Testemunha Perfeita - Capítulo 7: O Broto
Daisy parou no vão da porta do quarto. A cama. Sua grande cama imaculada. O ar ali era diferente — mais frio, mais vazio… e, ao mesmo tempo, não era. Estava impregnado dele. Do shampoo dele, da pele dele. Um cheiro sutil, fugidio, mas loucamente persistente. Ontem, aquele aroma tinha sido uma invasão irritante. Agora… agora ele provocava um arrepio que percorria sua pele e um aperto traiçoeiro bem baixo em sua barriga. Ela não havia trocado os lençóis. Não havia apagado o rastro dele.
Os homens de Theodore haviam levado as coisas de Ash enquanto a “família” se divertia no clube de golfe. Por um lado, ele fizera a coisa certa: desaparecera em silêncio, sem fazer cena. Por outro… ele a deixara sozinha para se afogar nas consequências de seus atos.
Daisy girou nos calcanhares e pegou o primeiro terninho do armário, impecavelmente passado. Vestiu a calça, a blusa, abotoou os botões com a eficiência de sempre, mas os dedos tremiam. O coque estava um pouco mais bagunçado que o habitual — um grampo havia escorregado e ela nem se deu ao trabalho de consertar.
Um toque insistente. O celular do trabalho. Daisy se sobressaltou, deixando cair um brinco. A tela acendeu: Oliver Shaw.
Ela atendeu, levando o aparelho ao ouvido. A própria voz soou estranha aos seus ouvidos.
"Daisy? Onde você está? Já está meia hora atrasada. O Peter está te procurando por causa daquele caso do cheque falsificado de ontem. Ele precisa dos arquivos."
A voz de Oliver era gentil, mas carregada de preocupação. Para ele, era impensável ver Daisy Lockwood atrasada.
Ela ficou imóvel. Tinha dormido demais. Pela primeira vez na vida. Por causa de uma noite de insônia repleta de imagens cortantes: o pôr do sol dourado na tenda médica, as lágrimas de Ash, os lábios dele nos dela, a sombra de Theodore. Porque seu corpo, exausto pelo estresse e pela explosão emocional, simplesmente havia desligado.
"Eu…" Sua voz falhou. Ela tossiu. "Estou a caminho. Trânsito. Chego em vinte minutos."
Uma mentira. Suave como gelo. Mas por dentro, tudo desabou. Mais um fracasso. Mais uma rachadura.
"Tá bom, não corre. Se cuide" disse Oliver, e o tom dele carregava exatamente aquele tipo de preocupação paternalista que sempre a irritava. Hoje, cortou como uma faca. Se cuide. Se ao menos ele soubesse do quê. Do seu pai monstruoso. Do amante atormentado dele. De si mesma, que havia perdido completamente o controle.
Ela jogou o celular na bolsa. Pulou o café da manhã. Só de pensar em comida, o estômago revirava. Em vez disso, deu um gole longo de água gelada do bebedouro, que queimou ao descer pela garganta. O espelho do elevador refletiu sua imagem: rosto pálido, olhos ligeiramente fundos, terninho perfeito, coque bagunçado. Uma ordem perfeita por fora, o caos absoluto por baixo.
O carro ronronou ao ligar. Ela saiu da garagem subterrânea para a manhã ofuscante. O ar-condicionado soprava ar gelado, mas não conseguia apagar o cheiro. Não era o cheiro de sua cobertura — era o cheiro do carro de Ash. O mesmo de ontem. Uma mistura de aromatizador barato, couro e algo mais… ele. Insistente. Assombrando. Como tudo o que dizia respeito a ele. Ela baixou o vidro, deixando entrar o ar escaldante, mas o aroma parecia impregnado no estofado, nas roupas, na memória.
"Eu odeio esse cheiro" sibilou ela para dentro do carro vazio, mas as palavras soaram falsas. Odiar? Ou será que tinha medo de gostar? Assim como tinha gostado do cheiro dele nos lençóis. Assim como a lembrança do beijo que ainda queimava em seus lábios.
Ela dirigia para o escritório da promotoria, para sua mesa, seus arquivos, para Peter Miller, que sonhava em pegar seu pai. Medo e confusão pesavam sobre seus ombros como uma capa pesada, mais pesada que qualquer terno que Theodore pudesse comprar. Os lençóis frios em casa agora pareciam um presságio de um vazio muito maior e gelado que desceria sobre ela se não conseguisse se recompor. E descobrir como viver num mundo onde os únicos sentimentos capazes de quebrar seu gelo eram o medo e uma atração proibida pelo amante do próprio pai.
O escritório da promotoria a esperava. Mas, pela primeira vez na vida, Daisy Lockwood não sabia qual papel interpretar.
"Ei, Dais…" Oliver cutucou gentilmente o braço dela com o garfo, como se testasse se ela ainda respondia a estímulos.
Daisy estava sentada de lado na cadeira, encostada na parede fria de pedra da sala de descanso dos funcionários. Seu olhar vagava pelas vigas do teto.
"Ah… só coisas de família" respondeu ela, dispensando o assunto.
As palavras deixaram um gosto amargo e nojento em sua língua.
Oliver suspirou fundo, tentando compreender a situação. Arrastou o garfo pelo prato quase vazio de omelete, escolhendo as palavras com cuidado.
"É por causa do seu… irmão que está visitando?"
Daisy encerrou a conversa com um único olhar — vazio, pesado e impiedoso. O oficial Shaw soltou mais um suspiro.
Ele hesitou, claramente pesando o que diria em seguida.
"Ele… passou aqui hoje de manhã. Enquanto você estava na reunião." Oliver olhou para ela novamente, cauteloso. "Não estava com uma cara boa. Tinha os olhos arregalados, estava agitado. Perguntou por você e insistiu bastante."
O coração de Daisy despencou. Ash. Ali. No coração da sua fortaleza. No escritório da promotoria. Procurando por ela. Depois de ontem… O que ele queria? Explicações? Acusações? Outro beijo? Ou… Theodore teria feito alguma coisa? Será que ele tinha corrido até ali como último refúgio?
"E…?" A voz dela saiu num sussurro rouco. Sua mão apertou o copo plástico até o material ranger.
"Eu… eu disse que você não estava se sentindo bem. Que estava… fora de si" falou Oliver devagar, escolhendo cada palavra. "Ele insistiu. Disse que era importante. Mas eu… eu vi você saindo ontem. Vi sua cara hoje de manhã. Achei que… você não ia querer vê-lo. Não agora." Ele engoliu em seco. "Eu o mandei embora. Educadamente, mas firme. Falei para ele esperar você ligar."
Alívio. A primeira onda veio forte e doce. Oliver a havia protegido. Poupara-a de um confronto terrível ali, naquele momento. Suas defesas estavam destruídas demais para aguentar Ash hoje. Ela apenas assentiu, incapaz de agradecer em voz alta. Apenas assentiu.
"É que eu nunca te vi assim antes."
"Acho que… pensando em outra coisa que não seja trabalho."
Ele se inclinou para frente, apoiando os braços sobre a mesa.
"Eu acho perigoso misturar relacionamento com trabalho. É melhor separar as coisas. Tipo trocar de roupa, sabe? Olha só!" Ele puxou a barra da farda azul-escura. "Agora mesmo, eu sou o Oficial Shaw. Em casa, para o Ricky, sou o dono carinhoso. Para a minha mãe, o filho obediente. Para a Alexa, o irmão chato. Então é só aprender a trocar de papel."
Havia um grão de verdade no que ele dizia. Se Ash fosse apenas um “irmãozinho” e não uma farpa cravada em sua carne…
Era mais fácil simplesmente esquecer, se distrair, enterrar-se no trabalho, pegar hora extra. A moça passou por cima da cadeira e ajeitou a calça.
Oliver sorriu, satisfeito por ter conseguido lhe dar um pouco de ânimo.
Ela cumpriu a promessa que havia feito a si mesma: ficou uma hora a mais, chegou mais cedo. Sem fins de semana, sem pausas. Tentou não pensar no que havia acontecido no clube de golfe, em Theodore e nos problemas dele. Até ter instruções claras, não se envolveria.
Mal percebia as coisas por causa do cansaço. Às vezes esquecia onde deixava os objetos, até as coisas mais simples. O cheiro de Ash havia impregnado tudo — a colônia, a pele. Até os lençóis lavados ainda exalavam um aroma que a lembrava dele.
Por outro lado… de certa forma, aquilo a acalmava. Envolvia-a antes de dormir.
Uma semana se passou. Lockwood saiu do carro arrastando os pés quando sentiu o celular vibrar dentro da bolsa.
Margarete. De novo. Daisy soltou o ar, preparando-se mentalmente para mais um monólogo da atriz egocêntrica. Levou o telefone ao ouvido e foi imediatamente atingida pela torrente estridente de sempre:
"Oi, Dais! Adivinha! O Sr. Lisowski me deu o papel principal! Estou tão feliz!" guinchou ela como um filhote empolgado.
"Sério?" murmurou Lockwood, com a voz sem vida. "Parabéns."
"Sim! As filmagens começam na semana que vem! Estou tão nervosa! Minha personagem…"
A garota já não estava mais escutando. Automaticamente, como um robô, subiu as escadas arrastando os pés.
Lutou com a chave, quase caindo para dentro do apartamento quando a porta finalmente cedeu. Suas pernas mal sustentavam o corpo, os músculos ardiam em fogo. Ela parou, examinando o corredor. Alguma coisa estava errada. Um pano de chão jazia no piso — um que ela parecia ter deixado cair enquanto limpava… mas será que ela havia limpado nos últimos dias? Seu olhar deslizou até a mesa e congelou.
Havia algo ali. Escarlate. Ardendo como brasa.
"Margarete, desculpa. Depois eu te ligo." Ela encerrou a chamada abruptamente.
Amarílis. Lírio-vermelho. Uma flor vibrante, de beleza impressionante, perfeitamente aberta, repousava no centro da ilha da cozinha. Daisy se aproximou devagar. Tocou uma pétala fria e ela era como seda viva nos dedos.
A única cópia da chave estava com Ash.
O coração de Daisy se contraiu — se de alegria, medo ou raiva, ela não saberia dizer. Mas uma vibração agradável subiu desde os calcanhares até o topo da cabeça. Ela pegou o vaso de cerâmica vidrada com as mãos só para ter certeza de que era real.
Seu olhar deslizou novamente para o natureza-morta desconhecida. Ali, no escorredor de pratos, havia um prato simples, branco, de barro, com um padrão de borboletas no fundo. Exatamente o mesmo do qual ela o alimentara com mingau quando ele, pálido e sem forças, desabara diante dos seus olhos. Ela se lembrava do peso da cabeça dele em seu braço, da fraqueza com que ele engolia. O prato estava impecavelmente limpo. Lavado até brilhar.
Quase com um sentimento supersticioso, Daisy pegou o vaso com o “Red Lion”. Estava morno, como algo vivo. Subiu as escadas até o segundo nível, para a área de dormir — um espaço aberto com a cama, armários embutidos e uma janela panorâmica que dava vista para a cidade noturna. Colocou a flor no criado-mudo ao lado da cabeceira. Um reflexo escarlate caiu sobre os lençóis branco-neve. O contraste era gritante, bonito e até perturbador.
Queria tirar os sapatos, desabar na cama e mergulhar no esquecimento, mas seu movimento parou no meio do caminho. Seu olhar se prendeu na pequena lixeira elegante ao lado do criado-mudo. De manhã ela estava vazia — ela mesma havia jogado fora os papéis. Agora… continha várias bolinhas de guardanapos de papel amassados. Jogados de qualquer jeito. Três, talvez quatro. Não estavam vazios. No centro de cada um, uma mancha distinta. Branco leitosa. Parecia pegajosa mesmo na penumbra.
O tempo parou. O ar escapou dos pulmões de Daisy num silvo agudo e ardente.
“Ele estava chorando?”, foi o primeiro pensamento ingênuo que surgiu, logo esmagado pelo martelo gelado da realidade.
A imagem invadiu sua mente com uma clareza cruel e repugnante. Ele tinha estado ali. No quarto dela. Na cama dela? Perto da cabeceira, onde agora repousava aquela flor sangrenta. Ele… havia se masturbado. Olhando para o travesseiro dela? Para as coisas dela? Respirando o cheiro dela? Pensando nela? Nela, Daisy? Naquele beijo? O mesmo calor que ele lhe dera sem querer, ele havia derramado ali, no santuário dela, dentro daqueles guardanapos.
Uma náusea subiu pela garganta. Não era ternura, nem tristeza — era uma onda afiada e queimante de nojo misturada com outra coisa. Algo sombrio, pulsante, vergonhoso. Sexual. As imagens que ela tentara queimar da memória — o corpo dele, os gemidos na tenda médica, as mãos dele — voltaram com força renovada, fundindo-se com essa nova e profanadora visualização. Ele a estava enlouquecendo. Não com a vulnerabilidade fingida, nem com a paixão falsa. Estava enlouquecendo-a com aquela presença física descarada, suja e real, com o seu jogo. Ele não estava brincando apenas com os sentimentos dela. Estava brincando com o corpo dela, com o espaço dela, com a solidão mais íntima dela. E, em algum lugar bem fundo, por baixo das camadas de gelo e nojo, uma pergunta se contorcia, uma que ela queria gritar: e se isso não fosse apenas um jogo? E se nessa sujeira houvesse um grão do desejo verdadeiro e pervertido dele?
Ondas geladas de raiva e uma estranha, traiçoeira admiração pela audácia dele travavam batalha dentro de Daisy como uma tempestade dentro de uma garrafa. Ele havia ousado. Ousado entrar na casa dela, deixar sua marca suja no espaço mais íntimo dela, dar-lhe uma flor — símbolo dela na imaginação distorcida dele — e… isso. Os guardanapos. A prova de que ele pensava nela daquela forma. Que havia usado o quarto dela, o ar dela, a cama dela para as suas… necessidades.
"Não" a palavra cortou o caos dos pensamentos dela, dura como diamante. Ela não permitiria que ele a manipulasse. Não se deixaria transformar em objeto das fantasias doentias dele. Esse era o jogo dela. As regras dela. O território dela.
Com cuidado, quase com ternura, ela ajeitou uma pétala da amarílis no criado-mudo — um troféu brilhante de sua vitória involuntária sobre o coração dele? — e virou-se bruscamente. Desceu as escadas em poucos segundos. Os sapatos de salto — armas, não enfeites — ecoaram alto no mármore do hall. Chaves, casaco no ar, a batida forte da porta — e ela já corria para o carro, negro e frio como sua determinação. Ela o encontraria. Agora. E explicaria de uma vez por todas. Ele não tinha direito. Nem ao espaço dela, nem aos pensamentos dela. Ele era propriedade de Theodore, um brinquedo temporário, e precisava aprender seu lugar. Na periferia. Fora das paredes dela.
Ela abriu a porta de entrada do prédio com um puxão — e congelou, pregada no lugar.
Na calçada, sob a luz fraca de um poste, estava a vizinha do andar de baixo, a Sra. Lang, eternamente curiosa e faladeira. E ela sorria docemente para… Ash. Ele estava ao lado dela, cabeça ligeiramente inclinada, ouvindo algo, o cabelo preto brilhando sob a luz, o rosto exibindo aquele mesmo meio sorriso suave e desarmador. Na mão, carregava uma sacola de uma loja gourmet cara.
Ao vê-la, ele abriu um sorriso deslumbrante, de lábios cheios, erguendo a sacola como um troféu.
"Ei, Dais!" A voz dele soou relaxada, quente. "Vim pagar a dívida. O jantar é por minha conta hoje. Você não se importa, né?"
Daisy sentiu o sangue subir para as têmporas. Ele… não tinha ido embora? Tinha esperado? Armado uma emboscada? E agora fazia aquele teatrinho ridículo para a vizinha? Uma raiva fria, afiada e pura a invadiu, expulsando o constrangimento e os resquícios daquela ternura tola. Ela deu um passo à frente, queixo erguido. A calma glacial — sua melhor armadura.
"Ash" a voz dela cortou como um diamante. "Quem te deu o direito de vir aqui sem avisar? E, principalmente, de entrar na minha casa quando eu não estou?"
Ele não se abalou. Nem um pouco. Pelo contrário, um brilho travesso acendeu nos enormes olhos verde-mar dele.
"Na verdade, foi você" rebateu ele com a mesma facilidade casual e irritante. "Você mesma disse: “Se você se sentir mal de novo, Ash, pode vir. Fica comigo.”" Ele imitou o tom dela, não com maldade, mas com um ar brincalhão. "Pois é, aqui estou. Vou ficar." Ele deu um passo em direção à entrada, passando pela Sra. Lang, que estava boquiaberta. "Não vou demorar, juro. O Theo me chamou para ir lá hoje à noite…"
A palavra atingiu Daisy com uma força gelada e ofensiva. Como um balde de água fria jogado sobre o fogão em brasa da sua raiva. “Theo”. Não “Sr. Vanderbilt”. Não “meu pai”. “Theo”. Com a familiaridade íntima usada apenas por… amantes. Velhos, acostumados um com o outro.
Toda a sua raiva justa, toda a sua determinação em expulsá-lo, todas as suas “regras” — desabaram num instante. Substituídas por algo afiado e queimante. Ciúme. Sujo, humilhante, apertando sua garganta. A imagem: Ash lá, no apartamento do pai dela. Hoje à noite.
Ela ficou parada na calçada, cerrando os punhos com tanta força que as unhas cravaram nas palmas, observando enquanto ele, ainda sorrindo, já segurava a porta do prédio aberta. A Sra. Lang olhava para ela com curiosidade e leve reprovação — como alguém podia ser tão grossa com um rapaz tão simpático?
"Dais?" Ash se virou no limiar da porta, o olhar de repente sério, quase… compreensivo. "Você… vai entrar? Ou quer que eu prepare esse nosso jantar sozinho?"
Ele sabia. Maldito, ele sabia exatamente o efeito que aquele “Theo” causava! O jogo continuava. E agora ele a flanqueava, atacando bem no ponto fraco — aquela necessidade recém-descoberta e torturante de ser a única para ele. Mesmo que fosse mentira. Mesmo que fosse um jogo.
Como se estivesse paralisada, Daisy viu a porta se fechar atrás dele. Ele estava dentro. De novo. Com compras. Com um sorriso. Com o nome do pai dela nos lábios. E com o ciúme dela como troféu.
O aroma de cardamomo e carne cozinhando derreteu o gelo no peito de Daisy. Ela deixou a raiva para depois, afinal, seu corpo exigia comida. A garota permaneceu em pé junto à ilha da cozinha, braços cruzados como uma armadura de ressentimento gelado. Mas por dentro… algo diferente fervilhava. O calor do fogão, a luz suave dos lustres, o ritmo constante da faca cortando… Seu mundo estéril de repente ganhara vida. Ele havia transformado a fria toca de gelo num lugar que cheirava a torta de maçã e segurança. Era perigoso. Sedutor.
Ele colocou um prato diante dela. Parecia simples: vitela sob uma crosta crocante de parmesão, ratatouille e um molho que ardia nas narinas. Ela cortou um pedaço e ficou atônita. O sabor explodiu na língua: pimenta chili, mel, vinagre de vinho… Divino. Um gemido involuntário escapou de seus lábios. Seus olhos se fecharam por um instante.
"Está bom, né?" A voz dele soou perto, aveludada, tremendo de esperança. Muito tentador.
Ela abriu os olhos. O olhar dele capturou sua reação com uma ganância tão ingênua que o gelo no peito de Daisy rachou. Um aceno a traiu contra a própria vontade. Mas não perdoou.
"Por que toda essa encenação?" perguntou ela, afiada. "As flores, o jantar… É transparente demais."
"Eu não sei…" Um leve rubor tocou as maçãs do rosto dele. Ash passou a mão na nuca, parecendo ansioso. Daisy registrou cada detalhe: o suspiro nervoso, o tremor dos cílios. Ele estava sendo real. "Estou sendo idiota. Estou com vergonha. Só… não ri, tá?"
Ela se endireitou, o rosto uma máscara de indiferença. Pronta para ouvir.
Ash se levantou. Aproximou-se tanto que ela sentiu o calor da pele dele. Com um toque leve do dedo, pediu que ela se inclinasse. Um sussurro queimou sua orelha como vinho quente:
"Eu acho… que estou me apaixonando loucamente por você."
O hálito dele queimou seu pescoço, espalhando-se pelas clavículas e mais abaixo… Daisy estremeceu com violência.
Ele recuou, assentindo. Não havia nem uma sombra de brincadeira em seus olhos.
"Tá bom! Eu tenho que ir!" Ele vestiu a jaqueta de couro com um gesto brusco. Correndo de volta para ele. Para Theodore. As maçãs do rosto dele ardiam, os dedos tremiam na zíper. Hollow reprimia furiosamente a onda de emoção, mas Daisy viu.
O sedutor calculista havia desaparecido. Diante dela estava apenas um garoto, queimado pela própria confissão, sem saber o que fazer com aquele novo peso sob as costelas. Cada gesto gritava espontaneidade e dor.
O prato dele continuava intacto.
"Ash…" Daisy se encostou na parede, observando enquanto ele amarrava freneticamente os cadarços dos tênis. Sua voz soou como uma sentença: "Você pertence ao Theodore. Vamos esquecer que você disse isso."
Ele parou. Assentiu. Uma sombra de tristeza deslizou por seu rosto e logo se dissolveu no sorriso radiante e familiar de sempre. A porta se fechou com um clique suave. E no ar permaneceram o cheiro de especiarias… e o eco dolorido do sussurro dele.
Um silêncio opressivo voltou a dominar o apartamento.
Depois do banho, Daisy se aproximou do espelho, enrolando o cabelo molhado num toalha felpuda. Por entre as mechas recentemente tingidas de escarlate, as raízes castanho-claras teimavam em aparecer. Outra tintura em alguns dias, ela anotou mentalmente, soltando um longo suspiro.
As palavras de Ash ainda ecoavam em seus ouvidos como uma piada absurda, uma zombaria descarada. Apaixonado? Por ela?
Ela sabia muito bem que Oliver Shaw, o próprio policial, cultivava esperanças de um encontro. Mas ele via apenas a máscara: a promotora competente, fria e inflexível. Se descobrisse a verdade sobre seu pai, aquela admiração tímida viraria pó. E quem sabe? Talvez a sombra do cinismo do seu pai estivesse entranhada nela tão profundamente quanto aquelas raízes castanho-claras: sujeira genética sob o fogo artificial.