O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 2 (2/8)
Cisne, Anna – Parte 2.
Sehyun riu sem jeito enquanto perguntava novamente. Com a sua pergunta, os aldeões olharam uns para os outros e, em seguida, caíram na gargalhada.
— Não conhece demônios e tampouco cisnes? Bem, já que são do continente oriental, suponho que isso faça sentido. Não é nada complicado. Por aqui chamamos de “cisnes” as pessoas que descem do céu.
— Não exatamente. Cisnes não têm asas.
O coração de Anna palpitou alto. Ela e Sehyun perceberam instintivamente que “cisne” se referia a viajantes dimensionais como eles. Quando vieram a este mundo pela primeira vez, tiveram a sorte de cair em uma floresta isolada, onde ninguém os vira.
— Não é como um anjo caído, que perdeu as asas após cometer um pecado e foi lançado dos céus? É por isso que podem ser pareados com demônios.
— Se somos cisnes, então isso significa que três anjos já caíram dos céus.
— Oh, meu Deus, é o fim dos tempos!
Com a piada calma de Anna, o carpinteiro caiu na gargalhada e deu um tapa na própria coxa.
Embora Anna e Sehyun tentassem brincar com a situação, estavam profundamente abalados com a ideia de outros viajantes dimensionais. E ficavam ainda mais inquietos pelo fato da Marquesa ter o rosto de alguém do continente oriental, assim como eles.
Se o que os aldeões diziam fosse verdade, e a Marquesa tivesse retornado aos céus — o mundo deles —, então talvez a resposta estivesse oculta na propriedade Lohengrin.
Agarrando-se a essa esperança, os dois partiram para a propriedade Lohengrin ao amanhecer do dia seguinte. Não sabiam se o que os aguardava era um farol de esperança ou apenas a isca brilhante de um peixe-lanterna.
Embora seu corpo estivesse mole e pesado como algodão encharcado, os olhos de Anna se abriram subitamente. A escuridão ainda a saudava, mas o silêncio mortal indicava que era o auge da madrugada.
Ela piscou lentamente. A fadiga a atingia em ondas. Ao contrário da dura e estreita cama de palha reservada às criadas, aqui, penas macias e algodão embalavam seu corpo exausto com infinita gentileza. O conforto a convidava a mergulhar de volta no sono.
As memórias retornaram uma a uma como uma luz vacilante, até que a última lembrança antes de desmaiar retornou por completo.
Assim que se recordou de tudo, Anna sentou-se às pressas. Estava nua, e ao seu lado jazia um homem enorme, também nu, com o braço estendido sobre sua cintura.
O que estava sob ela estava manchado com os vestígios do clímax dele. Sua pele pálida estava coberta de mordidas e hematomas, marcada a ponto de doer só de olhar. Era impossível imaginar o que mais lhe fora feito enquanto estava inconsciente.
Seu rosto queimou de vergonha e medo. Incapaz de se obrigar a olhar para o rosto do Marquês, ela deslizou cuidadosamente para fora da cama. Apoiando-se nas pontas dos pés, cada passo que dava fazia seus calcanhares pálidos tremerem no ar.
Encontrou suas roupas espalhadas pelo chão e apressadamente as vestiu. Sua roupa íntima e calçolas estavam rasgadas, mas, felizmente, seu uniforme de criada estava intacto.
Sua cintura doía e suas pernas tremiam, mas ela se apressou. Precisava sair daquele quarto rapidamente. Queria fugir daquele lugar onde abrira as pernas para o Marquês e gritara em êxtase.
Rothbart mexeu-se no sono. Aterrorizada à ideia de encontrá-lo desperto, Anna recolheu seus pertences às pressas e fugiu do quarto.
Ao sair em pânico, seu olhar se prendeu ao retrato da Marquesa acima da lareira. No breu, ela não conseguia distinguir os traços suaves da pintura, mas parecia que a mulher no quadro sorria de forma estranha.
Como se estivesse zombando do marido e da criada que haviam copulado sob sua imagem.
É apenas uma ilusão. Anna sacudiu a cabeça com força. Não fora da sua vontade, ela também era vítima, mas ainda assim sentia uma culpa estranha pesar sobre seus ombros.
O que a encontrou fora do quarto foram as três luas brilhando intensamente pela janela. A luz delas caía sobre ela como uma lâmpada de interrogatório. Sob aquele brilho impiedoso, que parecia lançar seus pecados diante dela, Anna mordeu os lábios inchados com força e correu pelo corredor banhado pelo brilho das três luas. Ela não desejava nada mais do que acordar daquele pesadelo.
Se alguém a visse naquele estado deplorável, como ela poderia se explicar? Felizmente, o corredor estava vazio. Graças a isso, Anna conseguiu retornar aos seus aposentos sem ser vista. Devia ser muito tarde, pois as outras criadas já estavam dormindo.
Soltando um suspiro de alívio, Anna rastejou para sua cama e puxou o cobertor até a cabeça. O doce aroma do incenso ainda impregnava seu nariz, deixando-a tonta. Talvez tivesse penetrado fundo nos cantos do seu cérebro que ainda não desapareceu por completo.
Aquela foi a sua primeira vez. Ela não tinha grandes fantasias a respeito disso, mas nunca imaginou que seria drogada e forçada a isso com um homem cujo rosto ela mal conseguia ver.
Mas não havia tempo para desespero. Um problema mais urgente lhe pesava a mente.
“E se alguém descobrir que entrei no quarto proibido?”
O Marquês estava drogado. Enxergou nela o rosto da Marquesa ao dela, então ele não conseguiria lembrar de sua verdadeira aparência…
Mas enquanto permanecesse no Túmulo do Cisne, ela estava ao alcance dele. Mesmo que ele não procurasse a criada que convenientemente desapareceu naquele momento, apenas um fio de seu longo cabelo preto, deixado para trás naquele quarto, seria suficiente para identificá-la. Sem mencionar os vestígios do acasalamento que ainda permaneciam no quarto. Deduzir a verdade a partir das pistas que havia deixado descuidadamente seria mais fácil do que o Marquês contar as linhas da própria mão.
“Se o Marquês descobrir… ele jamais vai me deixar viva.”
Recordando a devoção cega dele diante do retrato da Marquesa e a ferocidade que mostrará ao perceber uma intrusa, Anna tinha certeza de que não haveria perdão para quem profanasse aquele quarto.
“Seria melhor fugir da mansão…?”
Anna balançou a cabeça rapidamente. Por que ela havia entrado naquela mansão em primeiro lugar? Para encontrar um caminho de volta ao seu mundo original.
Mesmo que ninguém estivesse esperando por ela…
Seu pai morreu em um acidente quando ela ainda estava no ensino médio, e depois de ingressar na universidade, sua mãe adoeceu. E poucos meses atrás, sua mãe perdeu a batalha contra a doença e o descanso eterno chegou.
Anna era filha única, distante de outros parentes. Por causa da doença da mãe, ela passou os dias alternando entre empregos de meio período e o hospital, sem tempo para amigos. O único com quem tinha algum laço era seu namorado Sehyun, e até ele havia caído neste mundo com ela.
Diferente de Sehyun, o precioso filho mais velho de sua família, não havia ninguém para procurar por Anna se ela desaparecesse. Na verdade, ela poderia viver naquele mundo e nada mudaria.
Porque todas as suas memórias estavam lá.
Ela mesma havia escolhido o lugar de descanso dos pais. Então, quem escolheria o túmulo de Anna? No fim, apenas a própria Anna poderia decidir. E ela havia escolhido o columbário ao lado do de seus pais como o local de seu próprio descanso.
Anna amava seus pais. Por isso que ela sempre se reprimia por causa deles. Até mesmo sua escolha de universidade fora um compromisso feito em consideração à eles.
A primeira coisa em sua vida que ela havia escolhido para si mesma foi seu próprio túmulo. Não permitiria que nem mesmo uma viagem dimensional lhe roubasse esse direito.
Era por isso que Anna havia arriscado tudo para vir para o Túmulo do Cisne. Mesmo sabendo dos rumores sombrios sobre o lago tingido de sangue a cada ano e dos cadáveres arrastados para fora, não hesitou.
“Em vez de viver nesta terra estranha, prefiro morrer tentando voltar para meu mundo. De qualquer forma, não é como se eu tivesse desejado viver tanto assim…”
Os olhos de Anna endureceram com determinação. Ainda assim, como a morte a apavorava, repetiu o pensamento incessantemente como um mantra, como se estivesse tentando fazer uma lavagem cerebral em si mesma.