiu, surpresa por ainda guardar em si a dança que a velha lhe ensinara.

O lenço se ergueu mais uma vez, e então Maomao deu de cara com uma companhia absolutamente indesejada. Foi nesse instante que tropeçou na própria saia.

Caiu de frente e, ao tentar proteger o nariz do impacto, rolou direto em direção à borda do muro. Conseguiu se deter por um triz, e alguém a puxou para cima.

“O q-que você está fazendo aqui?”, perguntou o visitante inesperado, ofegante. Os cabelos, antes cuidadosamente presos, estavam agora uma bagunça.

“Eu é que deveria perguntar isso, Mestre Jinshi”, disse Maomao, sacudindo o vestido. “Por que você está aqui?”

Ele lançou a ela um olhar exasperado. Maomao já estava longe da beirada, mas, por algum motivo, ele ainda segurava sua mão.

“Onde mais eu deveria estar? Quando chegou a notícia de que uma mulher estranha estava dançando sobre o muro de novo, tive de vir lidar com isso.”

“Hm. E eu achando que tinha passado despercebida.” Pensando melhor, talvez não fosse tão surpreendente assim que tivesse sido notada. Ainda assim… será que os guardas ainda acreditavam em fantasmas?

“Eu agradeceria se você não aumentasse minha carga de trabalho”, disse Jinshi, pousando a mão na cabeça de Maomao.

“Não precisava ter vindo pessoalmente, Mestre Jinshi. Não podia mandar outra pessoa?”, ela disse, esquivando a cabeça para fora debaixo da mão dele.

“Um guarda muito solícito reconheceu seu rosto e entrou em contato comigo diretamente”, respondeu Jinshi. Maomao tocou o próprio rosto. “Você pode achar o que está fazendo inofensivo, mas lembre-se de que não parecerá assim para quem vê.”

“Como quiser”, respondeu Maomao. Um tanto envergonhada, coçou a bochecha. Aquilo tudo estava sendo mais difícil do que imaginara.

“Essa é a minha história”, disse Jinshi. “Agora é a sua vez. O que você está fazendo aqui?”

Após um instante, Maomao respondeu:

“No distrito do prazer, dançamos para nos despedir de uma cortesã cujo contrato foi comprado. Minha roupa de celebração chegou hoje.”

Na verdade, ela queria se despedir da cortesã que lhe dera aquelas roupas. Meimei ficara ao lado de Maomao pacientemente enquanto ela penava para aprender a dançar.

Quero que você consiga dançar direito quando eu for embora, sua irmã sempre dizia.

Jinshi a observava com atenção.

“O que foi?”, perguntou Maomao.

“Eu simplesmente não sabia que você sabia dançar.”

“É uma matéria básica da educação de onde eu cresci. Não tinha como não aprender. Embora, admito, nunca fui boa o bastante para me apresentar para um cliente pagante.”

Ainda assim, explicou ela, às vezes, ao celebrar a partida de uma mulher, o que importava era mais o número de dançarinas do que a qualidade. Ao ouvir isso, Jinshi voltou o olhar para as luzes distantes do distrito do prazer.

“Os rumores já começaram a circular para além desses muros. Histórias sobre como aquele excêntrico comprou o contrato de uma cortesã.”

“Imagino.”

“Além disso, ele pediu licença. Planeja sair por dez dias seguidos.”

“Ele realmente sabe como causar confusão.”

Maomao suspeitava que, no dia seguinte, um novo rumor também começaria a se espalhar. Não sabia quanto o velho maluco havia gasto naquele banquete, mas, a julgar pelo número de lanternas visíveis do alto do muro, superava de longe o que se gastaria com uma cortesã comum. A carta de Meimei dava a entender que haveria festa e comemoração suficientes para uma semana inteira.

E assim as línguas se soltariam: quem diria que não era uma das Três Princesas da Casa Verdete? Que existira ali outra cortesã daquele calibre?

“Continuo achando que ele deveria ter escolhido Meimei”, pensou Maomao. A mulher doente, devastada pela enfermidade, não devia ter muito tempo de vida. Certamente não guardava mais as memórias daqueles dias distantes; tudo o que sabia fazer era cantar canções infantis e alinhar pedras de Go.

Mas aquele homem a encontrara, depois de a velha tê-la escondido por tantos anos.

Eu queria que ele não tivesse encontrado, pensou Maomao. Assim, poderia ter escolhido sua irmã maravilhosa. Meimei transbordava talento e ainda era bela; teria sido uma excelente esposa.

Mas ela também tinha suas próprias excentricidades.

Fora Meimei quem primeiro permitira que o homem tão odiado pela madame entrasse em seu quarto. Talvez achasse que era a única forma de lidar com aquela figura estranha que vivia perseguindo Maomao. Depois que ele passou a encontrar Meimei, não fizera nada além de falar interminavelmente sobre Maomao e sobre a mulher que a dera à luz. Às vezes sentava-se diante de um tabuleiro de Go, mas nunca jogavam juntos. Em vez disso, ele reproduzia, de memória, uma partida antiga após a outra.

Pelo menos era isso que Meimei contara.

Maomao não podia saber ao certo. Talvez Meimei estivesse apenas sendo gentil com ela. Mas, no fim das contas, isso não importava. Maomao teria ficado satisfeita em ver Meimei partir com aquele homem. Tirando sua personalidade, ele ao menos tinha dinheiro de sobra; sua irmã não teria passado necessidade alguma. Maomao realmente não conseguia entender o que havia de errado com Meimei.

“Não consigo deixar de me perguntar quem foi que ele comprou”, disse Jinshi. Ele sabia da aposta, mas aparentemente não imaginara que as celebrações seriam tão grandiosas. Ficara surpreso ao descobrir que o homem era ainda mais excêntrico do que pensava.

“Pois é, quem será?”, respondeu Maomao.

“Você sabe?”

Em resposta, Maomao apenas fechou os olhos.

“Você sabe, não sabe?”

“Nenhuma mulher que ele escolhesse poderia ser mais deslumbrante do que você, Mestre Jinshi.”

“Não foi isso que eu perguntei.”

Ele não negava, pensou ela.

Suspeitava que Jinshi não fosse o único a se perguntar isso. Todo o palácio, provavelmente toda a capital, estaria fazendo a mesma pergunta. A cortesã por quem todo aquele alvoroço estava sendo feito devia estar vestida de modo esplêndido, mas jamais apareceria em público. Restariam apenas os boatos, e eles só cresceriam. As pessoas se perguntariam que mulher teria capturado assim o olhar de um homem como ele, quão bela ela deveria ser.

E a velha bruxa deve estar radiante, pensou Maomao. Falariam da Casa Verdete por um bom tempo. Não poucos oficiais bateriam à porta... Por pura curiosidade, claro.

O corpo inteiro de Maomao estava quente. Talvez fosse porque fazia muito tempo que não dançava. Os pés, em especial, formigavam; quando olhou para baixo, viu que a barra da saia estava manchada de vermelho.

“Merda”, murmurou, erguendo a saia.

“O-o que você está fazendo?!” exclamou Jinshi, a voz arranhando.

Maomao olhou para a própria perna e fez uma careta. O calor tinha virado dor. Suas experiências com medicamentos haviam embotado sua percepção dessas sensações. Estivera convencida de que o ferimento na perna tinha cicatrizado muito bem, mas a dança o abrira outra vez.

“Hã, acho que abriu de novo...”

“Você fala como se isso tivesse acontecido sozinho!”

“Não se preocupe, eu costuro e pronto.” Maomao remexeu entre as roupas íntimas descartadas e tirou um pouco de álcool desinfetante, além de agulha e linha.

“Por que você está tão preparada para exatamente essa situação?!”

“Nunca se sabe.” Maomao estava prestes a dar o primeiro ponto quando Jinshi tomou a agulha de sua mão. “O senhor não sabe costurar”, disse ela.

“Não faça isso aqui!” Mal ele terminou de falar, já havia erguido Maomao nos braços e descido com destreza pela parede, sem sequer uma escada.

Maomao ficou tão atônita que nem pensou em resistir. Ao chegarem ao chão, ela supôs que ele a colocaria no chão, mas, em vez disso, ele continuou a carregá-la, apenas ajustando um pouco a posição em seus braços.

“Por que está fazendo isso?” perguntou ela.

“Estava ficando difícil segurar você.”

“Então me ponha no chão.”

“E deixar você piorar o ferimento?” Jinshi franziu os lábios. Ele a mantinha nos braços, e Maomao achava extremamente desconfortável o quão perto o rosto dele estava do seu.

Como eu sempre acabo nessas situações?, pensou, mas disse:

“E se alguém nos vir, senhor?”

“Ninguém vai nos ver. Está escuro demais. Além disso...” Ele a ergueu um pouco e ajustou o aperto para que ela não escorregasse. “...esta é a segunda vez que a carrego assim.”

A segunda vez?, pensou ela. Ah!

Devia ter sido no dia em que ferira a perna. Ela estivera inconsciente; alguém a carregara para longe do local. Faria todo o sentido se tivesse sido Jinshi. O que significava que ele a havia erguido diante de toda uma cerimônia cheia de gente...

Havia algo mais importante, porém — algo que ela vinha esquecendo. Pretendia dizer aquilo havia muito tempo, e se arrependia profundamente de não o ter feito antes. Pressionou um lenço contra o sangue que escorria pela panturrilha.

“Senhor Jinshi”, começou. “Eu sei que este não é exatamente o momento ideal, mas, se me permite, há algo que venho querendo lhe dizer há bastante tempo.”

“Por que tanta formalidade de repente?” perguntou Jinshi, um tanto perplexo.

“Senhor, eu realmente preciso dizer.”

“Então diga logo!” respondeu Jinshi.

“Muito bem.” Maomao encarou Jinshi diretamente. “Senhor… por favor, devolva-me meu bezoar de boi.”

A cabeça de Jinshi se chocou contra a de Maomao com um estalo seco, e ela viu estrelas.

Uma cabeçada! Do nada! Passou-lhe pela mente que talvez ele a tivesse enganado o tempo todo.

“Senhor, não me diga… que o senhor não tem?”

“Por favor. Acha mesmo que eu mereço tão pouco respeito?” Quando Maomao o fitou, desconfiada, o mais leve sorriso cruzou o rosto de Jinshi.

A rápida mudança na expressão do eunuco, de irritação para divertimento, lembrou-a de como ele podia parecer imaturo. Ainda assim, achou que era mais fácil conversar com ele assim, pensou, balançando levemente em seus braços.

Ninguém sabia ao certo onde o boato começara, mas dizia-se que algum nobre dissoluto do grande país que ocupava o centro do continente estava comprando todo tipo de medicamento raro e incomum que conseguisse encontrar. Foi durante um chá da tarde que Maomao ouviu, pela primeira vez, que o escritório de Jinshi estava tão abarrotado de flores de melhoras que mal se conseguia entrar. Ela deu apenas uma mordida no bolinho de pêssego e comentou:

“Hum.”