O Túmulo do Cisne (NOVEL)
March 6

O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 2 (6/8)

Cisne, Anna – Parte 6.

Logo, apenas Anna e Svanhild permaneceram no corredor. Svanhild esboçou um leve sorriso e se aproximou dela.

— Não se incomode muito com o que a professora diz.

Sua voz era gentil. Embora fosse insondável e tivesse uma personalidade tão obstinada que era chamado de tirano, Svanhild tratava Anna com uma cordialidade surpreendente. Por isso, assim que ela chegou à mansão, foi designada para cuidar de seu quarto. Talvez fosse porque ela o lembrasse da mãe. Algumas pessoas a odiavam simplesmente por ter a aparência de alguém do continente oriental, enquanto outras a favoreciam facilmente pela mesma razão.

Mas Anna achara Svanhild inquietante desde o início. A aura opressiva que fazia os outros recuarem era a mesma, tanto no pai quanto no filho.

Baixando os longos cílios, Svanhild disse em voz baixa:

— A Professora sempre quis entrar no quarto proibido.  É por isso que anda tão exaltada. Ela nunca esteve lá dentro.

Por que mencionar o quarto proibido justamente agora? Como se… ele soubesse que ela havia entrado lá.

O coração de Anna disparou. Primeiro Rose, agora Svanhild. O incidente que havia permanecido em silêncio até agora, de repente, apertava-se ao redor de seu pescoço.

Quanto Svanhild sabia?

A pressão que ele exercia era diferente da que Rose usara para encurralá-la.

Como se pudesse ler o seu medo, Svanhild fixou seus olhos cor de romã em Anna e perguntou num sussurro:

— Você dormiu com meu pai?

— Jovem mestre!

A pergunta direta de Svanhild fez Anna exclamar. Seu rosto empalideceu, tingido por um rubor intenso.

Um garoto de onze anos perguntando algo assim não era apenas ofensivo, era perturbador. Ainda mais considerando as circunstâncias atuais.

— Dormiu, não foi?

Talvez lendo a confirmação em sua reação sensível, o rosto de Svanhild se abriu em um sorriso luminoso, como se fosse exatamente o que ele esperava.

Anna prendeu a respiração.

Svanhild tinha certeza de que ela havia entrado no quarto proibido, e que algo havia acontecido lá entre ela e o pai dele.

Pensando bem, havia mais do que apenas uma ou duas coisas estranhas. Os sentimentos de desconforto que ela havia ignorado descuidadamente, agora ressurgiam um por um, como algo enterrado que lentamente vem à superfície.

Por que Svanhild, que não era uma criança falante, havia lhe contado sobre o diário da Marquesa?

E mesmo estando encarregada de limpar seu quarto, como ela conseguira roubar com tanta facilidade uma chave que ele prezava tanto?...

Talvez… Svanhild tivesse orquestrado tudo isso desde o início?

Mas por quê?

— Como eu pensei.

O garoto sorriu levemente. Com seu rosto pálido, o vermelho de seus olhos e lábios se destacava intensamente. O filho de um demônio também era de fato um demônio… o sorriso dele parecia gritar isso. Anna estremeceu e murmurou sem perceber.

— O que diabos…

— Eu quero uma mãe, Anna.

Svanhild disse isso enquanto envolvia os braços ao redor da cintura dela. Seus braços finos, alcançando apenas o peito de Anna, agarravam-se a ela como um fantasma d'água, puxando sua presa para o fundo. Horrorizada, Anna quis sacudi-lo imediatamente, mas não conseguia fazê-lo.

— E a única que pode ser minha mãe é você.

Svanhild havia deliberadamente deixado pistas, sabendo que ela seria atraída para o quarto proibido. Ele poderia ter percebido que ela era um cisne? Então, o que Svanhild queria? Uma mãe? Ela, Anna?

Perguntas intermináveis giravam em sua cabeça, mas nenhuma conseguiu chegar aos seus lábios.

Às vezes há coisas que não precisamos saber, e coisas que jamais deveríamos saber. Abrir a caixa chamada Svanhild era claramente o último caso. Com um medo grande da resposta, Anna não conseguia sequer pensar em retribuir o abraço do garoto. Ela apenas fitou Svanhild, que se aninhara em seus braços, e escolheu o silêncio.


Rose Schwartz, ao ouvir que o Marquês a havia chamado, imediatamente se animou e foi procurá-lo. Seu rosto, semelhante ao de uma boneca de porcelana, corou e parecia ainda mais belo com aquela nova vivacidade, mas Rothbart apenas lhe lançou um olhar frio e fugaz.

— Eu a chamei?

Rothbart baixou os olhos de volta para os documentos. O contato visual foi breve, mas o fogo ardente em seus olhos vermelhos agarrou-se ao rosto de Rose, aquecendo-o. Temendo que ele pudesse entender que ela havia vindo a ele sob falsos pretextos, Rose rapidamente explicou.

— Sim, o jovem mestre Svanhild claramente…

— As brincadeiras daquele garoto são excessivas.

Embora seu sorriso não fosse dirigido a ela, o coração de Rose estremeceu ao vislumbrá-lo.

Rose amava Rothbart. Ela não podia evitar. Embora permanecesse na mansão como preceptora de Svanhild, Rose era originalmente uma maga negra. E para uma maga negra, amar um demônio era quase inevitável. A fonte da magia negra era mana e, dentre ela, o poder dele era irresistível demais.

Havia muitas magas negras esperando para serem escolhidas pelo demônio Rothbart, mas ele escolheu Rose.

Porque ela era a única que sabia como invocar um cisne.

O rumor de que um demônio só podia gerar um filho com um cisne era amplamente conhecido, mas ninguém sabia como invocar um. Assim, quando um demônio nascia numa família, isso geralmente significava o fim daquela linhagem.

A Casa de Lohengrin era a única exceção.

O fundador da família Lohengrin, o primeiro lorde, foi um demônio. Não apenas séculos atrás, mas quase mil anos no passado. Tanto tempo havia se passado que poucos ainda conheciam a verdade. Como um demônio caído, o primeiro lorde dominava todas as formas de magia negra e carregava tanto superioridade quanto uma obsessão incomum por sua linhagem. Para se preparar para a possibilidade de seus descendentes nascerem demônios, ele secretamente deixou para trás o método de invocação de um cisne.

E esse arranjo revelou seu valor com o nascimento de Rothbart.

A mãe de Rothbart, a antiga Marquesa de Lohengrin, era uma típica nobre que vivia apenas para sua casa. Ganhos mundanos e mesquinhos eram coisa de nobres recém-chegados; seu orgulho residia na história antiga de sua família, mantida desde a fundação do reino.

Mas a família real não via esse orgulho com bons olhos. Por gerações, eles mantiveram a família Lohengrin sob controle, cautelosos com seu prestígio. Na época da antiga Marquesa, o título de Marquês havia sido reduzido a quase insignificância.

Para ela, o pensamento de que seu próprio filho pudesse nascer no dia amaldiçoado era pura alegria. Após quase mil anos, finalmente um demônio desceria novamente em sua casa  — e através de seu próprio ventre. Para restaurar a glória de seu fundador, como poderia ela não se alegrar? Ela acreditava firmemente que apenas um filho nascido demônio poderia ser a salvação da família Lohengrin.

A antiga Marquesa preparou tudo para o nascimento de seu filho demônio. Como parte desses preparativos, ela contou a seu marido, Duque Albert, sobre o ritual de invocação do cisne.

O Duque Albert realizou fielmente o desejo de sua amada esposa, que lhe havia implorado para continuar a linhagem Lohengrin por todos os meios.

Quando Rothbart começou a mostrar sinais da puberdade, o Duque procurou uma maga negra discreta e capaz para realizar o ritual de invocação do cisne.

A escolhida foi a professora de Rose.

O resultado foi a Marquesa ser atraída para este mundo, e ela deu à luz Svanhild, o herdeiro. Depois, ela retornou ao seu mundo original… O objetivo de continuar a linhagem Lohengrin havia sido alcançado, mas esse era apenas o objetivo da antiga Marquesa e do antigo Duque. Rothbart, que não tinha intenção de deixá-la partir, buscou outra maneira de trazê-la de volta.

Mas havia um problema.

Após a “partida” da Marquesa, o Duque também faleceu, e a professora de Rose, que conhecia os segredos da família, foi morta pelo próprio Duque Albert, para impedir que seus conhecimentos pudessem vazar. Assim, o método de invocação de um cisne foi perdido mais uma vez.