O Túmulo do Cisne (NOVEL) - Capítulo 2 (1/8)
Cisne, Anna – Parte 1.
Anna era uma estudante universitária comum na Coreia do Sul.
Então, subitamente, ela caiu em outro mundo. O que a recebeu foi um vilarejo que parecia a Europa antes da industrialização.
Se ela tivesse caído sozinha, teria entrado em pânico, mas por sorte ou azar, seu namorado, Jo Sehyun, havia acompanhado-a nesta estranha transferência dimensional.
Confiando um no outro, eles conseguiram recuperar os sentidos relativamente rápido. Embora não conseguissem ler a escrita deste mundo, eles conseguiam entender a fala, então Anna e Sehyun tentaram desesperadamente se misturar com aquele lugar estranho.
Os jeans e a camisa de Anna, que chamavam a atenção, foram trocados com a esposa de um fazendeiro por um vestido velho, um avental e algumas moedas de cobre. Com essas moedas, eles compraram roupas de trabalho para o Sehyun. Como sua camisa e calças não eram tão diferentes das roupas deste mundo, eles decidiram guardá-las por precaução. Ter pelo menos um conjunto de roupas decente parecia sensato, caso precisassem ter uma aparência apresentável enquanto procuravam trabalho.
Eles vaguearam, procurando qualquer trabalho que pudessem encontrar. Costura, tarefas domésticas, cuidar de cavalos… Felizmente, talvez porque houvesse outros neste mundo do mesmo continente oriental que a sua aparência, as pessoas os tratavam com distância, mas não com rejeição total.
Assim, passou-se algum tempo desde que os dois tinham se instalado na aldeia. À medida que os aldeões gradualmente se habituaram aos estranhos do continente oriental, começaram a partilhar histórias sobre o destino trágico da distante propriedade do senhor.
A casa do Marquês Lohengrin, o senhorio do domínio, havia ajudado o rei fundador a estabelecer o reino há mil anos. Por gerações, eles governaram bem sua terra, mas em algum momento, sob o controle da coroa, a família começou a declinar. Desde o nascimento do atual senhor, Rothbart Lohengrin, infortúnios haviam assolado a casa.
O dia em que Rothbart nasceu foi um dia amaldiçoado, quando as três luas se alinharam como uma só e brilharam em vermelho-sangue. Ele veio ao mundo em uma poça de sangue escarlate após ceifar a vida de sua mãe, a antiga Marquesa Lohengrin.
Há uma lenda que diz que quem nasce sob tais circunstâncias é um ser de mau agouro. As pessoas chamavam esse tipo de criatura de “demônio”. E os aldeões acreditavam firmemente que Rothbart era um demônio, faziam questão de repetir tudo o que sabiam sobre os poderes extraordinários e aterradores que ele manifestava desde a infância.
— Desde o nascimento, ele enfeitiça as pessoas, faz lavagem cerebral nos que o cercam e os controla.
— Se você cruzar com aqueles olhos vermelhos, não consegue mover um músculo. E não são só os humanos, até as feras selvagens mais ferozes encolhem o rabo e fogem.
— Dizem que até os magos negros que espreitam nas sombras o reverenciam. Se o Marquês ordenar, eles abririam o próprio peito para lhe oferecer o coração. Se isso não é um demônio, então o que seria?
Anna e Sehyun achavam que as histórias das pessoas sobre Rothbart eram exageradas. Demônio? Magos negros? Que história era aquela? Mas não havia motivo para arrumar briga e ofender o povo, então apenas assentiram, concordando.
Contudo, era óbvio que Anna e Sehyun não acreditavam realmente em demônios. Os aldeões apenas balançaram a cabeça e acrescentaram:
— Deve ser porque vocês são do continente oriental, não acreditam tão fácil.
Um homem virou a bebida de um só gole e os encarou ao falar. Em seu tom áspero, havia uma convicção vívida, mesclada de medo. Sehyun, que sempre imaginara a palavra “demônio” como um rótulo dado a qualquer coisa assustadora, soltou uma risada desconfortável e perguntou com cuidado:
— E-Então, o que o demônio… fez? Não compreendo bem por que todos estão tão aterrorizados.
— Dizem que os demônios fazem lavagem cerebral nas pessoas. Isso mesmo. Mas aposto que você não acredita em nada disso, não é?
Quando Sehyun sorriu, incerto, o homem ergueu sua barba manchada de bebida e baixou a voz:
— Vou lhes dar um exemplo. É uma história que ouvi da minha avó… Não tem nada a ver com o Marquês. É sobre um demônio que nasceu plebeu. O pai o desprezava, afinal, o demônio nascera depois de matar a própria mãe, mas ele temia ser amaldiçoado se o abandonasse, então o criou mesmo assim. Mais tarde, ele se casou de novo com uma mulher viúva, que tinha um filho.
— O demônio ficou empolgado por ter uma mãe pela primeira vez. Mas a madrasta não. Quando percebeu, tarde demais, que o filho do homem era um demônio, tentou desfazer o casamento. O demônio ficou furioso. Sabem o que ele fez?
Anna perguntou com certa inquietação. Se fosse um romance, ouviria até histórias mais brutais sem piscar, mas relatos tidos como reais, transmitidos de boca em boca, carregavam um desconforto difícil de explicar.
— Se ele a tivesse apenas matado, teria sido um simples caso de parricídio¹. O demônio fez lavagem cerebral no pai para que visse o filho da madrasta como a própria madrasta, e fez lavagem cerebral na madrasta para que visse o próprio demônio como seu verdadeiro filho.
No início, não compreenderam. Mas, assim que perceberam o que aquilo significava, seus rostos se contorceram em repulsa. Ao vê-los, alguns aldeões riram.
— Há incontáveis histórias sobre demônios, mas todas dizem a mesma coisa: “não se envolvam com eles".
Ainda engasgando, Anna controlou a respiração e perguntou:
— Se são seres tão perigosos, por que simplesmente não os matam?
— Como? Com que força? Se você errar e provocar a ira de um demônio, quem sabe o que pode acontecer?
— Quem se arriscaria? Todo mundo finge não saber, dizendo que não tem nada a ver com eles. É igual ao Marquês Lohengrin. Sempre que ele aparece, as feras fogem e a pressão sozinha quase te sufoca, mas, por fora, até parece um bom senhor. Cobra impostos de forma justa… e não anda por aí desonrando todas as moças da aldeia.
O homem que falava parecia, apesar do medo, quase defender o Marquês. Enquanto nada o atingisse pessoalmente, ele preferia deixar tudo como estava.
Nesse momento, um sujeito magro sentado à frente dele balançou a cabeça e tomou outro gole.
— Ainda assim, não consigo afastar a sensação estranha. A mansão do Marquês sempre contrata novos serviçais. Mas ninguém nunca soube para onde vão os antigos, nem por que foram embora.
— Não é só porque falta trabalhador competente? Hans, você mesmo vive reclamando que não encontra jovens decentes para te ajudar. Deve ser igual com os serviçais da mansão. Se não servem, são mandados embora. E quem iria se gabar por aí que foi demitido?
— Vocês acham que é só isso? Nos últimos anos, de vez em quando aparecem cadáveres estranhos pelas redondezas.
— Que tipo de cadáveres? Ouvi histórias de corpos de cisnes sendo encontrados.
O homem barbudo tentou calar o homem magro, Hans, mas Sehyun interveio rapidamente. Hans bufou.
— Cisnes? Não me façam rir. Eram cadáveres humanos. Corpos secos, murchos como se alguém tivesse sugado todo o sangue… Ouvi dizer que existe uma câmara de tortura sob a mansão do Marquês. Talvez seja verdade.
Assim que Hans terminou de falar, um silêncio constrangedor tomou a taverna. Mesmo que todos estivessem muito bêbados, um frio repentino atravessou o ar. Naquele silêncio incômodo, não o homem barbudo e nem Hans, mas outro homem soltou um longo suspiro e continuou:
— Pensando bem… depois que o antigo Marquês morreu, nada de especial aconteceu até o demônio crescer. Os problemas começaram quando ele atingiu a maioridade. Não foi nessa época que a Marquesa apareceu?
— Quinze, talvez? Algo por aí. Lembro claramente porque minha mãe morreu nessa época.
Os homens tropeçavam nas próprias memórias. Enquanto trocavam fragmentos de recordação, pedaços do passado gradualmente se juntaram.
— Ela era uma mulher do continente oriental, como vocês dois. Ninguém sabia de onde ela veio, se caiu do céu ou brotou da terra.
— Dizem que nenhum dos poderes do demônio funcionava nela.
— Isso mesmo. Ela também não tinha medo dele e, às vezes, até levantava a voz e discutia com ele.
— Uma criada que trabalhava naquele lugar disse que uma vez a Marquesa esbofeteou o rosto do demônio de tanta furia.
— Minha nossa. Incrível. A Marquesa não era uma mulher comum. Talvez tenha sido isso que despertou o interesse do Marquês.
— Ouvi dizer que ele a perseguiu incansavelmente por anos.
— Mercadorias caras chegavam sem parar da capital para a mansão, e todas as flores do domínio eram colhidas para decorar seu quarto. No fim, ele finalmente a teve, mas…
— Quem imaginaria que poucos dias depois de dar à luz, a Marquesa morreria da peste que assolou o domínio? Foi no primeiro ano do casamento… Pensando bem, foi um tempo tão curto.
O infortúnio da Casa Lohengrin não terminou aí. Antes que a terra no túmulo da Marquesa secasse, a desgraça atacou novamente. O pai de Rothbart também sucumbiu à peste.
Assim, a família Lohengrin foi reduzida a apenas dois: o demônio Rothbart e seu filho, Svanhild.
— Dizem que o Marquês reviveu uma família em declínio, mas no fim… olhem a má sorte que ainda paira sobre aquela casa! Nunca se deve mexer com demônios.
— O Marquês tentou ter um filho, e o céu o puniu por isso. Foi um julgamento divino.
— Talvez a Marquesa não tenha realmente morrido. Tom, o homem que carregou o caixão dela, disse que parecia tão leve como se estivesse vazio.
— Se a Marquesa não morreu, para onde teria ido? O Marquês jamais a deixaria fugir.
— Agora que falou nisso… existe uma velha história de que, para um demônio ter um filho, sua parceira precisa ser um cisne. Se a Marquesa era um cisne… talvez ela só tenha voado de volta para o céu.
— Um cisne? Que conversa fiada.
— Se demônios nascem nesta era, então cisnes também devem existir.
— Se a Marquesa era um cisne, então esses dois aqui devem ser também.
SUMÁRIO: