Quem é Sica?

Dizem que sou eu, mas eu tenho minhas dúvidas.

Escrito em 02/2011 para o blog de um amigo fotógrafo, Rogério Vasconcelos.


Quando o Rogério me convidou para escrever sobre a minha vida, dividir com ele e com os leitores deste blog um pouco da minha história, confesso que senti peixes no estômago e pude ver borboletas no aquário. Foi uma boa estranha sensação.

Não é surpresa que a vida do outro sempre nos parece mais interessante que a nossa, ao menos é isso que pensamos quase a vida toda, até que pessoas interessantes começam a fazer parte da nossa vida, e então mudamos nossa percepção, pensamentos, o caminho a trilhar. Aprendi que para ser uma pessoa melhor, você precisa se rodear de pessoas melhores que você. Do contrário você será sempre um miserável.

Da infância tenho as melhores e piores lembranças. São vários tons e sabores. Eu não sinto vergonha de nada do que passei, dos medos, acertos e erros. Tudo que vivi foi necessário para ser quem sou, e se eu soubesse antes o que sei agora, erraria e acertaria tudo exatamente igual, faz parte do meu eu. Se eu mudasse alguma coisa, por mínima que seja, nada teria o mesmo sentido.

Desde muito cedo aprendi que ser diferente tem um preço, e às vezes o preço que se paga é alto demais, mas pra ser sincera, vale a pena. Vale muito a pena não ser igual a todo mundo. E afinal ninguém é igual a ninguém, e no fim das contas somos todos iguais, tão desiguais, e toda diferença estampada nos olhares só me fez aprender e ver além da máscara. Além do que se pode ver. Eu acho que só consegue ver além, quem vê diferente, quem está além.

Aos sete anos fui morar definitivamente com minha família adotiva, quando minha mãe biológica decidiu por conta própria que a vida dela deveria ter um fim. Meu pai sem condições de cuidar de três crianças, ficou sem escolha. Então cada filho ficou com uma família. Vizinhos, pessoas estranhas, sem laço sanguíneo algum, mas com um amor incondicional. E assim a vida começou a me ensinar que o amor não está no sangue, que não depende de nada além de você, amor é decisão. É atitude.

Deus me presenteou com pais maravilhosos, que não mediram esforços pra me receber, apesar de toda dificuldade e preconceito que enfrentaram na época. O preconceito começava na cor e terminava na deficiência. Eles mais morenos que eu. Já tinham filhos lindos e fisicamente perfeitos, e eu necessitava de uma atenção especial, e nem vou entrar nos detalhes de tratamento médico, que na época não era tão avançado como hoje e financeiramente pouco acessível para as condições deles. Mas nada foi motivo pra eles desistirem, e ao longo da minha vida isso me ensinou muito, principalmente acerca do amor. Eles decidiram me amar acima de tudo, isso foi suficiente para não desistirem.

Aos oito anos comecei um tratamento para minha deficiência, diagnosticada como escoliose grave, passei praticamente minha infância sendo privada de algumas coisas. Tive que usar um colete para a coluna bastante tempo, futuramente eu iria descobrir que teria sido em vão, mas hoje procuro não pensar assim, e sim que tudo foi para meu crescimento pessoal, um preparo para o meu futuro, para me tornar uma pessoa forte e além deste século, sempre pensei que nada acontece por acaso. Aprendi que a dEficiência está nos olhos de quem vê, uns veem só a deficiência mesmo. Outros muito além.

Logo um anjo apareceu na minha vida e consegui uma consulta no hospital AACD, em São Paulo, e pela primeira vez ouvi o que dali em diante faria parte da minha rotina: "Infelizmente o seu caso é muito acentuado, se não tivesse perdido tanto tempo usando colete, talvez uma operação fosse possível, mas não teria sido garantia de uma melhora significativa, e agora seria muito arriscado uma lesão na medula, não podemos arriscar. Você precisa aprender a conviver com isso". Depois disso consegui várias consultas em hospitais especializados e conceituados no país, mas a resposta nunca foi muito diferente.

Entendi o recado, e aprendi.

Aprendi que basta um olhar para te levar do céu ao inferno em milésimos de segundos, e que as crianças olham diferente por simples curiosidade, os adultos por pena. Eles de mim e eu deles por serem tão pequenos.

A adolescência chegou e com ela todos os destemperos e dissabores da aceitação. Foi sem dúvida a fase mais difícil da minha vida. Hormônios, (in)diferença, família, sexualidade, tudo isso somado é uma verdadeira bomba relógio, mas como eu disse, nada acontece por acaso e foi a fase que eu mais tive anjos na minha vida, amigos experientes, pessoas evoluídas que me ajudaram (e ainda ajudam) a melhorar o meu caminho a cada dia.

Lembro-me em uma noite de natal, na TV passava um filme, Pequeno Milagre, me chamou atenção pelo protagonista, Simon Birch, um pequeno garotinho que luta contra o preconceito e prova para todos que pra fazer a diferença não é preciso ser perfeito e nem grande. Esse filme me inspirou a viver e não apenas sobreviver, respirar cada segundo como um milagre. Daí veio meu primeiro apelido nas redes, pequeno milagre, que contrasta com 'grande' Simoninha, como sou chamada¹ pelos amigos.

Passado o vendaval dessa fase, pude enxergar melhor as coisas ao meu redor, não deixei de acreditar em milagres, mas tenho os pés na realidade e isso foi fundamental pra me encontrar, me aceitar, me perder e me encontrar em mim mesma sem dramas, olhar no espelho e ver a história traçada em cada curva do meu corpo me faz ver além do horizonte.

Uma pessoa é uma pessoa, não importa seu tamanho. (Horton e o Mundo dos Quem!)

Vou continuar vendo além, só até sempre.

Rô, obrigada por esta oportunidade.

Namastê!


¹ Hoje, quase uma década depois, sou apenas a Sica.

não me segue lá não que tô perdida