April 23

I.

tw: menção a morte.

Que ironia, sob solo e teto sagrado, o toque do demônio tão deliberadamente
percorrer e acariciar rostos inocentes.

A Casa de Acolhimento, situada atrás do terreno da capela, fora o lar de Minji desde
seu primeiro ano de vida. Administrado por Irmãs Católicas, a garotinha cresceu
entre rezas e bençãos, ensinamentos bíblicos e devocionais, e entre outras
meninas na mesma situação de vulnerabilidade que a sua.

Aos seis anos, Minji contemplava com admiração os hábitos das Irmãs,
perguntando-se quando poderia usar aquelas vestes também e ansiando pelo dia
em que seria como elas. Gostava mais dos devocionais do que das matérias
comuns, e no jantar, era a primeira a levantar a mão quando perguntavam quem
iria realizar as preces. No tempo em que tinham livre para brincar, Minji preferia ajudar as Irmãs com as tarefas. Essas, por vez, mesmo que a contragosto deixavam que a pequena ajudasse carregando um lençol ou colocando os talheres na mesa.

O fato é que, mesmo com todas as orações feitas ajoelhada ao lado da cama,
nenhum deus estava ao lado de Minji naquela fatídica madrugada de 10 de agosto
de 2008.

Há semanas a Casa estava envolta por um ar denso de preocupação e antecipado
luto. A Irmã Kim Minyoung, diretora da Casa, estava doente. Afligida pela avançada
idade e pela doença repentina, deitava-se em sua cama como no leito de morte.
As demais Irmãs rezavam junto ao padre todas as noites pela sua melhora, mas
mantinham uma regra estrita de que nenhuma das meninas deveria entrar no
quarto da Irmã Kim, sozinhas ou acompanhadas. E por garantia de que tal pedido seria respeitado, trancavam a porta do aposento.

Quando o relógio moveu o ponteiro para o primeiro segundo após a meia-noite,
Minji acordou de um pesadelo com a boca seca e o rosto suado. Não conseguia
lembrar o que seu subconsciente havia tramado, e talvez fosse melhor assim. Mas
o sentimento de medo ainda enebriava seu coração, e ela ajoelhou-se ao lado da
cama para rezar mais uma vez. Ao final da prece, percebeu que o copo de água
que deixava na cômoda estava vazio, e mesmo que fosse contra as regras da
Casa, saiu do dormitório para ir até a cozinha enchê-lo outra vez.

Algumas luzes estavam acesas pela residência, e os feixes de luz guiaram a
pequena garotinha sem dificuldades até a cozinha. Lá, encheu o copo e entornou
com pressa a bebida, soltando um sonoro “ah” ao finalizar, satisfeita por acabar
com a sede que sentia. Largou o copo em cima da pia e estava dando o primeiro
passo para fora do cômodo quando a figura do padre cruzou a sala de estar com
pressa, deixando a porta aberta atrás de si. As Irmãs apareceram segundos
depois, pálidas, unindo-se em orações urgentes.

Sem ter para onde ir, e assustada com a cena recém presenciada, Minji se
encolheu contra a parede, esperando que ninguém a encontrasse ali. Estava
curiosa, mas o medo da repreensão era maior.

– Minji? – a voz que lhe chamou vinha em um sussurro. O som fez com que a
garotinha se sobressaltasse, abafando um grito de surpresa com as
mãos. Minji subiu o olhar para o rosto da Irmã que lhe chamava, franzindo o cenho
ao não reconhecer o rosto jovem. – Não se preocupe, não irei lhe repreender por
estar fora da sua cama a essa hora – sorriu. – Na verdade, queria pedir um favor
para você?

– Para mim? – repetiu, apontando para o próprio peito. Viu a Irmã acenar.

– Eu preciso me juntar às orações – apontou com um aceno de cabeça para a sala. – Mas a Irmã Kim está ardendo em febre, você poderia
fazer as compressas nela para mim? Sei que você gosta de ajudar – ergueu
levemente os braços, e pela primeira vez Minji notou que ela carregava um balde
com água e uma toalha branca.

A voz daquela mulher era tão suave e dócil, derretendo como o leito do mais
tranquilo rio, que a criança por nenhum instante pensou em negar o pedido.
Mesmo que fosse contra as regras entrar no quarto onde descansava a santa
senhora, e mesmo que ela não conhecesse aquela jovem.

Em silêncio e protegida pelo corpo mais alto, Minji pé por pé saiu da cozinha até
que estivesse longe das mulheres, seguindo agora sozinha pelo corredor em
direção ao quarto da diretora. O balde balançava em sua mão, pelo peso da água,
e ela apertava com nervosismo a toalha.

Empurrou a porta entreaberta e adentrou o cômodo com hesitação, o ambiente
estava iluminado por três velas tímidas, que dançavam pelas paredes e pelo
corpo trêmulo da enferma. Por um instante pensou em deixar balde e toalha ali
mesmo, amedrontada pela imagem assim como pelas histórias sobre o inferno,
para retornar ao seu dormitório.

– Jiji, é você? – ouviu a tão conhecida e acolhedora voz da Irmã, sentindo uma
súbita vontade de chorar ao reconhecer o apelido que havia ganhado dois anos
antes. A diretora era uma mulher adorável, alegre e iluminada, que tratava suas
crianças como filhas. Minji e as outras meninas podiam não expressar, mas
sentiam uma saudade sufocante de vê-la caminhando pelos corredores da Casa.
– Se aproxime, meu bem.

E a garotinha obedeceu, deixando o balde ao lado da cama para poder mergulhar
a toalha. Torceu o tecido com o máximo de força que seus pequenos braços
tinham, tirando o excesso de água, e levou o objeto até a testa suada da mais
velha. A Irmã não falou mais nada, apenas fechou os olhos e assim se manteve
durante os minutos em que Minji ficou ali, repetindo o processo. O silêncio dentro
do quarto era tão profundo que parecia gritar nos ouvidos, e quando a Irmã
pareceu ter entrado em sono profundo, ela arregalou os olhos na direção de Jiji,
sussurrando com urgência para que ela fosse embora.

Talvez os segundos em que a criança demorou para processar o susto e a
informação tivessem sido cruciais para evitar a mudança drástica em seu destino,
ou talvez nada pudesse ter impedido o infortúnio. Uma das mãos gélidas e de
dedos longos e finos da Irmã Kim agarrou o pulso de Minji, enquanto a outra mão
cobriu seus olhos com força.

A menininha tentou escapar do aperto, mas também seu rosto parecia grudado na
palma alheia. A confusão se instaurou quando a Irmã Kim voltou a se deitar ereta,
gritando em dor. Minji caiu no chão, tateando ao redor, pois as velas haviam se
apagado e o quarto havia caído no mais completo breu. Ouviu quando as outras
Irmãs chegaram, pois suas vozes se sobressaíam umas as outras, altas e
confusas. Sentiu os braços que lhe envolveram e mesmo na escuridão, Minji pôde
ver o rosto daquela jovem outra vez, que lhe sorria abertamente na soleira da
porta.

– O que você estava fazendo ali? Céus, nós avisamos para não entrar no quarto de
forma alguma. O que aconteceu? O que você estava fazendo lá?

Era a Irmã Jung que perguntava, segurando seus ombros com força. A
preocupação estava estampada como brasa em seu tom, mas Minji não
conseguia explicar nada.

– Irmã, você poderia acender a luz? Eu estou com medo... – choramingou, ainda
segurando as lágrimas. Tudo aquilo era demais para apenas uma criança de seis
anos vivenciar.

Houve um segundo duradouro de silêncio.

– Minji, as luzes estão acesas, meu amor.