Testemunha Perfeita
April 30

Testemunha Perfeita - Capítulo 3: Irmão e Irmã

Limpar a sujeira do pai nunca havia sido um problema para Daisy.

A máquina da corrupção era um mecanismo bem lubrificado, e ela não passava de uma engrenagem em suas rodas. Inúmeras pessoas (do topo até a base) giravam silenciosamente as engrenagens desse sistema. Elas se reconheciam à primeira vista, farejavam agentes infiltrados pelos menores sinais: um olhar direto demais, princípios rígidos demais.

Apenas Peter insistia em interpretar o papel do promotor incorruptível. Estranhamente, ele via em Daisy um espírito semelhante; uma advogada brilhante e ambiciosa. Não fazia ideia de quão errado estava. Treinada em uma compostura gelada, ela nunca levantava suspeitas.

Sua história de fachada era impecavelmente sem graça: uma família de fazendeiros de um estado vizinho, arrastada por acaso para a grande cidade, onde o ritmo frenético da vida a havia aprisionado. Agora ela estava ali. E Peter, sem saber, a havia levado direto para o coração de sua caçada — atrás de Theodore. Ele a tomara sob sua asa como uma promissora protegida.

Agora estavam mergulhados na rotina maçante da promotoria: pilhas de relatórios, arquivos de evidências e transcrições de interrogatórios. O ar do escritório estava abafado, carregado com o cheiro de poeira de arquivos, café barato e óleo de arma do estande de tiro.

Peter se apoiou na mesa, pressionando os dedos contra as têmporas.

“Eu sei que ele está tramando alguma coisa... Mas os relatórios estão limpos. Nada.” A voz dele estava rouca; não apenas de exaustão, mas de frustração. Era um pouco mais jovem que Theodore e passara a carreira inteira perseguindo-o, apenas para bater sempre na mesma parede impenetrável. E não, ele não era burro, sabia que havia traidores ao seu redor. Mas uma traidora como Daisy? Ele nunca a veria chegar.

“É só mandar uma patrulha para a fronteira norte”, sugeriu Daisy, sem tirar os olhos do documento.

“Você acha que a remessa vem do norte? Acho mais inteligente passar o produto pelo corredor leste...” murmurou Peter. Ele sabia. Mas Daisy tinha suas ordens: desviar o foco da polícia.

“Não faço ideia do que passa na cabeça de Vanderbilt. Desculpe.” Sua voz saiu firme, sem trair nada. Uma mentira perfeita.

“Talvez você esteja certa...” Peter suspirou, esfregando a ponte do nariz. “Tudo bem. O Oliver varre o norte amanhã. Se estiver limpo, viramos para o leste no dia seguinte.”

Vitória. A remessa chegaria pelo leste amanhã. A cabeça de Daisy latejava levemente por causa do vinho da noite anterior. Ela se levantou, alinhando cuidadosamente a pilha de papéis contra a borda da mesa.

“Vou pegar um café. Quer alguma coisa?”

“Não, obrigado, Daze. Estou bem.”

Daisy saiu do escritório, os saltos ecoando secamente contra o mármore frio do corredor. O ar ali cheirava a desinfetante, poeira e tensão. Oliver já estava na máquina de café, ajustando o cinto de serviço com uma mão enquanto apertava os botões com destreza:

“Americano. Duplo de açúcar.” Seu rosto normalmente aberto e simpático estava tenso de preocupação.

“Você está tá meio aérea hoje”, disse ele, entregando-lhe uma xícara. Seu olhar — quente e sincero — carregava uma preocupação genuína. Um verdadeiro amigo naquele ninho de víboras.

“É... Vi alguém ontem à noite”, respondeu Daisy, aceitando o café. O calor da xícara aqueceu brevemente seus dedos gelados.

“Quem?”, perguntou Oliver.

Foi então que o caos irrompeu na outra extremidade do corredor. Uma voz alta e o protesto de Emma, a pequena e magra oficial de plantão de cachos selvagens:

“Você não pode entrar aí! Área restrita!”

“Eu conheço alguém aqui! A promotora Daisy Lockwood!” A voz era ousada, brilhante como cristal se estilhaçando. Familiar.

“Srta. Lockwood!” Emma, ainda tentando segurar a manga do intruso, lançou a Daisy um olhar suplicante. “Este jovem afirma ser seu parente!”

Mãe de Deus...

“Daze, quem é esse? Você conhece ele?”, perguntou Oliver, tenso, tomando um gole do café sem olhar para a xícara.

“Daze! Diz pra eles me deixarem passar!” Ash se soltou do aperto de Emma no instante em que Daisy assentiu. Seu olhar era venenoso o suficiente para fazê-la recuar.

Então, num instante, o rosto dele se transformou. Um sorriso largo e deslumbrante surgiu. Ele saltitou até Daisy, ajustando a camisa que estava negligentemente jogada sobre a regata branca. Vibrante como um papagaio em um reino de corvos.

“Ei, mana!” cantarolou ele. “O papai disse que tem um assunto urgente com você!” Sua voz era melodiosa e deliberadamente alta, atraindo todos os olhares do corredor.

‘Mana? Papai? Ash havia decidido que agora eram família? Jesus Cristo.’

As sobrancelhas quase invisíveis e loiras de Oliver subiram pela testa, formando pequenas rugas de confusão.

“Esse é seu irmão?”, perguntou ele. “Eu achava que você era filha única.”

“É... Primo”, respondeu Daisy entre dentes cerrados. A fúria — quente e irregular — ameaçava rasgar o caminho para fora, mas ela a esmagou no punho. Sua máscara de pedra nem sequer tremeu. “Escuta, Ash...” Sua voz permaneceu controlada, apenas um tom mais baixo que o habitual. “Estou trabalhando. Não tenho tempo para você nem para o papai. Conversamos depois. Fora do expediente.”

“Quando?”, perguntou Ash, inclinando a cabeça com ar brincalhão.

“Depois do trabalho, ama...”

“Eu espero aqui mesmo!” Ele a interrompeu como uma criança birrenta, agitando as mãos com floreios teatrais. Os nós dos dedos de Daisy ficaram brancos. Oliver percebeu e franziu ainda mais o cenho.

“Ash. Vá para casa”, disse ela, fria como uma lâmina.

“Eu não vou dar trabalho! Só vou ficar sentado. Quieto como um ratinho.” Ele girou com graça e se jogou em uma das cadeiras de plástico barato alinhadas na parede, cruzando as pernas como se fosse dono do lugar. Sua presença era um borrão chamativo e ligeiramente vulgar de cor sobre a tela cinzenta da delegacia.

Oliver, percebendo que ainda segurava o café de Daisy, mudou o peso do corpo, constrangido.

“Merda, espera aí, vou pegar outro pra você.” Ele voltou para a máquina de café, evitando propositalmente olhar para o “irmão”. Drama familiar não era o estilo dele.

“Ash.” A voz de Daisy ficou perigosa.

“É um assunto muito importante!” cantarolou Ash de sua cadeira, estudando o teto. Seu sorriso era um desafio.

Daisy fez uma pausa. Seu olhar glacial percorreu o modo como ele se esparramava sem cuidado, depois o rosto cauteloso de Oliver.

“Tudo bem”, disse ela suavemente, cada palavra cristalina no silêncio do corredor. “Faça o que quiser. Vou trabalhar até tarde.”

Ela se virou e voltou para a sala de Peter, deixando Oliver atrapalhado com a máquina de café e Ash saboreando sua vitória descarada, esparramado naquela cadeira feia de plástico sob as luzes piscantes da delegacia. O dia tranquilo estava oficialmente arruinado.

‘Deus, como ele é irritante.’ O pensamento a atravessou, afiado como uma lâmina. A vida havia jogado esse “irmão” à sua porta, invadindo seu último santuário; a promotoria. Os brinquedinhos antigos de Theodore nunca haviam cruzado aquela soleira; era arriscado demais, inútil demais. Aquele era seu último reduto.

Ela havia torcido para que aquela praga de voz doce não durasse nem meio dia. Que o tédio o afugentasse. Chegara até a se oferecer para fazer hora extra — qualquer coisa para adiar o confronto com a realidade.

Mas quando finalmente saiu, o pôr do sol a acertou como um soco. O céu ardia em laranja atrás dos dentes irregulares do cânion, projetando sombras em violeta e negro. O ar estava denso de poeira e da promessa da noite. E lá, na mesma cadeira de plástico, estava Ash.

Sua coluna — normalmente reta como uma régua — estava curvada, quase como a de uma criança. O rosto enterrado entre os joelhos, os dedos entrelaçados nos cabelos escuros. O entusiasmo performático havia desaparecido; em seu lugar, restava um cansaço silencioso e abatido. Um momento roubado de honestidade, sangrando no crepúsculo.

Ele se endireitou bruscamente ao som dos saltos dela. O sorriso deslumbrante voltou instantaneamente. Uma máscara impecável.

“Meu celular morreu!” A voz dele soou melodiosa, apenas um tom mais baixo que o habitual. “Não tinha tomada em lugar nenhum. Mas...” Ele acenou com a cabeça na direção do pôr do sol. “Valeu a pena. Parece cena de filme.”

“Vamos”, disse Daisy, ajustando a alça da bolsa. Sua voz soou mais calma do que ela realmente se sentia. “Conversamos no carro.”

No estacionamento, sua Chevelle tinha companhia: um Alfa Romeo Spider Duetto 1967; elegante, baixo, vermelho-sangue. Um carro de conhecedor, cheio de curvas suaves e classe discreta. Theodore teria escolhido algo dourado e chamativo.

“Seu?” Daisy ergueu uma sobrancelha. “Presente do papai?”

“O papai ajudou. Mas fui eu que escolhi ela.” Ash deslizou a mão sobre o capô, um brilho de orgulho aparecendo no sorriso.

Dentro do carro, o cheiro de couro envelhecido era rico e marcante. Ash deslizou para trás do volante — então inspirou bruscamente quando as costas encostaram no banco. A dor contorceu seu rosto por um segundo antes que ele a apagasse.

“Noite difícil?” A voz de Daisy pingava um divertimento gelado. Os analgésicos claramente haviam perdido o efeito. Ela não fazia ideia de quão fundo ia o “afeto” de Theodore.

“Perfeita”, respondeu ele entre dentes, ligando o motor. O ronco grave engoliu o silêncio.

“Vá direto ao ponto, Ash. O que ele quer?” Ela olhou para as janelas da promotoria. Ainda havia olhos curiosos demais por ali.

“Nada de mais, mana.” Ele verificou o retrovisor — hábito ou paranoia? “Só um lembrete. Disse que você tem... esquecido de responder.” A palavra “mana” arranhou como vidro sob as unhas.

“Sábado. No Dunes Golf Club. Uma festa em família com os... amigos dele.” O tom de Ash ficou profissional. Daisy quase riu. Uma reunião familiar de mafiosos, emparelhando herdeiros como gado premiado. E ela era o lote em leilão.

“Diga a ele que eu não posso.” Ela estendeu a mão para a porta.

A mão dele segurou sua manga de leve, mas insistente. Pela primeira vez naquela noite, os olhos de Ash carregavam algo incerto. Quase suplicante. Theodore não tolerava más notícias.

“Ele mandou lembrar você... sobre a Promessa.” Ash pronunciou a palavra com maiúscula, alheio ao seu peso.

Daisy congelou. A Promessa. Theodore era dono da cidade e de suas paredes invisíveis, a gaiola dourada dela. Por anos, ele a mantivera ali, como herdeira e refém ao mesmo tempo. Um único fio de liberdade: obedecer, e um dia ele a soltaria. Sem escândalos, sem ameaças. O futuro dela estava fechado no punho dele.

“Tudo bem”, sussurrou ela, a voz se desfazendo. Os dedos de Ash soltaram sua manga.

“Dez da manhã. Não se atrase.” O Alfa ronronou ao ganhar vida e se dissolveu na escuridão violeta.

Sozinha, Daisy inspirou o cheiro persistente de couro caro. O vazio que Ash deixou para trás era mais pesado do que a presença dele havia sido. Ela estava acorrentada à vontade do pai, exatamente como a maldita cidade.