Testemunha Perfeita - Capítulo 2: Um Prato Servido com Asas Cortadas
O amanhecer mordeu até os ossos, como se o deserto quisesse lembrar a todos que até mesmo seu calor tinha limites. Não trouxe nenhum alívio após uma noite insone; Daisy havia se revirado entre ódio e pavor, desejando apenas que aquele dia nunca chegasse. Mas o sol, indiferente aos seus pedidos, já havia escalado acima das dunas, tingindo-as de um vermelho ferrugem.
Frank era o mordomo dele. Um velhinho doce, incapaz de matar uma mosca. Vivera a vida encolhendo-se diante da própria sombra, tornando-se menos um homem e mais uma coisa; desgastada, mas conveniente.
“O Sr. Vanderbilt não está na residência hoje... Ele preferiu um dos hotéis do centro.”
“É mesmo?” Daisy prendeu o telefone entre o ombro e a orelha enquanto servia um americano forte. O aroma amargo dos grãos torrados invadiu seu nariz, mas não conseguiu dissipar o gosto de sono. “E o que ele está fazendo lá? Não consegue dormir?”
“Um... ahem... jovem amigo do seu pai solicitou isso.”
Se Daisy estivesse certa, o novo “amigo” do pai não passava de mais um pedaço de lixo menor de idade. Menino, menina... Não importava. Apenas jovem e frágil, como porcelana chinesa. Theodore descartava seus “docinhos” com frieza. Às vezes por palavras erradas, às vezes... por se quebrarem facilmente durante a intimidade. Vanderbilt não conhecia limites, nem mesmo ali.
“Sim. Ash, eu acho. Eles estão... juntos agora. Então... não sei se a senhorita deveria vir hoje...”
‘Ah, não, Frank. Por isso mesmo que preciso ir’, pensou Daisy, dando um gole escaldante no café.
“Nome do hotel? Endereço? Estou indo agora. Ele me chamou pessoalmente, então que me receba com todas as honras.”
O “refúgio de cavalheiros” não ficava longe de sua casa. As ruas ainda não estavam congestionadas, mas os poucos carros que circulavam já rosnavam, cuspindo veneno no ar. Todo o quarteirão pertencia a Theodore e aos seus iguais: aquele restaurante italiano ali, o cinema mais adiante, e lá; o clube de onde um homem de idade balzaquiana havia saído recentemente, agarrado à cintura de duas garotas magérrimas com peitos siliconados. Esses lugares exalavam algo acre: o gosto da morte. Ao passar dirigindo, Daisy sentiu as entranhas se contorcerem num nó apertado. Ela sabia: o crime apodrecia ali, o crime que ela protegia.
Hotel Elysium. Branco-ósseo, frio como um mausoléu. Colunas polidas refletiam como espelhos. Pisos de mármore onde as sombras dos funcionários deslizavam em silêncio. Parecia que deuses haviam banqueteado ali no dia anterior e agora se dignavam a receber mortais; apenas aqueles que podiam comprar seu lugar no paraíso.
Daisy parou diante de um espelho e se observou. O terno preto dela parecia severo demais para aquele lugar. ‘Você parece a advogada dele, não a filha’, pensou.
“Estou aqui para ver o Sr. Vanderbilt. Suíte 312.”
O homem agradável de terno apenas assentiu. Nenhuma outra palavra foi necessária. Suas mãos tremiam levemente. Medo.
“Por favor, aguarde na sala de e.” Ele gesticulou em direção aos sofás estofados em couro claro. Samambaias e palmeiras se abriam ao redor deles.
Ela se sentou e pegou uma revista brilhante da mesa de vidro. Daisy odiava a deferência falsa dos peões de Theodore, aquela cortesia oleosa dirigida aos “favorecidos”.
Uma figura esguia apareceu no saguão — camisa clara e shorts largos. Um jovem rapaz, talvez mais novo que Daisy. Ele soltou um suspiro pesado, varreu o ambiente com o olhar, avistou Lockwood e estalou os dedos, chamando um funcionário.
“Ei, você!” chamou ele, com descaramento. “Manda um suco de laranja para a 302!”
“O quê?” Daisy baixou lentamente a revista, cravando o olhar no estranho.
Muito bonito. Olhos verde-mar, pele levemente bronzeada com um rubor nas maçãs do rosto e cabelos pretos lisos como ébano. Se não fosse pela voz e pelos ombros angulosos, ela poderia tê-lo confundido com uma garota.
Seu olhar transmitia um desprezo glacial, como se ele fosse uma lesma no meio da calçada. Ao ouvir o número do quarto, ela soube: mais um dos brinquedos de Theodore. Bonito, magro a ponto de parecer indefeso, domado até ronronar em submissão.
“Espera, não-não-não!” Ele agitou as mãos. “Não é 302, é 301! Mas cobra do cavalheiro da 302.”
“Claro...” respondeu ela, sem emoção nenhuma, erguendo novamente a revista.
“Obrigado!” Satisfeito, ele quase saltitou em direção ao elevador.
Lockwood não tinha a menor intenção de fazer nada daquilo. Ela não era funcionária do hotel. Seu status era muito mais alto do que ele poderia imaginar. Ela era carne e sangue do homem com quem ele passava noites de pesadelo.
O homem da recepção se aproximou apressado com o café e um chocolate envolto em papel dourado.
“Aqui está, Srta... Deseja mais alguma coisa?”
“A que horas o Sr. Vanderbilt descerá? Ele queria me ver.”
O homem juntou as mãos, com uma expressão atrapalhada e assustada. Murmurou algo incoerente:
“Veja bem... O Sr. Vanderbilt esteve muito ocupado ontem à noite e decidiu descansar hoje... Mas ele deixou isto para a senhorita!”
Sua mão enluvada de branco estendeu um envelope lacrado com o selo de cera de um dos restaurantes de Theodore.
Sozinha novamente, Daisy quebrou o lacre azul-escuro:
‘Daisy Lockwood. Convite para Jantar. 19h30, 24 de março. Mesa VIP 17, Terraço.’
O confronto havia sido adiado para a noite. Livrar-se de Theodore e dos pensamentos obsessivos sobre ele não seria tão simples.
O encontro da manhã grudou nela como carrapichos. Durante todo o expediente, Daisy se esforçou para tirar o cérebro dos processos jurídicos e direcioná-lo para o garoto descarado que a havia confundido com uma funcionária. Quanto tempo ele duraria? Não que ela se importasse com mais um dos brinquedinhos do pai — ela simplesmente não conseguia entender como alguém se arrastava para a cama de outra pessoa sem amor, só por dinheiro.
E, no entanto, ali estava ela.
L’Oasis não era apenas um restaurante; era um iceberg esculpido em arte moderna: cromo polido, cascatas de vidro que se abriam para as ondas douradas e infinitas da areia de Canyon Springs. O ar vibrava com o tilintar contido da prata, conversas abafadas em cinco idiomas e o aroma doce e enjoativo de trufas e... desespero.
Ela foi conduzida até a terraço. E, sentado à mesa, dentro da gaiola dourada do mundo de Theodore Vanderbilt, havia um terceiro convidado. Ash. O reconhecimento iluminou o rosto dele no instante em que a viu. O canudo escorregou de seus lábios e o bronzeado sumiu, deixando-o mortalmente pálido. Uma satisfação fria atravessou o distanciamento de Daisy.
‘Ótimo. Saiba qual é o seu lugar.’
Sua reação foi mínima: um leve estreitar dos olhos e o fantasma de um sorriso predatório no canto da boca. Foi o suficiente. Ash se encolheu ainda mais contra o abraço sufocante de uma mão grande, coberta de anéis, que o segurava pela cintura com força suficiente para deixar hematomas.
Daisy ocupou a cadeira que o garçom puxou para ela. Foi então que o cheiro a atingiu, cortando o perfume refinado do restaurante: tabaco velho, colônia cara lutando contra suor azedo e, por baixo de tudo, o leve toque metálico de sangue antigo. Seu estômago se contraiu. Uma náusea amarga subiu pela sua garganta. Ela ergueu o olhar.
Ele se esparramava na cadeira como um leviatã encalhado: bem cuidado por fora, mas podre por dentro. Uma camisa enorme de linho engolia seu corpo, o tecido se amontoando nos ombros como se tentasse se afastar de sua massa. A barba e o bigode estavam impecáveis, mas os olhos afiados de Daisy captaram o brilho gorduroso ao redor da boca e o leve reflexo de conhaque cintilando à luz das velas. A camisa estava entreaberta, revelando um tapete de pelos grossos, desbotados pelo sol e encharcados de suor no peito. Ele era uma paródia grotesca de poder.
“Daisy, querida!” A voz dele arranhava como cascalho sobre vidro, destruída por charutos e bebida. O sorriso revelava facetas de porcelana branca demais, contrastando com a pele bronzeada. “Como vai o trabalho?”
“Perfeito”, respondeu Daisy, com a voz suave como mármore gelado. Aceitou o vinho servido pelo garçom, o rosto uma máscara impenetrável. Seu olhar desviou para Ash, preso entre a palma carnuda de Theodore e sua coxa enorme. ‘Como você consegue dormir com ISSO?’ A pergunta impossível pairou no ar. Ash percebeu, estremeceu e ofereceu um sorriso fraco e apologético. Mas logo em seguida ele se aninhou contra o peito de Theodore, pressionando o rosto no pescoço do homem mais velho e sussurrando algo que fez o velho rir baixinho. Sua mão deslizou mais para cima na coxa de Theodore, um gesto íntimo e ensaiado. Nojo, frio e cortante, atravessou Daisy.
“Ah, sim! Daisy, conheça o Ash.” Theodore indicou com um dedo grosso, carregado de anéis. “Meu raio de sol.”
“Acho que vi o Ash. No saguão do hotel.” O tom de Daisy foi desdenhoso, cravando a faca. “Ou talvez eu tenha me confundido.”
A sobrancelha de Ash tremeu; um lampejo de irritação rapidamente suprimido. Ele continuou sussurrando para Theodore, os dedos traçando círculos preguiçosos na parte interna da coxa dele. Sua encenação era impecável, de uma doçura nauseante.
“Você parece tensa, Daisy”, disse Ash com voz sedosa, mel escorrendo de cada sílaba.
“Ela é sempre assim, meu tesouro”, retumbou Theodore, enquanto sua mão livre passeava pelas costas de Ash. “Muito séria. Tem um emprego muito importante.” Os dois riram, formando um círculo fechado que excluía Daisy. A mão errante de Theodore sobre o corpo de Ash não era afeto; era uma exibição de posse, um ato público que transformava o vinho na boca de Daisy em ácido. Ela se concentrou no lamento triste do saxofone que vinha do interior do restaurante.
“Então, o que você faz?”, insistiu Ash, inclinando-se para a frente com os olhos arregalados de curiosidade fingida.
“Conte para ele, querida”, interrompeu Theodore, lambendo a gordura de uma colher com deleite obsceno. Em seguida, ofereceu o talher sujo à boca de Ash. “Ela é minha garota esperta. Confio nela com... tudo.” As palavras caíram como uma ameaça. Daisy congelou. Sua profissão era uma arma carregada, não algo para ser exibido. Theodore confiava tanto assim em Ash? Ou Ash estava apenas preso, sabendo que uma palavra errada poderia lhe custar a língua — ou pior?
Ash entreabriu os lábios obedientemente e lambeu a gordura da colher sem demonstrar qualquer nojo, os olhos cheios de adoração voltados para Theodore. Monstruoso.
“Eu sou policial”, respondeu Daisy, com voz seca.
“Não é qualquer policial!”, rugiu Theodore, o orgulho distorcendo seu rosto. “Minha filha é a Assistente da Promotoria! Mantém os lobos de verdade afastados, hein?” O sorriso de Ash se tornou frágil, pintado. Daisy viu o terror instantâneo nos olhos excessivamente brilhantes dele antes que o mascarasse.
“Uau! Isso é... perigoso?”, sussurrou Ash.
“Extremamente”, respondeu Daisy, cravando o olhar em Theodore. “Um movimento em falso e você vira um alvo.” Ela deixou o subtexto pairar no ar: “...pelos seus movimentos em falso, pai.”
“Foi ideia minha essa carreira”, gabou-se Theodore, ignorando ou não percebendo o tom dela. Ele enfiou na boca um pedaço sangrento de bife; o suco se acumulou no prato como sangue velho. “Ela queria mexer com terra, estudar insetos ou alguma bobagem do tipo. Universidade boa? Pfah! Eu mostrei a ela o que é poder de verdade.”
Memórias invadiram Daisy: uma criança arrastada para as “lições” de Theodore; gritos abafados em salas à prova de som, o fedor metálico de violência, os olhares vazios dos condenados. A mão áspera dele virando sua cabeça para obrigá-la a assistir. O entorpecimento que substituiu o medo e a piedade. Theodore nunca havia levantado a mão para ela; suas torturas eram psicológicas. A rebeldia significava consequências para os outros — tutores desapareciam, babás eram silenciadas. A palavra dele era lei, imposta pelo terror.
Daisy empurrava um pedaço de seu bife — perfeitamente cozido, obscenamente caro — pelo prato. Tinha gosto de cinzas. Cada vez que olhava para Theodore aninhando o pescoço de Ash, deixando um rastro úmido na pele, uma nova onda de saliva azeda subia à sua boca.
“Vocês têm quase a mesma idade, não é?”, ponderou Theodore em voz alta, com a boca cheia. “Ash tem...?”
“Vinte e dois”, completou Ash, aconchegando-se ainda mais.
“Tem mesmo?”, a voz de Daisy soou ártica. Ele parecia mais novo, a desnutrição retardando seu crescimento. Isso não desculpava a predatória de Theodore.
“Eu sou mais velha, pai. Vinte e cinco.”
Theodore soltou uma risada úmida, espalhando migalhas.
“Engraçado, não? Embora”, ele plantou outro beijo babado na clavícula de Ash “algumas mentes sejam eternamente jovens. Por dentro, eu me sinto um garoto.”
Sua mão desapareceu sob a toalha de mesa. A respiração de Ash falhou quase imperceptivelmente.
“Preciso ir.” Daisy se levantou abruptamente.
“Já?”, choramingou Ash, como um fantoche cujas cordas eram puxadas. Ele se inclinou na direção dela, os olhos suplicantes. Sua saída significava enfrentar Theodore sozinho.
“Daisy. Um momento.” A voz de Theodore perdeu o calor falso e tornou-se fria, profissional. Ela congelou, todos os músculos tensos, a respiração presa. “Há... detritos... interferindo em uma transação que se aproxima.” Suas palavras eram como aço envolto em veludo. “Uma remessa de... equipamentos especiais... chegando do México. Meus homens estarão nas passagens. Certifique-se de que a polícia local esteja... ocupada com outras coisas durante essa janela. Seria inconveniente se detalhes delicados da logística viessem à tona prematuramente. Ou”, ele fez uma pausa, os olhos como lascas de sílex “se provas importantes... desaparecessem da custódia policial.”
Equipamentos especiais. Ocupada com outras coisas. Daisy traduziu instantaneamente: cocaína. Polícia subornada ou distraída. Destruição de provas. O peso frio da cumplicidade se instalou como chumbo em seu estômago.
“Entendido, pai.” As palavras tinham gosto de bile.
Ela se virou sem dizer mais nada, a coluna ereta como uma vara, e seguiu em direção às escadas. Atrás dela, ouviu o suspiro baixo e engasgado de Ash quando Theodore murmurou algo certamente vil. Um arrepio subiu por sua espinha. Ela já havia visto incontáveis Ashs. A piedade morrera junto com o primeiro. Agora restava apenas a pergunta fria e oca: ‘Por quê? Por que você deixa que ele te use assim?’
O corpo magro e exausto desabou sobre a macia roupa de cama com um gemido abafado. As pálpebras de Ash tremularam por um instante, apenas para se apertarem novamente contra um novo som ensurdecedor.
A pele fria das costas se ergueu em vergões carmesins, como os contornos de asas nascentes surgindo sob o açoite de um chicote invisível. Faixas recentes, que rasgavam a carne, cruzavam hematomas antigos, formando um padrão grotesco e elevado. Cada impacto arrancava da garganta de Ash um gemido rouco e irregular. Ele arqueou as costas, a cabeça jogada para trás, mechas úmidas de cabelo grudadas na testa e no pescoço. Seu coração falhou por uma batida, esmagado por uma onda de dor. O mapa escarlate do castigo agora cobria todo o seu corpo — do pescoço frágil até os calcanhares. Sem roupas. Sem vida anterior.
A dor era aguda, flamejante. Mas nenhuma lágrima caiu. Nem mesmo medo aparecia em seus olhos — apenas uma submissão profunda, quase sagrada, e uma ternura artificial congelada em uma máscara em seu rosto.
O quarto lembrava uma cripta. Pesadas cortinas de veludo selavam a noite cintilante da cidade. O ar estava denso, saturado de fumaça de charuto, suor e conhaque caro; um cheiro entranhado nas paredes, mas ainda acre o suficiente para arranhar a garganta. A cama enorme, com seu dossel ornamentado e dourado, era iluminada por dentro como um palco de teatro do absurdo. Ali, seu inferno particular se desenrolava.
Uma palma pesada e úmida de suor pressionou Ash contra os lençóis carmesins, imobilizando-o.
“Levante os quadris, Ash...” A voz estava rouca, mas não admitia contestação.
Seu corpo obedeceu, arqueando-se em submissão. Theodore estava especialmente cruel naquela noite. Não poupava a dor.
A penetração foi abrupta, desproporcional. A carne ardente e dolorida se contraiu. Ash inspirou bruscamente, os dentes rangendo a ponto de quase racharem. A dor, ao mesmo tempo familiar e estranha, irradiava em ondas. Ele buscou refúgio, o olhar vagando pelas intrincadas entalhes da cabeceira da cama, apoiando-se nos cotovelos trêmulos. A excitação fisiológica traidora, provocada pela violência, só aprofundava o amargor. Ele odiava aquilo. Odiava cada toque, cada gemido arrancado de sua garganta.
‘A respiração vai falhar... A qualquer segundo agora’, corria pela mente de Ash. A vontade de dormir era insuportável. Despencar no abismo do esquecimento. Mas a Regra permanecia inquebrantável: dormir apenas depois de Theodore, acordar antes dele. Confiar a inconsciência a esse homem? Sabendo do que ele era capaz? Nunca.
Quando terminou, Ash rolou para o lado com uma graça que não deveria ser possível depois de tamanha violação. Como se a dor fosse apenas uma sombra. A massa pesada ao seu lado grunhiu e se ergueu, dirigindo-se ao banheiro. O silêncio que se instalou entre eles foi uma bênção. A ausência daquela voz grossa, de seus sermões intermináveis ou piadas vulgares. Ash permaneceu imóvel, sentindo o fogo ardente nas costas lentamente se transformar em um formigamento surdo, quase agradável. Choque. A defesa do corpo.
Theodore saiu do banheiro, úmido e pesado. No caminho de volta para a cama, seus dedos percorreram as lombadas de uma estante, puxando um volume robusto. Um tratado filosófico.
“E você...” Ash se apoiou em um cotovelo, nu, sem qualquer vergonha. A luz da cama lançava um brilho suave ao redor de sua silhueta frágil, acentuando os hematomas e as marcas. Sua voz soou deliberadamente leve, quase brincalhona. “...tem outros filhos? Além da Daisy?”
“Talvez...” Theodore acionou o interruptor de um enorme abajur de piso em vitral. A luz dançou sobre as páginas. “Não sei. Legítimos? Só a Daze.”
Ele enterrou o nariz no texto, claramente sem disposição para conversa. O autor era Arthur Schopenhauer. Aquele que escreveu sobre a “vontade de viver” e considerava as mulheres “o intelecto subordinado”, criadas unicamente para a procriação.
“Me conta mais sobre ela?” Ash insistiu, aproximando-se aos poucos.
“Quer saber? Pergunte você mesmo”, grunhiu Theodore, sem tirar os olhos do livro. A irritação pairava no ar. Ele detestava ser arrancado de seus “pensamentos elevados”, especialmente depois de saciar suas necessidades mais baixas.
“Eu mesmo?” Ash fingiu surpresa.
“Ash.” A voz se transformou em aço gelado. “Terminei com você. Seja um querido e vá para o seu quarto. Se limpe. Olhar para você...” ele fez uma pausa, as palavras caindo como um tapa, impessoais e humilhantes, “...é desagradável.”
Ash não se encolheu. Inclinou-se e roçou os lábios suavemente na bochecha de Theodore. A barba grossa e por fazer arranhou sua própria pele aveludada, deixando microabrasões.
“Boa noite, querido”, sussurrou ele, as palavras completamente vazias de sinceridade, apenas um som adocicado e ensaiado. Um leve roupão de seda, fornecido pelo hotel, deslizou sobre seus ombros, ocultando as costas devastadas. A porta do quarto adjacente se fechou com um clique suave atrás dele, deixando Theodore sozinho com os pensamentos sombrios de Schopenhauer e o silêncio opressivo da gaiola dourada.