O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 2 (3/8)
Cisne, Anna – Parte 3.
O dia seguinte começou como de costume. As criadas que dividiam o mesmo quarto trocavam de roupa enquanto perguntavam a Anna para onde ela tinha desaparecido no dia anterior.
— Anna, você está se sentindo melhor da dor de estômago que teve ontem?
Pensando bem, essa havia sido a desculpa que ela deu. Anna forçou um sorriso desajeitado, tentando parecer despreocupada. Felizmente, as criadas não a pressionaram muito sobre seu paradeiro. Susan, que dormia na cama ao lado da dela, contou o que acontecera em sua ausência.
— Você ficou fora o dia inteiro, eu fiquei preocupada. Ainda mais porque o mestre voltou do nada, todo mundo ficou com os nervos à flor da pele.
Jo, puxando a meia da perna esquerda, encolheu os ombros e acrescentou:
— Você devia ter visto o barraco ontem entre a Madame Dova e a Senhorita Schwartz. Depois que o mestre ignorou a Senhorita Schwartz, ela surtou, e a Madame Dova descontou a raiva pegando no nosso pé por qualquer besteira.
O conflito entre a Governanta, Madame Dova e a Mentora Rose Schwartz não era novidade. Madame Dova era a serva mais antiga da mansão, irmã do mordomo Barrett, e administrava a casa Lohengrin por onze anos, desde a morte da Marquesa.
Rose Schwartz havia sido contratada diretamente pelo Marquês há cinco anos para educar Svanhild. Era natural que ele se envolvesse pessoalmente na educação do seu herdeiro, mas como a contratada era uma mulher jovem e bela, era inevitável que surgissem suspeitas de que o motivo não era apenas educacional.
Além disso, embora ninguém soubesse o que o Marquês dissera ao mordomo, Barrett frequentemente tentava atender todos os caprichos de Rose. Muitos murmuravam que ela seria a próxima Marquesa. Mas o próprio Marquês sempre tratava Rose friamente.
Ainda assim, ninguém ousava tratá-la com desdém, seguindo o exemplo dele. Afinal, havia rumores persistentes de que, nas noites em que o Marquês pernoitava na mansão, Rose era vista saindo do quarto dele.
Em raras ocasiões, o Marquês até convocava Rose sozinha para a capital. Dizia-se que ele admirava sua dedicação por estudos e a convidava para reuniões acadêmicas, algo que não combinava em nada com o temperamento dele.
Assim, Rose ocupava uma posição ambígua no Túmulo do Cisne: não era apenas uma preceptora, mas também não era, exatamente, sua amante.
Madame Dova detestava Rose. Como serva leal da falecida Marquesa, via Rose como uma intrusa tentando roubar o lugar de sua antiga senhora — ou talvez fosse apenas uma disputa interna de poder pela casa.
O certo era que, para as criadas, nenhuma das duas era bem-vinda.
— A Senhorita Schwartz acha que é especial para o mestre. Mas não importa o que aconteça, o mestre sempre vai direto para “aquele quarto”. Ela não significa nada pra ele.
— Exatamente. O mestre nem sequer olha para outra mulher, então por que Madame Dova e a Senhorita Schwartz implicam tanto com a nossa roupa estar modesta ou não? Nunca vou entender.
Betty, que havia sido repreendida dias antes por costurar renda bonita em sua roupa íntima — “Quem você está tentando seduzir com isso?” — resmungou irritada.
Os uniformes das criadas mal se distinguiam de roupas de luto; a única coisa que elas conseguiam enfeitar era a roupa íntima. As criadas costuravam rendas nelas sempre que tinham tempo. Madame Dova geralmente ignorava, mas as coisas mudavam quando o Marquês estava prestes a voltar.
Rose também ficava igualmente irritadiça.
— Cuidado, Anna. Ontem a Senhorita Schwartz perguntou por você. Eu inventei uma desculpa, mas ela não pareceu convencida. Se você topar com ela hoje, terá problemas.
O coração de Anna gelou ao ouvir o aviso de Jo. Temia que Rose tivesse descoberto o que havia acontecido com o Marquês no dia anterior.
Betty, aparando as unhas, zombou de Rose.
— Ah, quem sabe? Ela vai estar ocupada demais babando pelo mestre para se importar com a Anna.
— A não ser que ele ignore ela de novo… aí ela desconta tudo em você.
Rose implicava com Anna e a importunava sempre que se encontravam. Como Anna era responsável pelo quarto de Svanhild, elas se cruzavam com mais frequência, mas para uma preceptora interferir tanto, já era um abuso excessivo. Até a própria Madame Dova, a governanta, uma vez repreendeu Rose por ultrapassar seus limites.
— Aquela mulher adora atormentar justamente a Anna.
— Ela pega no pé de todo mundo do continente oriental. Susan, você só está aqui há um ano, então ainda não sabe, mas todas as criadas do continente oriental que trabalharam aqui foram expulsas pela Senhorita Schwartz.
— Não sei que problema ela tem com o continente oriental…
— A Marquesa era do continente oriental.
— O que, inveja? Ela realmente acha que pode se comparar à Marquesa?
As criadas riram e fofocaram sobre Rose, até que a conversa desviou para Rothbart.
—Bem, não é de admirar que a Senhorita Schwartz tenha se apaixonado pelo mestre. Convenhamos… ele é bonito.
— Isso eu admito. Tem motivo pros boatos de que ele é um demônio. Com aquela aparência, como não teria? Se o Marquês não afastasse as mulheres, todas as moças da região já teriam sido corrompidas.
— Honestamente, o rosto dele vale a pena ser visto pelo menos uma vez na vida… Pensando bem, Anna, você não viu o Marquês ontem, viu?
Anna respondeu com um segundo de atraso. As lembranças da noite anterior, que ela tentava enterrar, voltaram em ondas.
Embora tivesse passado a noite inteira debaixo dele, ela não viu o tão comentado rosto bonito do Marquês.
O que ela se lembrava de Rothbart eram as mãos que a agarraram pelo tornozelo e a arrastaram com uma força esmagadora, as palavras cruéis que a humilharam, a língua que invadiu sua boca. Antes mesmo de ver o rosto dele, ela se lembrava de si mesma se contorcendo sob ele, perfurando-a, — e a náusea subiu pela garganta.
Sem perceber o estado de Anna, Betty continuou:
— Que pena. Estranhamente, esta mansão não tem retratos. Quando vi o rosto do Marquês pela primeira vez, fiquei tão chocada. Não conseguia tirar os olhos dele e tropecei para trás. Fico imaginando como você vai reagir, Anna.
— Ela é sempre tão calma. A única que faz papel de boba é você, Betty.
— Argh, que maldade! Jo, foi você quem usou o avental em vez de um pano para limpar o corrimão!
Betty e Jo discutiram, trocando acusações até soltarem um longo suspiro.
— Diga o que quiser, a beleza da Senhorita Schwartz é inegável. O mestre olha para uma beleza como essa como se fosse uma pedra. Você acha que garotas como nós um dia chamariam a atenção dele? O máximo que podemos fazer é admirar o rosto dele à distância de vez em quando.
Enquanto as duas conversavam, Susan notou a palidez no rosto de Anna. Olhando-a preocupada, Susan disse:
— Anna, você ainda não parece bem. Diga a Madame Dova que precisa descansar esta manhã.
— Susan tem razão. Se estiver preocupada com as suas tarefas, eu as farei por você. O corredor oeste e as escadas deste andar, certo? Você me cobriu da última vez que tive febre. Pense nisso como uma retribuição.
Betty falou. As três compartilhavam o mesmo quarto muito antes de Anna chegar e, embora ela fosse quieta e pouco sociável, elas cuidavam dela.
Embora não demonstrasse abertamente, Anna estava de fato em mau estado. Ela deveria terminar de limpar a mansão antes que o sol nascesse por completo, mas na sua condição, não conseguiria. Ela aceitou com gratidão a oferta de Betty.
— Não há de quê. Nós nos ajudamos.
— Eu ajudo também, então com nós duas, não vai demorar muito. Não se preocupe. — acrescentou Jo.
Susan, normalmente encarregada da cozinha, concordou e empurrou Anna de volta para a cama. Antes que ela pudesse resistir, sua nuca afundou no travesseiro.
— Apenas descanse por agora. Traremos o seu café da manhã mais tarde.
Com isso, Susan, Betty e Jo saíram do quarto. Anna estava grata por ter elas como suas companheiras.