Diários de Uma Apotecária (Vol. 3) - Prólogo
Passos ecoaram pelo corredor: clac, clac. Os próprios passos dele e o som da bola quicando eram quase tudo o que conseguia ouvir. Talvez o bocejo da mulher que cuidava dele. Sua ama habitual estava ausente, e havia uma nova acompanhante em seu lugar.
O dono daqueles passos se aproximava; era alguém muito velho.
Sua cuidadora se levantou, avançando de forma protetora. Falou com deferência ao velho, mas ele a ignorou e continuou seu avanço trôpego, estendendo a mão na direção do menino. Os cabelos brancos estavam desgrenhados, os olhos fundos, e ainda assim havia poucas rugas em sua mão, sinal de que ele era, na verdade, mais jovem do que aparentava à primeira vista.
Uma mulher surgiu no aposento, talvez atraída pelo som da voz da cuidadora. Era sua mãe. Ela se aproximou a passos rápidos e se colocou entre ele e o intruso, encarando o velho sem piscar.
O homem soltou um lamento agudo. Parecia ter medo da mãe do menino. Assustado com a forma como o corpo do homem se contorcia, o menino largou a bola e se agarrou à cuidadora. Mesmo assim, o velho tentou se aproximar; parecia querer comunicar alguma coisa. A mão estendida estava cerrada em punho, segurando algo com força. A mãe do menino empunhou um grande leque, tentando mantê-lo afastado. Ela o fuzilava com o olhar — não com a serenidade gentil que normalmente havia em seus olhos, mas com uma chama ardente. O homem temia aquela chama como um animal selvagem; ficou paralisado onde estava.
Logo, vários outros homens entraram pelo corredor. Tinham barbas ralas; o menino sabia que eram chamados de eunucos. Por fim, surgindo atrás deles, apareceu uma velha senhora, com uma calma absoluta. Ela usava um elaborado alfinete ornamental no cabelo, que tilintava como um sino; ao som dele, os atendentes se organizaram em uma linha impecável. A cuidadora do menino e sua mãe se ajoelharam. Ele achou que também deveria se ajoelhar. A mulher parecia ainda mais velha que o velho homem, mas havia uma luz intensa em seus olhos, um olhar afiado o bastante para perfurar. O menino sentiu um arrepio.
Achava que já tinha visto aquela mulher algumas vezes antes. Ela era alguém muito importante, disso ele se lembrava; as jovens damas de companhia diziam que ninguém ousava se opor a ela.
“Vamos, agora. De volta ao seu quarto.” Sua voz era suave, apaziguadora, mas o homem voltou a se assustar, encolhendo-se junto à parede. Ele se enroscou em si mesmo; o menino ouvia seus dentes baterem, percebia que o corpo inteiro tremia. Um objeto cintilante caiu da mão cerrada do homem, atraindo a atenção do menino apesar de si mesmo. Era uma pedra colorida, num tom entre o vermelhão e o açafrão.
Ele já tinha visto aquilo em algum lugar. O que era? A cor vibrante tocava algo profundo dentro dele, mas simplesmente não conseguia se lembrar.
A velha franziu a testa e virou as costas para o homem, ignorando por completo todos os demais no aposento. Então os eunucos avançaram, persuadindo-o com palavras suaves até conseguirem conduzi-lo para fora da residência.
O menino observou cada instante, ainda agarrado à sua cuidadora. Não fazia ideia do que aquilo tudo significava; a única coisa que sentia era medo.
Depois havia sua mãe, ajoelhada ao lado dele; ela lançava um olhar abrasador à mulher que se afastava. Quem seriam aquele velho e aquela senhora, perguntou-se o menino, para provocar uma expressão tão dura em sua mãe, normalmente tão serena?
Ele só aprenderia mais tarde. Disseram-lhe que o homem era seu pai, e a velha, sua avó.
O homem que ele sempre acreditara ser seu pai, descobriu então, era na verdade seu irmão mais velho.
Ainda não era a estação em que se tornava difícil dormir, e mesmo assim Jinshi despertou com as roupas de cama encharcadas de suor. Sentou-se na cama, sentindo-se mal, e estendeu a mão até a jarra sobre a mesa, levando-a depressa aos lábios. A água dentro dela havia sido misturada com um toque de suco de fruta e mel, profundamente refrescante para seu corpo desidratado.
A luz da lua entrava pela janela.
Diziam que algo ruim sempre acontecia depois de um pesadelo. Ou isso era só superstição?
Jinshi respirou fundo e devolveu a jarra à mesa. Ainda faltavam horas até o amanhecer. Ele deveria voltar a dormir; se não o fizesse, seu atendente Gaoshun ficaria aborrecido com ele.
Ainda assim, quando não se consegue dormir, não se consegue dormir. Não adiantava forçar. E, quando o sono não vinha, a solução era cansar o corpo até a exaustão.
Jinshi pegou uma espada de imitação que repousava em uma das prateleiras. Era uma lâmina de treino, sem fio, feita para ser especialmente curta e pesada. Executou um amplo golpe com uma só mão. Gostaria de poder fazer isso do lado de fora, mas seria uma dor de cabeça se os guardas percebessem o que ele estava fazendo. Eles ainda poderiam notá-lo ali, em seu quarto, mas ao menos, permanecendo dentro, talvez fingissem não ver.
Seu quarto, porém, não era particularmente adequado para a prática com espada. Ele teve uma ideia: decidiu executar a rotina apoiado em um só pé. Depois de completar toda a sequência, trocaria de pé e de mão e repetiria o exercício. Fez isso várias vezes, até começar a clarear lá fora.
Jinshi se estendeu no chão, de braços e pernas abertos, para esfriar o corpo aquecido pelo exercício. Talvez mandasse preparar um banho, pensou, mas então o rosto de uma dama do palácio, claramente contrariada, surgiu em sua mente. A expressão dela sempre denunciava o que pensava sobre ele tomar banho logo ao amanhecer e depois se cobrir de perfume. Mas ele não podia ir trabalhar fedendo a suor. Se iria desempenhar o papel do eunuco impecável, Jinshi, ao menos precisava cheirar decentemente.
Ele não podia simplesmente dizer isso a ela, era isso que tornava tudo tão irritante. Ainda assim, pensou, também não poderia permanecer em silêncio sobre o assunto para sempre. Aquela mulher era perspicaz; certamente já devia suspeitar de algo. Talvez já tivesse discernido a verdade e apenas fingisse não ter notado. Bem, isso tornaria a conversa muito mais fácil…
Jinshi se levantou, devolveu a espada de treino ao lugar e então caiu novamente sobre a cama. Não se deu ao trabalho de trocar de roupa. Ainda restavam alguns minutos antes que sua atendente, Suiren, viesse acordá-lo. Ao menos poderia arrancar um breve descanso antes disso.
Só precisava tomar cuidado para não ser vencido pela vontade de bocejar durante o trabalho, disse a si mesmo.