O Túmulo do Cisne (NOVEL)
March 15

O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 3 (2/7)

O Demônio, Rothbart - Parte 2.

A notícia de que Anna havia se tornado a camareira pessoal do Marquês espalhou-se rapidamente por toda a mansão.

Alguns sentiram ciúmes, enquanto outros demonstraram inveja abertamente. As criadas que dividiam o quarto com Anna lhe deram parabéns, mas apenas Susan, interiormente inquieta, falou com uma hesitação cautelosa.

— Ser transformada em uma exceção nem sempre é algo bom. Especialmente nesta mansão...

Anna também não conseguia aceitar com alegria o fato de ter se tornado a camareira pessoal do Marquês, por isso sentiu-se grata pela preocupação de Susan. Em silêncio, puxou-a para um abraço. Ela nunca tivera ninguém em sua vida que pudesse chamar de amiga, mas, se pudesse dar esse título a alguém, seria para  Susan.

Susan segurou os braços de Anna e olhou para ela com olhos cheios de preocupação.

— Tome cuidado com Rose, Anna. Ouvi dizer que o clima tem estado estranho ultimamente. Quando ela souber dessa notícia, certamente vai ranger os dentes.

Anna pensava o mesmo. Ela não contou a Susan para não preocupá-la, mas o rancor que vira nos olhos de Rose quando se cruzaram pela última vez no corredor ainda estava vívido.

Era evidente, mesmo sem palavras, que Rose gostava do Marquês. No instante em que ouvisse a notícia, provavelmente desejaria estrangular Anna até a morte. De qualquer forma, Rose era a mulher que havia recebido uma “exceção” do Marquês. Entrar em conflito com ela só traria prejuízos para Anna.

Anna apenas esboçou um sorriso desajeitado. Será que o Marquês realmente a protegeria?

Anna sabia melhor do que ninguém que sua posição não era tão elevada assim. Ela não era uma exceção para o Marquês — era uma mancha.

Pensar que ele havia se deitado com ela, drogado, no quarto de sua amada esposa… Qualquer que fosse o motivo para mantê-la por perto, certamente não era algo positivo. Na verdade, torná-la sua camareira pessoal provavelmente era apenas uma forma de brincar com ela como um gato brinca com um rato, pressionando-a até que estivesse completamente exausta — e morta. Pelo que conhecia da natureza do Marquês, ele era mais do que capaz disso.

Uma sombra de melancolia caiu sobre o rosto sorridente de Anna.


— Você ouviu, Joseph? Sua irmã se tornou a camareira pessoal do Marquês.

A notícia que já havia se espalhado por toda a mansão finalmente chegou aos estábulos. Sehyun, que estava retirando esterco de cavalo com uma pá, franziu a testa ao se virar para o cavalariço que lhe trouxe a informação.

— …Nunca ouvi falar disso.

— Parece que decidiram hoje. Sua irmã pode acabar fazendo fortuna, então acho melhor eu tratá-lo bem.

— Fazer fortuna? Ser camareira pessoal é algo tão bom assim? — perguntou Sehyun, intrigado.

O cavalariço sorriu de maneira maliciosa e bateu repetidamente o lado do punho esquerdo contra a palma da mão direita. Mesmo que as palavras fossem diferentes, gestos vulgares eram facilmente compreendidos. O rosto de Sehyun endureceu.

— Já se esqueceu? A falecida Marquesa era do continente oriental. O Marquês é louco por mulheres orientais. Se sua irmã jogar bem as cartas, pode acabar rastejando até os aposentos dele. Então você seria o cunhado do Marquês!

Cunhado? Parecia mais que ele seria um corno idiota. Não, pior ainda. Ele nem sequer tinha feito nada com Anna, e ficaria ali parado enquanto sua honra era destruída. Sehyun praguejou baixinho e bateu o pé no chão.

O cavalariço zombou dele. Sua intenção era ridicularizá-lo, insinuando que ele não deveria se achar superior só porque a irmã havia se tornado camareira pessoal do Marquês. Mas ver Sehyun considerar seriamente aquela possibilidade era simplesmente ridículo.

— Então volte a cavar essa merda de cavalo, Joseph!

Com as verdadeiras intenções do cavalariço passando completamente despercebidas, Sehyun mordeu os lábios.

Diferente de Anna, que usava seu nome verdadeiro, Sehyun era chamado de Joseph neste mundo. Ele simplesmente tomou emprestado um nome com pronúncia semelhante ao seu nome real, Jo Sehyun.

Ninguém se daria ao trabalho de pronunciar corretamente o nome de um simples moço de estábulo que acabara de chegar à mansão. Ainda assim, aquilo lhe parecia desagradável — como se mais um de seus direitos tivesse sido tirado.

No seu mundo original, Sehyun tinha tudo.

Sua família o mimava como o filho mais velho e, na escola, ele sempre foi admirado como um estudante exemplar em todos os aspectos. Seu futuro parecia uma estrada larga e aberta. Por isso, este mundo — onde ele havia caído na posição de um pária humilde — não tinha um único aspecto que lhe agradasse. E agora, até sua namorada, em quem ele nunca sequer tocou, estava prestes a ser tirada dele…

Com a raiva subindo até o topo da cabeça, Sehyun finalmente chamou por Anna.

Ao seu chamado, Anna foi até ele sem suspeitas. Os alojamentos das criadas e dos servos ficavam em prédios completamente separados, e suas áreas de trabalho também eram distantes. Como raramente se encontravam, ela ainda não tivera a chance de avisá-lo sobre os rumores.

— Você me chamou, oppa?

Assim que Anna o encarou, Sehyun agarrou seu braço com força. Diante do atitude brusca, Anna tentou se soltar, mas o aperto dele era firme e inflexível.

— O que você tá fazendo?!

— Estão dizendo que você vai se tornar a camareira pessoal do Marquês. — Sehyun cuspiu as palavras enquanto a arrastava com ele.

Os vasos sanguíneos em seus olhos haviam estourado, deixando-os avermelhados. Só então Anna percebeu que algo estava errado. Empurrando-a para um canto isolado, Sehyun aproximou-se e falou em tom ameaçador:

— Se você vai fazer isso com ele, então faça comigo primeiro.

— …Que tipo de lógica é essa? O que exatamente eu estaria fazendo com o Marquês? E por que isso significaria que eu teria que fazer com você primeiro?

Mesmo naquela situação absurda, Anna não perdeu a compostura e respondeu com firmeza. Suas costas enrijeceram. Vendo Anna manter-se ereta como um bambu, contestando cada uma de suas palavras, Sehyun se irritou ainda mais e zombou:

— Eu sou seu namorado. Você não quer que sua primeira vez seja comigo?

— ……

— Ou você já fez com o Marquês? Foi por isso que ele decidiu te colocar como a camareira pessoal dele?

— Jo Sehyun!

Só então Anna percebeu claramente que ele estava falando sobre sexo, e gritou, com o rosto pálido.

— Não saia gritando o nome do seu oppa assim! — rosnou Sehyun, mostrando os dentes, mas para Anna aquilo não passava de um barulho irritante. Quanto mais pensava nas palavras que ele havia dito com tanta naturalidade, mais assustadoras elas pareciam. Era como se ele a considerasse sua propriedade.

E, ainda assim, a acusação de Sehyun era verdadeira. Ela havia se deitado com o Marquês… e provavelmente era por isso que ele queria torná-la sua camareira pessoal. Mas isso não justificava o comportamento de Sehyun. Quem lhe dera o direito de reivindicar sua virgindade? Apenas por ser seu namorado?

Se ela nunca tivesse começado a sair com ele, não estaria passando por um interrogatório tão humilhante agora. Ela havia começado aquele relacionamento quando estava esmagada pela solidão após a morte da mãe. Mas, na realidade, namorar Sehyun apenas a fizera sentir-se ainda mais miserável.

Era verdade que trair um amante era moralmente condenável. Mas o que havia acontecido com o Marquês foi claramente um acidente. Seu parceiro estava drogado, suas palavras de recusa se perderam no ar, e sua própria vontade não estivera envolvida em momento algum.

“Mas Sehyun jamais vai enxergar assim.”

Mesmo que ela confiasse nele e contasse a verdade sobre aquele dia, ele não a consolaria. Ele apenas ficaria furioso, exigindo saber por que ela havia se entregado tão facilmente para outro — e talvez até tentasse agredi-la. Pelo modo como já estava perdendo o controle por algo que nem sequer havia acontecido, aquilo era mais do que possível.

Como ela poderia considerar alguém que age assim nesse momento como seu namorado? Anna respirou fundo, tentando manter a calma, e respondeu a Sehyun, que avançava contra ela como um touro:

— Eu apenas me tornei a camareira pessoal dele, nada mais. Não fale bobagens!

— Mas dizem que o Marquês é louco por mulheres orientais. Ele nunca sequer teve uma camareira pessoal antes…!


SUMÁRIO:
  1. Pária: Um pária é alguém rejeitado, expulso ou ignorado pela sociedade