
Os dias se confundiam uns com os outros, marcados apenas pelo barulho monótono de papéis e o zumbido seco das audiências preliminares. Daisy passava por eles como um autômato, uma observadora impassível da própria vida.

Sua mente atormentada finalmente soltou os pensamentos ansiosos apenas quando o calor do dia recuou por completo, rendendo-se ao ar fresco da noite, e as primeiras estrelas — ainda tímidas — se acenderam no céu escuro. Ela estava parada em frente à sua casa. Sozinha. A frescura da noite, como um bálsamo curativo, trouxe uma paz há muito esperada.

Daisy parou diante de uma porta maciça de madeira escura. Uma placa de latão exibia, em letras gravadas com severidade: Detetive B. Cloud. Três batidas secas e a porta rangeu, abrindo-se apenas o suficiente para que ela entrasse.

Um corpo fora encontrado sob a ponte B. Uma jovem. Os sinais de morte violenta eram evidentes. Não havia decomposição avançada, mas os órgãos internos haviam sido removidos. A equipe de investigação chegou ao local após um chamado de um varredor de rua. O homem havia acabado de começar seu turno. Ele insistia que a área estava limpa no dia anterior.

Daisy parou no vão da porta do quarto. A cama. Sua grande cama imaculada. O ar ali era diferente — mais frio, mais vazio… e, ao mesmo tempo, não era. Estava impregnado dele. Do shampoo dele, da pele dele. Um cheiro sutil, fugidio, mas loucamente persistente. Ontem, aquele aroma tinha sido uma invasão irritante. Agora… agora ele provocava um arrepio que percorria sua pele e um aperto traiçoeiro bem baixo em sua barriga. Ela não havia trocado os lençóis. Não havia apagado o rastro dele.

A palma de Theodore desabou sobre a mesa como uma avalanche de gelo se estilhaçando. O som — baixo, ominoso, reverberando até os ossos — ecoaria no crânio de Daisy por horas.

O sono era um luxo que Daisy se recusava a conceder.

Domingo. Faltava menos de uma semana para o inferno de sábado; o clube de golfe e os mafiosos. O ritmo implacável havia drenado Daisy até o osso. Até suas sagradas corridas matinais haviam sido sacrificadas. Hoje, seu único dia de folga autorizado, ela se permitira uma hora extra de sono.

Limpar a sujeira do pai nunca havia sido um problema para Daisy.

O amanhecer mordeu até os ossos, como se o deserto quisesse lembrar a todos que até mesmo seu calor tinha limites. Não trouxe nenhum alívio após uma noite insone; Daisy havia se revirado entre ódio e pavor, desejando apenas que aquele dia nunca chegasse. Mas o sol, indiferente aos seus pedidos, já havia escalado acima das dunas, tingindo-as de um vermelho ferrugem.