Tente Implorar (NOVEL)
March 5

Tente Implorar - Capítulo 32

Sangue na Costa


— Seu pai ainda não dá sinal de vida. Os ricos são todos iguais.

Leon se levantou com a mãe resmungando atrás dele. O café da manhã na mesa ficou intocado.

— Leon, você está de castigo por uma semana. Se agora mesmo refletir e pedir desculpas, talvez eu reduza pra três dias.

Como era de esperar, veio o toque de recolher. Leon não pediu nada. Quebrar as regras dos pais era difícil da primeira vez, mas da segunda em diante ficava fácil.

Ele chegou à praia onde deviam se encontrar meia hora antes do horário marcado. Embora soubesse no fundo que Daisy não viria, não conseguia parar aquela espera idiota...

Ela não apareceu.

Quando o relógio marcou onze horas, Leon começou a andar pela praia na direção da casa de veraneio de Daisy.

“...O que eu fiz de errado?”

Tinha de perguntar. Porque só ela sabia a resposta. Se tivesse feito algo realmente ruim, pediria desculpas. Se não tivesse feito nada, cobraria uma desculpa dela.

Era ingenuidade achar que conseguiria. Mesmo vasculhando a vila toda e os acampamentos nas montanhas verdes e pouco desenvolvidas, dessa vez a menina não estava em lugar nenhum. Só havia ele.

Leon, que descia tropeçando a encosta pouco habitada, parou de repente. Um farol quebrado jazia no meio da mata fechada.

“Foi acidente de carro?”

Leon entrou na floresta e seguiu o rastro das rodas. Será que ia chover logo? Um vento forte soprava do céu nublado. Aquele cheiro forte que o vento salgado trazia era com certeza...

“...Sangue?”

Ao perceber, encontrou um carro preto abandonado em frente a um penhasco isolado. Era um sedã conhecido. Os pressentimentos ruins sempre eram exagerados. Leon olhou pela janela quebrada. Só havia sangue por todo o corpo, deitado numa posição estranha no banco de trás.

— ...Pai?

O morto não respondeu.


A cada sacudida do trem, o corpo magro pendurado na grade balançava sem força. Os adultos fumavam na varanda do último vagão. Grace, presa no meio, olhava o horizonte distante onde o sol nascia devagar. O mar já não se via mais. Ela não queria ver o mar nunca mais.

“Você tem o mar nos olhos.”

Ela odiava os próprios olhos.

“Porco sujo!”

Ele não era sujo... No momento em que gritou com medo de levar bronca, o rosto que viu não saía da cabeça. Ela se odiava por ter gritado uma coisa daquelas. Talvez por isso odiasse ainda mais a si mesma, covarde, por achar que tivera sorte de não levar bronca da mãe.

— Daisy!

...Não. Aquele não era o nome dela. Grace tampou os ouvidos ao ouvir as vozes na cabeça. Na noite anterior ouvira alguém chamando lá fora. Mesmo depois que a voz de Leon sumiu, ela ficou a noite toda de luz apagada, segurando a respiração e chorando debaixo do cobertor.

Ouvira barulhos estranhos a noite inteira através das paredes finas. Gritos abafados, vozes raivosas dos adultos e o som de algo sendo batido sem parar. Quando o barulho parou de repente, Grace foi obrigada a deixar Abbington Beach às pressas, arrumando a mala e fugindo.

— Droga... Eu não queria...

— Dave, não se culpe.

O pai consolou o homem ao lado dele. Ninguém consolou a menina que se sentia culpada sem ter feito nada.

“O pai do menino morreu?”

Grace estava confusa. O que devia fazer? O que devia sentir? Nenhuma atitude, nenhuma emoção parecia certa naquela situação.

Enquanto segurava a grade da varanda até as mãos doerem, a conversa dos adultos continuava.

— Aliás, o filho dele não disse que viu a Angie?

Quando tio Dave perguntou à mãe, Grace levou um susto. A mãe tinha contado aos outros adultos que ela brincara com o menino? Ia levar bronca agora?

— Eu devia ter dado um jeito naquele sujeito também...

Quando pensou que ia levar bronca, o coração nervoso afundou de vez.

“...Leon é bom. Não mata ele, tio.”

Mas as palavras não saíam da boca. A mãe olhou pra baixo, pra Grace que fitava os adultos com olhos assustados, depois balançou a cabeça pro tio Dave.

— Ele não viu meu rosto. Além disso, ainda é criança.

Passageiros de segunda classe não eram suspeitos de matar gente. Voltando pro vagão-leito alugado, onde o pai suspirava porque estava acima do orçamento, Grace deitou na cama de cima e ficou olhando o teto sem expressão. A mãe, que dividia o mesmo compartimento, de repente estendeu a mão pra cima.

— Se não está com fome, coma isso pelo menos.

Dizendo isso, na mão dela estava uma caixa de chocolates caros. Grace vira a mãe comprar na passagem pelo vagão restaurante pouco antes, mas não imaginava que fosse para ela. Quando chegara a Abbington Beach, estava animada com a viagem de trem e só esperava a hora de ir ao vagão restaurante, mas hoje nem tomara café.

Grace pegou a caixa de chocolates, ficou olhando e depois se sentou.

— M-mãe.

— O que foi?

— Quando eu crescer...

— Sim.

— Vou ter de matar aquele menino com minhas próprias mãos?

Grace ainda estava confusa. Não entendia nada da situação. Nem sabia que emoções devia sentir. Mas uma coisa era certa.

...Eu não quero matar ele.

— Grace...

A mãe chamou pelo nome em vez de responder e subiu na cama. Era a primeira vez que Grace via uma pessoa que sempre parecera todo-poderosa, como um deus, com cara de quem ia chorar.

— Vem cá.

Além disso, era a primeira vez que a abraçava. Era estranho. Deitada ao lado da mãe na mesma cama, Grace segurou a respiração. Sentiu o cheiro de perfume que sempre vinha dela, bem de leve.

“O cheiro da minha mãe...”

Logo, em vez de estranho, ficou aconchegante. A mãe, que era dura com Grace, até a abraçava e dava chocolate... Aniversários e Natal nunca tinham sido tão felizes quanto agora.

Não vai dormir? A mãe murmurou enquanto afagava as costas de Grace com carinho.

— Eu devia ter mandado ela pro orfanato...

O mundo dela desabou. Sabia que, quando uma pessoa leva um choque muito grande, nem chora. Às vezes, de noite, quando os pais brigavam, ela puxava o cobertor na cama do quarto ao lado e ouvia a mãe gritar.

— Por isso eu disse pra mandar pro orfanato!

Ainda não sabia que era sobre ela... Não, talvez tentasse negar. A pequena Grace sentia no fundo que nem o pai nem a mãe a amavam. Mas, a partir daquele dia, não conseguia mais negar que era alguém que podia ser abandonada a qualquer momento.

Mal voltou para casa e pegou um resfriado forte de verão.

— Vou matar ele... Não me joguem fora...

Os pais saíram logo para outra missão. O irmão foi a única pessoa que ficou ao lado de Grace, que falava coisas sem sentido enquanto ardia em febre alta.

— O que aconteceu lá? Hein? Grace, me conta.

O irmão perguntava desesperado, mas Grace ficava de boca fechada.

“Dizem que eu hesito em matar o inimigo e querem me jogar fora porque sou uma revolucionária ruim.”

Se dissesse uma coisa dessas, até o irmão podia abandoná-la.

A revista que Jimmy dera pra ela melhorar não ajudou em nada.


[ Funeral do Major Richard Winston realizado em meio ao luto nacional ]

Tragédia na família Winston. A execução de figuras chave dos rebeldes coincidiu com o enterro. O filho mais velho do Major Winston, que segue os passos do pai morto com honra, continua a luta pra eliminar os rebeldes.

Folheando o texto que fazia a cabeça girar, ela jogou a revista no chão. Quando a revista caiu aberta, Grace gritou. Na foto em preto e branco que ocupava uma página inteira, o menino olhava direto para ela.

“...Você me enganou. Matou meu pai. Eu gostava de você, como pôde fazer isso comigo?”

— Não. Não foi culpa minha. Não olha pra mim assim!

O pai daquele menino merecia morrer... Ele também devia ser ruim. Todos os porcos monarquistas sujos são iguais. Se não acreditasse que o menino era ruim, teria de acreditar que os pais eram ruins. Para Grace, os pais eram deuses. O inferno era o único lugar para almas abandonadas por Deus.

“Prometemos fazer a vida de todos igual e próspera... pelo bem da causa... pelo bem da causa... Essa utopia se alimenta do sangue do Exército Revolucionário e cresce e dá frutos... frutos...”

Os ensinamentos dos anciãos da vila ajudaram muito Grace a se enganar. Eles viviam como revolucionários dedicados, em nome da causa que pregavam. A mãe, que quisera abandoná-la, não podia deixar de se orgulhar dela. E, para esconder os erros passados de ter se apaixonado por um inimigo... Era um segredo que não contara a ninguém até receber a ordem de se infiltrar em Winston.

— Uma nova criada?

— Sim. Prazer em conhecê-lo, Capitão. Meu nome é Sally Bristol. Fui designada para o anexo agora.

O menino que reencontrou adulta era uma pessoa completamente diferente.

— Agora que temos mais uma pessoa, posso transformar a sala de tortura num mar de sangue à vontade.

...Um demônio sedento de sangue.

Ela não precisava mais se enganar. Era fácil odiar o menino que virara uma pessoa ruim, exatamente como as palavras que decorara, como um mantra.

O menino, como a menina, crescera do ódio.

“Todo mundo vai... morrer...”

No dia em que se apaixonou pela primeira vez e no dia em que perdeu o coração, perdeu o pai, que era o único do seu lado, de forma terrível. Era uma tragédia que nem um adulto conseguiria suportar, e agora, numa casa sem ninguém do seu lado, ninguém se importava com o choque que o menino sofrera.

— Como você é o filho mais velho, vai seguir os passos do seu pai...

— Tem de se vingar pelo seu pai...

O menino, como a menina, carregava uma culpa que não era dele. Talvez pudesse ter impedido a morte do pai. Naquela hora, devia ter parado o pai e voltado para casa com ele...

A mulher no banco do passageiro era uma rebelde. Depois de descobrir a identidade dela, Leon criou o hábito de observar mulheres loiras com atenção.

“Se eu pegar, vou matar você. Vou fazer você pagar o mesmo que fez com meu pai.”

No fim, passou a odiar todas as mulheres loiras. E esse ódio logo se espalhou para todas as mulheres.

...Todas as mulheres eram feras. Cobras astutas e porcas gananciosas.

— Você parecia um príncipe agora há pouco.

— Porco sujo!

Sussurrando palavras doces para seduzir os homens e, quando eles não serviam mais, mudando de repente e despejando palavras cruéis. A mãe não era menos abominável.

— Meu marido perdeu a vida sendo leal à família real. Mesmo assim, o prêmio é só uma promoção póstuma pra tenente-coronel... Como deve estar amargo no céu, como é triste o Leon, que perdeu o pai tão novo e virou o chefe da casa, huhuu...

Até a morte do pai servia só pra conseguir um título para a mãe. Ela fingia amar e respeitar o pai na frente dos outros. Depois de pedir favores para todo lado, finalmente não conseguiu o título e soluçava na frente dos nobres e oficiais militares reunidos no funeral. As lágrimas que derramara na morte do pai não eram de tristeza... eram lágrimas de luto por ela mesma, reduzida ao título de “Viúva Winston sem título”.

“...Meu pai morreu por causa disso?”

Enquanto cravava o furador, líquido vermelho jorrava e molhava sua mão. Estranhamente não sentia nojo. Leon respirou fundo. Parecia que o cheiro forte do próprio sangue enchia os pulmões e penetrava no cérebro. Estranhamente, quando sentia cheiro de sangue, a ansiedade que o atormentara o dia inteiro desaparecia.

Quanto mais isso acontecia, mais o último olhar cruel do pai, que não sumia nem de olhos fechados nem abertos, ficava mais apagado. Logo pássaros e ratos começaram a ser encontrados mortos todos os dias em condições miseráveis na residência Winston. A sra. Winston mandou o filho mais velho para a academia militar vários anos antes do previsto.

Foi sorte ele ter ido para a academia onde a crueldade era virtude. Apesar de ter feito um monte de coisas que o teriam expulsado de uma escola normal, Leon se formou em primeiro lugar. O “Vampiro de Camden”, um apelido reservado para assassinos em série, era uma honra para um oficial militar.

As pessoas diziam que ele nascera para ser soldado, mas Leon sabia...

Sabia que era um monstro. E não era só isso que as pessoas não sabiam...

O fato de que o Capitão Winston, que parecia não ter medo de nada, sofria de pesadelos.

“Porco sujo!”

O demônio que aparecia em cada um dos seus pesadelos brilhava com desprezo azul e cheirava a sangue.