Tente Implorar (NOVEL)
March 6

Tente Implorar - Capítulo 38

Sombras de Confiança


Leon endireitou a cabeça dela, que pendia sem força para o lado, e enfiou a língua entre os lábios entreabertos. A mulher já não conseguia resistir. Havia diferença entre quem não resistia e quem não podia. Ele riu, apertando e esmagando um dos seios trêmulos com a mão.

Huht!

Só no instante em que a carne grudou nos dedos dele com um barulho molhado é que a mulher soltou a voz. Ele já tinha tirado a mão, mas ela começou a soluçar, sacudindo o corpo de vez em quando em espasmos.

Huuff...

— Devia saber o seu lugar.

“...Canalha miserável.”

Grace mexeu a mão e xingou Winston por dentro com todos os palavrões que conhecia. Assim que ele soltou a corda que a prendia, enfiou um pedaço de chocolate na boca dela, dizendo para não desmaiar. Ela se perguntava por que ele era gentil justo quando era aquele demônio impiedoso...

— As criadas vão trazer o jantar daqui a pouco. Limpe tudo antes disso.

Era para Grace limpar a cadeira e o chão sujos. Limpar os vestígios da humilhação, nua na frente dele. Leon Winston era um demônio que dominara a arte de matar sem encostar um dedo.

“Não vou morrer... porque você tem que morrer nas minhas mãos.”

O homem que ela queria matar estava sentado à mesa, fumando um charuto com calma. Na borda da visão, enquanto limpava a cadeira molhada de líquido, estavam as pontas dos sapatos marrons dele. Grace sentia o olhar dele descendo sobre ela. Com a cabeça baixa, não dava para saber que tipo de olhar era. E ela nem queria saber.

O interrogatório ainda não tinha acabado? O homem que costumava chegar às duas da tarde e sair antes das quatro ficara na sala de tortura até depois das cinco hoje. Além disso, hoje ele não virara fera no meio do interrogatório.

“Por que ele está assim?”

Aquela mudança inesperada a deixava inquieta.

Ha...

Agora só ela e aquele homem saberiam que algo nojento acontecera naquela cadeira. Quando tentou guardar a cadeira limpa, Grace fechou os olhos. Havia uma pequena poça d’água no chão preto.

Ack!

Ao se agachar para esfregar o piso, as pernas fraquejaram e ela caiu. No instante em que esticou a mão para se apoiar, os sapatos escorregadios pararam e vieram na direção dela. Ao som do cinto sendo aberto, Grace deitou de bruços e mordeu o lábio.

Ahk!

Um cavalheiro de terno elegante começou a possuir a mulher deitada no chão como uma cadela. Que cavalheiro que nada. Ele era um bruto... isso mesmo. Quanto mais aquele homem se continha, mais difícil ficava para Grace, não para ele. Como se estivesse mais excitado que nunca, a sensação de volume enchendo a barriga era enorme. Os dedos dele já tinham mexido lá dentro por um bom tempo, mas mesmo com as paredes internas amolecidas ainda era difícil aceitá-lo.

As criadas chegariam logo. Embora quisesse prestar atenção nos passos do lado de fora, não conseguia; o saxofone no gramofone continuava repetindo a melodia sem parar. Um antebraço grosso abraçou Grace, que vigiava a porta ansiosa enquanto o corpo balançava. As mangas da camisa farfalharam. Incapaz de suportar o peso, ele sussurrou no ouvido dela ao mesmo tempo em que esmagava o peito que balançava em círculos lá embaixo.

— Pra que preciso de pornografia tendo você?

Grace rangeu os dentes. Aceitando as investidas do canalha vestido de cavalheiro, repetia para si mesma: uma prostituta viva era melhor.


Só havia uma coisa melhor na sala de tortura do que no quarto das criadas... a água quente sempre saía.

— Seu desgraçado, huhk, vou matar você.

Grace soltou um grito e um xingamento no meio do barulho forte da água. Era hora de lavar a tristeza e a raiva que tinha aguentado. Queria ficar para sempre debaixo da água que caía e da névoa quente, mas não podia. Quando fechou a torneira, ouviu claramente um tilintar vindo de fora do banheiro. Sentiu também um cheiro fraco de comida.

Enquanto torcia o cabelo molhado, um pano grosso e macio envolveu suas costas. Grace piscou, surpresa com o gesto inesperado. Winston enrolou a toalha nela sem dizer nada e voltou para o lugar dele. O lugar era a parede na entrada do banheiro, já que não havia porta. Ele ficou encostado ali, como se impedisse qualquer um de se aproximar enquanto ela tomava banho. Mas, pelos olhos famintos, talvez estivesse vigiando de um jeito bem ruim em vez de proteger.

Faminto. Ela ficou pasma. Não era o mesmo homem que, dez minutos antes, a prendera no chão e soltara o desejo?

— Capitão, o aperitivo de hoje são ostras com suco de limão, e o prato principal vem com trufas fatiadas fininhas...

A voz de uma jovem criada veio de além da entrada do banheiro. Era uma voz conhecida. Havia tensão na voz da moça, talvez mais empolgação do que medo.

Grace saiu do chuveiro e começou a se secar com a toalha. Assim que os olhos molhados dele grudaram no corpo seco, ela teve vontade de tomar banho de novo. Enquanto isso, a criada admirava aquele brilho colorido, dizendo que o lado austero dele fazia o corpo dela esquentar.

Austero...?”

Ela ficou tão chocada que soltou uma risada de deboche.

— ...Espero que goste. E o vinho para acompanhar a refeição...

Como se quisesse espiar a pessoa presa na sala de tortura, a voz clara se aproximou. Como as criadas reagiriam ao descobrir que Sally Bristol, com quem dividiam fofocas sobre os Winstons, estava presa ali?

“Oi, na verdade sou Grace Riddle. Quartel-general, Grão-Ducado, qualquer lugar serve. Por favor saiam e espalhem que uma mulher de sobrenome Riddle está sendo mantida numa sala de tortura.”

A sensação de que Winston não tinha relatado a prisão dela aos superiores só crescia. Ela especulara sobre a reação do superior e os benefícios que ele ganharia no exército com isso, mas Winston desviara do assunto. Os soldados eram subordinados dele, então nunca espalhariam boatos fora do anexo. Mas as criadas faladeiras talvez espalhassem.

“Não tenho intenção de morrer trancada aqui.”

Grace deu um passo em direção à entrada. Winston fez um sinal com o queixo para a criada invisível recuar. Logo depois, recebeu o mesmo aviso. Grace, que não tinha mais coragem nem energia para provocá-lo hoje, secou o cabelo em silêncio.

— Capitão, o jantar está servido. Precisa de mais alguma coisa?

A resposta de Winston não foi ouvida. Talvez tivesse respondido com um aceno ou gesto, porque logo depois a porta bateu.

Só então ela conseguiu sair do banheiro. Winston sentou-se à mesa enquanto Grace, enrolada na toalha, foi até a cama. Tirou roupas da bolsa ao lado quando ouviu um clique atrás das costas.

— Mandei trazer um armário, por que não usa?

Bem, porque não queria ficar ali por muito tempo. Sem dizer nada, vestiu-se e sentou-se de frente para Winston. Ele tinha as mangas dobradas com capricho e colocara a gravata de novo. Grace deu um sorriso irônico ao olhar para a mesa de ferro coberta com uma toalha branca luxuosa.

Quanto tempo fazia que ele a deitara ali em cima e a devorara?

“Ele tem estômago bom também.”

Talvez, de sobremesa, a deitasse ali de novo e a devorasse. Ela já perdera o apetite. Enquanto olhava os pratos alinhados na mesa longa com olhos sombrios, o vaso colocado entre Winston e ela chamou atenção.

“Lilás...?”

Uma lilás clara em plena floração estava num pequeno vaso de cristal. Os soldados nunca traziam enfeites para as refeições, e os criados dos Winstons não punham lilases na mesa.

Enquanto se perguntava, Grace ergueu o olhar e fitou o homem sentado à frente. Os olhos azul-claros, refletindo uma curiosidade leve, a encaravam com insistência.

“Aquele homem que fez isso.”

Não parecia romântico nem amistoso. Parecia mais uma zombaria.

“Olha só. As lilases já estão florescendo. Ah, você não sabia?”

Achava que ela ia topar brincar com a provocação dele?

— Terno elegante, comida fina, vinho caro e até flores bonitas. Capitão, isso é um encontro?

Quando Grace perguntou sorrindo, os cantos dos olhos dele se curvaram e o homem do outro lado bufou.

— Você sonha alto.

— Ufa... — ela levou a mão ao peito, exagerando o alívio. — Que bom, porque eu realmente não gostei do meu encontro.

Winston torceu os lábios, espantado. Grace sorriu e abriu a tampa de prata que cobria o prato à sua frente.

— Espero que a princesa exigente goste da refeição.

Winston dissera com sarcasmo que ela era a última princesa da família real rebelde, mas Grace não respondeu e só ficou olhando o centro do prato.

Ostras caras.

Agora era Grace quem estava pasma. Winston dissera para ela pedir o que quisesse, mas ela nunca pedira uma refeição. Como ele dera as ordens? Não era a sopa para os hóspedes da sala de tortura, nem a refeição dos empregados, nem a dos sargentos do anexo; era a refeição da família Winston. Mesmo quando não comia com ela, sempre era assim.

— Coma tudo.

Ele ordenou, servindo vinho no copo de Grace. Grace olhou de lado para os pratos alinhados ao seu lado com olhos vazios. Queria viver, então não estava em posição de recusar comida. Além disso, quando se preocupava que pudessem dar comida estragada, não precisava recusar aquela hospitalidade além das expectativas.

O problema era...

— Não pense que vai conseguir alguma coisa com greve de fome.

A redução de comida de Grace nos últimos dias fora mal interpretada por Winston como preparação para uma greve de fome.

“Que bom que ele parece não saber o motivo real.”

De qualquer forma, ela estava emagrecendo por causa daquele animal que a atormentava tanto, então talvez fosse bom comer uma refeição decente. Grace tomou um gole do vinho refrescante e pegou uma ostra.

“Aliás, é sinistro ele ficar de olho na quantidade de comida que como.”

Os olhos famintos do homem permaneceram os mesmos durante toda a refeição. Não era fome de comida; ele passava mais tempo olhando para ela do que mastigando.

— Aliás, por que seu noivo não veio te buscar?

No meio do prato principal, ele de repente mencionou Jimmy. Para Grace era um assunto fora de hora, mas não para Leon. Ele estava em alerta caso o Pequeno Jimmy tentasse resgatá-la. Mesmo assim, não via nenhum sinal. Nenhum sinal de novas infiltrações, nenhum ataque, nenhuma vigilância, nada. Era vergonhoso.

“Será que desistiu?”

A mulher à frente parecia digna de pena.

— Não sei o que você viu num homem tão irresponsável, que nem cumpriu a promessa de casamento. Srta. Riddle, você parece patética.

Grace, que acreditava que Jimmy não a resgataria não porque não queria, mas porque não podia, não se abalou. O primeiro passo do resgate era tirá-la do anexo. Ela sabia muito bem que atacar Winston não era fácil na prática e que faria mais mal do que bem, então não ficou nem um pouco chateada.

— Ele era um cafetão exemplar, dedicando a própria mulher ao exército. Srta. Riddle, ficar noiva de um cafetão está transformando você numa prostituta.

“Coma logo ou vá embora.”

Pensando assim, Grace mexeu o garfo, fingindo não ouvir Winston continuar a falar mal de Jimmy.

— Então, me conte como é a escola de prostitutas. — a mulher que ignorava as palavras dele lançou um olhar afiado. — Ah, eu já sei que você não pôde ir. Quero dizer, suas amigas devem ter ido.

— Por que fica falando essas bobagens?

Bobagens... Sim, podia ser bobagem. Leon recostou-se na cadeira com calma e sorriu.

— Sim, a escola deve ser um boato exagerado. Mas é verdade que eles usam armadilhas de mel para seduzir oficiais e roubar informações.

Quando contou à mulher, que negava ser bobagem, sobre a amante recém capturada do comandante do Oeste, recebeu uma resposta espantosa.

— Deve ter confundido com amante só porque comeram algumas refeições. Os homens se adiantam mais do que você pensa.

Leon ficou sem palavras por um instante. Aquelas palavras soavam sinceras, não como defesa de aliados.

— Você é Grace Riddle? — Grace inclinou a cabeça diante da pergunta repentina. — É da família Riddle? Como não sabe nada sobre a liderança? Nem sabe o que eu sei.

— Não é normal pensar que talvez eu não saiba, e que o erro seja seu?

— ...

— Não uso armadilhas de mel. Acha que não sei que os porcos monarquistas sujos ficam no cio, atacam uma camarada sem permissão e depois acusam assim?

“Não é a prova que está bem na sua frente?”

— Como você.

Winston sorriu alegremente e tirou uma cigarreira do paletó pendurado na cadeira.

— Não. É fato comprovado que os rebeldes Blanchard plantam amantes entre oficiais em posições chave do exército. — a ponta do charuto aceso apontou para Grace. — Como você.

— Não sou sua amante.

Winston riu alto. Havia muito deboche.

— Sim, imagino. — ele tragou o charuto e soltou fumaça branca. — Você disse que recebeu ordem do noivo para me seduzir.

Maldito Jimmy. Malditos executivos. Graças a isso, a verdade de que o Exército Revolucionário Blanchard não usava armadilhas de mel foi refutada.

— Isso foi inédito. Por isso não acreditei no que ouvi.

Quando eles tinham caído tanto? Grace torcia para que os executivos, aprendendo com esse fracasso, nunca mais dessem uma ordem assim a ninguém.

— Acho que você é importante assim. Considero uma honra.

A mulher sarcástica continuou a refeição com calma. Leon encarou a mulher com olhos sérios, esquecendo do próprio prato que esfriava. Lavagem cerebral? Podia ser. Mas também parecia que ela realmente não sabia. Fazia sentido que a família do líder não soubesse disso? A mãe dela era famosa por ser armadilha de mel. Será que escondera? Por quê?

Enquanto isso, o ambiente ficou quieto. Por causa disso, Grace ergueu um pouco o olhar ao cortar o peixe e viu Winston apoiando o queixo, pensativo. No momento em que baixou o olhar de novo, sentindo-se incomodada com aqueles olhos fixos...

— ...Isso é absurdo.

Sem entender o que estava acontecendo, Grace devolveu o olhar a Winston.

— Quer acreditar nisso? Que vocês são limpos?

— Não quero acreditar, mas nós somos mesmo limpos. Todos estamos dispostos a sacrificar. Não é algo que os porcos monarquistas sujos, unidos por ganância egoísta, vão entender.

— Sim, ganância egoísta. Não está errado.

Aquela mulher talvez quisesse insultá-lo, mas o que ele já admitia não era insulto nenhum.

— A família real é corrupta, mas pelo menos sei que sou corrupto. Vocês, ratos rebeldes, que são corruptos mas acreditam na integridade, são mais sujos.

Pelo menos ele sabia que era peão do senhor sujo, enquanto aquela pessoa se achava apóstola da justiça. Como esperado, a mulher apertou a faca com força e o fuzilou com olhos que pareciam querer esfaqueá-lo a qualquer momento.

— Estou dizendo isso porque me importo muito com você. Meu primeiro amor teve o cérebro lavado e criado por um bando de fanáticos loucos. Isso parte o coração.

Primeiro amor? Ele ousava falar de primeiro amor quando tentava matá-la devagar e dolorosamente? Grace se perguntava por que estavam comendo juntos — talvez aquilo também fosse um interrogatório. Não, era tortura. Os talheres que segurava foram colocados ordenadamente numa ponta do prato. Expressando que não comeria mais.

Então se levantou.

— É você quem se levanta primeiro durante a refeição sem pedir permissão?

Muito educado pregar sermão na hora da comida. Grace respondeu por dentro e virou as costas. Queria sair dali, mas não podia. Enquanto ia para a cama, pensando em se cobrir com o cobertor como uma avestruz que enterra só a cabeça na areia para se esconder do inimigo, Winston ergueu a voz mais feroz do que momentos antes.

— Eu mandei comer tudo.

— Tentei, mas não tenho apetite, capitão.

Ela sofrera a tarde toda. Grace estava cansada demais para sofrer de novo. Diferente de quando discutiam sobre armadilhas de mel, ela baixou a guarda com olhos que pareciam genuinamente irritados. Mas ainda teimosa, achou que ele talvez a arrastasse e amarrasse na cadeira, porém Winston reagiu de forma inesperada.

— Sally.

Grace parou.

“Por que ele está me chamando por esse nome?”

Qual era a intenção? Olhou para trás, impaciente. Ao contrário do que esperava — que ele zombasse —, Winston tinha um rosto sério. Para surpresa dela, era quase o rosto de quem pede, até o tom de voz.

— Se não tem apetite, pelo menos coma a sobremesa.

Ela ia perguntar que sobremesa era e tentar comer...

“...É o bolo da Madame Benoa.”

No instante em que Winston abriu a tampa do prato, a cabeça dela disparou. Ela adivinhou por que ele a chamara de Sally. Para ele, a pessoa que gostava do bolo da Madame Benoa devia ser Sally, não Daisy nem Grace. Talvez por isso tivesse preparado de propósito? Era uma suposição realmente louca. Ela era espiã e filha do inimigo. Por que ele faria algo assim para uma mulher que só queria matar de forma dolorosa?

Na noite em que fizera o trato sujo com ele, pensara brevemente que o sujeito talvez gostasse dela. Mas, pelo que passara, aquilo era ilusão completa. Provavelmente houvera uma festa na mansão, e as criadas serviram o bolo que entrara na cozinha como sobremesa sem pensar muito.

“Então talvez ele não tenha me mandado comer para descobrir o que era.”

Leon empurrou a porção de bolo para o prato da mulher que estava completamente iludida.