O Túmulo do Cisne (NOVEL)
January 3

O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 2 (5/8)

Cisne, Anna – Parte 5.

Barrett tentou se explicar apressadamente, mas percebeu tarde demais que suas palavras só haviam atiçado o fogo. Rothbart soltou uma risada baixa. O som de seu riso preenchendo o quarto escuro era estranho e aterrorizante.

Após rir por algum tempo, o rosto de Rothbart se abriu no sorriso mais brilhante, como se nada pudesse deixá-lo mais feliz.

— Eles me chamam de demônio, mas certamente Deus deve estar do meu lado.

Como tudo poderia correr tão perfeitamente conforme seus desejos? Os lábios de Rothbart se esticaram em pura satisfação.

Barrett não conseguia entender o que, exatamente, o agradava tanto nisso. Arrepiado, ele curvou a cabeça. Um mero servo jamais ousaria tentar adivinhar os pensamentos de seu mestre.

Rothbart ergueu o olhar para o retrato de sua esposa, meio escondido atrás da cortina. Mesmo na escuridão, seus olhos distinguiam claramente cada detalhe.

Uma mulher ricamente vestida, fitando além da pintura com um olhar vazio, o rosto impassível. Sua esposa sempre odiou posar para retratos. Pensando bem, talvez fosse porque ela não queria deixar vestígios de si neste mundo. Um sorriso sarcástico repuxou os lábios de Rothbart.

Mas espere. Eu vou arrastá-la de volta para os meus braços e nunca mais a deixarei ir.

“Alguém que te ama mais? Você realmente acredita que tal pessoa existe?”

Quando a tivesse por completo, até que suas profundezas estreitas transbordassem com a sua semente, ele se derramaria nela repetidamente. Até que sua carne se moldasse à ele, para que ela nem ousasse pensar deixá-lo. Para que ela não ousasse pensar em outro homem.

Devia ter feito isso desde o início.

Os olhos de Rothbart ardiam como fogo do inferno com seu voto, sua determinação implacável fervilhando em sua garganta.

Com o sorriso de uma fera, Rothbart disse:

— Traga-me a Madame Dova. Há algo que preciso que ela faça.


Anna passou o dia em constante pavor. Sua boca estava seca por manter os nervos tensos, com medo de que Rothbart pudesse chamá-la a qualquer momento.

Felizmente, o Marquês parecia tê-la esquecido completamente. Dois dias se passaram enquanto ela mantinha a cabeça baixa e se escondia, e ninguém veio procurá-la.

Talvez ele quisesse enterrar o incidente. Para o mundo, ele era conhecido como um homem devotado à sua esposa morta. Ser encontrado drogado e ter deitado com uma mera criada seria apenas uma mancha nessa reputação, nada mais, nada menos. Anna esperava desesperadamente que seu raciocínio estivesse correto.

Diziam que o Marquês não ficava muito tempo na mansão. Se ela quisesse evitar o olhar dele por apenas três meses, ela conseguiria aguentar. Depois que ele partisse, ela poderia voltar a procurar pelo diário da Marquesa.

A chave que ela havia roubado de Svanhild ainda estava em sua posse. Ela se perguntava quando a devolver, mas naquele ponto decidiu ficar com ela. Afinal, Svanhild não a procuraria tão cedo. Enquanto o pai permanecesse na mansão, o quarto da Marquesa estaria sob vigilância mais rigorosa.

Tendo tomado sua decisão, ela se sentiu um pouco aliviada. Mas isso não significava que todos os seus problemas estavam resolvidos. O calor do homem que aprisionara seu corpo ressurgia subitamente em sua mente para atormentá-la, e ainda havia os rastros físicos que ela não havia resolvido.

Com o rosto perturbado, Anna puxou silenciosamente as roupas íntimas sujas daquele dia. À luz, sua calcinha e a anágua rasgadas estavam manchadas e salpicadas de sangue escuro e sêmen.

— Isto vai ser… difícil de lidar.

Ela suspirou. Tinha certeza de que, mesmo se as lavasse, as manchas permaneceriam. Ela poderia alegar que havia sido sua menstruação, mas o tecido rasgado ainda precisaria de remendos.

Também não era fácil conseguir roupas íntimas novas e limpas. Anna suspirou de novo. Sem dinheiro, sua única opção era costurá-las quando sobrasse tempo. No começo, sua costura era desajeitada, mas agora, acostumada à tarefa, podia ao menos se consolar com o pensamento de que terminaria rápido.

Só depois de cuidar freneticamente de suas tarefas urgentes foi que Anna percebeu outra coisa: Rothbart não havia usado nenhum método de contracepção. O rumor de que demônios só podiam gerar filhos com cisnes aumentou sua inquietação. Anna verificou seu ciclo várias vezes até finalmente se acalmar. Por sorte, não era seu período fértil. Talvez a história fosse falsa, mas cautela nunca era demais.

Ela suspirou ao inspecionar suas roupas íntimas rasgadas. Primeiro, precisava de linha. Anna levantou-se de seu assento.

Se pedisse à governanta, conseguiria linha de algodão branca à vontade. Susan até se gabara um pouco sobre isso, dizendo que para as criadas de outras casas, mesmo essa pequena conveniência não era garantida.

Enquanto Anna caminhava pelo corredor em busca da governanta, ela deu de cara com a mentora Rose Schwartz. Dizem que os inimigos se encontram em pontes estreitas, e de todos os momentos, tinha que ser aquele. Anna rapidamente baixou a cabeça e tentou passar, mas Rose a agarrou.

— Você tem andado muito ocupada ultimamente, não tem?

Entre todas as pessoas que Anna conhecera desde que caíra neste mundo, Rose era a mais bela, mas seu sorriso retorcido e o olhar cruel sempre arruinaram sua beleza.

As criadas zombavam dela, dizendo que o Marquês nem sequer reconhecia Rose, mas em comparação com uma criada de baixa posição, Rose ainda estava muito mais perto do Marquês. Anna não queria provocá-la e acrescentou rapidamente, tentando esconder seu desconforto:

— A senhora se engana.

— Ah, não está ocupada? Deve ter muito tempo livre, vagando por aí como uma criada preguiçosa brincando de trabalhar.

A ponta do dedo de Rose pressionou a têmpora de Anna com um toque áspero. O insulto fez a raiva de Anna aumentar, mas ela a engoliu.

— O Marquês chegou, e você sequer deu as caras. Eu tinha algo para lhe pedir e mandei chamá-la, mas você não estava em lugar nenhum. Onde você estava?

A maneira como os olhos de Rose brilhavam, como os de um falcão prestes a capturar sua presa, fez Anna encolher-se.

Ela sempre procurava maneiras de implicar com tudo que Anna fazia.

Às vezes ela tinha sorte e a governanta a salvava, mas não desta vez. Naquele momento, apenas Anna e Rose estavam no corredor, sem uma única criada por perto para pedir ajuda.

— Eu estava doente naquele dia…

— Doente? Você não estava nos alojamentos.

— Eu… estava com dor de estômago.

— Dor de estômago? Engraçado como as meninas que usam essa desculpa sempre acabam se agarrando a homens em cantos escuros.

Com suas palavras zombeteiras, as pontas dos dedos de Anna formigaram e um suor frio escorreu por suas costas. Rose parecia saber tudo o que Anna havia feito.

Anna forçou um sorriso.

— …Isso não é verdade.

— Então por que você estava rastejando por aí como um rato quando amanheceu?

— Aquilo foi…

A boca de Anna secou. Ela pensou que ninguém a tinha visto e se sentiu aliviada, agora Rose a havia pegado. Ela tinha visto Anna saindo do quarto proibido também? Não. Se tivesse, já teria perguntado. Ela devia estar apenas tentando pescar algo.

Se Rose a acusasse de comportamento imoral, Anna não teria como se defender. Nem mesmo a governanta conseguiria encobrir algo assim. E se descobrissem que o homem com quem se deitou era o Marquês, a fofoca se espalharia, e Rothbart poderia decidir matá-la para proteger sua reputação.

A mente de Anna se emaranhou em pânico. Como ela deveria responder? Se mentisse mal, poderia se destruir. O medo de apertar uma corda em seu próprio pescoço a deixou muda.

Ela queria fugir, mas Rose parecia pronta para a segurar até arrancar uma resposta clara.

Então, uma voz clara interrompeu o clima sufocante.

— Professora.

Anna achou que não havia ninguém ali, mas uma sombra se esticou pelo corredor e Svanhild apareceu. Ele estava ali há tempo suficiente para vê-las, seu olhar calmo enquanto as observava.

Rose, também assustada, apressou-se a corrigir sua expressão zombeteira.

— Jovem mestre.

— O meu pai está chamando a senhora.

— …O Marquês?

— Sim. Parecia urgente.

Rose lançou um último olhar de desprezo para Anna, depois soltou uma risada desdenhosa, como se zombasse do alívio de Anna, e virou-se em direção ao quarto de Rothbart.

Anna soltou um longo suspiro. Tinha ouvido dizer que Rose a procurou naquele dia, mas não imaginava que ela ainda estaria tão persistente, mesmo depois de tanto tempo.