Testemunha Perfeita
April 30

Testemunha Perfeita - Capítulo 6: O Jogo de Golfe

A palma de Theodore desabou sobre a mesa como uma avalanche de gelo se estilhaçando. O som — baixo, ominoso, reverberando até os ossos — ecoaria no crânio de Daisy por horas.

“Daisy, minha preciosa.” A voz dele era um laço de veludo se apertando. “Não se meta nos meus assuntos.” Ele lançou um olhar rápido para o mordomo. “Frank, nos deixe.” O homem se curvou e foi engolido como uma sombra silenciosa pela pesada porta de carvalho do escritório.

Theodore se ergueu diante dela, um monólito dentro de sua camisa polo impecável. Seu olhar era um bisturi, dissecando. Daisy não recuou. Sua coluna era uma corda de violino. Seus olhos: a superfície congelada de um lago. Ela não era um animal encurralado; era um escudo-espelho, refletindo a fúria dele de volta contra si mesmo.

E ele… gostava disso. O canto de sua boca se contraiu num fantasma de sorriso antes que desviasse o olhar.

“O que meu bichinho estava fazendo na sua cobertura? E como ousa me desafiar?” A calma em seu tom apenas envenenava ainda mais as palavras.

“Ele veio me lembrar pessoalmente do jogo de hoje, pai. O Sr. Hollow entregou minha roupa de golfe.” A voz de Daisy era aço temperado. Sem desculpas. Sem tremor. Apenas fatos puros.

“E depois? Por que ele ficou quase uma semana sob o seu teto?” Ele andava de um lado para o outro, as mãos unidas atrás das costas. Um interrogatório. Mas Daisy conhecia as regras desse jogo de cor.

“Ele é jovem. Disse que eu parecia uma ‘irmã mais velha’ para ele.” O pensamento passou rápido: Theodore poderia ser o pai de Ash, não seu amante.

“Irmã…” Theodore bufou. “Típico do Ash. Um filhote insolente.” Daisy não queria imaginar que imagens distorcidas passavam pela mente dele, mas ele soltou uma risadinha baixa dentro do bigode.

Ele afundou na poltrona que parecia um trono. Os dedos grossos, carregados de anéis de sinete dourados, torciam o bigode grisalho. O couro rangeu em protesto sob seu peso.

“Daisy, você é minha base. Meu sangue. Não tolerarei fraqueza em você.” Ele se inclinou para frente. “Ash é minha… sobremesa. Só minha para servir e saborear. Se você precisar de… um alívio semelhante, é só dizer. Eu encontro uma réplica para você. Posso até mandar refazer o rosto dele, se preferir.” Sua expressão fingia preocupação paternal; uma pantomima grotesca na mente doentia dele. “Acredite, se ele estivesse realmente sofrendo, eu saberia. E se ele te incomodou…” O aço deslizou de volta para sua voz.

“Ele não causou problema nenhum. Chegamos a um entendimento.” Nem um lampejo de hesitação. Nenhum indício de que Ash estava danificado, machucado, quebrado. Theodore poderia reduzi-lo a pó e substituí-lo por um modelo mais novo, com especificações atualizadas. “Eu também, ocasionalmente, sinto vontade de conversar. Não se preocupe. Ele não é um peso, nem há… atração.”

“Hah…” Theodore soltou o ar. Seus olhos a atravessaram — espinhos venenosos sondando uma fortaleza de pedra. Lockwood está mentindo?, exigia o olhar. “…Ótimo.”

Ele comprou a mentira. Por enquanto.

“Mas lembre-se, querida.” O ar no escritório ficou mais denso, pressionando as costelas de Daisy. Ele se levantou, diminuindo a distância entre eles. “É assim que as coisas acontecem. Coloque-se em primeiro lugar… Você se lembra do seu peixe?”

O aquário. A memória a atingiu como um picador de gelo. O exterior de Daisy permaneceu impassível. Apenas suas pupilas se contraíram; pontinhos contra uma luz repentina e brutal. O frio da água. O peso esmagador do vidro. O peixe condenado. O rosto dele do outro lado, calmo. Observador.

Daisy se levantou. Mecanicamente. Theodore a seguiu, acompanhando-a até as portas de carvalho, escuras como a entrada de uma cripta.

“Estive pensando… Na Europa no ano que vem. É possível. Se você se sair de forma impecável, Srta. Lockwood.” Seu nome soou como uma sentença de morte.

A herdeira de cabelos vermelho-vinho assentiu, um único movimento preciso como uma lâmina. Então cruzou a soleira, deixando a sombra de seu pai apodrecer em sua toca de pedra.


O calor martelava as têmporas de Daisy desde o amanhecer. Nem mesmo o clube parcialmente sombreado oferecia refúgio contra a fornalha que se aproximava. Além das janelas, colinas bem cuidadas, salpicadas de bandeiras e armadilhas de areia, murchavam sob o sol implacável; uma tentativa inútil de mascarar a decomposição sob um verniz de luxo.

Do vestiário, Daisy observava as figuras distantes que se reuniam: homens da idade de seu pai, acompanhados por algumas esposas simbólicas que haviam invadido o santuário “somente para cavalheiros” do clube. Ao lado deles sentavam-se seus acessórios juvenis — raramente da idade de Daisy, muitas vezes mais jovens —, bebendo champanhe como néctar de seu oásis particular.

Outra tenda branca reluzia no horizonte: a tenda de bebidas, cercada por rostos familiares. Os Herdeiros. A “tribo” de Daisy. Seus pais haviam acumulado fortunas através de sangue e sombras; os filhos colhiam os espólios com sorrisos vazios. Daisy possuía o mesmo ingresso dourado. Essa geração dormia tranquila, sem ser perturbada pelo sofrimento que financiava seu paraíso.

Ela desdobrou o conjunto de tênis que haviam deixado para ela; impecável, de um branco ofuscante. Ideia do pai sobre o que era apropriado.

“Theodore deve ter revisitado seus arquivos de tênis...” murmurou ela, observando a saia escandalosamente curta e os ombros expostos. Mas ela havia vindo preparada. De dentro da bolsa, tirou shorts de ciclismo e uma polo sob medida. Mais quente? Talvez. Infinitamente mais digna.

“Lá está minha estrela brilhante!” A voz de Theodore, já arrastada pelo bourbon, cortou a umidade. Seus associados — mercadores da miséria vestidos em linho engomado — viraram-se em uníssono. Seus olhares avaliadores rasparam sobre ela. O estômago de Daisy se contraiu. Sob aquelas roupas brancas impecáveis, ela imaginava corpos tão grotescos quanto suas almas. Theodore rugiu de tanto rir de alguma piada. Ao lado dele, Ash se pressionava contra seu peito, sussurrando algo em seu ouvido.

O olhar do moreno desviou rapidamente para Daisy — e se afastou no instante em que encontrou os olhos glaciais dela. Os lábios da Srta. Lockwood se apertaram. As memórias da noite anterior apodreciam sob sua pele como mofo envenenado.

Ela caminhou em direção à tenda dos Herdeiros — qualquer coisa para escapar da linha de visão de Theodore e Ash —, mas sentiu o ardor fantasma de olhares cravados em suas costas.

“Ora, ora… Olha só o que o calor trouxe.”

A voz era ácido envolto em veludo. Chaz. O líder não oficial do grupo. Alto, esteticamente desagradável aos olhos de Daisy: cabelos ruivos flamejantes já rareando (uma herança cruel — o pai dele, Nicholas, era careca aos trinta), membros desengonçados e ângulos afiados.

“Chaz”, reconheceu Daisy, com um aceno tão gelado quanto seu tom. O ar ficou espesso em sua garganta. Ela precisava de água. “Como Oxford está tratando seu filósofo favorito?”

“Última reta. Filosofia… bem, exige certo calibre de mente.” Ele tomou um gole, a voz rouca. “É uma pena que você tenha recusado o desafio.”

“Querida! Você veio!” Uma garota materializou-se atrás de Chaz e jogou os braços ao redor de Daisy. Cachos escuros e úmidos de suor grudavam em suas bochechas coradas. Daisy enrijeceu.

“Rebecca, esta é Daisy Lockwood”, disse Chaz, passando um braço possessivo ao redor da garota. “Ficamos noivos na semana passada.”

“Daisy Lockwood. Filha de Theodore Vanderbilt.” Daisy estendeu a mão. Mecânica. Precisa. Rebecca a apertou, radiante.

"Eu sei! Meu pai acabou de fechar parceria com o Sr. Vanderbilt! Que honra!"

Daisy arqueou uma sobrancelha. Sua voz cortou o ar, afiada como uma lâmina:

"E como você conseguiu isso, Chaz? Ou será que a Rebecca ainda não... apreciou toda a profundidade do seu caráter? Como algumas de nós já apreciaram?"

"Ha!" A risada de Chaz saiu seca e frágil. Ele apertou o ombro de Rebecca. "Ela compartilha da minha visão. Uma verdadeira erudita."

"Então... posso esperar um convite de casamento" disse Daisy, permitindo que um fantasma de sorriso surgisse em seus lábios. Um sorriso frio. Cortante. Rebecca parecia doce demais, quieta demais para o mundo de Chaz. A máscara perfeita para ser a esposa-troféu de um herdeiro rico? Sem dúvida.

O calor pairava como um cobertor molhado sobre o campo de golfe, transformando-o num verdadeiro forno úmido. O ar tremulava sobre o gramado, distorcendo as silhuetas dos herdeiros reunidos sob a tenda de bebidas. O olhar de Daisy varreu o grupo — garotas com cabelos laqueados, garotos em polos brancos ofuscantes, pulsos carregados de relógios de ouro que capturavam o sol como acusações reluzentes.

Uma das loiras — alta, com olhos azul-gelo — fixou o olhar nela. Os lábios da garota se contorceram, desenhando linhas sarcásticas ao lado da boca. Algo em Daisy — talvez a blusa prática, ou as unhas sem esmalte — parecia divertir aquela manequim de vitrine. Ela virou o rosto, cobrindo a boca com os dedos delicados, mas os ombros tremiam com o riso contido.

Daisy apertou os dedos em torno do copo de limonada. O gelo tilintou como sininhos frenéticos. Ela inclinou a cabeça para trás e deu um longo gole. O líquido gelado — doce demais, com o toque amargo da lima — desceu pela garganta como uma lâmina cirúrgica, anestesiando por um instante o nó de raiva que queimava em seu peito.

Click.

O flash de uma Polaroid explodiu em sua visão.

"Sorria!" Rebecca sorriu, satisfeita como um gato que acabou de roubar o creme, enquanto esperava a foto ser ejetada. "Ah, perfeita!" Ela sacudiu a fotografia, examinando-a como uma curadora avaliando uma obra-prima. A imagem capturara Daisy no meio do gole — lábios comprimidos, pupilas dilatadas de surpresa, uma ruga profunda entre as sobrancelhas.

"Que diabos foi isso?" A voz de Daisy saiu baixa.

"Uma lembrancinha" respondeu Rebecca, exibindo os dentes perfeitos num sorriso doce. Ao que parecia, seu hobby era testar até onde conseguia provocar as pessoas.

O copo de limonada bateu com força na mesa. O gelo estremeceu. Várias cabeças se viraram.

"Da próxima vez, peça permissão" rosnou Daisy. Um calor sufocante subiu pelo seu pescoço como uma maré de lava. Atrás dos olhos, o latejar familiar começou.

O rosto de Rebecca vacilou: olhos arregalados, lábios entreabertos, uma expressão de emoji assustado. Logo depois, a máscara doce e conciliadora voltou ao lugar.

"Desculpa! Eu só queria ser sua amiga." Ela estendeu a mão, como uma bandeira branca. "Vamos começar de nov..."

Daisy já estava se virando, sua silhueta se dissolvendo na névoa de calor sobre o gramado.

"Não estou interessada" disse ela, as palavras cortando o ar como um chicote.

O jogo começou. Seu verdadeiro propósito era uma dança de acasalamento entre dinastias. Os “velhos” mal erguiam os olhos dos charutos e das conversas murmuradas sobre remessas e subsidiárias, puxando de vez em quando algum jovem para um abraço possessivo.

Daisy lutava para manter a frieza, mas seus olhos não paravam de se prender em Ash. Ele estava sentado ao lado de Theodore como um cachorrinho de colo, respirando com dificuldade. A mão de Vanderbilt passeava por ele — apertando seu pescoço, espremendo seu ombro num cruel simulacro de afeto. Quando a conversa enfraquecia, Theodore o puxava para mais perto, beijando-o, os dedos deslizando por baixo da barra do short de Ash. Repugnante. A cada vez, Daisy sentia as entranhas se contraírem num punho duro e doentio.

"Ei! Sua vez!" chamou Chaz, jogando a bola de golfe. "Quer uma ajudinha?"

Daisy apertou os lábios numa linha fina e se posicionou. Um movimento limpo. A bola rolou direto para dentro da tacada.

"Muito bem, Srta. Lockwood!" aplaudiram atrás dela. Theodore deu um aceno curto de aprovação. Ótimo.

"Uau..." Chaz olhou por cima do ombro de Daisy, na direção da tenda dos patriarcas. "Aquela é a última aquisição do seu pai?"

Ela se virou. Theodore, uma montanha de músculos e maldade, tinha Ash imprensado contra uma mesa. Seus lábios deixavam rastros úmidos no pescoço do garoto; uma das mãos enormes segurava seu crânio com força. Pela primeira vez, Daisy viu o rosto de Ash sem nenhuma máscara — apenas vergonha crua e repulsa.

"Meu Deus, isso é nojento..." A voz de Chaz destilava desprezo genuíno, o rosto contorcido. "É por isso que odeio essas porras de circo familiar. Olha... ele está te observando."

Daisy olhou novamente. Ash agora estava largado numa cadeira dobrável, acenando fracamente com um sorriso fantasma nos lábios. Mas a performance era frágil — o rosto cinzento, os lábios sem cor, os movimentos lentos e pesados.

"Você o conhece?" insistiu Chaz.

"Eu não catalogo os amantes do meu pai" retrucou Daisy, voltando o olhar para o gramado.

Estava se preparando para a próxima tacada quando...

Thud.

Um som surdo e inconfundível. Um corpo caindo no carpete.

Ash deslizou da cadeira como se não tivesse ossos. Sua cabeça bateu na perna da mesa com um estalo doentio.

As risadas morreram. Um silêncio pesado desabou sobre o lugar, quebrado apenas pelo zumbido das vespas.

O taco de golfe escapou dos dedos de Daisy e caiu na grama. Ela já corria, alheia aos olhares e ao sorrisinho de Chaz. Seu mundo havia se reduzido àquela figura caída.

Ela se ajoelhou ao lado dele, afastando uma tigela de frutas virada. A pele de Ash estava gelada e úmida sob seus dedos. A respiração dele era um fio tênue.

"Ash! Ash, você consegue me ouvir?" Sua voz saiu afiada, mas trêmula.

Uma sombra caiu sobre eles. Colônia cara, charuto e bourbon velho. Theodore.

"Chega de teatro, Ash!" rosnou ele, os olhos âmbar turvos de bebida e fúria. "Levanta! Você está me envergonhando!"

A mão carnuda dele se estendeu para puxar Ash para cima.

"NÃO TOQUE NELE!"

Daisy se levantou num salto, como uma gata selvagem, protegendo Ash com o próprio corpo. Seu olhar glacial encontrou o de seu pai, embriagado e furioso.

"Ele não está fingindo!" gritou ela, a voz rasgando o silêncio. "É exaustão pelo calor!"

Theodore parou, atordoado com a ousadia aberta. O patriarca dos Montefiore interveio, com a voz calma e autoritária de quem comandava uma boate:

"Calma, Theo. Seu… bichinho claramente não está bem. Deixe a garota levá-lo para a tenda médica. Parece que ela sabe o que está fazendo."

A palavra “bichinho”, dita com profundo desdém, apagou o fogo de Theodore. Ele fez um gesto displicente com a mão.

"Tudo bem. Cuide do seu fardo. Mas é bom ele estar de volta aqui, sorrindo, em quinze minutos!"

Com a ajuda de um garçom, Daisy ergueu Ash — o corpo dele assustadoramente leve, sem força. Eles o arrastaram meio que carregando até a tenda médica branca.

"Estamos bem. Pode ir" ordenou Daisy, sabendo que as marcas sob as roupas de Ash levantariam perguntas que ela não poderia responder.

Ash ardia em febre. Ela desabotoou a camisa dele e limpou sua pele com gaze fria. Quando ele começou a recuperar a consciência, ela colocou um copo d’água e um comprimido em sua mão.

"Para a febre."

"Hah… Me salvando de novo, maninha…" murmurou ele, engolindo obedientemente.

Daisy revirou os olhos. Queria odiá-lo. Precisava odiá-lo. Mas o apelo silencioso nos olhos dele estava lascando o gelo ao redor de seu coração.

"Isso foi de propósito?" A voz dela saiu rouca, cada palavra como uma pedra atirada com raiva. "Uma tentativa de suicídio? Ou só mais uma forma de chamar minha atenção?" A fúria fervia dentro dela: contra a autodestruição dele, contra a violação pública que Theodore fazia. Não era só imoral. Era uma profanação.

"Não… eu…" Os olhos dele, cinza como tempestade, encheram-se imediatamente de lágrimas. Não eram lágrimas performáticas, mas um terror primal, desesperado, animalesco, diante do abismo que quase o engolira. Ele se encolheu, puxando os joelhos ralados contra o peito — uma criatura ferida. Os ombros magros tremiam.

"Pelo amor de Deus…" Daisy olhou para o teto da tenda, buscando ar que não estivesse contaminado pelo sofrimento dele. Ela precisava odiá-lo. Mas aquela súplica muda e indefesa… estava arrastando seu coração para um redemoinho frio e sem fundo de piedade.

Ela se agachou diante dele como se fosse uma criança chorando.

"Você precisa se recompor. Entendeu?" O tom era cortante, mas carregado de uma preocupação cansada. "Ninguém nem te deu água? Fique aqui o tempo que precisar. Theodore está cego de bebida; ele nem vai sentir sua falta."

Automaticamente, ela olhou além da tela translúcida — estava vazio. Voltou-se para ele e baixou a voz para um sussurro áspero e urgente:

"Se você odeia isso… reaja. Nem que seja um pouco. Não deixe que ele te trate assim."

"Reagir?" Ele soltou uma risada amarga e quebrada. Lágrimas traçavam caminhos brilhantes pela sujeira em suas maçãs do rosto. "Eu estou numa jaula, Dais. Você está cega? Cada respiração minha é monitorada! Eu… dependo dele…" Ele estremeceu, as palavras morrendo na garganta.

Olhando para aquela figura curvada e trêmula, Daisy viu a si mesma. Sua própria prisão forjada em gelo. Seus dedos se fecharam com força, os ossos rangendo. Mas ela não era Ash Hollow. Aquela dependência dele… seria algo doentio? Distorcido? Ele o ama. O pensamento cravou-se como uma faca entre suas costelas. A bile subiu, afiada e venenosa. Eu arrisco tudo para ajudá-lo… e ele… anseia pelo homem que o destrói? A decepção apertou seu coração num torno de gelo. Frio.

Como se lesse sua mente, Ash ergueu a cabeça bruscamente. Os olhos, ainda marejados, se arregalaram. Algo selvagem, em pânico, quase feral, brilhou nas profundezas cinzentas. Um raio de sol tardio atravessou a tela, dourando as partículas de poeira que dançavam no ar e iluminando os rastros úmidos em suas bochechas.

"Não…" sussurrou ele, a voz destruída. "Você… acha que eu o amo?"

A pergunta pairou no silêncio da tenda médica, carregada de uma dor tão perplexa que Daisy recuou. Ele se ergueu, cambaleante, apoiando-se na maca. A luz dourada do pôr do sol parecia formar uma auréola ao redor de seu corpo angular e dolorosamente magro, destacando a fragilidade do pescoço, os tendões tensos nos pulsos.

"Não, Daisy."

Ele deu um passo. Depois outro. De repente estava perto — perto demais. Ela sentiu o cheiro agridoce de seu suor, de pomada medicinal e algo mais: puro desespero selvagem. As mãos dele se ergueram, tremendo como as de um febril. Dedos frios e ligeiramente ásperos roçaram suas bochechas. O toque era chocantemente gentil, hesitante. Daisy congelou. Paralisada. Não de medo. De outra coisa. Perigosa.

Antes que sua mente conseguisse gritar “afaste-se”, os lábios dele encontraram os dela.

Não foi uma exigência. Nem uma conquista. Era... um sussurro. Um beijo trêmulo, incerto, desesperado; uma pergunta carregada de uma confusão dolorosa e de um desejo tão profundo que lhe roubou o fôlego. E ela... respondeu.

Como se não fosse ela mesma. Como se estivesse sonhando. Seus lábios se entreabriram sob o peso da desolação dele. Um calor instantâneo e cegante invadiu suas veias. Um choque doce e afiado, como um raio, atravessou seu corpo, fazendo seu coração martelar contra as costelas. Entre suas coxas, um aperto úmido e doce; uma onda de calor a invadiu, derretendo o gelo que carregava por dentro. Nunca... nunca havia sentido nada parecido. Era incandescente. Perigoso. Proibido. Como cair num abismo sem fundo, apenas vento e loucura.

Ela se afastou bruscamente, como se tivesse sido queimada. Seus olhos fitaram Ash, incrédulos. Seus lábios ardiam. Uma tempestade rugia dentro do seu peito. Não eram borboletas; era um bando de pássaros enlouquecidos, desesperados para escapar. Ela o encarou: o rosto dele dourado pela luz moribunda do sol, lágrimas traçando caminhos silenciosos através da poeira. Ele não fez nenhum gesto para enxugá-las. Olhou de volta através do véu úmido — sóbrio, profundo, com uma clareza agonizante.

"Dais..." A voz dele era um raspar rouco.

"Não..." A palavra escapou, como se não lhe pertencesse. Um passo para trás. Outro. Então ela fugiu, irrompendo de trás da tela como uma bala.

E colidiu com algo sólido, inabalável.

Chaz.

Ele estava parado no vão da entrada da tenda médica, encostado no batente. Não sorria. Suas feições duras formavam uma máscara de pedra, mas os olhos — aqueles olhos frios e avaliadores — ardiam com um triunfo puro e impiedoso. Ele tinha visto. Vira tudo.

"Interessante..." murmurou ele. Sua boca fina se torceu num simulacro de sorriso, sem qualquer calor. Apenas gelo. E conhecimento.

Vá. Agora.

Daisy o empurrou para passar, sem nem olhar para ele, colando o corpo na parede, quase correndo pelo corredor que de repente parecia ecoar demais. Suas costas queimavam sob o olhar dele. E em seus lábios, o fantasma do beijo proibido ainda ardia — doce e amargo como veneno.