Testemunha Perfeita
Today

Testemunha Perfeita - Capítulo 11: A Mentirosa

Os dias se confundiam uns com os outros, marcados apenas pelo barulho monótono de papéis e o zumbido seco das audiências preliminares. Daisy passava por eles como um autômato, uma observadora impassível da própria vida.

E, através daquele tédio denso e pegajoso, um enxame de pensamentos inevitavelmente irrompia — obsessivos, indesejados, completamente fora de seu controle.

A ideia era como uma farpa cravada fundo em seu cérebro: Descobrir se ele está vivo. Só ouvir a voz dele. Ela abriu o registro de chamadas no celular, os dedos voando pela tela com uma pressa febril até encontrá-lo. O número de Ash. Sem salvar.

Apenas por precaução. Para o caso, racionalizou, com o polegar pairando sobre o botão “adicionar contato”. Ela o salvou de forma seca e impessoal: Hollow. Sem pistas. Sem histórico.

Mas o contato se tornou um ímã. Nos intervalos entre a redação de parágrafos jurídicos, Daisy se pegava abrindo a lista, o olhar fixo naqueles dez dígitos. Uma ligação. Só para saber que ele estava respirando. Que Theodore não havia… O pensamento se fragmentava, substituído por uma alternativa horrível: “Ou talvez ele já tenha ido. Talvez o próximo corpo na mesa do necrotério…” Ela se levantava bruscamente, andava de um lado para o outro, rearrumava pilhas de arquivos já impecáveis, limpava um balcão imaculado — qualquer coisa para silenciar o chiado ensurdecedor na cabeça. O celular era um fio elétrico: queimava sua palma num momento, era jogado no sofá no seguinte.

E então aconteceu. Um tremor nervoso do dedo, um escorregão no vidro liso, e ele pressionou o nome. Hollow. Daisy congelou. O clique suave da chamada se conectando ecoou como um tiro na cobertura estéril. Seu coração martelava contra as costelas — uma coisa frenética e enjaulada.

“Merda. Meu Deus, que idiota!” A maldição saiu num sussurro estrangulado. Ela se curvou, uma onda de vergonha escaldante e pânico puro a dominando.

Desligue. Agora! Mas sua mão estava paralisada, hipnotizada pela contagem regressiva dos segundos. E se… ele atender?

"Ei, mana!" A voz de Ash soou obscenamente alegre, um raio de sol cortando uma cripta. "Já tá com saudade?"

"Alô." A voz de Daisy saiu plana, sem emoção. "Foi um engano. Meu dedo escorregou." Uma mentira. Uma mentira estúpida e transparente.

"Ah, é?" Ele riu, um som baixo e esperto. Ela conseguia visualizar perfeitamente seu sorriso de lado, o lampejo dos dentes brancos. "Você não salvou meu número, Daze." O tom era brincalhão, mas carregava um interesse afiado e sondador — uma agulha escondida em seda.

"Não se ache" cortou ela, mas a voz dele, vibrante e viva, agiu como um narcótico, embotando a ponta afiada de seu medo. Sem pensar, quase por reflexo, as palavras escaparam: "Você pode… vir aqui?" Ela se assustou com a própria voz.

"O quê? Sério? Agora?" A surpresa dele era genuína. Do lado de fora, o crepúsculo já se dissolvia na noite.

"Ah, não agora…" ela recuou, sentindo um rubor quente subir pelo rosto. "Desculpa, não estava pensando."

"Me dá quarenta minutos, tá?" respondeu ele, e havia algo mais que simples boa vontade em sua voz: um desafio, uma excitação.

Daisy não estava pronta. A ideia de enfrentar Ash no estado em que se encontrava, com roupa de ficar em casa, cabelo solto, olheiras sombrias marcando a pele sob os olhos, provocou uma onda desconhecida de autoconsciência. O sentimento era tão estranho que a fez parar. Em seguida, um pânico fino e formigante tomou conta. Ele já está vindo. Ela correu para o segundo andar, movida por um impulso estranho; não tanto para se arrumar, mas para esconder todo e qualquer vestígio de vulnerabilidade.

Ele chegou antes do prometido. Quando ela desceu, Ash já estava parado em sua porta. O brilho suave de um poste iluminava seu rosto, destacando os traços familiares que agora provocavam nela uma tempestade contraditória: um frio nervoso no fundo do estômago e uma estranha, quente pressão no peito. Ele estava ali, com um leve sorriso brincando apenas nos cantos da boca; misterioso, quase.

"Posso entrar?" perguntou ele, já dando um passo à frente sem esperar resposta.

Em silêncio, a mão de Daisy disparou e segurou seu pulso. Seus dedos foram rápidos e precisos, como os de um cirurgião. Ela puxou a manga da camisa de mangas longas para cima, os olhos vasculhando a pele em busca de hematomas, arranhões, as marcas reveladoras das mãos brutas de Theodore.

"Ei! O que você está fazendo?" Ash tentou puxar o braço, rindo, mas o aperto dela era de ferro.

Ignorando-o, ela o circulou. Seus dedos frios agarraram a gola da blusa e a puxaram para cima, expondo as costas. Seu toque deslizou pela pele — não era uma carícia, era uma avaliação, como uma patologista examinando uma amostra. Havia novas cicatrizes, mas tênues; hematomas amarelados, desbotando na memória. Ele se encolheu violentamente sob o toque frio e clínico dela.

"Ai! Daze, que porra é essa?!" A dor genuína soou na voz dele.

"Só checando. Tem um novo corpo" respondeu ela, seca, mecânica, despida de qualquer emoção. Virou-se e caminhou mais para dentro do apartamento sem olhar para trás. "Está com fome?"

"Não, estou bem" disse ele, seguindo-a e ajeitando as roupas. Ela sabia que era mentira — os ângulos afiados do corpo dele falavam por si —, mas não insistiu. Humilhá-lo seria passar dos limites.

"Tenho sorvete." A oferta surpreendeu até a ela mesma.

"Hmm…" Ash não conseguiu esconder o lampejo imediato de interesse. Sentou-se num banco da ilha da cozinha, espreguiçando o corpo inteiro como um gato, revelando brevemente a linha afiada da cintura. "Pode ser. Vamos de sorvete."

Ele comia… de um jeito estranho. Ou seria apenas ela? Cada movimento — a colher afundando devagar na massa cremosa, a língua saindo para capturar uma gota do palito de madeira, os lábios se fechando ao redor do doce gelado — parecia executado com uma lentidão proposital, quase sensual. Daisy se pegava com o olhar preso na linha da boca dele, no movimento do pomo de adão, nos dedos flexíveis enrolados na colher. Uma sensação vaga e inebriante subia dentro dela; uma mistura de repulsa e uma atração doentia que a fazia se sentir uma adolescente dominada por hormônios ou uma voyeur cínica como o pai. Ela desviou o olhar bruscamente.

"Reconhece ele?" Ela girou o laptop e o empurrou na direção de Ash. A tela mostrava um Caleb Dawson sorridente. O moreno se inclinou, estudou a foto com o olhar cuidadoso de um ator, depois balançou a cabeça.

"Não. Não me lembra ninguém."

"Ele é ator. Trabalhou em Hollywood."

"Não sou muito bom com rostos, Dais" deu de ombros, voltando ao sorvete. Uma mancha de creme na bochecha o deixava vulnerável, quase infantil.

Daisy puxou o laptop de volta, fingindo se concentrar no trabalho.

"E é só isso?" Ash pareceu surpreso, apontando a colher para a tigela vazia. "Foi por isso que me chamou? Para me mostrar a foto de um cara?"

"Eu te disse que foi um acidente" a voz dela saiu neutra, mas o olhar deslizou de volta para ele. "Theodore…" A formulação era difícil, as palavras grudavam na garganta. "Como ele… tem te tratado?"

"Suficientemente. Vamos pular os detalhes. Você sabe como é." Ele empurrou a tigela, a colher tilintando de leve contra a cerâmica.

"Só… toma cuidado. Esses assassinatos…" começou ela, mas ele a interrompeu.

"Eles sempre aconteceram, Daze. Pessoas inconvenientes simplesmente são eliminadas. Como lixo." O tom dele era cansado, como se falasse do tempo.

"Eu sei que meu pai… que os homens dele… Mas…" A voz dela de repente ficou mais baixa, perdendo o aço habitual. Ela cruzou os braços ao redor do próprio corpo, cotovelos cravados no balcão como se tentasse ocupar menos espaço. "Eu nunca… vi isso pessoalmente. Os corpos, ou o… processo. Antes, eram só números, relatórios: narcóticos, contrabando, falsificação. Os assassinatos… de alguma forma passavam por mim." A confissão escapou sozinha, expondo uma rachadura em sua armadura.

"Talvez você simplesmente não lembre?" Ash se inclinou para frente, o olhar afiado e penetrante. "Talvez tenha visto alguém… quando era criança?"

"Não sei… Talvez." Ela virou o rosto, encarando a janela escura onde os reflexos das silhuetas deles se projetavam. Esse assunto era um campo minado.

"Talvez? — Ele não cedeu." O que “talvez” significa?

"Infância com Vanderbilt…" O nome do pai soou como uma maldição. "Foi fragmentada. Traumática. Muita coisa foi apagada. Bloqueada. Então não posso afirmar com certeza se vi ou não…" Em seus olhos normalmente gelados havia um cansaço incrível, uma fissura profunda.

"Ei, Dais…" A voz de Ash suavizou de forma inesperada, perdendo a habitual brincadeira. Ele estendeu a mão, mas não a tocou. "Não vá por aí. Não cave. Algumas portas… é melhor deixar fechadas." Havia algo mais em suas palavras além de preocupação; conhecimento, um aviso, quase medo.

Ele se levantou do banco e, de repente, o espaço entre eles encolheu até o tamanho de uma respiração. Ash abriu os braços num gesto largo, quase teatral, transferindo o peso para um quadril. Sua sombra a envolveu completamente, mas não era assustadora — era mais como um convite, uma luz quente numa nevasca. O olhar dele continha uma pergunta silenciosa, um desafio e algo mais — algo que fez a respiração dela falhar.

"E então?" A voz dele era suave, mas insistente. "O que você está esperando?"

Daisy congelou.

"O quê?" escapou automaticamente, como se sua consciência estivesse atrasada em relação ao momento.

"Me abraça." Ele deu um passo quase imperceptível à frente. "Confia em mim, isso ajuda."

Ela se levantou. O silêncio se estendeu entre eles, denso e ressonante. Daisy sentia o coração martelando em algum lugar na garganta. Temia aquele momento, temia como seu corpo reagiria ao calor dele, ao cheiro familiar de cítrico e pele, a essa proximidade perigosa. Temia admitir o quanto desejava aquilo desesperadamente.

"Pensando demais…" Ash não esperou. Fechou a distância com um movimento fluido e, de repente, suas mãos estavam nos ombros dela, quentes e firmes. Sua bochecha roçou a dela, um instante de contato que enviou um arrepio pela espinha. "Só para de se preocupar. Não complica."

E então o mundo virou de cabeça para baixo.

O calor dele a envolveu como uma chuva de verão: repentina, completa, lavando toda a ansiedade. O cheiro da colônia dele — cítrico doce com o toque amargo de bergamota — encheu seus pulmões, e a pedra que pressionava seu peito há dias se dissolveu de repente. Em seu lugar, alojou-se um espasmo afiado e nauseantemente doce de desejo sob as costelas.

Seus dedos, no início, apenas roçaram os lados nus dele, sentindo o tremor sutil sob a pele. Depois cravaram na cintura com tanta força que Ash soltou um suspiro curto e baixo; não de dor, mas de pura surpresa. Um som como corda estalando. Daisy pressionou o corpo contra o dele, sentindo as batidas do coração dele: rápidas, como as de um animal encurralado. O pescoço dele estava tão perto que seus lábios sentiam a pulsação na depressão jugular — real, vivo, frágil.

E isso a estava enlouquecendo.

O desejo a atravessou, afiado e incontrolável, como um choque elétrico. O cheiro da pele e do cabelo dele — como mel aquecido e sol — subiu à sua cabeça. Ela queria apertá-lo mais forte, imprensá-lo contra si, fazer com que ele sentisse cada célula de sua fome, de sua raiva, de sua ternura. Queria devorá-lo.

E era...

Era êxtase.

O calor dos pontos de contato se espalhava pelo seu corpo, acendendo milhares de estrelinhas sob a pele. A respiração irregular dele em seu pescoço, os dedos esguios em suas costas, o abdômen pressionado contra o dela… Daisy fechou os olhos, permitindo-se, por um instante, apenas sentir; sem pensamentos, sem medo. Apenas aquele momento. Apenas ele.

Ela afrouxou o aperto, mas seu olhar permaneceu selvagem. Feroz. A tempestade dentro dela não havia diminuído; apenas lhe permitira atracar por um segundo na margem desejada.

Daisy soltou as mãos e deu um passo para trás.

"Hah, o que foi?" A risada rouca de Ash soou consciente demais. Ele a lia como um livro aberto, vendo cada pensamento. Ele semicerrou os olhos, os cílios longos projetando sombras nas maçãs do rosto. "O quê? Gostou do abraço?"

"Deixa pra lá, Ash…" murmurou Lockwood, desviando o olhar. Seu corpo aos poucos se rendia, a respiração se normalizava, mas por dentro tudo ainda girava.

"Hah, “deixa pra lá”…" imitou ele, os lábios se torcendo num sorriso de lado, mas sem alegria real no olhar. "E é só isso? Posso ir embora?"

Daisy abraçou os próprios ombros, os dedos apertando as mangas da camiseta. As sobrancelhas franzidas, o olhar gelado, mas ainda assim ela não conseguia desviar os olhos dele. Respirou fundo, num suspiro trêmulo e revelador.

"Você pode ir."

Ash assentiu com o ar de quem realmente não se importava. Mas como? Será que os sentimentos que ele havia despejado há tão pouco tempo evaporaram assim tão rápido? Para alguém como ele, a paixão era apenas um breve clarão, uma faísca sem significado?

Ele caminhou devagar até a saída, brincando com as chaves do carro que acabara de tirar do bolso da calça jeans.

"Ou você queria algo… reconfortante? Que eu passasse a noite aqui?"

"Ash!" A voz dela saiu carregada de irritação. Ela avançou até a porta, chegando antes dele, e seus dedos se fecharam com força na maçaneta fria de metal. "Não me compare ao Theodore. Não sou do tipo que precisa só de um… corpo."

"Eu sei…" Toda a animação fingida desapareceu do rosto dele de uma vez. O olhar suavizou, descendo pelo rosto dela e demorando-se nos lábios. Ele mordeu o próprio lábio inferior antes de olhar para baixo.

"Eu ajudo, se você precisar de qualquer coisa."

"Eu acredito. Então… boa noite. A gente se vê."

Ele saiu para o patamar e a escuridão engoliu lentamente sua silhueta.

A porta clicou ao se fechar. As costas de Daisy deslizaram devagar pela madeira lisa até ela se sentar no chão. Um suspiro pesado e quebrado escapou de seu peito. Ela deixou a cabeça ardente cair sobre os joelhos, e mechas rebeldes de cabelo cascatearam como rios, escondendo seu rosto.

O que ela mais temia era se tornar como o pai. A imagem dele — repugnante, monstruosa — era seu maior pesadelo e a raiz de seu auto ódio. Ela desprezava cada traço, cada mínimo detalhe em seu próprio reflexo que sussurrava sobre a herança genética dele.

Ela se levantou e caminhou com passos firmes até o espelho do corredor. Puxou uma mecha do cabelo tingido. A cor natural havia crescido cerca de um centímetro, e aquele brilho, aquele indício de sua verdadeira essência, provocou uma onda de ódio puro e sem diluição.

Isso precisava ser consertado. Agora.

O cheiro acre de produtos químicos pairava no ar, ardendo em suas narinas como pimenta. Cada respiração queimava as mucosas, uma sensação abrasadora no fundo dos seios nasais. Aquele ritual era um sacrifício sagrado: suportar um pouco de ardor e dor em nome da perfeição futura.

O farfalhar do pacote brilhante. Um estalo. Um pó branco e sedoso que, misturado a uma base viscosa, se transformava numa pasta laranja venenosa. O estalo das luvas de borracha. O toque metódico da escova plástica e do aplicador sintético contra a tigela de mistura.

Sua cabeça latejava. Não era a pele; era por dentro, como se seu crânio estivesse sendo rasgado por estilhaços em brasa. Sem soltar a escova de risca, ela usou a mão livre para abrir o armário ao lado do espelho, onde fileiras de frascos de analgésicos estavam alinhados. Uma das tampas estava fora do lugar.

Jogou duas cápsulas na boca, curvou-se sobre a torneira e deu vários goles gananciosos de água, sentindo os comprimidos descerem lentamente pela garganta.

Daisy havia prometido a Ash que o ajudaria. Prometera protegê-lo do destino daqueles corpos recentemente encontrados no necrotério da cidade. Agora precisava descobrir tudo. Sozinha. Antes que mais alguém o fizesse.


A Srta. Lang acomodou Daisy numa mesa perdida no coração da estufa. O ar, denso com o cheiro de terra úmida e milhares de folhas vivas, parecia respirar por conta própria. Martha preparou um chá de tília, acrescentando um raminho de alecrim, seu aroma pungente e aquecido se misturava à doçura enjoativa da umidade sob o teto de vidro. Sobre a mesa, ao lado da xícara fumegante, repousava um grosso álbum de fotos, gasto pelo tempo, encadernado em veludo desbotado.

"Experimente um pouco, querida" a voz de Martha era suave, como o farfalhar de folhas ao vento. Ela empurrou um prato com uma fatia de torta de maçã na direção de Daisy, cuja crosta dourada brilhava sob a luz difusa. Ela não tinha apetite, a conversa que se aproximava pairava entre elas como um fardo pesado e silencioso. Mas recusar aquela mulher estava além de suas forças.

"Me conte… sobre sua filha? Sobre Sarah?" Daisy soltou o ar, quase sem som.

Martha fechou os olhos e, por um instante, seu rosto pareceu um velho mapa amarelado, sulcado pelos caminhos de uma dor antiga.

"Ela era… como um raio de sol" começou Martha, abrindo o álbum com cuidado. "Tão leve. Era como se ela brilhasse… não por fora, não… mas por dentro." Um cheiro de tempo passado subiu das páginas: poeira, cola seca, memória. Havia muitas fotografias, mas Sarah… Sarah era o coração delas. Ondas acobreadas de cabelo, um rosto puro e claro, como um anjo de afresco. E seu sorriso… um sorriso que aquecia e iluminava a alma. Agora cortava fundo; aquela alegria parecia tão indefesa e ingênua.

Daisy observava a vida congelada nas fotografias. Infância, adolescência, primeiras vitórias. Sarah realmente havia sido um raio de luz. E isso tornava ainda mais amargo o conhecimento de que aquela luz fora extinta de forma tão brutal. As imagens geladas do necrotério se sobrepunham àqueles sorrisos, e Daisy apertou as mãos debaixo da mesa, tentando esconder o tremor que as dominava.

Martha contou como Sarah havia desaparecido alguns meses depois de se formar na universidade. Entre as fotografias, algumas a mostravam vestindo jaleco branco.

"Ela estava estudando para ser médica?" perguntou Daisy, desviando o olhar da foto para o rosto enrugado de Martha.

"Quase…" A mulher passou o dedo trêmulo sobre a imagem. "Ela sonhava em curar as pessoas. Enquanto isso… trabalhava meio período numa estação de pesquisa que depois fechou. Estudava… fertilizantes. Me ajudava." Martha também havia trabalhado lá como melhorista, ecologista. Em seu olhar perdido no passado, Daisy leu um abismo de conhecimento… e um abismo de perda.

"Que tipo de fertilizantes?" A pergunta escapou sozinha, ditada pelo hábito de cavar até o fundo.

A voz de Martha ficou subitamente dura e fria como gelo:

"Não eram exatamente fertilizantes… Eram venenos. Para pragas." Um arrepio desceu pela espinha de Daisy. "Meu marido, William, adoeceu gravemente quando Sarah ainda era adolescente. Eu trabalhava dia e noite naquela época. Ela… se ofereceu para ajudar. E quando a estação fechou…" Martha puxou uma fotografia. Sarah, rindo, com um copo na mão. Ao lado dela havia uma mulher vulgarmente vestida, com lábios da cor de sangue coagulado. "Minha menina arrumou emprego como garçonete num bar…"

"E essa aqui?" Daisy apontou para a estranha.

"Theresa… A chefe dela. Até Sarah encontrar um lugar melhor. Diziam que pagava mais… Mas…" A dor na voz de Martha ficou densa, quase palpável. Ela não queria continuar.

"E Theresa… Ainda está por aí? Talvez ela saiba de algo?" insistiu Daisy, sentindo o próprio coração se apertar.

"Querida, você já ouviu falar da “Cabra Prateada”?" A voz de Martha baixou até virar um sussurro, como folhas à noite.

Daisy assentiu. A Cabra Prateada não era apenas um lugar. Diziam que era um antro, um bordel, um buraco negro onde as pessoas desapareciam sem deixar rastros. Tinha sido fechado anos atrás após um assassinato brutal; a vítima era um dos associados próximos de Vanderbilt. Metade das “garotas” acabou presa na época.

"Ouvi falar… na época da faculdade…" Daisy apertou os lábios, o olhar saltando entre o rosto luminoso de Sarah e os olhos apagados de Theresa.

"Sarah trabalhou lá há muito tempo, antes do “Cabra” se tornar o que se tornou. E Theresa… foi condenada depois daquele escândalo. Nunca mais ouvi falar dela." Martha se levantou, fechando o álbum com a ternura de quem toca uma relíquia sagrada. Era insuportável ver seu luto silencioso, desgastado pelos anos.

O olhar de Daisy caiu sobre a superfície escura e parada do chá na xícara. No reflexo, ela não viu a si mesma; viu uma mentirosa, uma impostora. A culpa apertou sua garganta num nó duro. Mesmo que contasse a verdade a Martha, o que mudaria? Agora precisava agir sem cometer um único erro. Precisava ficar em silêncio.

"Daisy, querida!" A voz de Martha voltou a ser quente e viva. Ela amarrava o avental de trabalho, retornando a um ritual familiar. "Vai me ajudar hoje?" Seu sorriso era indefeso e cheio de confiança incondicional. Talvez ela realmente visse, nos traços de Daisy, um vislumbre da filha que havia perdido.

"Claro que vou!" Daisy se levantou, vestindo novamente a máscara de calma.

As plantas se alinhavam em fileiras organizadas e frescas. O ar era denso, quase palpável, saturado de vida. Ao tocar a terra úmida e morna com os dedos, Daisy sentiu uma estranha onda de força. Era como se a energia primordial daquele solo estivesse penetrando nela, preenchendo o vazio ressecado por dentro. Cada muda, cada flor que regava se tornava um pequeno ato de expiação. Uma esperança silenciosa de que ainda era capaz de algo bom nesta vida cheia de sangue e mentiras.