Orientação Vocacional na Sociedade Líquida: YOLO, António Damásio e o Cansaço como "Virtude"
INTRODUÇÃO:
A expressão "YOLO" (You Only Live Once), popularizada na última década, resgata o milenar conceito latino de carpe diem. No entanto, longe de ser apenas um lema de redes sociais, o movimento reflete uma mudança profunda na subjetividade contemporânea: a recusa de uma vida pautada exclusivamente pela produtividade em favor de uma busca radical pela satisfação imediata, como um "carpe diem moderno" que ganhou notoriedade (se é que não foi "causado") através de uma, hoje clássica, canção da banda The Strokes, chamada justamente "You Only Live Once" (de 2005).
Muitos autores que se aventuram pelas águas da "sociologia" olham para movimentos massivos e enxergam neles não apenas a soma de decisões individuais, mas tendências com uma causa (ou conjunto de causas) comum. Então, para esse pequeno ensaio, vou usar 3 referências: Zygmunt Bauman, conhecido pela obra "Modernidade Líquida", Byung-Chul Han, autor de "Sociedade do Cansaço" e o dr. Jonathan Tam (youtuber).
🎶"SOME PEOPLE THINK THEY'RE ALWAYS RIGHT, OTHERS ARE QUIET AND UPTIGHT"
Ao analisarmos essa tendência em diálogo com o pensamento de Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han, percebemos que o YOLO é tanto um sintoma da "liquidez" das relações quanto um grito de socorro contra a "sociedade do desempenho". Em sua teoria da Modernidade Líquida, Bauman argumenta que as estruturas sociais (empregos, casamentos, identidades) deixaram de ser sólidas. Neste cenário, o compromisso a longo prazo é visto como uma armadilha. A satisfação das escolhas no movimento YOLO baseia-se na premissa de que nada é permanente. Se o futuro é incerto e as instituições não garantem mais segurança, o indivíduo sente-se compelido a consumir experiências aqui e agora. A escolha profissional deixa de ser uma "carreira para a vida" e passa a ser um item de consumo emocional; se não traz felicidade imediata, é descartada: uma característica bastante marcante da "geração z".
🎶"OTHERS, THEY SEEM SO VERY NICE, INSIDE THEY MIGHT FEEL SAD AND WRONG"
Por outro lado, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han oferece uma visão mais sombria sobre o que impele esse movimento. Em A Sociedade do Cansaço, Han descreve que passamos da "sociedade disciplinar" de Foucault para a sociedade do desempenho, onde o indivíduo explora a si mesmo na busca por uma auto-otimização infinita. O movimento YOLO surge como uma tentativa de ruptura com esse ciclo.
🎶"TWENTY-NINE DIFFERENT ATTRIBUTES... ONLY SEVEN THAT YOU LIKE"
Quando o sujeito percebe que o "multitasking" e a positividade tóxica levam ao burnout, ele tenta resgatar a sua humanidade através do hedonismo ou do ócio. Contudo, Han alerta que, muitas vezes, essa própria busca pela "vida plena" acaba se tornando uma nova cobrança: a pressão para que cada momento da vida seja instagrámavel e extraordinário. Assim, o YOLO corre o risco de se tornar apenas mais uma forma de desempenho. A satisfação absoluta com as escolhas, prometida pelo YOLO, esbarra na angústia da liberdade. Ao rejeitar as normas tradicionais do mercado de trabalho e da estabilidade, o indivíduo assume o peso total de sua própria felicidade. Se você vive apenas uma vez e é livre para fazer tudo, o erro torna-se imperdoável.
🎶"TWENTY WAYS TO SEE THE WORLD, AND TWENTY WAYS TO START A FIGHT"
Desempenho, produtividade, meritocracia, eficiência, racionalização da produção e das relações tem, cada vez mais me parecido (independente do espectro político) um "tiro no pé" como meta mas até então eu não tinha muita noção do motivo... até me deparar com o vídeo "Why Korea Has The Hightest Suicide Rate in the World", do dr. Jonathan Tam no YouTube...
🎶"I CAN'T SEE THE SUNSHINE"
Tam apresenta um intrigante estudo de caso sobre como a modernização hiperacelerada da Coréia do Sul (hoje em evidência, inclusive na cultura pop com quadrinhos manhwa, doramas/kdramas, cinema, música kpop) como sendo mais agressiva que a do Japão, anterior campeão no ranking mundial de suicídios, como diretamente relacionada ao boom de suicídios graças justamente a uma fortíssima pressão por desempenho excelente pareada a uma desestruturação das redes de apoio humanas que dão sentido à batalha nossa de cada dia: sem a segurança do amor familiar (a Coréia do Sul também tem taxas de divórcio e abandono de idosos alarmantes), sem redes de apoio orgânicas compostas de relacionamentos formados sem o peso por cobrança e desempenho, a Coréia se torna modelo de como provocar um profundo desejo de morte no coração dos jovens adultos entre 20 e 40 anos, quando o peso por "produzir" e se "destacar" é maior (com o agravante de lá a fidelidade ao trabalho competir diretamente com a fidelidade familiar). Tudo isso intimamente ligado ao conceito de suicídio por "anomia" de Durkheim: quando uma sociedade "cresce" rápido demais anulando valores antigos sem ter tempo suficiente para formar novos valores - a instabilidade sobre o futuro é em boa parte econômica (para bem ou para mal) e essa instabilidade se torna emocional a ponto de haver tanto quem se mate ao ter seus bens congelados pelo governo (como no Brasil da era Collor) quanto quem ser torne ídolo/celebridade do kpop e, igualmente, se mate pela falta de autenticidade e instabilidade emocional geradas pela cobrança de desempenho.
🎶"I'LL BE WAITING FOR YOU, BABY... CAUSE I'M THROUGH"
Então, voltando ao YOLO... Para compreender o YOLO no mercado de trabalho — onde jovens abandonam carreiras estáveis em busca de propósito ou lazer, talvez precisemos de mais do que um diagnóstico social, mas de motivos individuais fortes para manter a nossa própria integridade mental. No mercado de trabalho, o YOLO muitas vezes mascara a falta de garantias trabalhistas com um discurso de "liberdade e flexibilidade". Mas o Brasil não é a Coréia do Sul, nem o Japão, mas somos sabidamente o país mais ansioso do mundo e tenho razões para crer que o abandono da ideia de "vocação" tem tudo a ver com isso. Para que o YOLO resulte em satisfação real, e não apenas em um escapismo momentâneo, é necessário que o indivíduo reconheça que a vida, embora única, exige mais do que satisfação dos impulsos: exige DECISÕES que permitam a construção de sentidos que sobrevivam à transitoriedade do tempo. É nesse ponto que recorro, desta vez, não a um sociológo, mas a um neurologista...
António Damásio é um neurologista português que escreveu um livro chamado "O Erro de Descartes", fazendo referência ao filósofo francês racionalista René Descartes, o mesmo da frase "penso, logo existo". René Descartes estabelece um dualismo metafísico: na visão geral, as pessoas acreditam que a relação entre corpo e mente seria pra Descartes a mesma entre o motorista e o veículo - o que o corpo é o veículo, e a mente, ou a alma, como você preferir chamar, seria o motorista desse veículo. Essa seria a primeira dualidade: mente e corpo. Mas, como Descartes era racionalista, isso acaba, supostamente, derivando uma série de outras dualidades, como por exemplo: a prevalência da razão acima da vontade, da razão acima da emoção, da razão como "o guia perfeito pras decisões que a gente deveria tomar". E aqui eu quero pegar um gancho porque os contraexemplos que o Antônio Damásio traz, eles funcionam bem pra combater a ideia de que o processo de pensamento está separado de outras coisas como vontade, identidade, desejo, emoção, intuição, impulso, instinto, etc. Vou trazer aqui alguns exemplos:
a) Imagine uma pessoa que sofre uma lesão cerebral: quem antes era uma pessoa de bem começa a se tornar alguém impulsivo e mau caráter... mesmo lembrando de quem era, mesmo supostamente com as suas funções cognitivas de pensamento preservadas.
b) Imagine também uma pessoa que sofre um derrame e esquece da família, esquece de quem era, esquece até como fala, tem que reaprender tudo de novo. A pessoa vai construir uma nova identidade, ela não vai mais ser aquela primeira pessoa, que foi antes do episódio, antes do derrame.
c) Imagine ainda alguém que sofreu uma lobotomia, perdeu uma parte do cérebro por causa de uma operação, e aparentemente se recuperou, lembra de quem é, sabe ler e escrever, sabe resolver problemas, mas não consegue mais entender qual é a sua própria vontade. Você pergunta pra ele se quer café ou chá, ele consegue ver os prós e contras como uma inteligência artificial, mas não consegue decidir. Você quer entrar na porta da direita ou da esquerda? A pessoa vê os prós e contras, mas não consegue decidir. Você quer que marque o almoço pra meio dia ou uma da tarde. A pessoa vê os prós e contras mas não consegue se DECIDIR. E muitas vezes não consegue DESEJAR, sofre um embotamento afetivo.
Aparentemente a cognição, o pensamento está lá, perfeito, mas a pessoa não consegue fazer nada. Ela perde a autodeterminação, ela perde a autonomia. Por que estou citando esses exemplos? Porque na minha vivência clínica enquanto psicólogo eu vejo pacientes que têm dificuldade de entender o que eles gostam e pacientes que têm dificuldade de entender o que eles querem. Dificuldade até de dizer isso, inclusive: dificuldade de elaborar. E, não raras vezes, a dificuldade de elaboração está ligada à pessoa ter parado de ouvir a intuição, ter parado de desejar, ter parado de fazer coisas que gostava, ter se desconectado das suas próprias emoções. E claro, se desconectar das suas emoções é um processo de dissonância cognitiva...
🎶"ONE STUBBORN WAY TO TURN YOUR BACK"
Apesar dos exemplos que Antônio Damásio apresenta serem mais drásticos (por serem de pessoas que sofreram lesão, acidentes, operações, lobotomia, "derrame", etc), o princípio de que emoção e razão estão interligadas (inclusive, a nível fisiológico) se impõe. Como a gente tem uma noção mais ou menos clara de que algumas áreas do cérebro elas têm especializações, elas podem estar mais ligadas a processo de decisão, processo de entendimento emocional, processo de memória, mas isso não é puro, já que o cérebro é uma unidade, quando você danifica uma coisa, você danifica outras por tabela.
🎶"THIS I'VE TRIED AND NOW REFUSE"
Emoções elas não estão dissociadas da razão, assim como os impulsos, assim como os instintos, assim como as intuições. E é necessário entender que nós não percebemos nem experienciamos o mundo apenas a partir da razão. Você pode desejar coisas que a sua razão está dizendo pra você que são inconvenientes. Ou você pode ver uma oportunidade ótima, que você não consegue julgar racionalmente se vai dar bom ou não, e você fica paralisado sem conseguir decidir porque a sua razão te sabota ao invés de te ajudar... porque nós não fomos feitos pra ser totalmente racionais. Existe uma outra vertente filosófica (que não é nem o empirismo que se opõe ao racionalismo, nem o racionalismo puro) chamada voluntarismo, que diz que existe uma prevalência da vontade sobre a razão na hora de estabelecer decisões. E essa vontade ela englobaria os nossos processos intuitivos, os nossos processos emocionais, invés de excluí-los, como se a razão devesse sempre dar a última palavra.
Qual é o meu ponto aqui com toda essa conversa? Às vezes você pode ter muitas habilidades. E você pensa: "a minha habilidade, ela garante que se eu entrar nesse ramo x, onde essa habilidade vai ser usada, eu estou seguindo a minha vocação e eu vou estar satisfeito". Isso por si só já me parece uma contradição de termos, porque a satisfação é emocional, ela não é racional. Você termina a tarefa e daí? Dane-se! Uma máquina também pode terminar muitas tarefas, às vezes até melhor do que a gente. Por que que você vai querer fazer alguma coisa?
A gente deveria olhar um pouquinho mais pra as nossas habilidades, não a partir da habilidade em si, a partir da vontade, a partir da intuição, a partir de o que que eu faço que tem significado afetivo pra mim e pode criar laços afetivos interessantes?
Veja, a habilidade, por exemplo, de falar em público: ela pode ser usada por um apresentador de circo, ela pode ser usada pra você ser um professor, ela pode ser usada pra você ser um filósofo, um palestrante, um advogado... E todos esses exemplos envolvem gente que fale bem em público. Mas isso não diz se você é introvertido, se é extrovertido, se você gosta disso ou não, se isso faz sentido pra você ou não, se você quer estar lidando com o público todos os dias ou eventualmente... Isso não diz muita coisa sobre você! ...E nem sobre a tarefa na verdade. A habilidade em si não determina a vocação. O que determina a vocação é o significado. E o significado é uma coisa afetiva. Tem a ver muito mais com o tipo de pessoa que você quer se tornar, o tipo de experiência que você quer vivenciar, e o tipo de relação que você quer estabelecer com as pessoas. Nada disso é racional.
Então, por mais que você consiga escolher uma profissão baseada em habilidades, se você não prestar atenção em "até que ponto as tarefas para as quais eu posso usar essa habilidade estão de acordo com o tipo da minha vontade, o tipo de energia que eu disponho (se é mais pra fora, se é mais pra dentro), o tipo de emoção que isso vai me apresentar diariamente. E a gente sabe que emoção, vontade, tem uma certa relação com com desejo, com querer. E é importante a gente olhar um pouquinho pra essas coisas.
Existe uma grande quantidade de pessoas que acaba escolhendo profissões para as quais têm habilidade, mas não têm o tipo emocional adequado, e se frustra (se afasta ou até se mata) justamente porque não conseguiu observar que a decisão não podia ser pesada apenas pelo filtro da razão.
Nós somos uma unidade, nisso eu concordo com Antônio Damásio, uma unidade que precisa, ao decidir, respeitar a razão, a intuição, a emoção, o impulso, o instinto, tudo isso tem que estar integrado de alguma forma, pra que a gente não se arrependa depois. Mas se você já se arrependeu, não tem problema. Começa de novo. Faz direito dessa vez. Enquanto a vida, há esperança.
🎶"Sit me down, shut me up, I'll calm down and I'll get along with you".
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
OLIVEIRA, Jean Paolo Martins de. O que eu aprendi sobre orientação vocacional com Antônio Damásio. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/DU0pfSeCRmp/?igsh=YzZhN2o5djF2cG5k>. Acesso em 17 mar. 2026.
TAM, Jonathan. Why Korea Has The Hightest Suicide Rate in the World. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ToV2wDsAyww>. Acesso em 17 mar. 2026.