Tente Implorar - Capítulo 31
Sombras de Inocência
Ela seguiu o menino sem saber para onde iam. Depois de andar um pouco, percebeu que ele também não sabia.
— Ei. — Grace, que olhava de canto de olho o menino andando pela calçada da praia com a bicicleta, tomou coragem e falou. — Você parecia um príncipe agora há pouco.
O menino, que bebia da garrafa de água com gás, engasgou. Tirou o lenço do bolso de trás da calça e parou. Inclinou a cabeça, olhou para Grace com o picolé na boca, franziu um pouco a testa e suspirou.
Entregou o lenço para ela e limpou os lábios molhados com o dorso da mão. Até o jeito era elegante.
A menina olhou para cima como se visse um anúncio de água com gás.
A menina inclinou a cabeça de novo e sorriu com os lábios vermelhos do picolé de morango.
— Você me esperou? — as bochechas de Leon ficaram vermelhas como os lábios dela. — Então você veio me procurar?
— Hein? Não. É que... não tinha nada pra fazer...
Ele desviou o olhar e franziu a testa.
Vendo a cara de decepção dela, Leon pensou que era melhor ser honesto.
Leon não entendeu por que a menina hesitou um segundo.
— Não. É só uma casa de veraneio. E você?
Ele já sabia que ela não era dali. Mas fingiu que não ouvira a conversa com o vendedor e perguntou.
— Venho de longe. Tipo férias em família...
Grace virou o corpo sem dizer onde ficava esse “longe” e sem explicar por que era “tipo” e não férias de verdade.
— Estou tão animada porque é a primeira vez que venho aqui.
Nunca tinha saído da cidadezinha de montanha. Ainda mais ficar num lugar chique por tanto tempo. O mar que via pela primeira vez na vida era incrível, e ela encontrou Leon enquanto caminhava pela praia no primeiro dia que ele chegou.
— Mas tudo bem você andar sozinha sem os pais?
Por que nunca tinha ninguém com a menina? Leon achava difícil entender, porque ele sempre tinha um adulto por perto.
Na verdade, Grace não tinha permissão para sair sozinha. No começo achou que era férias em família, porque os pais, que viviam fora de casa, voltaram depois de um tempo e chamaram ela para Abbington Beach. Mas era estranho deixar o irmão mais velho. Só quando chegaram e desfizeram as malas num alojamento isolado é que ela entendeu que não eram férias de verdade, e sim uma “missão”.
Grace não fazia ideia do que os adultos falavam. Era só uma coisa certa pra salvar o mundo, então ela só imaginava que eram heróis como nos livros — tinham que esconder a identidade. Ouviu os adultos dizerem que a missão era pegar informação de um soldado ruim como Winston. Ainda criança, o trabalho dela era “encobrir” os adultos pra parecerem viajantes comuns.
Todos os adultos estavam ocupados e não tinham tempo para cuidar dela. De manhã deixavam o dinheiro na cabeceira da cama e saíam. Com isso, passou a semana se divertindo à beça, mas hoje, quando encontrou Leon, perdeu o dinheiro e fez feio na frente dele.
— Ah, recebi mesada hoje de manhã. Mas devo ter perdido enquanto brincava na areia.
Grace murmurou uma desculpa que ele nem pediu. Olhando pro rosto de Leon, a laranjeira acima da cabeça dele chamou atenção.
— Leon, então, em troca do sorvete, quer que eu colha laranjas pra você?
Grace não entendeu por que os olhos de Leon tremeram. Olhou em volta procurando a mais madura e tentou subir na árvore, mas outra mão tocou seu ombro.
— Por quê? — ela piscou, confusa. — ...É feio?
Por que essa criança não sabia disso? Daisy piscou os olhos grandes, cheios de interrogação, como se não entendesse nem a palavra “feio”.
Entendeu agora? O rosto de Daisy ficou vermelho vivo.
— Ah não! Hoje eu tô de branco...!
— ...Por que você tá dizendo isso em voz alta?
Os adultos que passavam pelo menino e pela menina debaixo da laranjeira com rostos corados deram sorrisos significativos.
Envergonhado, Leon pegou a bicicleta e começou a andar de novo. Enquanto isso, Grace hesitava, sem saber se seguia ou se separava dele.
Ele parou depois de três passos. A menina que devia segui-lo ainda estava parada debaixo da árvore. Foi então que percebeu: aquela menina nunca disse que ia sair com ele hoje, mas desde o momento em que se encontraram, era óbvio que deviam.
“Espera. Eu não disse que era um encontro ainda, né?”
Nunca dissera nada assim... Não, não precisava. A socialização entre filhos de nobres era decidida pelos pais, não pelas partes. Quando, onde, com quem e o que fazer já estava marcado, e Leon tinha que seguir, gostasse ou não.
Pela primeira vez na vida, tinha chance de passar tempo com a menina que queria. O problema era...
“Como se diz ‘vamos sair juntos’?”
Leon hesitou sem falar nada. No momento em que a cabeça ficou branca achando que Daisy ia embora, soltou uma palavra terrível.
— Se quiser retribuir o sorvete, pode brincar comigo.
A mão dele apontou para o outro lado da rua, para grande parque de diversões.
Leon quis dar um tapa na própria cara. Além disso, comprou um sorvete que não custava quase nada e falou de retribuição. Que ameaça barata!
Aparentemente o encontro já estava arruinado antes de começar. A expressão de Daisy não era boa.
A concordância inesperada veio. Logo os dois deram um passo atrapalhado por motivos próprios.
“Ouvi dizer que filhos de nobres têm crianças separadas pra brincar, será que sou assim agora?”
Grace ficou um pouco ofendida. Mas depois de andar três vezes nos brinquedos, esqueceu completamente.
— Leon, dessa vez quero andar naquele.
Leon parou em frente à bilheteria do carrossel sem reclamar. Ele pediu para ela brincar com ele. No fim, era ele quem brincava com ela. Andando no carrossel, aceitou de bom grado andar num brinquedo com a criança. Além disso, ajudou Grace a subir no cavalo com a gentileza de um príncipe de verdade. Ela se sentiu uma princesa.
Enquanto Leon mexia em segredo na mão direita que segurara, subiu no cavalo ao lado. O carrossel começou a girar com música leve.
Grace, que normalmente olharia pra fora e acenaria, dessa vez não conseguia tirar os olhos do outro lado. Leon também olhava para ela o tempo todo. Sorriu tímido, depois perguntou.
O menino sorriu suave para a resposta séria de Grace.
— Mas você tem cavalo de verdade em casa? — ele acenou. — Então isso não vai ser divertido.
Por algum motivo, ele ficou confuso. Não conseguia entender por que começou a gaguejar e explicar por que o carrossel era mais divertido que montar num cavalo de verdade.
— Tem telhado aqui, então não preciso me preocupar com insolação...
Era absurdo até pra ele mesmo. Ainda assim, Daisy levou a sério o que ele disse. Na verdade, era Leon quem achava o carrossel chato. Mesmo assim, por que o coração batia como quando andava na montanha-russa?
Depois veio a casa mal-assombrada.
— Kyaak! Não solte! Não solte! Não pode me soltar!
Leon sorriu em segredo ao abraçar a menina que se agarrava nele. Que bom que estava escuro.
Quando saiu da casa mal-assombrada, o rosto de Daisy estava molhado de lágrimas.
— Desculpe. Então, como pedido de desculpas...
Antes que Leon terminasse, a mão de Daisy apontou para algum lugar. No fim dela estava um grande boneco de golfinho pendurado numa barraca de tiro ao alvo.
Os dois foram até a barraca. Cinco tiros de uma vez. Para ganhar o boneco, precisavam de cem pontos.
Leon pagou o homem que cuidava da barraca e verificou as pontuações dos alvos na parede oposta.
“O mais alto é 25 pontos, depois 15.”
Pensando nisso, Leon pegou a arma à frente. Era um rifle velho só para diversão. Depois de conferir que o cano não estava torto, encostou o olho na mira e verificou que a linha de visão estava reta.
— Você sabe atirar nisso? Quer que eu ensine primeiro?
Ignorando Daisy à frente, Leon puxou o gatilho em vez de responder.
Enquanto continuava, os xingamentos do homem ficavam mais longos. Em certo ponto, o resmungo que se ouvia do lado de Leon virou exclamação.
Leon nunca pensou que as habilidades de tiro que treinara até então brilhariam ali.
— Isso vai ser útil um dia quando encontrar uma menina que você gosta.
De repente lembrou do que o pai dissera enquanto ensinava a atirar. Não era sobre caçar mulheres, nem sobre matar rivais pra tomar posse. Talvez o pai quisesse dizer isso quando falou que seria útil?
No fim, com 125 pontos, ganhou até um boneco e um vale para a barraca de doces.
Leon pegou o boneco de golfinho do dono resmungando e colocou nos braços de Daisy.
— Que incrível! Nem meu irmão nem Jimmy conseguiram.
Quando a menina olhou para cima e admirou, ele se sentiu um deus.
Na barraca de doces, Daisy escolheu uma maçã do amor. Depois estendeu o palito com a maçã mergulhada em calda vermelha.
— Eu não gosto muito de doce...
Quando Daisy levou a maçã de volta à boca, Leon não conseguiu terminar o que dizia. Com a maçã do amor vermelho vivo na boca, a menina ergueu os olhos redondos e fitou-o. Encantado por aquela aparência, Leon abaixou a cabeça.
Mordeu o outro lado da maçã do amor. O gosto de maçã fresca e açúcar doce se entrelaçou na língua. Beijos deviam ter esse gosto?
Os olhares se cruzaram com uma maçã do tamanho de um punho entre eles. Era a primeira vez que Grace sabia que a luz no céu podia ser quente como fogos de artifício.
Enquanto isso, Leon estava envergonhado e queria tirar os lábios, mas não conseguia. Os lábios grudaram na calda pegajosa e não saíam.
...Talvez fosse uma desculpa muito conveniente.
Ao inclinar a cabeça, as pálpebras suavemente fechadas se ergueram de leve antes de fitar Grace de novo. Leon estendeu a mão para a bochecha dela, que esquecera de comer a maçã e só o encarava.
No instante em que a pele sedosa e macia foi tocada, o coração de Grace afundou. Sentiu que ia desmaiar só por ele tirar o cabelo da bochecha dela.
“Parece que estamos nos beijando.”
Os dois tiveram a mesma ideia e dividiram uma maçã com o rosto mais vermelho que a fruta.
Daí em diante, deram as mãos e andaram com a desculpa de se perderem porque havia muita gente. Enquanto andavam, saíram do parque lotado e entraram numa rua de lojas quieta, mas os dois não soltaram as mãos.
Os dois bisbilhotaram uma joalheria que normalmente não entrariam. Os olhos da menina não saíam da pulseira de contas de vidro com a luz fresca do mar.
— Acho que cairia bem em você.
Daisy sacudiu a mão quando Leon tirou a carteira.
— Por quê? Se não gostar, outra coisa...
— Minha mãe disse pra eu não me arrumar demais.
Leon ficou confuso. Onde no mundo uma mãe diz à filha para não se arrumar demais? Como se não fosse só desculpa, Daisy realmente parecia simples, sem colar ou laço no cabelo. Achou que era por pobreza, mas era porque não podia se arrumar?
— Não sei. Mas minha mãe é muito, muito bonita.
— Você também é muito bonita. Tem o mar nos olhos.
De novo o coração de Grace bateu forte.
— Tem um mar... nos meus olhos?
O menino bonito falava bonito. O mar que via pela primeira vez na vida era tão bonito. Mas a paisagem mais bonita estava nos olhos dela. Ficava com vontade de sorrir como uma boba.
Murmurou a menina, erguendo a gola para esconder o rosto vermelho. Leon pegou o chapéu de palha na parede e colocou na cabeça de Daisy, rindo.
— Então podemos fazer com isso.
Não queria se separar. Leon não soltou a mão de Daisy o dia inteiro, mesmo sabendo que era educado mandá-la para o alojamento antes de ficar tarde.
“Vou levar bronca quando voltar pra vila.”
...Mesmo pensando isso, os olhos não saíam dos lábios vermelhos de Daisy.
Depois de ver o pôr do sol na praia, jantaram num restaurante de frutos do mar. Como as crianças que entravam na puberdade na época da maioridade andavam sem guardião, olhares curiosos os seguiam. Mas os olhos dos dois não viam os olhares dos outros.
Bares de jazz abriam um a um, e melodias de jazz se misturavam ao som das ondas. Os dois andaram ao longo do mar escurecido e voltaram ao parque.
O parque, prestes a fechar, estava quieto. Um a um, os brinquedos paravam, desligando as luzes e músicas barulhentas. A hora de os dois se separarem também se aproximava.
Leon, que não queria se separar, levou Daisy pra roda-gigante, que ainda estava acesa.
Depois de pagar cinco vezes o preço do bilhete, o funcionário abriu educadamente a porta da roda-gigante como um criado abrindo a porta de uma carruagem.
A roda-gigante levando só os dois começou a girar devagar.
Ao ver o contraste forte de luz e escuridão aos pés, Grace se maravilhou. Ruas de lojas iluminadas e praias escuras separadas pela estrada costeira. Enquanto olhava o mar negro pontilhado por um raio de luar e as luzes dos navios de cruzeiro, por algum motivo a roda-gigante que chegou ao topo parou.
Mesmo sem isso, a música de jazz que já enfraquecia ficou inaudível por causa do vento do mar. Como a roda-gigante sem janelas balançava com o vento, ela ficou apavorada.
Tirando os olhos da vista noturna, Grace abraçou o braço de Leon ainda mais forte e olhou pra cima.
Leon fitava Grace. Pensando bem, ele estava assim há várias horas. Quando olhava o pôr do sol, só fitava o rosto dela. Até no restaurante, não tocava no prato delicioso de lagosta e só olhava pra Grace.
Por algum motivo, nervosa como quando olhava pra baixo, Grace sem querer mordeu o lábio inferior.
Mordera os lábios finos com força demais.
Leon, que vasculhava os bolsos, ficou confuso. O lenço manchado de morango já fora descartado durante o dia. Devia ter comprado um novo.
Daisy pôs a língua pra fora pra lamber o lábio inferior, mas Leon segurou a ponta do queixo dela. Ao abaixar a cabeça sob a aba inclinada do chapéu de palha, as pontas dos narizes se tocaram. No instante em que inclinou ligeiramente a cabeça, os lábios se abriram.
Foi algo que fez antes mesmo de pensar se era certo ou não. Podia usar a desculpa de que só fazia o que a babá fazia quando ele cortava a mão de criança. Claro, não havia desculpa pra fazer isso, mesmo sabendo que era nos lábios.
O dia inteiro ele se perguntara como seriam os lábios dela. Como Daisy que se perguntara como seria o cabelo dele. Era macio e quente.
Leon pressionou de leve a carne macia com os lábios e lambeu com cuidado a ferida que sangrava com a ponta da língua. O corpo de Daisy tremeu.
Ele fizera inúmeras coisas ruins que levaria bronca se fosse pego, mas o coração nunca batera como agora. Enquanto lambia a ferida, os lábios se separaram ligeiro e a menina sussurrou surpresa.
— Isso é um beijo. Meu primeiro beijo...
Leon, que esperava que Daisy sentisse o mesmo, ficou bem surpreso.
Palavras sinceras escaparam dos lábios num sorriso tímido. Leon gostava da honestidade pura dela.
Mal Daisy acenou, os lábios sorridentes se uniram de novo. Não era errado dizer que um beijo parece voar. O beijo compartilhado em segredo com o mundo aos pés numa roda-gigante suspensa alto no céu era empolgante.
Quando um vento forte soprou, Leon pressionou o rosto de Daisy com uma mão para impedir o chapéu de palha que ia voar com o vento. A roda-gigante balançou com o vento de novo. Com medo de cair, Daisy abraçou o braço de Leon ainda mais forte. Os lábios se apertaram mais e o corpo ficou quente; o cheiro refrescante de maçã do amor, a textura pegajosa de caramelo, o gosto suave de milk-shake e sangue que escorria dos lábios que tinham gosto de parque de diversões.
Sangue era doce. Leon pensou enquanto se perdia numa avalanche de sentidos que atordoavam a mente. Talvez começasse a gostar de doces a partir de hoje.
A residência de Daisy ficava numa montanha isolada. Ainda bem que saíra com uma bicicleta com lampião a óleo. Leon subiu o caminho escuro da montanha, iluminado só por luz fraca, segurando Daisy com uma mão e a bicicleta com a outra.
— É bem longe da minha vila até aqui.
Leon murmurou com um suspiro enquanto subia a ladeira íngreme. Ao lado do caminho da montanha, ouvia-se o barulho das ondas batendo nos penhascos costeiros bem perto.
“Eu devia ter falado com você mais cedo...”
No momento em que arrependimento e pena se misturavam, Leon percebeu que ainda não fizera uma pergunta realmente importante.
— Daisy, quando você volta pra casa?
— Isso... — Grace respondeu com sinceridade, desejando que a missão dos pais nunca acabasse. — Não sei.
“Não quero que você nem eu voltemos pra casa nunca...”
Um pensamento inacreditável ergueu a cabeça. Leon não era criança. Por mais devagar que o mundo mudasse, amor entre nobres e plebeus ainda era tabu. Sabia que não podia ser mais que um jogo perigoso de fogo durante as férias.
Ainda assim, aquele lugar estranho o transformava em outra pessoa. Desobedecera aos pais pela primeira vez na vida e fugira. Seu primeiro beijo fora doce. A transgressão sempre parecia tão doce.
— Quer se encontrar de novo amanhã?
A expressão pálida de Daisy se iluminou num instante.
Leon, que ia dizer que passaria pra buscá-la de manhã, ficou em dúvida. Se voltasse, provavelmente ficaria de castigo.
— Quer brincar na minha casa amanhã?
— Em vez disso, é um problema se os adultos descobrirem, então vamos nos esconder no meu quarto e brincar.
O que poderiam fazer no quarto? Leon perguntou pensativo.
— Você gosta de cinema? Tem um projetor no meu quarto, quer assistir filme juntos?
Daisy revirou os olhos e acenou. Gostava de filmes. Que alívio.
— Então, vamos nos encontrar às dez na entrada da praia da vila.
Daisy parou enquanto Leon planejava mentalmente como esconder Daisy e levá-la para casa.
No momento em que Daisy hesitava em dizer algo, faróis intensos brilharam à frente dos dois. Quando a janela do sedã preto parou na estrada estreita da montanha, o homem no banco do motorista gritou.
Era uma voz conhecida. O rosto que apareceu na janela também era familiar. Os olhos se arregalaram como se o outro o reconhecesse.
No instante em que os olhares se cruzaram com a beleza loira sentada no banco do passageiro, o rosto de Grace ficou branco. Ficou claro que a mãe também a reconhecera. O sorriso que dera ao homem no banco do motorista sumiu num instante. Quando os olhos tocaram o homem loiro cujos olhos pareciam os de Leon, sentiu como se o sangue sumisse do corpo. Ficou claro que o homem, o soldado de que os adultos falavam, era o soldado chamado Winston.
A casa antiga tinha paredes finas, então dava para ouvir as conversas dos adultos. Porcos monarquistas sujos, o cão louco da família real e o demônio que assassinou brutalmente os heróis do Exército Revolucionário... Os adultos chamavam o homem Winston assim.
O cérebro ficou branco. Brincar com um menino até tarde da noite não era ruim. Mas se o menino fosse filho do inimigo, e se tivesse feito um monte de coisas ruins que não devia com o inimigo, levaria uma punição severa. Faltava ar. Para Grace, os pais eram tão assustadores quanto respeitados. Talvez levasse um tapa como o irmão, pega pelo pai.
Enquanto Leon tentava esconder Daisy, que começara a tremer atrás das costas...
...Daisy gritou alto e sacudiu a mão dele.
Leon fitou em branco as costas da menina que corria para a escuridão.
“O que ela acabou de dizer pra mim?”
Queria acreditar que ouvira errado, mas pelos olhos cheios de desprezo que vira por último, estava claro o que ela dissera.
Parecia um soco na cabeça. No instante seguinte, o pai gritou com ele, que olhava pra escuridão sem conseguir desviar o olhar, confuso com os pensamentos da menina.
— Leon, volte pra vila agora. Encontrar-me aqui é segredo para sua mãe.
Foi então que Leon percebeu que havia uma mulher estranha com a mão cobrindo o rosto sentada ao lado do pai.
Depois de esperar o carro ir embora, ele procurou atrasado pela trilha da montanha, mas a menina não estava em lugar nenhum.
Era um grito que acordou Leon, que voltou com a mente atordoada repetindo só perguntas sem resposta.
— Você ficou louco por quebrar promessas importantes e ficar atirando o dia todo? Já me deu trabalho dentro da barriga e agora quer me matar também.
Não era assustador gritar alto de pijama e com rolos na cabeça.
— Leon! Não vem agora? Onde diabos aprendeu isso?
Leon não respondeu, entrou no quarto e bateu a porta. O corpo encostou na porta e escorregou. Agachou no chão e continuou fazendo as mesmas perguntas de antes.
Por mais que pensasse, não fizera nada pra merecer uma coisa tão terrível. Se não gostasse do beijo, devia ter recusado na hora. Divertir-se o dia inteiro só para tratá-lo como fera no fim.
...Ele gostava mesmo dela, mas a outra pessoa zombou dele.
Leon jogou o que tinha na mão do outro lado do quarto. O boneco de golfinho jogado sorriu sem saber dos sentimentos dele. Sentiu-se patético por pegar o boneco que a criança jogara fora e trazer até ali.
Não chorava desde que o cabelo crescera grosso, mas queria chorar. Era incrivelmente patético.
Naquela noite, Leon teve um sonho. Respiração quente. Toque macio. Doce... Cheiro de sangue. E...
Ele abriu os olhos. Embaixo estava tão molhado quanto o rosto.